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Práxis

Os filósofos limitaram-se sempre a interpretar o mundo de diversas maneiras; porém, o que importa é modificá-lo.

Práxis

Os filósofos limitaram-se sempre a interpretar o mundo de diversas maneiras; porém, o que importa é modificá-lo.

O sapo se vai, mas carrega consigo a memória do pântano impressa na pele!

28.01.26

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Cá cheguei quando o sapo dava seus primeiros coaxares. No início, era apenas um espaço no qual colocava alguns ovos esparsos, postos com cuidado em canto escondido deste pântano. O Sapo, eu diria, não era naquele momento um simples portal, mas um pântano primordial, um lodaçal fértil onde as primeiras vocalizações digitais de muitos de nós ganharam forma e eco. Em 2005, quando desembarquei nesta margem úmida, trazia apenas as palavras desorganizadas e despretenciosas dispostas em sacolas de plástico. A práxis – essa “rara alquimia” que busca fundir o pensamento trôpego à ação concreta, a reflexão à pegada deixada na lama do mundo, viria à posteriori, com a “profissionalização” deste meu espaço. Isso foi em 2017, se não me engano, quando decidi vocalizar meus coaxares com mais retumbância, embora nunca deixara de o fazer.

Cada post, cada texto esculpido na interface simples, passou a ser a partir daí um ato de fé em um território comum. O blog nunca foi uma vitrine, pois é antes uma trincheira; não um diário, mas um laboratório da teoria, da vida e da existência, como é a práxis dialética. Todavia, como um pântano não se faz apenas com um sapo, senão com milhares e milhões de girinos, não estive só nesta caminhada. Quando me atolei neste lamaçal de ideias, já havia centenas de sapos se expressando, escrevendo contra a correnteza efêmera, acreditando que aquele lento coaxar coletivo, aquele ritmo deliberado de ideias, construía algo mais duradouro que o silício que nos hospedava. Éramos (na verdade ainda somos) sapos e rãs em um mesmo charco, cada um com seu timbre, sua cor, seu canto peculiar, todos unidos pelo húmus escuro e nutritivo deste endereço virtual.

Este charco, sabemos, é um ecossistema completo. Nele, a palavra escrita assume a textura do musgo: viva, úmida, porosa, capaz de reter a chuva das leituras alheias e germinar diálogos inesperados. Nesse sentido, a práxis de cada texto – esses mais de duzentos e vinte gestos de atenção lançados ao longo de quase duas décadas e que cessarão somente em junho de aparecer – não se esgota em si mesma. Ela reverbera nos comentários que ecoam réplicas em tom menor, nas visitas silenciosas que deixam rastros de presença, na teia tênue de uma comunidade que lê, discorda, acolhe.

O Sapo Blogs é essa geografia singular em que o tempo não corre em fluxo laminar, mas em espirais lentas. Há nele uma temporalidade própria, uma paciência de fenômeno natural que resiste à aceleração histérica do mundo lá fora. Texto após texto, concluo que construímos uma catedral de sentido com tijolos de argila digital, cientes de que toda argila retorna à terra, mais resistentes que os pilares de Ken Follett.

Agora, o ciclo aquático se fecha. O anúncio do esvaziamento não é um acidente, mas uma maré baixa definitiva, um refluxo programado do próprio pântano que já vinha secando. É o fim de uma era. E o que fazer diante da evaporação anunciada de um mundo?

A práxis final, talvez a mais difícil, é a do desapego ativo, a do arquivamento como ato de amor e de luto. Cada post salvo, cada imagem resgatada, é como transportar, com as mãos em concha, a água do nosso charco para um recipiente desconhecido. Não temo o esquecimento: adubei este charco isento da soberba capital. Temo talvez a dessecação: que essas palavras, fora desse habitat, percam sua umidade vital, o contexto que lhes deu ressonância e calor. O fim, entretanto, não é abrupto: há uma “longa” agonia, um lento definhar entre 30 de junho de 2026 e novembro deste mesmo ano. E essa extensão é ao mesmo tempo graça e tortura. Graça, porque nos concede o rito de passagem; tortura, porque nos obriga a assistir, dia após dia, ao esmaecimento do cenário em que tantos de nós ensaiamos nossas vozes.

