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Práxis

Os filósofos limitaram-se sempre a interpretar o mundo de diversas maneiras; porém, o que importa é modificá-lo.

Práxis

Os filósofos limitaram-se sempre a interpretar o mundo de diversas maneiras; porém, o que importa é modificá-lo.

O governo Bolsonaro é um governo fascista?

05.04.19

Bolsonaro assina acordos com Israel. Foto Alan Santos PR

 

Primeiramente, antes que julguem o livro pela capa, é importante afirmar que o texto não personaliza a análise na figura de Jair Messias Bolsonaro. É inegável a sua conciliação ideológica - em muitos pontos - com o fascismo, mas não é dele que falamos, e sim do seu (des)governo. Bem sabemos que, a depender da cabeça daquele que ocupa o cargo máximo do parlamento burguês brasileiro, muitas dessas ideias fascistas seriam postas em prática diretamente, sem nenhuma espécie de intermediação parlamentar. Mas é isso possível neste momento, nesta conjuntura?

 

Não podemos cobrir o sol com uma peneira; o regime democrático burguês está em crise, do mesmo jeito que está o capitalismo. Vivemos em uma época em que todos os valores burgueses estão sendo questionados pelas massas. Bolsonaro mesmo é fruto dessa derrocada. O regime democrático burguês - tão alardeado, infelizmente, principalmente pelos opositores de Bolsonaro - não passa de uma falácia. Crermos que Bolsonaro irá desrespeitá-lo, levá-lo a uma derrocada histórica é de uma inocência sem tamanho por parte de uns e de uma canalhice por parte de outros. O Estado é burguês, bem como sua organização e suas instituições, e é utilizado pelos capitalistas para retomarem o crescimento da taxa de lucros. É importante reafirmar que esta necessidade de retomada das taxas  de lucro da burguesia é uma necessidade global, do capitalismo, pois derivam daí todos estes planos de austeridade impostos para a classe trabalhadora no mundo, de forma desigual, porém altamente combinada!

 

No Brasil, desde 2007/2008 já se sentia os efeitos das manifestações da crise mundial, embora o Estado brasileiro, à época governado pelo PT, desmentisse o assunto, disseminando a ideia de que não passava de uma simples “marolinha”. Não tardou muito para que a afirmação de Lula fosse desmentida, mostrando-se correto o prognóstico já por nós levantado. Tanto que, de lá para cá, a crise só fez aumentar. É que, no fundo, ressoa nas palavras destes “sábios embusteiros”, a velha crítica de Trotsky (Imperialismo e crise da economia mundial, p.35): “Economistas burgueses e reformistas, que têm um interesse ideológico em embelezar a situação difícil do capitalismo, dizem: em si e por si a atual crise não prova nada; pelo contrario, é um fenômeno normal. Assim como Trotsky, não concordamos com isso!

 

Há mais de 10 anos, hoje, no Brasil, o descontentamento dos trabalhadores se agudiza. Amargamos, de acordo com o IBGE (agosto de 2018), com 27,6 milhões de desempregados (números globais: contando desempregados, lumpens e aqueles que desistiram de procurar empregos). O PT (juntamente com MDB de Temer) não governou para os trabalhadores, pelo contrário, governou para o capital, para a burguesia. A classe trabalhadora não saiu em defesa do governo Dilma. A maioria dos trabalhadores aceitou a instrumentalização parlamentar do impeachment  (e ele existe exatamente para isso!). Os trabalhadores não saíram às ruas contra a prisão de Lula (e o PT nem queria isso!). Diante deste cenário de crise que se arrasta agudizando desde 2007/2008, os governos de conciliação de classes escolheram muito claramente manter o nefasto jogo de alianças junto aos seus chefes: a burguesia e suas frações de classe.

