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Práxis

Os filósofos limitaram-se sempre a interpretar o mundo de diversas maneiras; porém, o que importa é modificá-lo.

Práxis

Os filósofos limitaram-se sempre a interpretar o mundo de diversas maneiras; porém, o que importa é modificá-lo.

Arte e Política

30.06.20

Gustavo Spiridião. Série Cartazes de agitação (79)

A arte começa onde a imitação acaba.
Oscar Wilde

Friedrich Nietzsche, filósofo alemão, em maravilhoso estudo afirmou que a arte existe para que a verdade não nos destrua. Se partirmos do princípio que arte é também – e principalmente – a expressão cultural de um povo e que, por meio dela, pode-se trilhar um caminho de compreensão dos desajustes e tentativas de reajustes da convivência humana e coletiva, não é difícil de compreender o sedutor poder que tem de traduzir e ressignificar um conjunto de valores políticos e sociais.

Se em tempos de relativa calmaria política - principalmente em um país semicolonial como o nosso - a relação da ciência e da arte com a sociedade não se dá de maneira muito harmoniosa, justamente por serem dois polos de "discussão" e de "enfrentamento" ao obscurantismo, por redesenharem o mundo em que vivemos, imaginemos em épocas de aguda crise não somente política, mas social.

Essa situação intolerável, reforçada obviamente pelo distanciamento paulatino de conquistas democráticas de etapas anteriores, faz com que valores inerentes à arte apareçam como fruto de um acaso precioso, obra quase espontânea da necessidade do artista. Ou seja, naquilo que ela conserva de individualidade de sua gênese, ou, como diria André Breton, “naquilo que aciona qualidades subjetivas para extrair um certo fato que leva a um enriquecimento objetivo”* a arte é relegada à matéria intelectual secundária, transformada, quando muito, em propaganda ideológica fomentada pelos meios de comunicação oficiais do estado.

Ora, se o mundo contemporâneo nos obriga a enfrentar a violação cada vez mais geral dessas leis, violação à qual corresponde necessariamente um aviltamento cada vez mais patente, não somente da obra de arte, mas também da personalidade “artística”, o fazemos motivados por princípios distintos daqueles ideólogos oficiais. Quando a Alemanha de Hitler e a URSS de Stalin eliminaram os artistas que se opuseram a seus regimes autoritários, obrigaram os remanescentes a celebrá-los sob encomenda, fomentando uma "arte" panfletária, ao estilo dos comerciais televisivos mais tacanhos de hoje.

Em proporções diferentes e sob outra conjuntura, o mesmo acontece hoje com a arte. Em sua maioria financiada por multinacionais, por estados, ou realocadas a partir de princípios mercadológicos e em consonância com princípios ideológicos hostis à emergência de qualquer espécie de valor espiritual, parte considerável da arte contemporânea enveredou para a abstração completa da realidade, como fulga dos problemas que lhe tocam, tornando-se mera difusora dos valores sociais reinantes, ou  um compêndio de abstrações desconexas.

E se é verdade que seria demasiado forte acusar a arte de adotar um único modelo pronto, uma fórmula retangular acabada de manifestação como outrora fora corrente, também não é uma sofisma afirmar que, para dar uma real expressão às necessidades humanas e sociais, a arte precisa ser revolucionária no sentido mais puro do termo: o de aspirar a libertar-se a si própria, reconstruindo-se a partir de suas entranhas, nem que seja apenas para libertar a criação intelectual das cadeias que a bloqueiam, permitindo assim reacender princípios que sempre defendeu: ressignificar a realidade não somente com vistas a explicá-la, mas principalmente visando à emancipação espiritual do ser humano e, com ela, sua própria emancipação.

Nesse sentido, a arte pode - e deve - ser o lugar por excelência para arejar o pensamento e aprimorar as intuições. Mais que isso! A arte é hoje uma das forças que podem, com eficácia, contribuir para o descrédito e ruína dos regimes que destroem, ao mesmo tempo, o direito da classe explorada de aspirar a um mundo melhor e todo sentimento da grandeza e mesmo da dignidade humana.

Em outras palavras complementares, a revolução não teme a arte. Ela sabe que ao cabo das pesquisas que se podem fazer sobre a formação da vocação artística na sociedade capitalista que desmorona, a determinação dessa vocação não pode ocorrer senão como o resultado de uma colisão entre o homem e um certo número de formas sociais que lhe são adversas. Essa única conjuntura, a não ser pelo grau de consciência que resta adquirir, converte o artista em seu aliado potencial. O mecanismo de sublimação, que intervém em tal caso, e que a psicanálise pôs em evidência, tem por objeto restabelecer o equilíbrio rompido entre o “ego” coerente e os elementos recalcados. Esse restabelecimento se opera em proveito do ”ideal do ego” que ergue contra a realidade presente, insuportável, os poderes do mundo interior, do “id”, comuns a todos os homens e constantemente em via de desenvolvimento no futuro.

