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Práxis

Os filósofos limitaram-se sempre a interpretar o mundo de diversas maneiras; porém, o que importa é modificá-lo.

Práxis

Os filósofos limitaram-se sempre a interpretar o mundo de diversas maneiras; porém, o que importa é modificá-lo.

Os Amores de Cristo

15.07.19

"A Crucificação de Cristo", de Albrecht Dürer



Porque para mim o viver é Cristo e o morrer é tudo.

Epístola de São Paulo aos Filipenses (1, 21)



Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus; bem-aventurados os mansos, porque eles possuirão a terra; bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados; bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão a misericórdia; bem-aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus; bem-aventurados os que padecem perseguição por amor da justiça, porque deles é o reino dos céus.

Evangelho Segundo Mateus (5, 3-10)



Segunda-feira



Duas e meia da manhã. Por essas horas, uma constante e fina chuva descamba do céu, deixando envolta numa baça cortina de névoa a paisagem, que de tão consumida que está por uma atmosfera fria e obumbrante, mal se desvenda, a uma distância de braça, aos olhos humanos. É praticamente impossibilitada qualquer tentativa de se furar tal coluna, de tal maneira constante e bem amarrada ao solo e ao ar, que sufoca e angustia as mais agudas vistas a aproximadamente um metro e meio de distância. É quase impossível de se avistar os próprios pés.

O ar gelado e úmido por si só já bastaria para fazer tiritar de frio qualquer corpo vivo que fosse. Nem gatos nem cachorros se vê nas ruas. Ratos, alguns quem sabe, obstante a vastidão e força (avassaladoras?) do nevoeiro, podem ser avistados numa madrugada como esta; somente os ratos, mesmo assim porque o estômago é maior que o medo — é a maior das necessidades fisio-físico-psicológicas, a fome — poderiam se aventurar a sair de suas tocas ou bocas, certamente mais quentes e aconchegantes que o gélido tempo que faz fora, à caça de alimentos. Tudo são sombras, tudo são máculas e talvez mesmo por isso, e nem tanto pelo frio, não se veja gatos nem cachorros pelas ruas. Talvez somente por isso, pois como é sabido, tais animais de bruxas e demônios não temem, nem mesmo em noites de lua cheia. Ausentam-se profanos bichanos das trevas incólumes da madrugada.

Passos, arrastados e compassados, ecoam bravamente na noite escura. É como se tambores surdos ribombassem pálidos e perdidos no vácuo. Venta fraco, um frio gelado, como já foi dito, mas o suficiente para arrolar de um lado para outro folhas secas e amareladas de cinamomo. Neste exato momento um vasto portão, suspenso por duas grandes e fortes trincas de ferro presas a um arco com os garrafais dizeres CEMITÉRIO SÃO FRANCISCO DE ASSIS, quase sempre inerte como a morte, range, quebrando toda bonomia do local. Ainda na rua, trazido pelo vento, um cheiro de carne podre misturado com a terra preta da eternidade parece não o impressionar muito quando decide assomar, com um pequeno jogo de corpo para evitar tocar no portão, a “abóbada do hall divino”.

É alto e robusto o homem que aí se encontra. Com uma capa de chuva muito semelhante a uma de gabardina, uma pá em uma de suas mãos e na outra uma mala, e calçando sapatos lustrosos demais para a ocasião, caminha pachorrentamente como se fossem, seus passos, tão eternos e sábios quanto à morte. Da aparência taciturna pouco esconde, de maneira tal que, ao analisá-lo uma primeira e única vez, todos que o conhecem já dizem “Aí vai o Mateus, o irmão do coveiro Jeremias maluco, aquele doido que repudia o irmão por viver enfurnado em uma igreja pagando por seus pecados”. Bem, por isso mesmo afirmo com convicção ser Mateus este homem que pelo cemitério a essas horas perambula. O mesmo Mateus, irmão de Jeremias, coveiro de ofício e gosto, ambos naturais de Florianópolis.

Está subindo a primeira rampa — a esta altura muito escorregadia pela umidade concentrada nos limos — quando estaca para, com o indicador direito, ajeitar os óculos sobre o nariz. Dentro do cemitério toda a parca luminosidade oriunda das lâmpadas acesas dos postes inexiste, o que a priori deixa o trajeto muito mais difícil e enfadoso. Tão tenebrosa é a sensação de ficar às escuras num cemitério, numa madrugada como esta, que Mateus se ajoelha apoiando levemente sobre os pés sua bunda, intuindo alcançar, dentro daquela sua mala, uma lanterna e um par de pilhas. Foi a primeira vez, desde a sua presença, que se pôde observar sem conhecer o que continha dentro daquela maleta. Alguns miúdos pedaços de metal, juntamente com um outro de maior espessura e comprimento, espalham-se desordenadamente dentro do cubículo. De volta à história, preenche a lanterna com as referidas pilhas, junta sua mala, a pá e, já de pé, caminha calmamente.