 

Criou inclusive um conjunto de narrativas – expressão bastante utilizada hoje em dia nos meios político e sindical – que não se sustentam na realidade histórica mais imediata: o tempo presente. Parte de seus dirigentes inventaram a narrativa do golpe. Diante deste suposto golpe era necessário combater os golpistas, mobilizando, para tanto, sua gama de intelectuais para o desenvolvimento desta narrativa através de palestras, cursos, etc. Mas o que vimos foi exatamente o contrário. Mal foi dado o suposto golpe e a cúpula do partido (PT) já estava lá deliberando (internamente) as alianças com os golpistas para as eleições municipais! Calma, não acabou ainda… Muitos quadros importantes do PT não “gostaram” dessa narrativa do golpe, como foi o caso do candidato às últimas eleições pelo partido, Fernando Haddad. Neste caso, Haddad, continuou discordando do golpe (ou do conceito), vindo a demonstrar seu ponto de vista abraçando os supostos golpistas com palavras decorosas de dar orgulho em muita gente (talvez a família de Renan Calheiros seja emblemática). As construções destas narrativas são artificiais. Marx e Engels desenvolveram um conceito preciso para isso: Ideologia.

 

Mas não pararam por ai. Outra narrativa construída é a do fascismo. Esta veio se somar à do golpe. Estaria acontecendo a ascensão do fascismo no Brasil e seria necessário apoiar o PT para que se combatesse este grande mal. De acordo com a narrativa (Ideologia), seria preciso votar no PT para se combater o fascismo no Brasil. Francamente! Mas o que seria fascismo? Bem, segundo a simples concepção filosófica do termo, nada mais é que um movimento político e filosófico ou regime (como o estabelecido por Benito Mussolini na Itália, em 1922), que faz prevalecer os conceitos de nação e raça sobre os valores individuais e que é representado por um governo autocrático, centralizado na figura de um ditador.

 

Mas podemos avançar um pouco mais neste conceito para que possamos compreendê-lo melhor, de maneira mais rica, visando a compreender não somente o seu caráter, mas sua função. No que concerne àquele (ao caráter), vale lembrar que, dentre tantas coisas, o fascismo tem seu exército próprio, seus interesses e sua própria lógica de poder. É, sem dúvida, o jogador reserva da burguesia, utilizado somente em momentos muito específicos da luta de classes. Na Itália, Polônia ou Alemanha, por exemplo, teve ele que entrar em antagonismo violento não somente com a social-democracia de seu tempo, mas com todos os demais partidos da burguesia. Criou um regime próprio e entrou em consonância com a própria lógica do sistema de produção capitalista: a anarquia econômica se completou com a anarquia política.

 

Porém, como ascende o fascismo na Europa neste período? Segundo Trotsky, em Revolução e contrarrevolução na Alemanha (p.25): “o fascismo provém de duas condições: de um lado, de uma grave crise social; de outro lado, da fraqueza revolucionária do proletariado alemão. A fraqueza do proletariado, por sua vez, tem duas causas: primeiro o papel histórico particular da social-democracia, que ainda é uma agência poderosa do capitalismo nas fileiras do proletariado; em seguida, a incapacidade centrista da direção do P.C. em unir os operários sob a bandeira da Revolução”.

 

Em suma, o ascenso de Hitler na Alemanha, em 1933, deu-se devido ao fracasso do comunismo e do reformismo como saídas políticas viáveis tanto para a classe trabalhadora, como para setores enraivecidos da classe média e da pequena-burguesia. O velho embate entre revolução e contrarrevolução. Segundo Trotsky, Hitler seria vencido somente mediante uma frente única que compreendesse os comunistas do P.C. stalinista com os sociais-democratas, reformistas naquele período (mais ou menos o PT de hoje). No entanto, graças ao sectarismo do partido comunista, que via a social-democracia daquele período como conciliadora do nazismo, negou-se a empreender tal tarefa.

 

Voltemos a Trotsky (p.294-295):

 

Admitamos que a social-democracia, sem intimidar-se perante os seus próprios operários, quisesse vender a Hitler a sua tolerância. Mas o fascismo não faz essa transação: não precisa da tolerância, mas da demolição da social-democracia. O governo de Hitler só pode realizar a sua tarefa se quebrar a resistência dos trabalhadores, desfazendo-se de todos os órgãos capazes de tal resistência. Eis em que consiste o papel histórico do fascismo.