O silêncio que se avizinha não será o vazio absoluto, mas um silêncio qualificado, prenhe dos ecos que não se calam. Quando a última página não carregar, quando o erro 404 se tornar a lápide universal, o que restará? Restará talvez a memória da forma. Restará a experiência íntima de quem, ao clicar em “publicar”, vencia por instantes o medo atávico da invisibilidade. O Sapo se vai, mas a práxis por ele engendrada – o hábito obstinado de pensar escrevendo, de se expor ao outro, de buscar, nas teclas, uma verdade própria – essa é indelével. O pântano seca, os sapos e as rãs migram, dispersam-se por outras paragens, levando no ventre a semente do canto. O território virtual morre, mas a comunidade imaginada que ele forjou sobrevive como um fantasma coletivo, uma constelação de mentes que um dia compartilharam o mesmo céu noturno de bits e signos. O luto, portanto, não é por um servidor, mas por uma paisagem da alma, um lugar-hábito que moldou nosso modo de estar no mundo digital.

Assim, nos despedimos. Sem tristezas, sem soluços, sem mágoas nos despedimos. Vamo-nos sim, com um canto baixo e grave, digno de um anfíbio transmorfo, que aprendeu com a comunidade anfíbia que, dentre um coaxar e outro, ressoa um silêncio contemplativo que nos faz refletir, que nos faz mudar. Despedimo-nos do charco, da água estagnada e generosa, da plataforma que foi muito mais que um host: foi solo, foi raiz, foi casa. Cá entrei um girino; saí contudo um belo Sapo. Nesse contexto, o blog práxis encerra um ciclo nesta árvore que será cortada, não por vontade, senão por “nescessitância”. Mas deixou frutos, que amadureceram e que germinaram. Tanto que a seiva que o animou não cessa; busca novos vasos, novas terras.

A última práxis neste palco é a do fechamento consciente, a da gratidão articulada. Obrigado, Sapo Blogs, por ter sido o lodo onde nossas ideias germinaram, o espelho de água onde nos observamos crescer, o território úmido onde aprendemos a coaxar nossa humanidade para uma plateia de desconhecidos íntimos.

Quando as luzes se apagarem, em 30 de novembro de 2026, não será o fim da conversa. Assim espero. Que seja apenas o momento em que, saindo da água, levemos conosco a umidade essencial, prontos para saltar, com a memória do pântano impressa na pele, em direção a outros terrenos, outros desafios, mantendo viva, em qualquer margem, a arte sagrada de transformar pensamento em verbo, e verbo em pegada no mundo. Que nos encontremos em breve!

 

O quão longe podem chegar as IAs?

26.01.26

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Demandei ontem a duas IAs, DeepSeek e ChatGPT, que me produzissem uma narrativa literária bastante específica. Para ambas, apresentei o mesmo prompt (comando), dando-lhes relativa liberdade na formulação do texto. A ideia que tive foi bastante simples: mostrar o resultado de um prompt mais ou menos bem detalhado trancrito a duas ferramentas de inteligência artificial. No entanto, mesmo que primordialmente buscara apenas observar a diferença do resultado final obtido por estas duas IAs, resolvi aprofundar um pouco o debate discutindo a questão da CONSCIÊNCIA, assunto um tanto caro hoje em dia. Obviamente que não me aprofundarei em demasia ao tema, já que tal tarefa decorreria em muitos e muitos parágrafos, o que definitivamente não é o objetivo de tal artigo. Assim, após a exposição das produções de ambas as IAS, discutiremos essas questões. Passemos, portanto, ao pedido que fiz a ambas:

Gostaria que me produzisse uma narrativa literária completamente escrita em forma de diálogos. Esta narrativa deverá ter um título, possuir três personagens, ser fantástica (fantástica / absurda) e deverá conter um final surpreendente, inesperado e dúbio, de preferência com um belo excipit. Quanto ao tema da narrativa, fica a teu critério a escolha, assim como está completamente aberta a escolha das características das personagens e o espaço da narrativa. Só alerto que se for muito curto corres o risco de não conseguires causar estes efeitos, embora também o tamanho da narrativa fica por tua conta.