De leve parece que a chuva vai engrossando. A essas horas não são mais aqueles chuviscos intermináveis que parecem desintegrar-se com o vento antes de chegarem ao chão, mas uma chuva mais constante e presente, com iminência de trovoadas e futuros relâmpagos. Desorganizado e confuso, parece estar perdido o nosso amigo. Não é a primeira vez que isto ocorre, em outras poucas ocasiões já se vira perdido por entre os caminhos do parque sepulcral, por isso não se lamenta. Para, solícito de si e com um pequeno gingar de quadris, se dirige para uma estreita escadaria, pegando em seguida a direita. Pachorrentamente caminha, olhando, sempre muito atencioso, em direção às lápides. É como se estivesse procurando algo ainda não experimentado por ele, uma outra sensação post mortem quem sabe, esta não totalmente sua, pois para completá-la ao êxtase há algo que os dizeres do epitáfio parecem esconder. O que procura ainda é mistério, todavia a sua impertinência o carrega cada vez mais para os recantos mais recônditos e escuros do cemitério.

A alguns poucos minutos de procura (uns vinte e cinco ou trinta, no máximo) para. Parece atônito com o que vê; seus olhos pretos estagnados, suas pupilas dilatadas devido à penumbra reinante e às suas sobrancelhas franzidas deflagram-no demasiadamente extasiado. Neste momento, seu olhar está comprometido com o que vê. Como já foi narrado, não é a primeira vez que este professor universitário, esta é a sua profissão, cumpre seu pertinente ofício de vasculha por entre os restos sagrados e imundos dos que já se foram. Não, definitivamente não é esta a sua primeira vez, porém nunca um nome fincado cuidadosamente numa polida pedra de mármore o fizera agir deste jeito convulsivo, uma convulsão singela e imperceptível é certo, porém tenaz e asfixiante para um coração já comprometido.

Coça levemente a nuca em atitude pensativa. A chuva engrossa de vez e os relâmpagos já começam a aparecer tímidos no horizonte. É também neste exato momento que abre sua mala e retira dela um ferro de aproximadamente meio metro de comprimento muito semelhante a um pé-de-cabra, olhando-se assim de longe. Mesmo com os relâmpagos já então tinindo no céu (não os teme), posiciona cautelosamente o instrumento em suas mãos molhadas, apoiando-o e manejando-o a golpes violentos entre a tampa do túmulo e o referido, levando apenas pouquíssimos minutos para rompê-la e retirá-la, ajustando-a deitada ao seu lado. Olha atentamente para o caixão. Seu rosto amarelo, empapado com a congelante chuva que brota do céu e lhe escorre pelos finos cabelos, está inclinado como a certificar-se de que o túmulo não se encontra vazio; e suas mãos, se antes pouco compulsivas se encontravam, agora tremem deveras por estarem a poucos metros do caixão, artefato até então de cobiça e ao mesmo tempo repulsa.

Agacha-se, inclinando e ficando a meio corpo dentro do túmulo. Com muita dificuldade, pois parece sentir a força esvair-se, retira, após algum esforço e muitos frêmitos de agonia, a tampa do caixão, jogando-a bruscamente de lado. Não se sabe exatamente o que busca com este horrendo ato, todavia, a atitude fantasmagórica de mexer com coisa de outro mundo, realmente assusta. Estica-se e, com uma leve inclinadinha de corpo para trás, acaricia com as calosas pontas dos dedos da mão esquerda as costas. Novamente agacha-se, porém desta vez retira do túmulo um corpo. Pelo formato parece ser feminino; um corpo morto e amarelo, mais frio que a chuva que cai e que o vento que sopra; um inchado corpo estéril, sem vida e sem mácula. Carinhosamente o põe deitado sobre a tampa.

Deitado, ereto e duro à sua frente, acaricia-o sofregamente. É bem um corpo de três dias, sabe, todavia, sua ânsia é tanta que mal consegue se controlar. Um calor inesperado começa a se abater pelo seu corpo, corroendo-lhe os sentidos (ou o que deles restavam) e aumentando sua gana. Tenta se controlar, porém não consegue. Vira de um lado para outro, põe as mãos sobre as têmporas, se contorce e recontorce... Seus pensamentos, se nesse momento algum existiu, foram imperceptíveis pela expressão facial, uma expressão de horror e gozo ao mesmo tempo. A chuva ainda não cessara, muito pelo contrário, continua completamente a mesma, com intervalos ininterruptos de água e trovões em iminência. Enfim, faz o que tem que ser feito. Suas sementes não encontrarão a terra fértil para germinar e agonizarão por algumas horas ou dias até se extinguirem, comidas pelos gérmens, ou putrificadas com o corpo carcomido pelo tempo.

Neste momento está com as mãos pendidas sobre a cabeça da mulher que, tal qual “A Morta”, parece olhá-lo. É aterradora sua visão; ela morta, meio-morta, com os olhos semiabertos a repudiá-lo, a caçoá-lo como se dele tivesse tirado proveito, como se fosse ele seu troféu, como se fosse ela a vencedora e ele o perdedor, já que sempre a quis e nunca a teve. Por um momento sente inveja dela, do seu poderio de mulher absoluta que sempre exerceu sobre os outros. Estagnado permanece alguns segundos. Está completamente absolvido pela figura que só falta lhe falar e novamente uma pitada de inveja absorve-se nele. São exatamente três e quinze da madrugada, uma noite chuvosa, da primeira segunda-feira do mês de abril do ano de 1991.





Terça-feira



Agora, que afastem de mim a sua prostituição e os ídolos sem vida de seus reis, e eu viverei entre eles para sempre.