Os stalinistas se limitam a um julgamento puramente psicológico ou, mais exatamente, moral, dos covardes e egoístas pequeno-burgueses que dirigem a social democracia. É lícito supor que esses traidores patenteados se separem da burguesia e a ela se contraponham? Método tão idealista pouco tem de comum com o marxismo, que não parte do que os homens pensam de si mesmos e do que desejam, mas, antes de tudo, das condições em que estão colocados e de que modos essas condições se transformarão.

A social-democracia sustenta o regime burguês, não por causa dos lucros dos magnatas do carvão, do aço e outros, mas por amor ao seu próprio lucro, o qual ele recebe, como partido através do seu numeroso e potente aparelho. Certamente, o fascimo nenhuma ameaça constitui para o regime burguês, cuja defesa está afeta à social-democracia. Mas o fascismo prejudica a força que a social-democracia exerce no regime burguês, bem como as rendas que ele recebe por seu desempenho. Se os stalinistas esquecem este lado da questão, não o perde de vista a social-democracia, que considera o fascismo como um perigo de morte, pairando não sobre a burguesia, mas justamente sobre ela, social-democracia.

Quando mais ou menos há três anos, acentuamos que o ponto de partida da próxima crise política, segundo todas as probabilidades, se formaria em torno da incompatibilidade entre a social-democracia e o fascismo; quando, baseados nesse fato, acusávamos a teoria do social-fascimo de ocultar, em vez de desvendar, o conflito próximo; quando chamávamos atenção para a possibilidade da social-democracia, com uma parte considerável de seu aparelho, ser arrastada, pela marcha dos acontecimentos, a uma luta contra o fascismo, proporcionando ao Partido Comunista um ponto de partida favorável à ofensiva ulterior – muitos camaradas nos acusavam – e havia entre eles não só funcionários alugados, mas até verdadeiros revolucionários – de “idealizar” a social-democracia. Só nos restava dar de ombros. É difícil discutir com gente cujo pensamento para precisamente no ponto em que a questão apenas começa para os marxistas.

 

Se vivêssemos, na atual conjuntura, o perigo do ascenso do fascismo imediato, a política correta (como já descrito) seria uma frente única com todas as correntes possíveis: reformistas, marxistas revolucionários, liberais, etc, para derrotá-lo. No entanto, o que estamos presenciando é justamente o inverso: uma batalha parlamentar, protagonizada pelo PSL e outros partidos da direita tradicional de um lado, e PT, PSOL e PCdoB do outro, mas cuja própria CUT (Central Única dos Trabalhadores), braço sindical do PT, pareceu aderir ao “chamar Bolsonaro para o diálogo”, com a justificativa vil de que trabalhadores tenham votado em seu programa. Aceita inclusive negociar pautas da contrarreforma da previdência, desde que expurgue outras, das quais não fez ainda sequer menção clara.

 

Há quem acredite que estamos vivendo uma “onda conservadora” e que esta tenha fortalecido uma pretensa ascensão do fascismo, estereotipada – no caso brasileiro – na figura de Jair Messias Bolsonaro. Contudo, como vimos, tal ideia é contraditória. Primeiro porque o fascismo é um movimento de massas, que visa única e exclusivamente a destruir qualquer forma de organização da classe trabalhadora, instituindo um estado de exceção, fortemente nacionalista, de proteção à burguesia nacional, à economia e às fronteiras nacionais. Segundo, porque ele surge da necessidade de se derrotar um ascenso em um momento de crise aguda, onde outros mecanismos mais seguros, como a democracia burguesa, entram em grave crise. O fascismo é então fruto da disputa entre revolução e contrarrevolução e geralmente “entra em cena” em momentos de crise revolucionária, como uma última saída da burguesia para se manter no poder. Assim, se há uma onda conservadora, compreendida aqui por um conjunto de ideias favoráveis à manutenção de um estado de ordem, por que a necessidade de um estado fascista, sendo este regime muito arriscado?

