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Práxis

Os filósofos limitaram-se sempre a interpretar o mundo de diversas maneiras; porém, o que importa é modificá-lo.

Práxis

Os filósofos limitaram-se sempre a interpretar o mundo de diversas maneiras; porém, o que importa é modificá-lo.

Exercícios de Tradução

01.10.19

Funes, o memorioso

Este pequeno texto trata-se apenas de um exercício de tradução livre de pequenos excertos de leituras referentes aos textos de Borges e Valery, citados na sequência. Este trabalho foi proposto pela professora Dra. Luciana Rassier (DLLE UFSC), na disciplina de Literatura Francesa 3. As reflexões estão organizadas em formas de questões, nas quais colocarei o trecho original em francês adido da nota, juntamente com a tradução por mim feita.

 

1- Traduza o documento 1 (início de um artigo da revista Sciences Humaines).

Et si le secret d’une bonne mémoire était d’oublier, mais à bon escient ? Mieux encore, il semble que pour maintenir notre identité à flot, nous soyons obligés de sélectionner, filtrer, remodeler nos souvenirs… Plutôt qu’un musée, la mémoire est un laboratoire.

La nouvelle de Jorge Luis Borges, Funès ou la mémoire, présente un personnage incapable d’oublier quoi que ce soit. Son existence, ses pensées, ses perceptions sont parasitées en permanence par un jaillissement de souvenirs d’une précision inutile. Il devient incapable de vivre avec une telle mémoire, qu’il compare à un tas d’ordures, et s’enferme dans une pièce vide pour ne plus rien enregistrer. Dans la réalité, ce phénomène, « l’hypermnésie », existe bel et bien occasionnellement, et dans de moindres proportions, chez certains patients atteints de troubles neurologiques. D’autres sujets souffrent d’un état de stress posttraumatique : autrefois confrontés à un événement particulièrement dramatique et dangereux, ils peuvent être envahis tout à coup par la certitude de sa reproduction imminente. (...)

 

E se o segredo de uma boa lembrança fosse o de esquecer, mas de maneira sensata? Melhor dizendo, parece que, para mantermos nossa identidade à tona, somos obrigados a selecionar, filtrar, remodelar nossas memórias ... Ao invés de um museu, a memória é um laboratório.

O conto de Jorge Luis Borges, "Funes o memorioso", apresenta um personagem incapaz de esquecer qualquer coisa. Sua existência, seus pensamentos, suas percepções são constantemente parasitados por uma explosão de memórias de uma precisão inútil. Ele se torna incapaz de viver com elas, comparando-as a uma pilha de lixo, e se tranca em uma sala vazia para nada mais reter. Na realidade, esse fenômeno, a "hipermnésia", ocorre ocasionalmente e, em menor proporção, em alguns pacientes com distúrbios neurológicos. Outros sujeitos sofrem de um estado de estresse pós-traumático: uma vez confrontados com um evento particularmente dramático e perigoso, eles podem ser subitamente invadidos pela certeza de sua reprodução iminente. (…)

 

 

2- Traduza o documento 2 (resumo de artigo acadêmico).

Jorge Luis Borges, à travers « Funes le mémorieux », met en scène un personnage dont la mémoire est infaillible. Paul Valéry, pour sa part, imagine Monsieur Teste, un être abstrait doté d’une intelligence mécanique quasi parfaite. Au-delà des similitudes existantes entre les héros et leurs créateurs, Funes et Teste incarnent, mieux qu’aucun autre de leurs personnages, un idéal intellectuel inatteignable cher à chacun des deux écrivains. Mais leur nature, en inadaptation avec le monde réel, les transforme en monstres abstraits dont les propres entreprises intellectuelles sont vouées à l’échec et leur destinée à une mort précoce imminente.

 

Jorge Luis Borges, em seu "Funes o memorioso", nos apresenta um personagem cuja memória é infalível. Paul Valéry, por sua vez, imagina o Sr. Teste, um ser abstrato dotado de uma inteligência mecânica quase perfeita. Além das semelhanças entre os heróis e seus criadores, Funes e Teste personificam, melhor do que quaisquer outros dentre seus personagens, um ideal intelectual inatingível caro a ambos os escritores. Mas sua natureza, em desajuste com o mundo real, transforma-os em monstros abstratos cujas próprios projetos intelectuais estão fadados ao fracasso e os destinam a uma morte precoce e iminente.

 

 

3- Compare a primeira frase dos documentos 1 e 2: como é descrito o personagem?

 

Si dans le premier document Funes et sa condition sont décrites de manière négative, cela « incapable d’oublier que ce soit », au deuxième document c’est bien le contraire : la connotation est clairement positive par l'utilisation du terme « infaillible ».

 

 

4- Marmion: Quel est le sujet de l’article ? Le sujet de l'article est la mémoire et la nécessité d'oublier pour maintenir notre identité. Pourquoi l’auteur fait-il allusion au personnage de Borges ? Parce que ce personnage là est incapable d’oblier leurs mémoires. Comme le sujet de la nouvelle de Borges est justement la mémoire, l’auteur fait-il allusion à lui comme une manière de exemplifier le sujet de son article. c) Que fait Funes pour échapper à l’hypermnésie ? Ireneu Funes compare l’hypermnésie à un tas d’ordure, il se devient incapable de vivre avec ce phènomène. Et pour échapper à l’hypermnésie il s’enferme dans une pièce vide pour ne plus rien enregistrer.