Ezequiel (43, 9)



Por cima da escrivaninha do quarto espalham-se papéis e cartas avulsos. Apoiando uma caneta na mão direita, um homem trigueiro, mais pela adaptação ao clima do que pela sua genealogia própria, rabisca pachorrentamente dizeres não ditos, legíveis somente para si. No lixeiro, ao pé da mesa, de seu lado esquerdo, junto ao pé, uma folha dobrada ao meio e levemente extraviada, conserva o dizer: “REQUERIMENTO”. A essas horas seus olhos pesam e passam quase despercebidos pelas folhas de papel a sua frente, não suportando ele mais o peso de sua cabeça que começa a pender e a sacolejar, em medianos espaços, feito um pêndulo, em pesados movimentos para frente e para trás.

No céu, as trevas aos poucos vão dando lugar à aurora, que já se desvenda tímida por trás das serranias, forçando-o a fechar a janela e as cortinas de seu quarto. Com uma incandescente lâmpada acesa e uma xícara de café ao seu lado, se esforça para escrever. O que escreve não se sabe absolutamente, imagina-se apenas que deva ser um reles documento ou uma simples carta, já que a expressão de sua face não lhe garante melhor objeção. Contudo, seus dedos, neste momento crispados sobre a caneta, parecem não mais obedecer sua mão, cansada e vermelha, com as veias a saltitarem de cansaço. Não várias vezes, nem invariavelmente, lhe cai da mão — a direita, já que a outra está imobilizada sobre a escrivaninha — a caneta. Desiste; seu corpo abnegara-se por completo de tão árdua tarefa. Empurra com dificuldade a cadeira para trás, prostra-se de pé e, sem mesmo tirar as roupas, descamba bruscamente sobre a cama, onde irá somente seis horas mais tarde despertar, simples motivo para forcejar quem me lê a indagar-se “E daí..., acabou, é só isso?”, o que me forçaria a responder com um sorriso irônico guardado nos lábios “O melhor vem por aí”, pois o que aqui me prende é o ato a priori e não a posteriori o entorpecer do corpo e o sono pesado.

Dez da noite. Uma massa cinzenta e corpulenta se arrasta vagarosamente pelo céu avisando chuva. De dentro de sua casa, luminosa e alta, o computador ligado em seu quarto, com algumas fotografias eróticas pendidas sobre a estante da sala, ressoa o ruído estridente e perturbador do telefone. Confere o relógio e dá uma risadinha safada ao ver a pontualidade da ligação que morre em apenas duas chamadas, quando este retira e põe, de um safanão, do gancho, o aparelho. Já de banho tomado — tarefa que cumpre numa faina diária sempre por volta das sete — dirige-se ao banheiro e apanha um pente, correndo em seguida para o quarto, onde coloca-se defronte ao espelho e penteia os fartos cabelos grisalhos, coça sua barba longa e hirsuta e, num muxoxo, — sons expelidos de sua garganta, como o alimento regurgitado de um cachorro que lhe servirá novamente de alimento — diz algo como “Hoje estás bonito”. Nem bombásticos, nem coisa nenhuma são seus pensamentos. Ou melhor, fica-me impossível aqui adivinhá-los e escrevinhá-los, já que a mim compete apenas fazer especulações, ficando como verdade única, e mesmo assim contestável, a veracidade dos fatos aqui narrados, mesmo porque escrever bem não é descrever, mas narrar, esconder e sugerir.

Pois bem, volta-se ao que aqui interessa... Sai do quarto e dirige-se ao sofá da sala. Por volta das onze e meia aparecerão por aí, basta perceber os dois toques do telefone. Com aspecto sereno, cruza as pernas, apoia o cotovelo direito na coxa esquerda, apoiada na direita, e deixa cair a face sob o mesmo braço em atitude pensativa. Por ilusórios momentos parece estar a acariciar, de leve, sua genitália, enquanto seus olhos verdes, sempre bem esbugalhados, retorcem-se timidamente, corando-lhe, não sei se de vergonha, a alva face. Nesta mesma posição permanece por alguns minutos, até que ouve, em frente à sua casa, ruídos estéricos e apressados de buzina. Corre à janela e, com uma leve puxadinha para o lado, esgaça timidamente a veneziana, olhando atentamente para a rua. Alarme falso. Parece sentir algo estranho. Apanha o telefone, disca alguns números e, (Trim... Trim... Trim... Trim... Trim...) impaciente, desliga. Sua expressão agora é outra, seu olhar parece mais sereno, sua testa menos rugosa e suas mãos, lisas como as de uma moça, esfregam-se acompanhadas por um sorriso.

Senta novamente. Impaciente, contorce-se, alternando várias vezes de posição, pelo sofá. Uma vez deitado, outra sentado, outra de barriga para baixo, apoiado pelos cotovelos, outra ainda de lado. Nada. Enfada-se de vez ao deparar-se com o relógio que marca dez e quarenta e dois, exatamente isto, nem mais nem menos. Relaxa. Deitado sobre o sofá, de um verde musgo esmaecido, fecha os olhos intuindo “dormir”. Pela testa, esfrega suavemente a ponta dos dedos sem unhas, como se com enxaqueca estivesse, coisa que faz muito não tem, desde que mudara-se para esta casa grande, escondida e camuflada por frondosas árvores no alto de uma colina. O corpo de todo esmorece-se; a farta cabeleira, agora solta, escorrega, tapando a orelha, e a barriga gorda e flácida lhe cai pelos lados, dando a impressão de forçar-lhe e sufocar-lhe contra o sofá já acostumado com seu peso. É outro homem aí deitado. Não parece mais aquele grosseirão de hábitos rudimentares, cujo as mulheres esforçam-se para manter distância, mas sim um trapalhão bunda-mole, inofensivo e incapaz.