Advindo deste pedido (realizado a partir de uma máquina em que não utilizei nenhuma destas ferramentas e cuidando-me por me conectar a elas utilizando uma conta Google que não utilizo para nada), vejamos o que o me entregaram. Iniciarei colando o "produto" entregue pelo DeepSeek, seguindo pelo seu concorrente ChatGPT.

 

DeepSeek:

O Mercado Noturno das Coisas Inexistentes

CENÁRIO: Um mercado de rua que só existe após a uma da manhã, numa viela que durante o dia abriga apenas lixo e gatos magros. Barracas improvisadas com lonas e madeira velha. Em uma delas, iluminada por uma lanterna a querosene, um homem idoso com um casaco remendado arruma frascos de vidro vazios numa prateleira. Aproximam-se dois amigos, ARNALDO (40 anos, prático) e CLARA (35 anos, observadora).

ARNALDO: (Sussurrando) Eu te disse, Clara. É aqui. O lugar que o velho do depósito descreveu. O Mercado das Coisas que Não São.

CLARA: Parece só um amontoado de tralha velha e gente esquisita, Arnaldo. Aquele senhor ali vende sombras? Como se vende uma sombra?

VENDEDOR: (Sem se virar, enquanto polui um frasco) Não se vende a sombra, moça. Aluga-se. Por uma noite. Para quem quer saber como é ser seguido por um vazio mais escuro que o seu próprio.

ARNALDO: (Avançando) Nós procuramos algo específico. Disseram que o senhor… fornece.

VENDEDOR: (Finalmente se vira. Seus olhos parecem focar um ponto atrás deles) Especificidade é um conceito diurno. Aqui lidamos com o inespecífico. O improvável. O que poderia ter sido, mas não foi. O que é, mas não deveria.

CLARA: (Intrigada, apontando para os frascos) E esses frascos vazios?

VENDEDOR: Vazios? Oh, minha cara. Estes são os meus itens mais preciosos. Este aqui, por exemplo. (Pega um pequeno frasco âmbar) Contém o suspiro de desapontamento de um anjo ao ver que a humanidade preferiu o pão à poesia.

ARNALDO: (Cético) Parece vazio.

VENDEDOR: É claro que parece. Um suspiro de anjo não é matéria. É uma pausa na graça. Só se manifesta quando aberto num lugar completamente silencioso. Já este… (pega um frasco azul-turquesa) guarda o eco do primeiro gemido do mundo. É barulhento, mas só para os ouvidos da pele.

CLARA: (Fascinada) E o que o senhor tem que… possa nos ajudar? Meu amigo aqui… ele perdeu algo.

ARNALDO: (Ríspido) Não perdi, Clara. Foi tomado. Roubaram-me o nada.

VENDEDOR: Ah. (Pousa o frasco azul com cuidado reverente) O Caso do Nada Particulamente Sentido. Raro. E doloroso. Descreva.

ARNALDO: Era o nada do meu sótão. Não era um vazio qualquer. Era um nada aconchegante, familiar. Um nada que cheirava a madeira velha e infância. Um nada que eu podia contemplar por horas. Alguém entrou, levou tudo – as caixas, o baú, a velha máquina de costura – e, ao fazer isso, levou embora o meu nada. Deixaram um vazio agressivo, ruidoso. Um vazio que dói.

VENDEDOR: (Assente gravemente) Ladrões de objetos são comuns. Ladrões de ausências… são profissionais. Eles vendem esses nadas personalizados para colecionadores. O Nada de uma Catedral Gótica é muito cobiçado. O de um Coração Partido, também.

CLARA: E o senhor pode devolver o nada dele?

VENDEDOR: Devolver, não. Substituir, talvez. Mas não há muitos nadas em estoque. (Examina as prateleiras) Tenho o Nada de um Calendário Maia após 2012… muito procurado, mas meio performático. Ou o Vazio que Antecede um Espirro… efêmero demais. (Para, os olhos brilhando) Há um. Recém-chegado. Veio do deserto. É o Nada que Fica Dentro de um Sino, Quando Este Não Está Tocando.

ARNALDO: Isso não serve! Eu quero o meu nada de volta! O do sótão!

VENDEDOR: (Fica sério) Então só há um caminho. Você terá que roubá-lo de volta.

CLARA: Roubar? De quem?