 

É claro que, tratando-se de uma nação subdesenvolvida e de uma país periférico no mapa geopolítico do capitalismo mundial, é de se esperar que o fascismo tupiniquim não fosse tão fechado em suas concepções políticas. Certamente que um governo fascista surgiria para garantir os interesses do grande capital internacional, ainda mais em épocas agudas de crise do capitalismo. Portanto, espcialmente hoje, não seria, nem de longe, um governo voltado à proteção de uma indústria nacional, ou de uma burguesia insipiente, tampouco de suas fronteiras. De qualquer forma, as demais características se manteriam, como um exército forte e próprio, alheio inclusive ao parlamento burguês nacional, com vistas a impor, a ferro e fogo, uma derrota a toda e qualquer organização política oposto a este estado de exceção, incluindo aí, principalmente, às organizações político-sindicais dos trabalhadores, bem como seus partidos de referência. Além de outras já citadas, é claro.

Ora, quem foi, nas últimas décadas aqui no Brasil, o partido hegemônico dos trabalhadores, aos seus olhos, da pequena-burguesia, da burguesia e das massas de maneira geral, senão o PT. Quem controla politicamente a maior central sindical do mundo, bem como outras organizações que foram importantes na história do movimento social do país, senão o Partido dos Trabalhadores? A não ser que a maioria das cadeiras na câmara e mais seis senadores não representem nada, poderíamos então dizer que os militantes do partido, assim como seus parlamentares, estão sendo perseguidos, torturados, mortos e/ou inseridos em campos de concetração país afora. Mas não! Os burgueses do PT, bem como sua burocracia trabalhadora inserida em suas organizações satélites, continuam negociando com o governo corrupto de Bolsonaro a manutenção de seus privilégios às custas da miséria do grosso da população brasileira*.

 

É claro que, ao afirmar tal coisa, não dizemos que o governo Bolsonaro será tranquilo e que não haverá repressão. Pelo contrário! Cremos inclusive que não está descartada a possibilidade de um autogolpe, como ele mesmo tenha deixado transparecer, caso não consiga, pelas vias democráticas convencionais, aplicar as contrarreformas a que se propõe. Parte desse processo, inclusive, parece estar em andamento, como é o caso de ter eleito, nos cargos mais altos da república, inúmeros militares de alta patente das forças armadas. Não temos dúvida do caráter altamente repressor do seu governo e não temos dúvida alguma que o homem Bolsonaro traz consigo uma série de valores fascistas. Isso é claro.

 

Daí, acusar-nos de escolher o candidato “A” em detrimento de “B” por tratar-se do “mal menor”, é grosseria. Insistimos nesse debate porque, para nós, está descartada a possibilidade muito em voga do mal menor, que cria uma falsa polarização de forças. O questionamento de quem é o mal menor, para os marxistas: Lula ou FHC, Dilma ou Collor, Bolsonaro ou Haddad ou Ciro Gomes, não faz o menor sentido. Isso porque o sistema que combatemos, o capitalismo, tem necessidade de todos estes elementos. Agora, se esses elementos entram em conflito ou em contradição, devemos aproveitar a ocasião para utilizarmos dele a favor da construção de uma alternativa revolucionária. Do mesmo modo que, se um destes elementos ameaça de morte a possibilidade de construção desta alternativa, ou mesmo o partido que se propõe a ela, devemos combatê-la de antemão.

 

Trotsky, no livro acima citado (p.126), já dizia:

 

Uma escala compreende sete notas. A pergunta: qual dessas notas é a “melhor”: dó, ré ou sol? é uma pergunta desprovida de sentido. O músico, porém deve saber quando e em que tecla bater. Compreenderam? Para uma compreensão limitada daremos ainda mais um exemplo: Se um inimigo me faz engolir diariamente pequenas porções de veneno, e se outro quiser, num beco, atirar contra mim, derrubarei primeiro o revólver das mãos deste segundo inimigo, porque isso me dará possibilidade de acabar com o primeiro. Isto, entretanto, não quer dizer que o veneno seja “mal menor” em comparação com o revólver.