É mesmo incrível vê-lo desta maneira, moleirão, esparramado pelo sofá, com os olhos serrados e a boca aberta ainda sem baba, exalando de seu âmago um cheiro entorpecente de coisa ruim. Certamente não dorme ainda, todavia, e contrariando a lógica, imaginemos que dorme... Mais que isso, que esteja delirando, coisa que não costuma acontecer a ele, a não ser raras vezes quando pensa em sexo. Porém, deixemos estes empecilhos de lado, atendo-nos porventura num possível delírio de fechar de olhos. (......... ......... ......... ......... ......... ......... ......... ......... ......... ......... ......... ......... ......... ......... ......... ......... ......... ......... ......... ......... ......... ......... ......... ......... ......... ......... ......... ......... ......... ......... ......... ......... ......... ......... ......... ......... ......... ......... ......... ......... ......... ......... ......... ......... ......... ......... ......... ......... ......... ......... ......... ......... ......... ......... ......... ......... ......... ......... ......... ......... ......... ......... ......... ......... ......... ......... ......... ......... ......... ......... ......... ......... ......... ......... ......... ......... ......... ......... ......... ......... ......... ......... ......... ......... ......... ......... ......... .................. ......... ......... ......... ......... ......... ......... ......... ......... ......... ......... ......... ......... ......... .................. ......... ......... ......... ......... .)

Um ruído de buzina ressoa na rua. Abre os olhos, enxuga com a barra da camisa a testa levemente úmida, e dirige-se à janela. “Finalmente”, diz num tom baixo com sua voz rouca, enquanto acaricia com as pontas dos dedos o vasto e grosso bigode. Barulhos simultâneos de porta fechando. Do carro sai um homem acompanhado por uma jovem, baixa, com os cabelos pelas espáduas e com a tez juvenil conservada ainda no viço interino da infância. Pega em sua mão. Pouco tempo depois a campainha da casa toca. Abre, de relance, logo em seguida, a porta. Um homem alto e robusto, com um rosto jovem, o inverso por completo do homem qual venho narrando, assoma à porta, acompanhado por uma menina de aproximadamente doze anos, e, com voz grave, os dentes bem lustrosos, num tom alto e pomposo, diz: “Pronto, aqui lha deixo. Passo para pegá-la daqui duas horas. Faça bom proveito”. Retira-se o misterioso homem, enquanto este, a lamber beiços, fecha apressadamente a porta de sua casa. Seu nome é Marcos, deputado estadual, e o dia uma terça-feira, a primeira do mês de abril do ano de 1991.





Quarta-feira



Se tu estás fazendo a tua oferta diante do altar, e te lembrar aí que teu irmão tem contra ti alguma coisa, deixa ali a tua oferta diante do altar e vai-te conciliar primeiro com teu irmão.

Evangelho Segundo Mateus (5, 23-24)



Canta um Cardeal solitário dentro de uma gaiola. A hora é de almoço, horário por sinal muito relativo para ele. Lá fora uma brisa fria chacoalha suavemente as folhas das árvores que alegram com os seus bailarísticos movimentos, passivos é certo, o triste e pesado dia que até mesmo as luzes dos raios do sol parecem temer. No fogão, dentro da cozinha, enquanto repousam duas panelas fumegantes com as tampas semiabertas, o tilintar de talheres apressados sobre o prato denunciam uma comilança ofegante e apressada, degustada sem gosto, enquanto, da janela de sua cozinha, avista claramente o vaivém apressado de transeuntes pela rua. Lucas, de aparência nada assustadora, na verdade um homem considerado “normal” pelos amigos e pelos raros parentes que pouco o conhecem, prende por instantes seu olhar na multidão da rua, até que, com um sorrisinho amarelo e sem graça nos lábios, dá um tapinha no ar, fazendo um movimento de recusa com a cabeça e voltando sua atenção para o prato de comida posto à mesa.