 

 

5- Otero: traduza os seguintes trechos:

a) primeiro parágrafo do artigo (p.475: « Irineo... parfaite »);

Ireneo Funes est le plus valéryen des personnages de Jorge Luis Borges et Edmond Teste le plus borgésien des personnages de Paul Valéry. Ce qui est indéniablement commun à ces deux personnages est le rapport que chacun d’entre eux entretient avec son créateur. Les deux héros, ou devrions-nous dire, anti-héros, incarnent ce que nous pouvons appeler un homme idéal ou une qualité idéalisée que les deux écrivains admirent et qu’ils voudraient posséder : pour Borges une mémoire infaillible, pour Valéry, une intelligence parfaite.

 

Ireneo Funes é o mais valeriano dos personagens de Borges e Edmond Teste o mais borgiano dos personagens de Valéry. O que é inegavelmente comum a estes dois personagens é a relação que cada um deles mantém com o seu criador. Os dois heróis, ou deveríamos dizer, anti-heróis, personificam o que podemos chamar de um homem ideal ou uma qualidade idealizada que ambos os escritores admiram e gostariam de possuir: para Borges, uma memória infalível, para Valéry, uma inteligência perfeita.

 

b) primeiro parágrafo da p.477: « Funes... imaginé »;

Funes ou la mémoire (si nous respectons le néologisme, nous dirons Funes le mémorieux), est l’histoire d’un jeune Indien de dix-neuf ans, simple et pauvre, dont la mémoire est d’une telle précision qu’il est capable de donner l’heure exacte, de retenir ce qu’il n’a lu qu’une seule fois, ou de reconstruire, au moindre détail près, tout ce que ses yeux ont vu ou même imaginé :

 

"Funes ou a memória" (se respeitarmos o neologismo, diremos "Funes o memorioso") é a história de um jovem indiano de dezenove anos, simples e pobre, cuja memória é de tal precisão que é capaz de dar a hora exata, de lembrar o que ele leu apenas uma vez, ou de reconstruir, nos mínimos detalhes, tudo o que seus olhos viram e até mesmo imaginaram:

 

c) « Au coeur... féroces » (p.488).

Au cœur des deux personnages gît un paradoxe. Ces deux êtres, dotés d’une qualité « idéalisée » qui les rend uniques, sont pourtant voués à l’échec et à la mort. Leurs hautes qualités intellectuelles ne font pas d’eux, hélas, des poètes. Ils sont à la fois fragiles et monstrueusement dangereux, doués de pouvoirs féroces.

 

No âmago de ambos os personagens subsiste um paradoxo. Esses dois seres, dotados de qualidades "idealizadas" que os tornam únicos são, entretanto, fadados ao fracasso e à morte. Suas altas qualidades intelectuais não os tornam, infelizmente, poetas. Eles são concomitantemente frágeis e monstruosamente perigosos, dotados de poderes ferozes.

 

 

6- Le Marc’hadour: traduza os seguintes trechos:

a) « Il est vrai ... nouvelle critique » (p.59) ;

 

É verdade que a memória de Borges era prodigiosa e que as menções a autores literários, filósofos ou pensadores (às vezes quase desconhecidos) surgem na curva de muitas linhas do discurso. Mas não deveríamos nos enganar quanto ao significado de tal prática que alguns consideram irritante. Em nossa opinião, não se trata de uma exibição vã da erudição e da cultura livresca, mas sim a respiração normal do pensamento que prossegue por referências, por reconciliações, por oposições, por deduções, por abertura de perspectivas no campo que é naturalmente inerente a Borges: o pensamento de outros escritores. A intertextualidade constitui o campo de referência lógico da literatura e Borges a enfatizava pela sua prática bem antes da teorização realizada pela "nova crítica".

 

b) « Les livres et les bibliothèques… la nuit de la cécité » (p.63) ;

 

Os livros e as bibliotecas mantiveram uma relação estreita e especial com a vida de Borges. Quando criança, ele vasculhava artigos na Biblioteca Nacional enciclopédias que o fascinavam e cuja estrutura daqueles os serviu de modelo para muitos textos de ensaio ou prosa narrativa; a partir de 1937 ele obtém um posto obscuro de primeiro assistente em uma biblioteca de bairro de Buenos Aires, Miguel Cane; finalmente, em 1955, com a queda de Perón, ele é nomeado diretor da Biblioteca Nacional: soberba ironia divina, como ele mesmo aponta em "Poema de los dones", que consiste em oferecer conjuntamente os livros e a noite da cegueira.

 

c) « Dans cette perspective…labyrinthe logomachique » (p.65-66).

 

Nesta perspectiva dinâmica das relações entre memória e cultura, a literatura de Borges nos oferece uma imagem bastante contrastada. Figura representativa da memória da cultura ocidental por sua prática literária, tanto em ensaios quanto em prosa narrativa, o escritor enfatiza, igualmente, em alguns de seus contos, o perigo que representa a redução do mundo ao mundo dos livros. Se a biblioteca do pai fora o paraíso da infância, representou também, implicitamente, uma espécie de prisão, e se Borges define sua vida como “consagrado às Letras” e seu destino como um “destino literário”, ele se esforça para nos mostrar, através da imagem da Biblioteca de Babel, como um mundo puro de livros pode se tornar um verdadeiro pesadelo. A biblioteca nada mais é que um mundo de discurso que se transforma indefinidamente em torno de si mesmo por autorreflexão e a condição mortal, reduzida à busca de sentido, só pode ser a infinita errância do homem em seu próprio labirinto de logomaquia.

 

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