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Práxis

Os filósofos limitaram-se sempre a interpretar o mundo de diversas maneiras; porém, o que importa é modificá-lo.

Práxis

Os filósofos limitaram-se sempre a interpretar o mundo de diversas maneiras; porém, o que importa é modificá-lo.

O mundo "nas mãos" de poucos: a pobreza escancarada em um capitalismo cada vez mais decadente

28.01.20

Contrastes - Uğur Gallen

 

A crise consiste precisamente no fato de que o velho está morrendo e o novo ainda não pode nascer. Neste interregno, uma grande variedade de sintomas mórbidos aparece.

Antonio Gramsci

 

 

Ela virá, a revolução conquistará a todos o direito não somente ao pão, mas também à poesia.

Liev Davidovich Bronstein

 

O mais recente relatório sobre desigualdade elaborado pela ONG britânica Oxfam, denominado “Tempo de Cuidar” – "Time to Care" – foi publicado neste dia 20 e atesta algo alarmante: a explosão da desigualdade nos últimos anos. Segundo o levantamento, divulgado tradicionalmente próximo à reunião do Fórum Econômico de Davos, 2.153 bilionários detém uma riqueza superior à de 4,6 bilhões de pessoas, ou seja, mais da metade da população do globo juntas possuem uma riqueza inferior a um pouco mais que duas mil pessoas privilegiadas.

O mesmo relatório deflagra outras contradições gravíssimas, como a de 1% da parcela mais rica do mundo ter acumulado mais que o dobro da riqueza de 6,9 bilhões de pessoas. Esses números são exorbitantes e se tornam ainda mais escandalosos na medida em que, a partir do mesmo relatório, comprovam que a quantidade de bilionários no mundo dobrou na última década. Ou seja, a partir da crise capitalista de 2008, onde milhões e milhões de pessoas foram jogadas na miséria e outras tantas milhões se instalaram abaixo dessa própria linha, um punhado de pessoas – basicamente por meio de especulações em bolhas financeiras – se tornaram bilionárias.

Nesse cenário, a diferença entre homens e mulheres confere contornos dramáticos ao já profundo abismo que separa ricos e pobres. Os 22 homens mais ricos do mundo têm uma riqueza superior à de todas as mulheres na África. Segundo a ONG, o trabalho feminino não pago (a partir dos 15 anos) representa 12,5 bilhões de horas diariamente que, caso remuneradas, acrescentariam 10,8 trilhões de dólares à economia mundial, três vezes mais que a indústria.

Para se visualizar o problema, suponhamos que uma pessoa trabalhe durante cinquenta anos ininterruptos e que receba um vencimento diário de $ 50.000,00 (cinquenta mil dólares), não gaste um único centavo desse ordenado e aplique o dinheiro a um rendimento de poupança (4% ao ano); ao fim desse período, essa pessoa, ainda assim, não acumularia a fortuna de 1 bilhão de dólares. Longe disso! Um outro exemplo, para ilustrar ainda mais o caso: se fosse possível uma pessoa juntar 10 mil dólares por dia desde o período reconhecido como o da construção das pirâmides do Egito (cerca de 3 mil anos atrás), ainda assim teria hoje apenas 1/50 da fortuna média dos 5 maiores bilionários do mundo.

Vê-se logo que essas pessoas não trabalharam para adquirir estas fortunas. Pelo contrário! Historicamente, estamos falando de uma classe que explora, espolia e age na economia como um agiota. Sim, um bilionário alcança este status às custas da falência e do empobrecimento de outros. Um bilionário não adquiriu sua fortuna com o seu o trabalho, mas explorou outras pessoas que trabalharam para ele. Portanto, se a lógica de que trabalhar engrandece a alma e o homem, certamente é justa a reflexão de que o trabalho não o enriquece.

Paralelamente a este quadro, quase a metade da população mundial sobrevive com 5,5 dólares diários ou ainda menos. Situação que vem se agravando por conta da crise global e pela necessidade orgânica dos capitalistas em manterem suas taxas de lucro. É neste cenário que se desenrola o aprofundamento da lógica neoliberal, que corta políticas sociais, que desmonta os serviços públicos, que cria uma complexa política tributária que privilegia os grandes monopólios e favorece a uma pequeníssima elite financeira, e que espolia a riqueza dos países periféricos por meio do mecanismo da dívida pública e das privatizações. Estes fatores apenas agravam esta situação.

É um fato: a desigualdade econômica está fora de controle. E esta é uma conclusão tirada não à esmo, a partir da divulgação fria destes números, mas é uma consequência de estudos históricos – dos quais esta ONG é apenas uma das protagonistas – em que se demonstram o seu aprofundamento e não o seu inverso. Essa é a conclusão tirada não somente por veículos não governamentais, como a Oxfam, ou de classe, mas igualmente pelos principais tabloides financeiros da burguesia mundial, como o Financial Times, que em artigo publicado em novembro do ano passado (2019), questiona “Why capitalism needs to be reset in 2020”, ressaltando estes e outros fatores.

