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Práxis

Os filósofos limitaram-se sempre a interpretar o mundo de diversas maneiras; porém, o que importa é modificá-lo.

Práxis

Os filósofos limitaram-se sempre a interpretar o mundo de diversas maneiras; porém, o que importa é modificá-lo.

O sapo se vai, mas carrega consigo a memória do pântano impressa na pele!

28.01.26

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Cá cheguei em setembro de 2007, quando o sapo dava seus primeiros coaxares. No início, era apenas um espaço no qual colocava alguns ovos esparsos, postos com cuidado em canto escondido deste pântano. O Sapo, eu diria, não era naquele momento um simples portal, mas um pântano primordial, um lodaçal fértil onde as primeiras vocalizações digitais de muitos de nós ganharam forma e eco. No ano em que desembarquei nesta margem úmida, trazia apenas as palavras desorganizadas e despretenciosas dispostas em sacolas de plástico. A práxis – essa “rara alquimia” que busca fundir o pensamento trôpego à ação concreta, a reflexão à pegada deixada na lama do mundo, viria à posteriori, com a “profissionalização” deste meu espaço. Isso foi em 2017, se não me engano, quando decidi vocalizar meus coaxares com mais retumbância, embora nunca deixara de o fazer.

Cada post, cada texto esculpido na interface simples, passou a ser a partir daí um ato de fé em um território comum. O blog nunca foi uma vitrine, pois é antes uma trincheira; não um diário, mas um laboratório da teoria, da vida e da existência, como é a práxis dialética. Todavia, como um pântano não se faz apenas com um sapo, senão com milhares e milhões de girinos, não estive só nesta caminhada. Quando me atolei neste lamaçal de ideias, já havia centenas de sapos se expressando, escrevendo contra a correnteza efêmera, acreditando que aquele lento coaxar coletivo, aquele ritmo deliberado de ideias, construía algo mais duradouro que o silício que nos hospedava. Éramos (na verdade ainda somos) sapos e rãs em um mesmo charco, cada um com seu timbre, sua cor, seu canto peculiar, todos unidos pelo húmus escuro e nutritivo deste endereço virtual.

Este charco, sabemos, é um ecossistema completo. Nele, a palavra escrita assume a textura do musgo: viva, úmida, porosa, capaz de reter a chuva das leituras alheias e germinar diálogos inesperados. Nesse sentido, a práxis de cada texto – esses mais de duzentos e vinte gestos de atenção lançados ao longo de quase duas décadas e que cessarão somente em junho de aparecer – não se esgota em si mesma. Ela reverbera nos comentários que ecoam réplicas em tom menor, nas visitas silenciosas que deixam rastros de presença, na teia tênue de uma comunidade que lê, discorda, acolhe.

O Sapo Blogs é essa geografia singular em que o tempo não corre em fluxo laminar, mas em espirais lentas. Há nele uma temporalidade própria, uma paciência de fenômeno natural que resiste à aceleração histérica do mundo lá fora. Texto após texto, concluo que construímos uma catedral de sentido com tijolos de argila digital, cientes de que toda argila retorna à terra, mais resistentes que os pilares de Ken Follett.

Agora, o ciclo aquático se fecha. O anúncio do esvaziamento não é um acidente, mas uma maré baixa definitiva, um refluxo programado do próprio pântano que já vinha secando. É o fim de uma era. E o que fazer diante da evaporação anunciada de um mundo?

A práxis final, talvez a mais difícil, é a do desapego ativo, a do arquivamento como ato de amor e de luto. Cada post salvo, cada imagem resgatada, é como transportar, com as mãos em concha, a água do nosso charco para um recipiente desconhecido. Não temo o esquecimento: adubei este charco isento da soberba capital. Temo talvez a dessecação: que essas palavras, fora desse habitat, percam sua umidade vital, o contexto que lhes deu ressonância e calor. O fim, entretanto, não é abrupto: há uma “longa” agonia, um lento definhar entre 30 de junho de 2026 e novembro deste mesmo ano. E essa extensão é ao mesmo tempo graça e tortura. Graça, porque nos concede o rito de passagem; tortura, porque nos obriga a assistir, dia após dia, ao esmaecimento do cenário em que tantos de nós ensaiamos nossas vozes.

O silêncio que se avizinha não será o vazio absoluto, mas um silêncio qualificado, prenhe dos ecos que não se calam. Quando a última página não carregar, quando o erro 404 se tornar a lápide universal, o que restará? Restará talvez a memória da forma. Restará a experiência íntima de quem, ao clicar em “publicar”, vencia por instantes o medo atávico da invisibilidade. O Sapo se vai, mas a práxis por ele engendrada – o hábito obstinado de pensar escrevendo, de se expor ao outro, de buscar, nas teclas, uma verdade própria – essa é indelével. O pântano seca, os sapos e as rãs migram, dispersam-se por outras paragens, levando no ventre a semente do canto. O território virtual morre, mas a comunidade imaginada que ele forjou sobrevive como um fantasma coletivo, uma constelação de mentes que um dia compartilharam o mesmo céu noturno de bits e signos. O luto, portanto, não é por um servidor, mas por uma paisagem da alma, um lugar-hábito que moldou nosso modo de estar no mundo digital.

Assim, nos despedimos. Sem tristezas, sem soluços, sem mágoas nos despedimos. Vamo-nos sim, com um canto baixo e grave, digno de um anfíbio transmorfo, que aprendeu com a comunidade anfíbia que, dentre um coaxar e outro, ressoa um silêncio contemplativo que nos faz refletir, que nos faz mudar. Despedimo-nos do charco, da água estagnada e generosa, da plataforma que foi muito mais que um host: foi solo, foi raiz, foi casa. Cá entrei um girino; saí contudo um belo Sapo. Nesse contexto, o blog práxis encerra um ciclo nesta árvore que será cortada, não por vontade, senão por “nescessitância”. Mas deixou frutos, que amadureceram e que germinaram. Tanto que a seiva que o animou não cessa; busca novos vasos, novas terras.

A última práxis neste palco é a do fechamento consciente, a da gratidão articulada. Obrigado, Sapo Blogs, por ter sido o lodo onde nossas ideias germinaram, o espelho de água onde nos observamos crescer, o território úmido onde aprendemos a coaxar nossa humanidade para uma plateia de desconhecidos íntimos.

Quando as luzes se apagarem, em 30 de novembro de 2026, não será o fim da conversa. Assim espero. Que seja apenas o momento em que, saindo da água, levemos conosco a umidade essencial, prontos para saltar, com a memória do pântano impressa na pele, em direção a outros terrenos, outros desafios, mantendo viva, em qualquer margem, a arte sagrada de transformar pensamento em verbo, e verbo em pegada no mundo. Que nos encontremos em breve!

 

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