Sua expressão, entretanto, é de preocupação. Seus olhos tremem e seu peito arfa, dando a impressão de que uma invisível ara o sufoca — um homem a esta altura da idade começa a preocupar-se com as brincadeiras que lhe aplicam os nervos. Ao findar a refeição, põe o prato com os talheres e os restos dentro da pia, abre levemente a torneira e espera, com certa paciência, que um fio de água assaz pertinente preencha quase que corajosamente o recipiente. Nesse instante, contudo, rancorosos borborinhos, misturados com gemidos de dor e desespero, espalham-se pela atmosfera de sua casa, deixando-a mais pesada e nebulosa, com cara de noite escura. Fecha a torneira e, apressadamente, porque neste caso a pressa não é inimiga da perfeição, sobe uma escada que o liga com a parte superior da casa, segue um corredor, não tão vasto quanto estreito até debater-se de frente com uma porta. De seu bolso esquerdo retira um pequeno molho de chaves. Num primeiro momento hesita em abri-la, porém os gemidos e os choramingos continuam num estrondo crescente. Corre novamente à cozinha, onde, em cima da geladeira, apanha uma ampola com uma seringa velha, voltando, igualmente correndo, em menos de um minuto. Novamente passa-lhe pela cabeça não abrir a porta, porém, qual uma fugaz tempestade de verão, este pensamento calculista vem e esvai-se. Põe a chave sobre a fechadura, girando-a duas seguidas vezes antes de abrir a porta, com um solavanco, de um pequenino quarto. Apenas uma janela com grades (tão pequena proporcionalmente quanto o quarto, que já é minúsculo), sempre aberta, permite a passagem de ar e sol que bate pela manhã, somente pela manhã, numa cama isolada, e empoeirada, de solteiro. Certamente é um quarto bem inferior ao do hospital onde trabalha e atende seus pobres pacientes. Nela encontra-se um garoto, alto, não mais de vinte anos, cadavérico de tão magro e com os cabelos pretos e barbas por fazer. Chora. Ao deparar-se com Lucas, o choro e as lágrimas aumentam, fazendo com que este trema e hesite um pouco perante seus berros desesperados e suas contorções pela cama, todos em verdade nulos ou meio nulos, já que parecem não sensibilizá-lo, a ponto de esquecer, por momentos, que são irmãos, e fura, com a torta agulha da seringa já velha, a ampola, injetando-o um líquido quase que transparente esverdeado, aplicado no braço hirto, esquálido e amarelo, e sem pelos, de Josué, seu irmão, que agora agoniza não mais convulsivo, com os olhos revirados mostrando a conjuntiva branca, entorpecida pela droga.

Retira-se do quarto. Já se vão quase dois meses em que prendeu o irmão dentro daquele cubículo fétido e nojento, retirando-o somente poucas vezes por dia: para que se cumprissem suas necessidades, no período da manhã e da noite e para tomar sol, durante trinta minutos, vez ou outra na semana. Todavia, nem sempre fora isto cumprido a risco, muitas foram as ocasiões, em demasia, em que, chegando ao quarto, encontrou-o sujo, podre, esparramado no chão sob seus excrementos sem nada a pronunciar, nem um único som, somente com a respiração ofegante como se estivesse lhe faltando ar e como se um derradeiro suspiro de vida lhe abandonasse com a última gota exalada de seu suor.

É bem provável que algum dia o liberte deste castigo, às vezes tão cruel consigo mesmo, como se fosse ele, Lucas, mais velho que novo, aparência comum, porém rebelde, ali trancafiado naquela masmorra fria e umbrosa, preso em seus próprios devaneios e labirínticas ilusões. É como se estivesse caminhando por uma extensa ponte pênsil que o fim seu avistasse, e que no outro extremo estivesse o seu amor, porém inalcançável por temer prosseguir devido ao balanço da ponte oriundo de seus passos, ou por falta de pernas ou mesmo de braços; é como se ali estancasse, por fugir-lhe a coragem e a força nos membros para seguir em frente, impedindo-o de avistar a paisagem do outro lado, se não mais bonita, certamente mais sonhada.

Algumas vezes sozinho, sentado em sua confortável poltrona, pitando um cachimbo de madeira com detalhes em madrepérolas, pegou-se num solilóquio consigo mesmo a respeito dessas coisas. Não é raro encontrá-lo aos cantos da casa balbuciando algo para si mesmo, com a face estendida em expressão de raiva e a ponta dos cabelos úmidas, como se estivesse, por meio desses ruídos dissonantes, a balancear balbúrdias que teimam em martelá-lo sempre com reprovações de censura. Isto muitas vezes ocorreu, mas não agora. Neste momento, foram simplesmente alguns devaneios, uns flashs, lapsos da sua consciência doentia, tanto que a razão, principal motivo dessa discussão, já tomara seu posto e rumo. Tanto que a sandice, espectro feudal que assola o homem, deixa de ser um fantasma em forma de mulher, para se tornar apenas um fumo fino e não envolvente, que se conserva apenas na estância mais íntima e dissimulada da mente humana.

Deixara até de sentir aquela raiva sempre momentânea pelo irmão. Seus olhos, antes turvos, não conservam mais a mácula que lhe ofusca as vistas e a razão, embora pareça exausto, a ponto de se deixar cair de todo, e com tudo, no sofá da sala. A expressão agora de sua face, suas rugas atenuadas pela sobriedade e vagareza de seus pensamentos, se conserva límpida e serena, sem culpa, como se fosse ele um ser imaculado e poderoso, o que não quer dizer que seja de toda mentira, já que, ao menos no irmão, essa regra se aplica. Sorri tímida e sarcasticamente, mostrando, pela primeira vez, os dentes brancos e bem alinhados à boca. Mesmo porque não tem que sentir culpa, o culpado é seu irmão, ele o traiu, tão unicamente ele, e não o inverso, por que iria então ser piedoso?, não merecia. Muitas foram as oportunidades (nem tantas) em que flagrou-o a trocar olhares esfuziantes e dissimulados com sua esposa. Muitas foram as intrigas com amigos, em conversas de bar, que envolviam Úrsula e Josué, todavia nunca teve uma prova concreta, um único tacanho ato que fosse que os incriminasse. É certo contudo, e disto faz questão de espalhar a quatro ventos que não se arrepende, que algumas vezes forçou uma aproximação entre os dois, algo involuntário, caprichos do destino, ficando porém a traição a nível sistemático de olhares. Talvez por isso teve ela este ato fugidio de evitá-lo por longo tempo, talvez ainda por isso o evite, não admitindo com ele um relacionamento, um compromisso, e disto não tinha culpa, o culpado era ele, seu irmão, seu primogênito, seu sangue... Novamente sorri, agora um sorriso gutural, abrindo os braços e cruzando as pernas. Uma hora e quinze minutos após o almoço desta quarta-feira, a primeira deste mesmo mês de abril daquele ano de 1991.