O jornal francês Le Monde, outro periódico econômico burguês de grande prestígio, estampou, em 24/01/2020, a seguinte manchete: « Le capitalisme n’est pas mort, bien sûr, mais il a de sérieux problèmes » : à Davos, des inquiétudes et des promesses (“O capitalismo não está morto, é claro, mas tem sérios problemas”: em Davos, inquietudes e promessas), no qual afirma (tradução na sequência):

Cette obsession que nous avons de maximiser les profits pour les actionnaires a conduit à d’incroyables inégalités et à une urgence planétaire. (Esta obsessão que temos em maximizar os lucros para os acionistas levou a uma desigualdade incrível e a uma urgência planetária.)

Les citoyens soutenaient le capitalisme tant qu’il offrait des opportunités de créer du capital pour eux et pour leurs enfants. Ce n’est plus possible désormais, commente de son côté le politologue américain Ian Bremmer, avant de poursuivre : Le capitalisme n’est pas mort, bien sûr, mais il a de sérieux problèmes. (“Os cidadãos apoiavam o capitalismo desde que oferecesse oportunidades para criar capital para si e para seus filhos. Isto não é mais possível, lamentavelmente”, afirmou o analista político estadunidense Ian Bremmer, antes de continuar: “O capitalismo não está morto, é claro, mas tem sérios problemas.”)

Outro tabloide reconhecido que expôs o problema mais diretamente e de maneira ainda mais direta e crua foi o espanhol El Pais. Com a manchete “Como medir de forma más justa la economía”, o artigo publicado em 26/01/2020 assim inicia:

Un mundo nuevo emerge inexorable. Mientras el viejo se resiste a desaparecer. La idea del crecimiento a toda costa que caracteriza el modelo económico actual se está poniendo en entredicho tanto por la comunidad científica, como por los organismos multilaterales y algunos Gobiernos. La Gran Recesión dejó tras de sí un reguero de desigualdad que el aumento de la actividad productiva posterior no ha sido capaz de eliminar; el calentamiento global agrieta el planeta construyendo un futuro cada vez más preocupante para las nuevas generaciones, mientras la tecnología que permite minimizar estos dos lastres ya está operativa aunque probablemente su impacto no está llegando todo lo lejos que debiera ni se sabe cuantificar con precisión. Los ciudadanos se quejan. Aumentan las revueltas, los conflictos, el descontento. Y los partidos populistas se hacen fuertes en unas sociedades cansadas de que sus Gobiernos pongan la economía como el fiel de la balanza en vez de su bienestar. Cansadas de que siempre ganen los mismos.1

Até mesmo a Forbes vem discutindo o assunto, embora, como é de se esperar, com outro tom. Em seu site oficial, a revista – em sua seção africana – acusa não o capitalismo pelas crises cíclicas e pelo aumento exponencial e gradual da miséria, contrapondo ao crescimento exponencial, na mesma medida, do número de bilionários no planeta; acusa sim a ingerência dos governos. Desconhece a crise global e, com uma hipocrisia incrível e uma desonestidade intelectual descomunal, desonera de responsabilidades de todas as crises as grandes corporações e as políticas neoliberais, que têm levado à miséria extrema de mais da metade da população mundial, bem como à destruição do planeta, para satisfazer a sanha de lucros da burguesia. Ei-la:

Rien n’est moins vrai. N’en déplaise aux intellectuels bilieux, le problème tient en réalité aux politiques désastreuses menées par le gouvernement et, pire, à une profonde méconnaissance de l’économie de marché. Il est temps de remettre les pendules à l’heure. (Nada é menos verdadeiro. Sem ofender os intelectuais biliosos, o problema é, na realidade, devido às políticas desastrosas realizadas pelo governo e, pior, a uma profunda ignorância da economia de mercado. É hora de acertar as contas.).

Vemos aqui alguns exemplos de como a matéria vem sendo tratada por alguns setores da burguesia. É certo que a perspectiva analítica destes periódicos é burguesa. Suas análises políticas, quando muito, recaem no reformismo, na necessidade urgente de se reformar o capitalismo no intuito de se reduzir estes abismos sociais, como o citado El país. Este periódico chega a ressaltar a necessidade de se reformular a leitura econômica, hoje baseada no crescimento a partir dos PIBs nacionais, competitiva e destrutiva, para uma perspectiva analítica mais socioambiental. Porém, dentre as inúmeras lições que Marx e Engels nos deram n’O Capital, por exemplo, é que o capitalismo é indomável, é incontrolável, e que, portanto, qualquer capacidade de reformá-lo será em vão.

Ademais, é reconhecida a capacidade que tem o capitalismo de jogar para as suas periferias os efeitos mais graves de suas correntes crises. Isso não é novidade e vários estudos, a começar pelo próprio O Capital, apontam como esse processo é feito. No entanto, aludindo a Hegel, o acúmulo de contradições quantitativas sobre um objeto gera uma contradição qualitativa, tornando, após estas inúmeras contradições, o antigo objeto algo completamente diferente do que era. Ou seja, cabe-nos agora saber como o acúmulo de contradições já enormes e históricas do capitalismo serão resolvidas, ainda mais que a elas foram acrescidas outras de caráter econômico, energético, ambiental, social, migratório, racial, de valores burgueses e políticos.

