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Práxis

Os filósofos limitaram-se sempre a interpretar o mundo de diversas maneiras; porém, o que importa é modificá-lo.

Práxis

Os filósofos limitaram-se sempre a interpretar o mundo de diversas maneiras; porém, o que importa é modificá-lo.

Por que ler literatura?

22.06.20

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Este é um post diferente. Aqueles(as) que me acompanham estão habituados(as) a ler textos de fundo teórico ou então versos esparsos, oriundos de uma necessidade quase orgânica de me espressar pela poesia - se exerço bem ou mal este exercício, que me julgue quem o quiser. Ou ainda análises mais "científicas" (com aspas bem grandes, produção) sobre obras literárias de meu interesse. Porém, desta vez, resolvi abordar algo diferente neste escrito: porque considero necessária a leitura de uma obra literária, sendo ela clássica ou não.

Primeiramente, é bom ressaltar que não sou desses que idolatram a leitura como ferramenta de libertação pura e simples. Em outras palavras, não sou desses que palavreia que a leitura, seja ela qual for, é estimulante ou mesmo importante para o desenvolvimento intelectual, espiritual ou psicológico de uma pessoa, que lhe capacita para entender melhor a esculhambação de mundo em que vivemos. Não! Deliberadamente, não! E antes que me acusem de heresia e me joguem na fogueira - sim, vivemos tempos difíceis, porém interessantes - friso, com todas as letras, que refiro-me ao ato de ler puro e simples, completamente inócuo se não for seletivo.

Isso porque, sob minha modesta perspectiva, a leitura só desempenha um papel importante em um indivíduo se for capaz de fazê-lo(a) refletir sobre a realidade em que está inserido(a). E, se a partir dessa reflexão, ele(a) tornar-se de fato um(a) sujeito(a) diferente e questionador(a) do mundo, de seu funcionamento e de seus valores, quanto melhor. A leitura aí atingiu sua função última.

Deixemos de lado também, nessa breve exposição despretensiosa, os benefícios já supostamente comprovados pela ciência a respeito da leitura irrestrita, tida aí de maneira geral, como o aumento do vernáculo e, com ele, a capacidade de melhor se expressar; ou a diminuição do estresse; ou ainda a melhora da memória..., mesmo porque muitas dessas qualidades não são garantidas pelo ato da leitura. Ou alguém crê, por exemplo, que Mein Kampf, de Adolf Hitler, acalma o estresse ou melhora substancialmente o vernáculo de um(a) leitor(a)? Penso que não será difícil encontrar uma resposta sã para esta questão, mesmo para aqueles que não tenham tido o contato com a obra.

Também é fato que não pretendo um tratado político ou teórico, tampouco uma leitura conjuntural sobre a situação política nacional e/ou internacional seguindo os pressupostos teóricos elencados pelo título e descrição deste blog (retirados da tese 11 de Karl Marx a Ludwig Feuerbach). Mesmo que a doutrina marxista seja um resumo da experiência iluminado por uma profunda concepção filosófica do mundo e por um rico conhecimento da história, não é disso que brevemente falaremos. Talvez seja bem o contrário, para dizer a verdade.

Abordaremos então o que? Como já deixamos pistas, sobre a leitura. Mais especificamente sobre a leitura de textos literários, não importando aqui em se explicar o que é literatura stricto sensu, já que tratamos em outro texto deste assunto (ver aqui). A ideia aqui é relatar experiências - conceito muito em voga ultimamente - e concepções a partir da experiência pura e simples do ato da leitura desse tipo de texto, sendo realmente aberto e amplo o alcance do seu conceito.

José Eduardo Agualusa, escritor angolano, certa feita em uma entrevista aqui no Brasil, relatou uma viagem que fizera a bordo de uma embarcação pelo rio Amazonas. Questionado pelo entrevistador se daquela viagem extraíra algum caractere para a construção de personagem(ns) para uma de suas belas narrativas, foi categórico ao afirmar que não, pois não havia, dentre as pessoas que conhecera ou tivera contato, qualquer uma ruim demais para ser uma personagem literária forte, importante.

Visão interessante a do escritor, certamente não compartilhada por todos(as), inclusive por mim, mas que já demonstra o aspecto social encravado nas grandes obras literárias. Sim, a grande literatura trata de aspectos reais. E mais, desvenda-nos aspectos "escondidos" que, a partir da sensibilidade de observação do(a) autor(a), não conseguimos vislumbrar imediatamente. Esses elementos "recônditos" de nosso cotidiano social são retrabalhados pelo(a) autor(a) à sua maneira e por mais diversos meios estéticos. Ou seja, um(a) artista não nasce grande; se torna grande. E, mesmo que o tempo em que viva o(a) despreze, a história o(a) reposicionará - cedo ou tarde - na prateleira em que merece.

