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Práxis

Os filósofos limitaram-se sempre a interpretar o mundo de diversas maneiras; porém, o que importa é modificá-lo.

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Os filósofos limitaram-se sempre a interpretar o mundo de diversas maneiras; porém, o que importa é modificá-lo.

Réveillon? Tá louco!

01.01.26

Réveillon.jpg

Por Dario Souza da Silva, colaborador e Amigo.

 
Ano novo, ano novo. Mais um ano novo...
 
Talvez seja a conta da idade chegando, ou a loucura da correria cotidiana em busca do pão de cada dia, ou as notícias catastróficas que parecem se intensificar nesse período, mas esse negócio de ano novo já está batido! Ao menos pra mim.
 
Depois que a virada do ano se tornou Gourmet e passou a ser chamada de réveillon, parece que tudo se tornou artificial. A obrigação de parecer estar feliz, principalmente no que é divulgado nas redes sociais; a obrigação de viajar para algum lugar acima de suas possibilidades, apenas para estar na crista da onda na hora da virada; a quantidade exagerada de explosões de fogos de artifícios, que geram uma paisagem auditiva que lembra um cenário de guerra; as cores das roupas escolhidas de acordo com os objetivos desejados para o ano seguinte, numa tentativa insana de hackear o sistema através de mandingas; a obrigação de todos criarem uma lista de coisas a melhorar ou conquistar no ano seguinte. É quase que uma regra nessas listas: "emagrecer" e "Evoluir como pessoa", porém no réveillon todos devem beber e comer como se não existisse amanhã, para, a partir do dia seguinte, pelos próximos poucos dias, colocar em prática a lista. Nessa época do ano é comum que se arranjem dívidas que perdurarão por todo o ano seguinte.

A impressão que me causa é que no réveillon todo mundo entra numa espécie de transe coletivo e se esquece de que no dia seguinte "é preto na folhinha". Exatamente igual a todo o restante do ano. Nada do que se tenha feito na virada do ano vai mudar essa realidade. A única forma de mudar é olhando as coisas de forma filosófica, tentando entender os porquês das coisas e promover mudanças internas, reformulando suas perspectivas e evoluindo como pessoa, não por uma imposição cultural/mercadológica, mas como uma necessidade de entender melhor o mundo e a si próprio. Somos uma geração que, em média, passa mais tempo trabalhando que os camponeses da Idade Média. Passaremos o ano trabalhando! E pior, a menos que nos aposentemos por invalidez, ganhemos na loteria ou morramos, passaremos a vida trabalhando.

Você pode estar pensando: "essa é uma das poucas épocas do ano que o trabalhador tem algum tipo de liberdade". Dai eu lhe pergunto: mas e aqueles trabalhadores que mantém a festa Gourmet funcionando: músicos, seguranças, montadores, cozinheiros, garçons, garis, entre outros... Será que todos os trabalhadores têm essa liberdade? Não! E o pessoal da área da saúde, enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem, médicos, os trabalhadores de hospitais em geral, que durante essa época trabalham em clínicas movimentadas e estressantes? E o pessoal dos serviços essenciais: transporte, limpeza pública, segurança, fiscalizações, trabalhadores do ramo hoteleiro e de restaurantes, como é que ficam? Você deve estar ponderando: "mas eles não são a maioria". Realmente, não são. Mas ainda assim são uma massa imensa de trabalhadores.

A verdade é que tudo se resume a quem trabalha e quem explora o trabalho e o consumo. A lógica capitalista nos sequestrou até o significado lúdico das coisas. Seja Natal, Virada do ano, Páscoa e por ai vai. Tudo tem que ser um evento espetacularizado, instagramável e que gere engajamento nas redes, mas invariavelmente esvaziado de sentido. Aquela "virada raiz", com os amigos e familiares, comida boa e com aquela festa a la anos 80/90, sem pompas, na qual a preocupação das pessoas era estarem juntas e se divertirem, em casa mesmo, se tornou raríssima.

A única forma de subverter essa lógica é através de uma revolução. E toda revolução inicia pequena, inicia dentro de alguém, um "louco", que "do nada" - aos olhos dos "não loucos" - resolve agir diferente da massa. Daí um outro "doido" se inspira nesse "louco" e "enlouquece" também. E assim o fermento da mudança começa a crescer.

Feliz 2026 a você que está enlouquecendo.
 

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