Sim, o capitalismo está em crise. E esta é grave, acentuada. A despeito de seus picos cíclicos, em seu bojo arrasta uma situação de miséria irrecuperável, onde não somente se polarizam e se agudizam a luta entre as suas duas classes fundamentais. Dela advém também o surgimento de novas contradições e o aprofundamento de outras tantas. A desigualdade cada vez mais crescente, a perda de direitos oriundas do mesmo fenômeno que provoca essa desigualdade, o aumento da miséria global, da violência urbana, das condições cada vez mais insalubres de sobrevivência da classe trabalhadora mundial, da poluição geral e o consumo cada vez mais voraz dos recursos naturais seguido de uma destruição massiva de espécies animais e vegetais em prol das grandes corporações e do lucro infindável, não só desnuda o caráter destrutivo do capitalismo, como mostra sua incapacidade de manutenção equilibrada. Superá-lo não se tornou apenas uma reparação histórica, de direito, mas uma questão de necessidade e de sobrevivência.

A máxima de Rosa Luxemburgo, Socialismo ou Barbárie, é ainda atual. Aliás, está mais atual que nunca. E se antes a barbárie não era vislumbrada por muitos, hoje não há quem a não sinta. Se o monstro era outrora horripilante, está agora irrecuperável, irreconhecível. Grande de fato. Porém, como dizia Friedrich Nietzsche, “Quem luta com monstros deve velar por que, ao fazê-lo, não se transforme também em monstro”. Em suma, de dentro da barriga da besta não conseguiremos destruí-la. Pelo contrário: seremos consumidos por ela. Ao capitalismo não cabe reformá-lo, ou, como diz o Financial Times, redefini-lo; é preciso aniquilá-lo pela raiz, antes que a nós, humanos, ele nos destrua.

O esgotamento do modelo neoliberal, descortinado e já reconhecido, em certa medida, por muitos dos periódicos burgueses, apenas deixa claro a necessidade da construção de uma saída socialista e revolucionária para uma crise sem volta e que cada vez mais aprofundará a miséria social. Lutemos por um mundo onde sejamos socialmente iguais, humanamente diferentes e totalmente livres. E que sonhemos, mas com a condição de crer em nosso sonho, de observar com atenção a vida real, de confrontar a observação com nosso sonho, de realizar escrupulosamente nossas fantasias. E então venceremos!! Cedo ou tarde! RUMO AO SOCIALISMO!!

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1 Um novo mundo surge inexoravelmente. Enquanto o velho resiste a desaparecer. A ideia de crescimento a todo custo que caracteriza o atual modelo econômico está sendo questionada tanto pela comunidade científica quanto por organizações multilaterais e alguns governos. A Grande Recessão deixou para trás um rastro de desigualdade que o aumento da atividade produtiva subsequente não conseguiu eliminar; o aquecimento global racha o planeta, construindo um futuro cada vez mais preocupante para as novas gerações, enquanto a tecnologia que minimiza esses dois reatores já está ativa, embora seu impacto provavelmente não esteja chegando tão longe quanto deveria, nem é possível quantificar com precisão. Os cidadãos reclamam. Aumentam as revoltas, os conflitos, o descontentamento. E os partidos populistas se fortalecem nas sociedades cansadas de seus governos colocarem a economia como fiel da balança, em vez de seu bem-estar. Cansadas de sempre ganharem os mesmos.

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Referências:

AMEAÇA COMUNISTA. In: https://praxis.blogs.sapo.pt/ameaca-comunista-25478;

Como medir de forma más justa la economía. In: https://elpais.com/economia/2020/01/24/actualidad/1579870950_561660.html;

Explosão da Desigualdade: 1% concentra riqueza duas vezes maior que 7 bilhões de pessoas juntas. In: https://www.pstu.org.br/explosao-da-desigualdade-1-tem-riqueza-superior-a-de-7-bilhoes-de-pessoas/;

Le capitalisme n'est pas mort... In: https://www.lemonde.fr/economie/article/2020/01/24/a-davos-le-gotha-des-entreprises-promet-un-nouveau-capitalisme_6027079_3234.html;

Non, le capitalisme n'est pas mort. In: https://forbesafrique.com/non-le-capitalisme-nest-pas-mort/;

O que é crise econômica. In: https://www.pstu.org.br/o-que-e-crise-economica/;

O que é dívida pública e como ela funciona. In: https://praxis.blogs.sapo.pt/o-que-e-a-divida-publica-e-como-ela-22233;

Pra que serve um bilionário?. In: https://www.youtube.com/watch?v=f50GsBvU_bY;

Time to care: unpaid and underpaid care work and the global inequality crisis. In: https://oxfamilibrary.openrepository.com/bitstream/handle/10546/620928/bp-time-to-care-inequality-200120-en.pdf;

Why capitalisme needs to be reset in 2020. In: https://www.ft.com/video/0dae2a4a-8c5c-4718-a540-b1fefae10dc4?playlist-name=editors-picks&playlist-offset=0.

MATERIAIS ACESSOS DURANTE A SEMANA ANTERIOR À POSTAGEM DO ARTIGO.

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