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Práxis

Os filósofos limitaram-se sempre a interpretar o mundo de diversas maneiras; porém, o que importa é modificá-lo.

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Os filósofos limitaram-se sempre a interpretar o mundo de diversas maneiras; porém, o que importa é modificá-lo.

Terraplanismo: a religião da Terra plana

21.01.19

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O que é o Terraplanismo?

Há certo tempo vemos uma discussão infundada a respeito da planificação terrestre. Essa teoria, denominada terraplanificação (ou terraplanismo), pressupõe, como o nome indica, que o planeta terra é um disco plano, onde o polo norte fica no centro e a Antártida circula todo o planeta, com um muro de 45 metros de altura, evitando que o oceano se esvaia no espaço sideral. Segundo os defensores desta ideia, os governos principais, com o apoio da Nasa, protegem esta borda e escondem a real forma do planeta no intuito de evitar que pessoas o escalem e saiam para fora do disco.

 

A despeito da tolice que possa parecer o assunto, a crença de que o planeta não é esférico vem ganhando milhares de adeptos todos os meses: 200 pessoas por dia, segundo os membros da STP (Sociedade Terra Plana), a grande maioria delas nos EUA e na Inglaterra. Não à toa vem sendo considerada a maior "teoria da conspiração" de nossos tempos.

 

Os ciclos entre dia e noite são por eles explicados pelo posicionamento do sol e da lua, que têm tamanhos similares (são esferas com 51 km cada). Segundo essa crença, se movem similarmente em círculos de 4.828 Km sobre o plano terrestre, sendo que as demais estrelas estariam a apenas 4.988 km acima daqueles corpos (sol e lua). Como estão ambos em lados opostos, o sol apareceria durante o dia; a lua durante a noite, iluminada pelo sol, ao que parece. Só que, pelo planeta ser plano e lua e sol estarem paralelos, girando em círculos regulares sobre o disco terrestre, como explicar então os eclipses? Simples, ora! É que existe uma "antilua", invisível para nós, mas que cumpriria este papel.

 

Outra conquista científica que os incomoda é a gravidade, inexistente segundo suas concepções. Segundo estes "teóricos", a força gravitacional não nos "empurra para baixo", mas é bem o inverso: o disco da terra é que acelera para cima, a uma velocidade média de 9,8 m/s², movido por uma misterirosa força, denominada energia escura. Inclusive se apropriam de elementos da Teoria da Relatividade, de Einstein, para tentar compreender se a terra avançará para cima gradativamente até alcançar a velocidade da luz.

 

Nesse sentido, nada muito diferente do que faz algumas correntes religiosas, como os Testemunhas do Jeová, por exemplo, que se apropriam de elementos já difundidos pela ciência moderna, desfigurando-os no intuito de reler a bíblia sobre um novo ponto de vista, a partir de novos paradigmas. Não à toa o medo que têm de novas descobertas científicas.

 

Associam (igualmente) à criação do planeta terra o Deus cristão medieval, aquele que abraçava o universo e que o mantinha seguro, com a terra plana no centro do cosmos e com todos os demais "objetos espaciais" a circundá-la. Há correntes inclusive que afirmam categoricamente que a terra está estática no espaço, contradizendo a versão da STP a respeito.

 

Mas até aí temos outra contradição. Nosso planeta, o sol, ou qualquer outro corpo celeste, exerce gravidade por ter uma grande massa disposta em um formato ESFÉRICO. Isso faz com que tudo seja puxado para o mesmo centro de gravidade, o núcleo do círculo. Se a Terra fosse plana, a gravidade poderia até existir, mas sem força suficiente de atração reunida em um mesmo ponto para "puxar as coisas para baixo", tendo, ao invés disso, infinitos pontos de gravidade sem força suficiente para atração em nenhum deles.

 

Não bastassem esses problemas mal resolvidos, os terraplanistas afirmam ainda ter um domo de vidro a circundar este planeta plano. E o melhor: construído por seres extraterrestres! Este seria o responsável por prender a atmosfera no planeta e teria concomitantemente a função de nos impedir a ver a realidade externa a ele. Há gente que afirma, inclusive, que a Austrália não existe e que o planeta marte é uma estrela.

 

Mas se a terra é plana, o que há abaixo dela? Bem, essa resposta não têm para dar, embora creiam que seja composta majoritariamente por pedras. Afirmam igualmente que todas as fotos tiradas do espaço são produtos de editores de imagens e que os aparelhos de GPS são adulterados de fábrica para nos fazer pensar (a nós todos) que estamos voando em linha reta sobre uma esfera, quando a verdade é bem outra: voamos em círculos sobre um disco.

 

Em linhas gerais, são estes os principais argumentos que apoiam a construção deste discurso absurdo, que não é capaz de explicar, por exemplo, porque vemos, ao longe, no horizonte, primeiramente as velas de um barco e não ele por inteiro, já que a terra é plana, ou porque dois corpos com massas diferentes quando lançados a uma mesma altura não tocam juntos ao solo, ou ainda porque não sejamos capazes de ver a estrela polar no hemisfério sul, dentre outros.

 

Como já dito, há vários grupos espalhados pelo mundo - inclusive no Brasil - e, à medida que as contradições sociais vão aumentando em decorrência da falência do capital, vai ganhando força essa teoria da conspiração. E não é fortuito este crescimento! Há hoje uma crise enorme do discurso científico em todo o mundo; a própria ciência se encontra engessada pela ânsia de lucro de capitalismo, que a usa praticamente no intuito de gerar lucro e novas mercadorias. Acresce a estes fatores uma educação burguesa antidialética, praticista, fragmentada, tecnicista e aberta a esses "discursos" criacionistas e não é difícil de compreender o surgimento dessas religiões com estofo de ciência.

