A coreografia do carnal

Antes do cinza, a explosão cromática. Antes do silêncio ordenado, o grito polifônico que rasga o firmamento do cotidiano. Eis que a cidade, essa arquitetura de hábitos e proibições, desnuda suas costuras e revela, por breves eras solares, seu útero pulsante. O carnaval não chega; ele irrompe. É uma geologia do efêmero, onde os estratos rígidos da norma se liquefazem sob o calor dos tambores e o peso luxuriante dos corpos em movimento. O tempo reto, aquele que marcha para a tumba, entorta-se, enrola-se como uma fita serpentina, e dissolve-se no ciclo infinito do riso e do gemido.
Neste reino de vertigem consagrado, a carne é soberana. Não a carne penitente, oculta e temerosa, mas a carne exultante, glorificada em sua pingue abundância. Os corpos, libertos dos estreitos fatos do decoro, comunicam-se numa língua ancestral, feita de suor, de arquejos, de contorções rítmicas. O grotesco, aqui, não é deformidade, mas a verdadeira forma humana desvelada: a barriga que balança, o quadril que gira, o sorriso larguíssimo que mostra todos os dentes, a máscara que, ao esconder o rosto individual, revela o rosto coletivo da espécie. É a estética do excesso, na qual o muito é pouco e o limite é um desafio lançado ao próprio abismo.
A linguagem, igualmente, subverte-se. As palavras endurecidas pelo uso comum derretem, tornam-se líquidas, ambíguas. Nos cantos, nos estandartes, nos lábios embriagados, o sentido oficial é destronado por trocadilhos obscenos, por metáforas escatológicas, por blasfêmias que são hinos. Tudo que era alto desce: o poder se veste de arlequim, a sabedoria de bêbado, a santidade de diabo luxurioso. Tudo que era baixo ascende: o instinto torna-se régia procissão, o vulgar, arte suprema. É o mundo de ponta-cabeça, onde quem lidera é um bobo, quem governa é um gordo entronado com uma coroa e onde o trono é um tamborim e o cetro, um pandeiro.
A máscara é a chave desta inversão. E não me refiro somente à fantasia, mas à máscara recôndita em cada folião, em cada ser vivente que a veste com o manto sagrado que o liberta das convenções sociais castradoras. Aqui o indivíduo se perde para se encontrar no coro da humanidade. Essa máscara não esconde; pelo contrário — desvela. Libera o demônio íntimo, o anjo lascivo, o animal sublime que a moral do dia a dia mantém acorrentado. O anonimato das máscaras (a física e a sagrada) é a mais pura identidade, pois ninguém é alguém, e assim, todos podem ser tudo. Rei, mendigo, deus ou fera..., todas as hierarquias se dissolvem na dança geral. O riso que ecoa por baixo do disfarce não é o riso leve da graça; é o riso cósmico, profundo, que engole a morte e a temeridade, um riso que é filho da terra úmida e do desejo perene. É a inversão da tradição bíblica: é o paraíso no fim.
O Carnaval é grito, é fúria, é lascívia. É a explosão ritualística de sentimentos aprisionados por um ano que se desvelam numa explosão de alegria que é também de crítica, de escárnio, de desabafo que soa como um alerta para os empodeirados. Dentre os blocos soam tambores milenares, bandeiras e cartazes são erguidos em forma de denúncia, vozes são entoadas. O Carnaval é a ode popular em sua essência; é a alegria que liberta.
Mas este reino é, por essência, crepuscular. A própria volúpia carrega o germe de sua dissolução. A orgia dos sentidos, levada ao paroxismo, anseia por seu próprio fim. A quarta-feira de cinzas não é uma punição, mas o desfecho lógico, o suspiro colossal após o clímax. O carnaval sabe que morre. E é neste saber que reside sua profunda sabedoria, pois ele celebra a vida precisamente porque é finito, porque o corpo que hoje se lambusa de glitter e de álcool, amanhã se lavará e se vestirá de luto por si mesmo. A cinza sobre a testa é o último ato da festa, a marca do tempo que, vingado, reassume seu trono.
Então, a cidade recolhe seus confetes. Os corpos, doridos e saciados, retornam aos seus casulos de responsabilidade. A linguagem recolhe suas asas profanas e volta à gaiola da comunicação útil. Mas algo permanece: um resíduo de caos sob a ordem, um eco do riso no silêncio, um tremor no subterrâneo da alma coletiva.
O Carnaval, mais do que festa, é uma necessidade cósmica. É o verbo carnal que a sociedade pronuncia, uma vez ao ano, para não enlouquecer de ser tão só "civilização". É o intervalo necessário de treva dentro da luz, para que a luz conserve seu sentido. E assim, aguarda, adormecido no subsolo dos dias comuns, seu próximo turno de reinar sobre o nada.