Quinta-feira



Portanto, deixará o varão o seu pai e a sua mãe e apegar-se-á à sua mulher, e serão ambos uma só carne.

Gênesis (2, 24)



Há semanas que João não se encontra neste estado. Também pudera, hoje não é de qualquer dia, a começar pelo clima, ameno e claro, ao contrário de todo o restante da semana, o que forçou-o a levantar deveras cedo, não com a luminosidade dos raios do sol, refletida na janela e estirada sobre seu rosto, mas com o cochichar alegre dos pássaros e os latidos estridentes de seu cachorro. O céu é azul, e salpicado de nuvens brancas que arrastam-se, transformando-se e modulando-se, com a leve e constante brisa que vem do sul, em formas abstratas e belas. Consigo João carrega uma alegria inexplicável. Talvez seja pelo frio, maroto, que ainda plaina no ar, talvez não, sendo toda esta sua alegria oriunda de si mesmo, de seu espírito hoje inclinado para brincadeiras e meninices. Quem atém-se a explicar tais coisas, um homem assaz sério e bolachudo, econômico até nos risos, a espalhafatar-se com os cânticos dos pássaros e os chamados de seu cão. Nem mesmo ele, com aquele ar sombrio e misterioso, consegue entender estes repentinos espasmos de alegria que lhe surgem sempre em horas impróprias e lhe alteram o ânimo. Nem ele.

Por isso é de se estranhar tal semblante, mais comum aos domingos pela manhã, quando vai à igreja rezar. No fundo não reza, são lamúrias lançadas a esmo e com nenhum sentimento. Entretanto, para que exigir mais de um homem tão relacionado com a igreja, tão comprometido com a comunidade. Ele é quem a coordena, Ele organiza as festas e cuida da sacristia, Ele é quem a organiza e a promove para os fiéis, enfim, é Ele a própria igreja, faça sol ou chuva. Está bem certo, e isto é inegável, que não raras vezes afanou do dízimo, coisa de não mexer, sagrada para muitos fiéis. Mas o que fazer, já que é justíssimo que receba alguma gratificação, ínfima que seja, pelo que faz. Não recebeu Deus a morte de seu filho e maior cordeiro para que se consolidasse o cristianismo como religião do Ocidente e fosse glorificado por milhões de fiéis? Pois então que receba ele a sua, é o que se ganha pelo muito que já fez a Deus e ainda fará.

Pois voltemos aos fatos, deixando de um só piparote estas reminiscências. Já é sabido que o nosso amigo, de nome João, despertou de espírito renovado, de pé direito como se diz no coloquial, contudo continuemos a observá-lo, de longe, intuindo flagrá-lo num sobressalto de sua consciência. Como é verossímil que com pedra pedrada não resolve, procuremos nos ater exclusivamente em seus atos, buscando lá vez ou outra algum deslize, pequeno que seja, denunciado (se o tiver) em suas expressões corporais.

Após tomar relaxadamente um amargo café, deixando os restos espalhados pela mesa e sobre o chão da cozinha, senta, ainda sem camisa, na calçada em frente à casa. Assim, relaxado, em posição quase de cócoras, com a cabeça pendida sobre os antebraços, apoiados ambos sobre os joelhos, fica difícil de saber o que pensa ou sente. A verdade é que sua vida tem sido dura. E não digo isso por causa da faina diária e quase interminável na igreja, coisa de pouco dizer, mas por causa de sua incomensurável loucura por objetos sacros e imagens sagradas. Não que ele seja um megalomaníaco, isso está completamente fora de cogitação, mas que os louve e os ame em demasia, quase ao extremo da imaginação humana, fato este que já está cansado de saber. Com isso, sua paixão é tamanha por estes objetos frios e mórbidos que a prazerosa sensação hormonal é maior que a razão.

Continua sentado, só que desta vez encostado na parede, com as pernas estiradas e os olhos fechados enquanto toma sol. Vendo-o assim solto, com um sorriso discreto e sincero na face, parece um homem incólume dos pecados do mundo. É como se estivesse livre ele de seu passado, ou melhor, se por ele passasse, feito um trator, esmagando a tudo e a todos. Bem-aventurados aqueles que possuírem o bastão e as sandálias de Deus, pois terão o seu reino. Bem-aventurado ele, João, que a essas horas pensa sobre coisas semelhantes, sobre como será Deus e a paz divina. Bem-aventurado ainda o mesmo João que guarda consigo o cajado e o calçado divinos e tem o reino de Deus em suas mãos, bem-aventurados a maioria dos homens que, por não conquistarem os direitos divinos, dados pela igreja, da palavra e do reino de Deus, são salvos e protegidos por aqueles homens, poucos e justos, de instâncias superiores, que as contém, qual João.