 

Há tempos a burguesia é uma classe social reacionária, que reforça tudo quanto é tipo de misticismo como forma também de auxiliá-la a manter seus privilégios. Há tempos o capitalismo se mostra incapaz de resolver as contradições por ele próprio criadas. Os abismos sociais e as convunções por eles geradas são cada vez mais constantes. A massa de pobres e de desesperançados só aumenta. A descrença na humanidade, sempre individualizada, nunca contextualizada, só cresce. A agonia e a perda de direitos vem a reboque dessas contradições... Eis aí um mosaico rico e favorável para os misticismos e para esses discursos idealistas vulgares, que buscam sempre as respostas na vontade divina, na razão universal, na ideia absoluta ou em alguma outra forma de abstração que se distancie da realidade concreta.

 

 

Por que é perigosa a crença da Terra plana?

 

Costumamos rir, zombá-los, ignorá-los. Mas o fato é que vêm ganhando mais e mais espaço essas ideias estapafúrdias. E perigosas. Muito perigosas. Não à toa sua defesa por parte de praticamente todos os ideólogos da extrema-direita contemporânea, ao redor do mundo.

 

É que o terraplanismo é uma ideologia (falsa consciência) que visa a se juntar a outras existentes (como o racismo, a homofobia, a xenofobia, a xenofilia...) e que pretende agregar a elas outras já superadas e a reforçar estas já existentes. Em seu bojo vem também a animalização dos povos não caucasianos, a teocratização do estado, a destruição de direitos, a injunção de valores reacionários. Em suma, pode até parecer loucura, mas é uma loucura pensada.

 

Ora, o terraplanismo não é uma invenção contemporânea. Tampouco é uma criação que nasceu acabada, madura. Surgiu há uma boa dezena de séculos e teve seu auge (no Ocidente), na Europa medieval. À época, à esta teoria (que nada mais é que um conjunto de ideias amarradas) agregavam-se valores já superados há muito pela ciência contemporânea.

 

Dai a coerência em afirmar que esse pessoal quer trazer de volta o "obscurantismo" da idade média, reintroduzindo não somente a Terra no centro do cosmos, mas elegendo concomitantemente as bruxas do nosso tempo para queimá-las em praça pública, provavelmente em Brasília, na versão tupiniquim. E é difícil de se imaginar quem seriam essas bruxas em épocas de grandes choques entre as classes sociais?

 

Não à toa atacam veementemente Newton e - acreditem - Einstein. Aliás, atacam a ciência em seu conjunto: atacam inclusive intelectuais que não são do meio. Mas de fato, o mais agraciado com suas besteiras é, sem dúvida, o socialista Albert Einstein. E tudo isso graças a uma das teorias mais revolucionárias de todos os tempos: a Teoria da Relatividade. Ou seja, se por um lado se apropriam de um elemento específico da complexa Teoria da Relatividade intuindo compreender a alienação forçada de suas ideias, por outro a negam em seu conjunto.

 

E articulam tais críticas não à toa, pois ela ajuda a provar a esfericidade dos corpos celestes, dentre outras perturbações que causa. Afirmam que não funciona, por exemplo, por não provar, segundo "informa" o próprio curandeiro Olavo de Carvalho, a constância da velocidade da luz no espaço. Balela! É justamente o contrário; vem sendo testada em limites que nem o próprio Einstein tinha pensado e está sendo comprovada experimentalmente há 100 anos. Inclusive, cientistas pensaram em modelos alternativos, mas a "simplicidade e beleza de suas equações" mostra que a relatividade se destaca como o melhor caminho, segundo a navalha de Occan - princípio lógico que defende que qualquer fenômeno deve assumir o menor número possível de premissas. Todos os cientistas que buscaram um modelo alternativo, falharam, enquanto a Relatividade continua sendo a mais utilizada e aplicada.

 

A relatividade explica vários fenômenos da maneira mais simples possível e de forma encadeada. A detecção de ondas gravitacionais, por exemplo, é um dentre tantos fatos que corrobora com a teoria de Einstein. Se fosse uma teoria inconsistente, esses subprodutos não seriam verificados. Subprodutos que ele nem tinha pensado estão sendo descobertos...

 

Mas a Teoria da Relatividade não é apenas uma simples teoria; é um conjunto de postulados teóricos que inicia com a publicação, ainda em 1905, da "Relatividade Especial", que substitui os conceitos independentes de espaço e tempo da Teoria de Newton pela ideia de espaço-tempo como uma entidade geométrica unificada. O espaço-tempo na relatividade especial consiste de uma variedade diferenciável de 4 dimensões, três espaciais e uma temporal (a quarta dimensão), munida de uma métrica pseudo-riemanniana, o que permite que noções de geometria possam ser utilizadas. É nessa teoria, também, que surge a ideia de velocidade da luz invariante.

 

O termo especial é usado porque ela é um caso particular do princípio da relatividade em que efeitos da gravidade são ignorados. Dez anos após a publicação da teoria especial, Einstein publicou a Teoria Geral da Relatividade, que é a versão mais ampla da teoria, em que os efeitos da gravitação são integrados, surgindo a noção de espaço-tempo curvo.

 

E não foi somente isso que publicou e que vem sendo comprovado na prática pelos astrônomos. Mas, como vem sendo ela a principal algoz destes doentes, porque não citá-la como forma também de combater a estes imbecis reacionários que pretendem incutir um conjunto de valores negados há muito pela filosofia e pela ciência? Eis aí uma sugestão...

 

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