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Práxis

Os filósofos limitaram-se sempre a interpretar o mundo de diversas maneiras; porém, o que importa é modificá-lo.

Práxis

Os filósofos limitaram-se sempre a interpretar o mundo de diversas maneiras; porém, o que importa é modificá-lo.

Como aplicar metodologias de pesquisas nos estudos literários - algumas considerações

17.02.22

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Falar de metodologia nos estudos literários é, no mínimo, adentrar em um terreno pantanoso. Isso porque – ao contrário de outras áreas do conhecimento, como as ciências exatas – nos estudos literários é impossível de se reivindicar uma finalidade para o objeto analisado, já que o discurso literário não pode ser pressuposto. Em outras palavras, discutir um traço que lhe seja inerente é impossível, já que não existe um discurso literário, embora possamos afirmar que exista literatura. Assim, falar de metodologia nos estudos literários tem como pré-condição incontornável criticar o desejo de reificar a metodologia como um fim em si.

Na área dos estudos literários, a investigação se dá por meio de conceitos, no campo superestrutural das ideias. Não à toa a sintonia que esta disciplina tem com o espírito do nosso tempo. E embora haja de fato um aspecto racional, a literatura como tal – o texto escrito – sempre se descortina no momento de sua escritura, e não antes. Por mais elaboradas que sejam as ideias e mais rebuscado o raciocínio para concatená-las, o ato da confecção textual se revela sempre como uma ocasião de descoberta. Nada diferente, por sinal, daquilo que ocorre durante a leitura.

Essa ideia, portanto, de que o “artefato” não sabe tudo de si confere à pesquisa em literatura certa fragilidade não encontrada talvez em nenhuma outra área do conhecimento. E com um “agravante”: à medida em que toma corpo, o texto dito literário – esse artefato um tanto difuso – se distancia do autor que o escreve, em um movimento inversamente proporcional percorrido pelo leitor, que se aprofunda no objeto à medida que adentra à obra. Não à toa ocorrer o mesmo tipo de receptividade e abertura ao texto tanto na avaliação crítica da obra quanto em sua leitura, seja esta ou não sob um viés analítico mais profundo.

A literatura está em crise, bem o sabemos. Desde pelo menos meados do século XX que não frequenta os espaços públicos de discussão, os cafés e os lares. Coube às Universidade então acolhê-las, porém não como centro de leituras destes textos, mas como objetos a serem analisados e interpretados à luz de teorias mais diversas. Decorre daí certa relação conflituosa entre literatura e pesquisa. Isso porque se é esta a responsável pela inserção dos estudos literários na universidade, é bem verdade que a pesquisa tende a deformar tanto a obra quanto seu leitor, principalmente quando convertida em prática dominante, como é o caso. Ainda mais por ser a interpretação o cerne da pesquisa em literatura.

A propósito, não existe pesquisa sem interpretação. Mesmo nas ciências chamadas exatas! A diferença é que estas partem de certos experimentos para se chegar às conclusões necessárias, enquanto que, no campo dos estudos literários, elabora-se uma hipótese de leitura para objetos distintos. E, embora obras literárias mais complexas sejam capazes de abarcar uma quantidade enorme de avaliações e leituras a seu respeito, certo é que não se pode falar simplesmente qualquer coisa sobre elas, mesmo que aquilo exposto o seja de forma lógica e até criteriosa.

Não cabe à pesquisa (e portanto ao pesquisador) julgar, a partir de si mesma, o valor daquilo que é produzido. Aplicar uma hipótese de leitura pode denotar algo previsível ou até mesmo entediante. Todavia, como a pesquisa está preocupada com o ineditismo, não há nada de errado neste movimento, mesmo porque, na área dos estudos literários, à medida que se aprofunda a pesquisa, a hipótese de leitura sofre – em menor ou maior grau – modificações.

Toda obra advém de um processo de reescrita. Muitas vezes reescrita de si mesma. Não há escrito que não oriunde de outras leituras; não há texto que não olhe para trás. Seja qual for sua origem e sua importância. Homero ou Gilgamesh, a Bíblia ou o Código de Hamurabi; nada é novo neste sentido. Mas somente neste sentido! É que na base do conhecimento está o ato de negar, base fundamental da dialética. Desse processo é que se originam as grandes obras, aquelas verdadeiramente originais e “novas”. Ao negar a poesia de seu tempo, Dante criou algo completamente novo; Cervantes reescreveu a cavalaria negando-a. E de lambuja criou um novo estilo narrativo e um herói irreverente.

É parte constituinte do conhecimento humano a negação. Porém, mesmo estes grandes autores não partiram do “nada”. Todos eles desenharam seu tempo olhando também para trás, buscando compreender a construção do conhecimento humano anterior a eles. Sem esse ato não poderiam recriá-la, transformá-la, negá-la. Mas é preciso estar atento, pois, como dizia Karl Marx, não se teoriza aquilo que não esteja em construção. Temos então uma lição: a construção do conhecimento – seja no campo artístico, filosófico ou científico – pressupõe uma via de mão dupla: deve-se buscar conhecer a tradição sem, no entanto, deixar de atender as necessidades prementes do tempo corrente.

Eis uma hipótese! E, como tal, um veículo de descoberta à medida que une sujeito e objeto, promovendo o confronto entre a ideia que se faz do mundo e este particularmente dito. Obviamente que esta relação instrumental não é a única imaginável no contato com a literatura. Bem da verdade, o ideal para um pesquisador deve ser o inverso: antes de aprofundar sua análise em seu artefato, desenvolver o gosto pela literatura, visando a instruir o prazer ao lê-la ou refinar o gosto, por exemplo.

Por isso a necessidade neste campo da leitura livre, desinteressada. Afinal, quanto mais independente for o leitor, quanto mais bagagem cultural possuir, mais profunda será sua experiência estética e mais fácil será para ele formular hipóteses de leitura. Inclusive no que concerne à compreensão do objeto analisado como um todo.

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