E por isso ri um sorriso parco e discreto, contente consigo e com o mundo e com os outros. Não é comum vê-lo assim, sensivelmente alegre, atraído pelo frescor da brisa matinal e pelo ardume ainda pouco dos fracos raios do sol. Todavia assim está, este bom homem, de coração afável e mente sã; assim está e assim pretende permanecer, mesmo porque o fato de ter comichões por imagens sacras, que o fazem sentir na espinha, já não o incomoda mais. Neste momento é como se uma espessa coluna de fumo o envolvesse e o purificasse. Os pássaros não mais gorjeiam, a brisa já não canta, somente ele, ele só, indestrutível, dono de si e de tudo e de todos, como se Deus não existisse, coisa impossível de passar por sua cabeça. Neste delírio, com a cabeça inclinada levemente para trás, ainda fica um bom tempo, até que, suavemente, como se estivesse medo de olhar a luz do dia, abre os olhos, estanca a cabeça e os risos.

Deliberadamente aí está uma atitude sincera e correta. É certo que são apenas especulações, todas oriundas de sua fisionomia e atitudes ao sentar-se naquela calçada, em frente à sua casa, encostado na parede. Contudo, é bem cabível, e até provável, que tenha isto se passado pela cabeça de nosso amigo João, que agora coça passivamente o queixo sem barba. É aceitável a hipótese de este bom homem ter-se condecorado com a medalha de honra ao mérito por conquistar o reino divino. É tudo isto aceitável e plausível. O que por hora não se compreende é o fato de este homem carrancudo estar rindo, contente de si, com tais conjeturações. Nem ao afanar dinheiro do dízimo, moeda sagrada, de levar muita gente para o céu, ria-se este homem, nem com as tais fornicações às divindades sagradas, nem com nada.

A estas horas, em dias comuns ao seu cotidiano, estaria ainda dormindo, todavia, como já se disse, hoje é um dia especial para João. Não por ser uma data comemorativa ou coisa parecida, mas por ser simplesmente especial. A própria ocasião, propiciada pela agradável manhã, de estar acordado lagarteando uma punhada de sol, já torna aquele solene momento especial. É raro pegá-lo assim, estagnado, colado à parede, a deliciar-se... A verdade é que gosta de pensar nessas coisas; ama saborear a sorte que Deus lhe deu, uma sorte convulsionada por sua (com)paixão para com Cristo, é certo. Ah, como é bom amar a Cristo, um amor preguiçoso, com carência de esforços e nenhum uso do intelecto..., um amor sem vírgulas, nem ponto e vírgulas; ama-o e ponto final. Um amor vazio, sem “a”, nem “m”, nem “o” e muito menos “r”; ama-o e ponto final.

Muito mais complexo é amar Maria, um amor inverso ao de Cristo. Para esta dedica-lhe retoques, com todos os pontos e vírgulas e travessões necessários, pois não se trata aqui apenas de uma imagem frívola e comum como a de Jesus, mas de uma imagem imaculada, jovial e bela, principalmente bela e quase viva. E por isso dedica-lhe uma especial atenção, acompanhada por olhares mais quentes e apaixonados. Todavia não interessa ressaltar neste parágrafo seu platônico amor pela mãe de Cristo, pois suas mãos, calejadas, por ele falam, não precisando sequer uma palavra ou um gesto. Na verdade nem em imagens acredita, e talvez por isso continua sentado a tomar sol, com os olhos fechados, neste primeiro dia de céu claro desta semana, uma quinta-feira, a segunda do mês de abril, do ano de 1991.





Domingo



Filhos, obedecei a vossos pais em todas as coisas: para isto é agradável ao Senhor.

Colossenses (3, 20)



Este é meu Filho amado, em quem muito me agrado.

Evangelho segundo Mateus (3, 17)



Por cima da cama, de lençóis enxovalhados, repousa esticado e engomado um terno: paletó, gravata, camisa e meias. Ao lado, numa escrivaninha junto à cabeceira, uma bíblia. O chuveiro, antes ligado, exala de seu útero as últimas gotículas de água quente, enquanto, Mateus, de aparência serena, com chinelas de lã e um roupão azul escuro (quase preto), seca seus cabelos. São seis horas da manhã e na garagem, espaçosa, seu carro já espera, de motor ligado, a hora da partida. Retira-se vagarosamente do banheiro. No quarto escuro, com as venezianas fechadas, entra, não deixando de notar e rir, ao deparar-se com o terno cuidadosamente escolhido, separado e engomado por sua empregada. E digo que ri não pelo terno, sempre o mesmo, nem pela empregada, muito boa de cama por sinal, mas pela mesma cena repetida a cada domingo; acha tudo muito cômico e hilário, porém, já atrasado e sem tempo para comicidades, senta na cama e começa a vestir-se. Pouco mais de dois minutos leva para dar cabo a tal ato e pouco mais de três para vestir-se, apanhar a bíblia e as chaves do carro e sair de casa, sem nem mesmo encostar a porta. Em outros dias, mais calmo, ainda esperaria Teresa gritar de dentro da cozinha a perguntar-lhe se tomaria café, mesmo sabendo, esta, a negativa resposta, contudo, hoje não, o tempo para ele urge e a missa o espera... Não demora muito a para o carro sair em disparada pelo portão eletrônico, que agora fecha devagar, como a querer contrariá-lo.