 

Quando decidimos, contudo, em chamar voto no segundo turno em Fernando Haddad, não o fizemos por crermos no caráter classista do governo do PT e da frente popular**. Tampouco por crermos na possibilidade do fascismo neste momento; assim, optamos por julgarmos na possibilidade franca de um autogolpe, alterando o regime e a classe política e instaurando um governo bonapartista no país, extremamente violento. Isso cercearia demais as liberdades de organização, mas não as extinguiriam plenamente, como o faz o fascismo. O governo Bolsonaro traz consequências imprevisíveis. Isso é indiscutível; subestimá-lo seria um erro. O que questionamos é o ascenso do fascismo, como tal, neste momento histórico, e sua associação ao governo de Jair Bolsonaro (não a sua figura), um governo completamente privatista, entreguista, de abertura das fronteiras nacionais para o capital internacional e da destruição de uma economia nacional calcada na indústria de manufaturas. Também discordamos da “onda conservadora”, incongruente com a tese de suportar o fascismo.

 

Esse argumento raso (o da onda conservadora) teve apenas um apelo eleitoral,  e é uma pena que tenha tido muitos adeptos. Embora o marxismo afirme que o homem não faz a história como quer, mas sim segundo as condições que encontra, ao mesmo tempo não nega em nenhum momento a subjetividade, a vontade e a inteligência como fatores muitas vezes decisivos na história. O ponto de vista que considera o homem um mero joguete nas mãos de forças econômicas e sociais supra-humanas, que perseguem seus próprios fins, não tem nada em comum com o marxismo. A concepção de sociedade que despreza a inteligência é, ela própria, carente de inteligência. As ideias, quando absorvidas pelas massas em movimento, se transformam em força material e, portanto, podem mudar os rumos da história. Acontece que fortalecer essa retórica, além de nos desmoralizar, também nos desmobiliza. Assim Marx e Engels formularam o pilar de sua concepção materialista da história em A Ideologia alemã.

 

Evidentemente existem grupos políticos que desejaram dar um golpe institucional do governo petista de Dilma, mas não o fizeram, pois o regime lhes garantiam instrumentos para o afastamento de quem governa o executivo. Também é evidente que o fascismo existe sim no Brasil, inclusive, graças ao governo de Vargas, que Lula tanto elogiou! A questão aqui é outra: as narrativas petistas trabalham com meias verdades para esconder a sua responsabilidade política diante da classe trabalhadora. O reformismo do PT é o grande responsável pelos desdobramentos da crise e o seu combate no Brasil.

 

Foram anos de conciliação de classes. A frente-popular constituída pelo PT prometeu fazer o impossível: unir os trabalhadores à burguesia. Obviamente que isso enrijeceu a luta de classes, funcionando como uma espécie de colchão entre os distintos interesses de cada campo. O problema é que, como toda a frente-popular, não fez isso para defender os trabalhadores; o fez a mando da burguesia!

 

Não nos iludamos em achar que o PT algum dia fora revolucionário. Não, longe disso! O Partido dos Trabalhadores nasceu de um forte ascenso de lutas no país como possibilidade concreta, naquele período, de representar a classe trabalhadora. Tanto que sua direção era formada por membros da classe. Não foram os poucos que doaram parte de sua vida na construção do partido. Mas hoje o PT é um partido burguês, com um programa elaborado para a burguesia. Seus dirigentes não são mais aqueles velhos e bons dirigentes trabalhadores, no sentido político que já se reivindicou (muitos são milionários, grandes empresários). Há muito tempo que a classe trabalhadora não se vê mais representada pelo PT, tanto que, a duras penas, conseguem sustentar a ideia de que são trabalhadores, e isso mesmo graças às suas fortalezas políticas, como CUT e MST.