Pablo Picasso dizia ser a arte a mentira que nos permite conhecer a verdade; Liev Bronstein, o grande revolucionário russo, viu na arte um martelo que modela a realidade; para o bolchevique, a arte não devia espelhar o mundo a sua volta, mas recriá-lo a partir de suas leis internas, de seu movimento autônomo e intimamente (inter)ligado ao mundo a sua volta. Johann Gottfried Herder, intelectual do romantismo alemão, em 1769 cunhou o conceito Zeitgeist, que, em suma, é o conjunto do clima intelectual e cultural do mundo, numa certa época, ou as características genéricas de um determinado período de tempo. Ou, como se costuma dizer, o espírito de um tempo, aquilo que já se apresenta como tendência muitas vezes, mas que ainda não é predominante na sociedade.

Em suma, tudo aquilo que vimos como normal, como natural, como imutável, é recriado pela literatura sob diversas perspectivas, a saber, a própria realidade, não somente questionada, mas ressignificada, reorganizada. Muitas vezes desvendada, despida de seus elementos internos, e nem sempre ainda dominantes, mas já relativamente presentes e bem ativos. Pela literatura – e pela arte de maneira geral – são o mundo e seus valores redescobertos, recriados, ressignificados. Desnudar a realidade imposta desse véu de alienação é também sua função e talvez uma de suas tarefas mais importantes.

Daí a perspicácia do(a) grande artista: não cabe a ele(a) simplesmente descrever o que vê, mas reorganizar, a partir do caos, a ordem. E desse processo de ressignificação da realidade, ela (a arte) nos humaniza. Ou, mais claramente, nos torna sujeitos melhores, justamente por nos tornar sujeitos diferentes, mais perspicazes, argutos, questionadores e, principalmente, mais sensíveis. Por nos mostrar a realidade sob uma ótica distinta daquela do status quo, nos "fotografar" a vulgaridade do mundo, nos torna mais sensíveis, faz-nos, como afirma Antonio Candido, mais dispostos para com o próximo.

A literatura, então, não corrompe e nem edifica, mas humaniza ao trazer livremente em si o que denominamos de bem e de mal. E humaniza porque nos fazer vivenciar diferentes realidades e situações. Ela atua em nós como uma espécie de conhecimento porque resulta de um aprendizado, como se fosse uma espécie de instrução. Deriva daí o medo que autoritários têm da arte; dai o recorrente ataque a artistas protagonizados por radicais.

Em um belo artigo intitulado Direitos Humanos e Literatura, o crítico brasileiro Antonio Candido qualifica a Literatura como um direito básico e fundamental de um ser humano, já que é por meio dele que a literatura se manifesta, tendo a capacidade, como já descrito, de humanizá-lo. Para o crítico - que qualifica acertadamente como literatura toda a narrativa que tem toque poético, ficcional ou dramático nos mais distintos níveis de uma sociedade, em todas as culturas, desde o folclore, a lenda, as anedotas e até as formas complexas de produção escrita das grandes civilizações -, a literatura tem um papel formador, na medida em que "Os valores que a sociedade preconiza, ou os que considera prejudicais, estão presentes nas diversas manifestações da ficção, da poesia e da ação dramática. A literatura confirma e nega, propõe e denuncia, apoia e combate, fornecendo a possibilidade de vivermos dialeticamente os problemas". (CANDIDO, 1989)

E sob esta perspectiva, como já explanou o crítico, literatura não seria apenas aquela canonizada pelas academias, mas toda a forma de narrativa (popular ou erudita) capaz de harmonizar estes elementos. Em suma, tiramos daí outra lição: literatura não necessariamente precisa ser bela, ao menos não no sentido empregado por Platão. Wisława Szymborska, poetisa polaca nobel de literatura, extrai das ruas sua poesia; João Cabral de Melo Neto extraiu da vida dura do sertanejo do nordeste brasileiro os seus versos "ásperos" e belos. Cora Coralina do sertão goiano cantou as lavadeiras, as doceiras, as escravas, prostitutas... Quem melhor que Machado de Assis e Lima Barreto para te explicarem o Brasil? Como não compreender a sociedade portuguesa com Eça de Queirós? Poucos são capazes como Shakespeare ou Cervantes de nos mostrar nossas fraquezas e/ou qualidades. Sim, a literatura é complexa. E mais completa que os almanaques e livros de história.

Mas não somente! A literatura - e com ela a arte - está nas ruas, nos versos de algumas composições de rap, do funk, do samba e dos versos dos poetas anônimos do sertão do Nordeste brasileiro, está nos grafites. A poesia está também na boca do povo simples, do operário, do bravateiro. Está na boemia; nas aspirações dos sonhadores que contestam e que lutam por mudanças. Está nos inconformados, naqueles que detestam as injustiças e que, por maneiras tortas ou retilíneas, lutam para acabar com elas. A poesia está em quase todos os lugares, menos nos lares dos conformados, dos autoritários, dos burocratas, dos corruptores e corruptos e naqueles insensíveis, incapazes que são de se tornarem mais dispostos para com o próximo. Basta sabermos tirá-la dos escombros que se encontram e identificar o mundo que querem nos mostrar.

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