Seis e cinco da manhã quando acorda. Em cima da escrivaninha, onde geralmente trabalha, vários papéis encontram-se amontoados e revirados, entre eles uma lista com vários nomes e endereços. Corre ao banheiro, onde, tranquilamente e ainda coçando com as costas das mãos as vistas, abre a válvula do chuveiro. Com a sobriedade de quem acabou de acordar, retira a roupa: meias e pijama, adentrando o box que agora já escorre água quente. Toma um rápido, porém tranquilizante banho, dando ênfase na lavagem para as suas partes mais íntimas. Ao assomar a porta do banheiro, agora limpo e seco, lembra que não separou as roupas do domingo, nem embrulhou as roupas para levar à lavanderia. Nem sempre é assim, geralmente acorda cedo e com disposição, deixando, no sábado à noite, separadas as vestimentas para usar no dia seguinte, todavia, concernente uma desatenção não premeditada e um esforço abrupto na madrugada anterior, não conseguiu fazer nem uma coisa nem outra. Nem o dia claro e propício a disposições matinais o conseguiu tirar deste ânimo, o que forçou-o tomar um café frio, coisa que não faz pela manhã e jogar um bocado de água fria no rosto para melhor despertar. Não tem tempo a perder, os ponteiros do relógio já avisam que é hora de se retirar e que precisa marchar, como diz a gíria. Alcança qualquer peça de roupa que combine minimamente, as veste e sai, desta vez de carro, outro hábito que não conserva ao domingos pela manhã, deixando, devido a pressa, o portão de casa escancarado.



Escuta-se, da cozinha de sua casa, nem tão grande e luxuosa, o gritos desesperados de Josué a clamar por comida: um naco que seja, ou uma fatia de pão qualquer. Em outros dias seus apelos eram recorridos, com insistência, e não tão cedo, ao irmão para que o liberasse ao banheiro. Todavia, o fato de não estar fazendo isto hoje, um domingo, remete a circunstâncias nada agradáveis: uma ligeira indisposição, ocorrida ontem à tarde, algumas horas após o almoço, deixou Lucas de cama o restante do dia, sem nada pôr na boca, e que prolongara-se até então. E aí está o princípio básico da compensação: “se não come eu, também ele não come”, simples, óbvio, justo e direto. Por isso ele clama por algo substancial e mastigável para pôr na boca, por isso resmunga berros miseráveis a ponto de atrapalhar o parco café de Lucas. Miserável garoto este, que o não deixa em paz nem na hora do café da manhã e nada faz além de atrapalhar. A sua sorte é que a capela fica a uma quadra dali, o que significa dizer dez minutos de caminhada, aproximadamente. Mas o que tanto o aflige (a Lucas) não é a distância de sua casa à igreja nem as etapas que cumprirá para lá chegar, mas sim estes urros grotescos e raivosos que, de certa forma, o deixam perdido, perplexo, desnorteado, incerto do que fazer. Olha o relógio e constata já ser seis e dez, horário ainda impróprio para retirar-se de casa, porém o que fazer se não ir e fugir destes agonizantes gritos. Chegará um tanto cedo, é claro, a não ser que caminhe mais lentamente, aproveitando para desfrutar da paisagem... sim, é isso o que irá fazer, desfrutar a paisagem. Contudo, antes de se retirar, sobe ao segundo andar e abre bruscamente a porta, deixando, para seu irmão Josué, duas fatias de pão seco com um copo de água.



Ave linda Maria / cheia de graça, beleza e gostosura / Senhor e eu convosco estamos / Bendita e gostosa sois vós entre todas as mulheres / E bendito é o escuro e quente fruto um pouco abaixo de seu ventre. / Santa Maria, minha mãe e de todos os pecadores / Rogai por nós, assinalados / Assim como eu por vós rogo até que se calejem minhas mãos e perdoo, com ciúmes e contrariado, os que vos têm ofendido / Esperai-me na hora de minha morte para que contigo possa eu ficar / Amém.” Ao cabo de sua oração dominical, declamada com lágrimas nos olhos e um aperto no coração, levanta-se, ajeitando as calças e limpando rapidamente os joelhos. Nada pronuncia, nada tem mais a pronunciar. Olha pela janela e percebe o movimento grande no templo. Dirige-se ao banheiro, escova os dentes e, fazendo o sinal da Cruz, (em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo) bate com força a porta e esvai-se.



Seis e vinte e cinco da manhã. Já a essas horas vê-se a luminosidade do sol adentrando a nave da igreja, deixando-a mais quente e seca. Vários fiéis já encontram-se sentados, alguns na frente, muitos atrás, a cochichar coisas várias enquanto o culto não inicia. Do lado de fora, enquanto o pastor, juntamente com seus auxiliares, um diácono e dois coroinhas, esperam, nada ansiosos, a hora da entrada, e emaranhado-se com as gaivotas que voam na baía próxima e com canários e bem-te-vis pousados nas copas das árvores, outras tantas pessoas, fiéis que, como se sabe, frequentam, semana a semana, o culto dominical, conversam e riem e se distraem. Entre estas estão Mateus, Marcos, Lucas e João, quatro homens, figuras heterogêneas, conhecidas somente no templo, na hora do culto, na empolgação da alma. Quatro histórias diferentes, prontas a identificarem-se; prontas para adentrarem o frontispício da capela, uma após a outra, enquanto atrás, sobre um muro em fundo branco, escrito em histórico vermelho vivo, reluz o seguinte enunciado: JESUS TE AMA.

 

12/07/2019, às 01:05.