 

E, sobre este aspecto, coloca outra desgraça para a classe trabalhadora, pois este sindicalismo burocrático (pelego, na gíria), contribui com a patronal, deixando para a classe trabalhadora, além de ilusões parlamentaristas, uma descrença na representação sindical. O mesmo desdobramento ocorre com os partidos políticos e as representações políticas. Isso tudo muito bem sintetizado nestas expressões populares: “o sindicato não faz nada”, “os políticos são todos iguais; só pensam neles”.

 

Marx e Engels, na Ideologia Alemã (p.47), escreveram algo que é muito reproduzido, porém pouco aplicado:

 

As ideias da classe dominante são, em cada época, as ideias dominantes, isto é, a classe que é a força material dominante da sociedade é, ao mesmo tempo, sua força espiritual dominante.

 

Antes de condenarmos a classe trabalhadora, é preciso compreendê-la. Há sim sindicatos sérios, da mesma maneira que há – pelo mundo – partidos revolucionários. No entanto, qual é a grande referência para as massas, ao menos atualmente? Aquilo tudo que é hegemônico, incluindo o PT, que se tornou mais um. Diante deste cenário, a classe trabalhadora, uma grande maioria, presa na política que o próprio PT ajudou a ser educada… Olham para a cena política e já não confiam mais nos que aí está. É ainda refém da reação democrática burguesa, presa ao individualismo e ao personalismo. Não acredita em suas próprias forças e acaba buscando saídas em pretensos “líderes políticos”. É um ciclo vicioso. Eis a tragédia.

 

Ou seja, a opção por este reacionário do Bolsonaro, este sanguessuga corrupto e inescrupuloso, que por 30 anos permaneceu no PP (antigo PPB), um dos partidos mais corruptos do país, mais envolvido em corrupção que o próprio PT, acabou sendo a alternativa, pois não havia outro “líder político”, aos olhos das massas, que representasse a mudança. O classismo foi deixado de lado, substituído por uma perspectiva individualista. Esse horizonte pequeno burguês, cujo limite político esbarra no mito da democracia, arrastou os trabalhadores para o covil. E, sob este aspecto, o PT, reformista que é, deve ser apontado como responsável maior de todo este movimento dos trabalhadores que apoiam uma proposta de governo irracional, que defende abertamente o machismo, a homofobia, a lgbtfobia, o racismo, o etnocentrismo, e por ai vai.

 

Aqueles que apoiaram Bolsonaro (defensor de torturadores e que fez e faz apologia à ditadura militar) durante as eleições, trabalhador@s comuns, estão sendo chamados por muitos como fascistas (em grande medida pela narrativa petista sobre o fascismo). Isso é um erro grave! Por quê? Porque o apoio a um candidato que representa o que há de pior na política hegemônica da burguesia não significa que este eleitor faça parte de uma falange urbana, ou mesmo as organizações armadas contra o regime, contra a constitucionalidade. Pensar assim é ignorar plenamente os elementos que apresentamos anteriormente. Esta leitura simplista interessa ao PT e suas colaterais. A narrativa petista do “fascismo” ignora (propositalmente) até mesmo os marcos do regime que o nefasto Bolsonaro utilizou para chegar ao poder e representar a burguesia. Esta explicação não interessa à classe trabalhadora e às organizações revolucionárias! É preciso ganhar politicamente a classe trabalhadora. Condená-la, a justiça da burguesia já faz todos os dias.

 

Tampouco cabe o argumento de que votar em Bolsonaro representa um ataque às instituições democráticas. Para setores importantes da pequeno burguesia, bem como para outros tantos da classe média, a democracia (mesmo a burguesa em stricto sensu) não passa de uma “casca”. Se ela não está funcionando, arranja-se outra alternativa. Assim funciona a cabeça de parcela importante desses setores. Não há portanto, relação alguma com predileção política pelo fascismo, tampouco há relação de grau de instrução ao voto dado. Há sim uma relação de classe: classe média e pequena burguesia, por não terem uma plataforma política e por almejarem o poder, acabam invariavelmente reproduzindo valores burgueses e a eles se ajustando. Sua perspectiva é individualista, conservadora. Para o pequeno burguês o mundo pode ser por ele controlado; assim como para boa parte da classe média. Contudo, se é verdade que são classes conservadoras, não é mentira que sejam vacilantes. Isto é, podem vacilar da direita para à esquerda a depender da conjuntura política e das alternativas que vislumbra no horizonte político próximo. Não é, portanto, correta, a afirmação de que invariavelmente vão para a extrema direita estes setores.