Segue-se que não é função da arte a de curvar-se, sem degradar-se, a qualquer diretiva externa a ela, como a preencher docilmente funções que filisteus julgam poder atribuir-lhe para fins pragmáticos e completamente estreitos. Não! É bem outra sua função. Ao artista autêntico cabe prefigurar a realidade, com vistas a orientar o pensamento de seus contemporâneos, indicando-lhes as contradições mais graves e abrindo-lhes caminho para o estabelecimento de uma nova ordem. Que o faça sem mais delongas.

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* Manifesto F.I.A.R.I.

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2 comentários

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    Visconde

    27.06.21

    Olá, Sabrina. Mais uma vez muito obrigado pela ajuda em aprimorar esse debate tão necessário. Teus e-mails têm sido importantes para isso. Confesso, entretanto, que tuas dúvidas e "reclamações" trouxeram-me mais dúvidas que respostas, fazendo-me ir mais fundo às informações.

    Iniciemos então com um bordão, bordão não, uma sentença muito corrente quando vamos ao google buscar por citações sobre arte: "Não existe um método mais seguro de fugir do mundo do que seguir a Arte e nenhum método mais seguro de se ligar a ele do que pela Arte." Anônima, mas que corrobora - de uma forma ou de outra - com a perspectiva com que é abordado o tema por grandes artistas não somente de nosso tempo, mas desde a Grécia antiga.

    A Arte substitui a vida, coloca o homem em estado de equilíbrio com o meio circundante, expressando, contudo, uma relação mais profunda entre o ser humano e este mundo. A arte é quase tão antiga quanto o homem, daí a impossibilidade de resumi-la de uma única forma. Isso porque a sua "razão de ser" não permanece a mesma com o passar dos tempos. Desde sua origem - nascida de uma necessidade mágica à dominação de um mundo real inexplorado e completamente desconhecido - até hoje muita coisa mudou.

    Segundo Ernst Fischer (A Necessidade da Arte) "Para se conseguir ser um artista, é necessário dominar, controlar e transformar a experiência em memória, a memória em expressão, a matéria em forma. A emoção para um artista não é tudo; ele precisa também saber tratá-la, transmiti-la, precisa conhecer todas as regras, técnicas, recursos, formas e convenções com que a natureza - esta provocadora - pode ser dominada e sujeita à concentração da arte. A paixão que consome o diletante serve ao verdadeiro artista; o artista não é possuído pela besta-fera, mas doma-a."

    Em outras palavras, essa "tensão" (e a contradição dialética proveniente dela) são inerentes à arte, pois a ela não cabe tão somente decorrer de uma intensa experiência da realidade, mas precisa se construir - de maneira objetiva - a partir dela. Desse processo de construção, a arte reconstrói o mundo e suas relações ao seu modo, desfazendo temporariamente os laços da vida ao nos "cativar" de modo diferente da realidade prosaica. E este agradável e passageiro cativar artístico constitui precisamente a natureza do "divertimento", a natureza daquele prazer que encontramos até hoje presentes nas tragédias gregas.

    Vejamos o que fala Bertolt Brecht a respeito. Refletindo sobre a forma como escreve suas peças de teatro, o revolucionário dramaturgo alemão nos mostra sua concepção de arte: questionadora, dialética, libertadora. Eis suas belas palavras: "Nosso teatro precisa estimular a avidez da inteligência e instruir o povo no prazer de mudar a realidade. Nossas plateias precisam não apenas saber que Prometeu foi libertado, mas também precisam aprender a sentir no teatro toda a satisfação e a alegria experimentadas pelo inventor e pelo descobridor, todo o triunfo vivido pelo libertador."

    Assim, não cabe à arte ser uma mera descrição do real; sua função diz respeito ao homem total, capacita o "Eu" a identificar-se com a vida de outros, capacita-o a incorporar a si aquilo que ele não é, mas tem possibilidade de ser.

    Para terminar... Creio não ser uma sofisma reconhecer que hoje, em pleno século XXI, milhões de pessoas leem livros, vão ao teatro, ao cinema, assistem filmes, ouvem músicas... Por que fazem isso? Afirmar com propriedade é que tão somente buscando diversão, visando a relaxar, não resolve a questão. Por que é assim? Por que há a identificação com determinadas canções, por que nos mergulhamos de cabeça nos problemas vividos pelos heróis / heroínas dos romances que lemos? Porque reagimos em face dessas "irrealidades" como se elas fossem a realidade intensificada? E se a esses questionamentos alguém nos responder tratar isso de uma fuga sem riscos da nossa realidade, outra pergunta se apresenta: Por que nossa própria existência não nos basta? Ora, se a nossa natureza - como afirmam os liberais - não é sermos mais do que um indivíduo, tais desejos seriam absurdos e incompreensíveis, porque então como indivíduo já seríamos um todo pleno, já seríamos tudo o que fôssemos capazes de ser, não fazendo sentido a existência da arte.
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