 

É verdade que o fascismo existe e ele deve ser combatido nas ruas, não nas urnas. Os grupos neofascistas não são hegemônicos, principalmente se observamos os votos recebidos por Bolsonaro. A maioria de seus eleitores expressou o descontentamento com a frente popular, conciliadora, encabeçada pelo PT. Ora, Engels e Marx continuam acertivos: a saída para os seus problemas os trabalhadores as encontram dentro de uma perspectiva burguesa, afinal, as ideias da classe dominante são, em cada época, as ideias dominantes.

 

Respondam com honestidade intelectual: todos que conhecemos e que votam em Bolsonaro são realmente neofascistas? Nosso trabalho é organizar a classe contra a burguesia, os racistas, machistas, lgbtfóbicos, contra os neofascistas, contra os latifundiários e todos esses jamais serão destruídos com as eleições da burguesia. As demandas da classe trabalhadora jamais serão atendidas com as eleições. Nunca foram. É preciso ganhar politicamente a classe trabalhadora. Esta é a tarefa mais árdua daqueles que defendem a construção da luta revolucionária organizada. Uma imperiosidade se apresenta: como melhor conquistar a classe trabalhadora para a luta organizada? Diante de um governo da democracia da burguesia, cheia de limites estratosféricos (jamais confundir a democracia burguesa com a democracia operária) ou diante de um governo declaradamente antidemocrático e de apologia às ditaduras e as torturas? Aí está colocada parte das tarefas do nosso tempo sobre o que fazer diante da acentuada crise do capital.

 

Quanto ao governo Bolsonaro, nem tudo são flores. Primeiro porque sua campanha se calçou em fake news; e estas têm sempre um lastro curto. Mas não somente! Há enormes contradições que já se expressam em seu mandato, que ainda nem iniciou. Há já um desgaste – obviamente que ainda bastante minoritário – de setores que já o olham com desconfiança. A garrafa de oxigênio dele é pequena, e parece saber disso. Ainda mais que seu crescimento é fruto de um ascenso, não de um retraimento das lutas. E por não ser um nacionalista burguês, como seria um governo fascista, mas um ultraliberal, que continuará as políticas anteriores, de maneira mais agressiva, fragilizando ainda mais a economia brasileira por meio das privatizações e de ataques dos direitos, a tendência é que os conflitos se acirrem e que sua imagem sofra um grande desgaste em pouco tempo.

 

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* Exemplos concretos não faltam. Mas talvez o mais sensível, ao menos pelos trabalhadores, neste momento, é o silêncio e a anemia da CUT frente aos fortes e radicais ataques proferidos pelo governo, principalmente o mais repudiado deles: a reforma da previdência. Está mais preocupada, essa burocracia operária, em garantir sua subsistência (daí a conversa franca com o governo) que a luta pelos direitos da classe. Ela, mais que ninguém, sabe que, a não ser que façamos uma forte greve geral neste país, a reforma da previdência passará, e sem maiores conturbações. Mas não move uma palha, pois também não a deseja. Ajudará na sua construção se sua base política a pressionar.

 

** Ora, o que estamos falando é que, assim como a social-democracia alemã dos anos 30 no que concerne ao nazismo, a frente-popular encabeçada pelo PT no Brasil abriu caminho para Bolsonaro. Por ser um partido com grande ligação com a classe trabalhadora, que, chegando ao governo, governou o Estado para os capitalistas e para os banqueiros, frustou as expectativas das massas trabalhadoras, abrindo caminho para o discurso racista, xenofóbico e machista encabeçado pela extrema-direita.

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