VENDEDOR: Do colecionador. Ele mora na cidade. É um homem de posses infinitas e gosto peculiar. Guarda seus nadas em salas especialmente construídas. O seu, pelo cheiro de madeira e infância, deve estar na Ala das Saudades Inúteis.

ARNALDO: E como entramos?

VENDEDOR: (Abre uma gaveta e tira um frasco minúsculo, prateado) Com isto. É o Som da Chave se Encaixando na Fechadura, Antes da Invenção das Fechaduras. É um som de potencial puro. Abra-o diante de qualquer porta, e ela se perguntará se sempre foi uma porta, ou se deseja ser uma passagem. E, por uma fração de segundo, ela será apenas uma ideia de barreira. E você passa.

CLARA: Isso é… absurdo.

VENDEDOR: Pagamento à vista.

Arnaldo paga com notas que, ao saírem de sua carteira, parecem perder um pouco a cor. O Vendedor entrega o frasco.

VENDEDOR: Uma advertência. Ao recuperar seu nada, não olhe diretamente para ele dentro da sala do colecionador. Nada pessoal não suporta o olhar alheio em território alheio. Pode se desfazer. Leve-o rápido para o seu sótão.

Horas depois, ARNALDO e CLARA estão diante de um enorme sobrado moderno. O portão é alto, de ferro.

ARNALDO: (Segura o frasco prateado) Aqui vamos nós.

Ele abre a tampa do frasco. Não sai som algum que eles possam ouvir, mas o grande portão de ferro treme, parece desfocar-se por um instante, tornando-se translúcido como água parada. Eles passam.

Dentro, a casa é um labirinto de salas vazias. Cada sala tem uma sensação diferente: uma é um vazio úmido e pesado (o Nada de um Pulmão Afogado); outra é um vazio frio e pontiagudo (o Nada entre Duas Lâminas de Uma Tesoura Aberta). Finalmente, encontram uma sala pequena, com painéis de carvalho. O ar é poeirento, morno e cheira a brinquedos esquecidos.

ARNALDO: (Sussurrando, emocionado) É este. É o meu nada. Está de volta.

CLARA: (Olhando em volta) Eu… não sinto nada. Literalmente. É estranhamente confortável.

ARNALDO: Vamos. Preciso levá-lo para casa.

Ele faz um gesto amplo, como se recolhesse o ar da sala em seus braços. Clara abre uma bolsa de lona, e ele, cuidadosamente, "coloca" o nada dentro. A sala ao redor parece encolher, ficar mais áspera, mais comum. O vazio roubado foi recuperado.

No caminho de volta, passando novamente pelo portão que agora é só ferro, Clara para.

CLARA: Arnaldo… se ele vendia o som de uma chave que nunca existiu… o que mais ele tem naquela barraca?

ARNALDO: Não importa. Tenho o que é meu.

CLARA: Mas… e se aquele vendedor… (ela para, a expressão se transformando em dúvida pura) Arnaldo. Você tem um sótão?

Arnaldo para de caminhar. Fica imóvel por um longo momento. A bolsa com o nada pesa em seu ombro.

ARNALDO: (A voz é lenta, confusa) Eu… tenho. Tenho, claro. Uma casa com um sótão. Com caixas… e um baú…

CLARA: Você mora em um apartamento, Arnaldo. No décimo andar. Há quinze anos.

Ele a olha, e seus olhos são dois frascos vazios. A memória do sótão, da madeira velha, da infância, começa a esmaecer, desfazendo-se como fumaça. Foi ele quem roubou o nada de alguém? Ou o vendedor plantou a memória do nada em sua mente, apenas para vender-lhe a chave inexistente? O que ele carrega na bolsa?

ARNALDO: Então… o que há dentro da bolsa, Clara?

Ela estende a mão, toca o tecido da bolsa. Não há peso. Não há frio. Não há calor. Não há nada. Mas um nada diferente de todos os outros. Um nada que agora os observa.

CLARA: (Recuando a mão, com um frêmito) Não sei. Mas acho que ele… gostou da gente.

Eles ficam parados sob a luz bruxuleante de um poste, olhando para a bolsa de lona no chão, entre os dois. O mercado da viela, ao longe, já se desfez com o primeiro clarear do dia. Nenhum dos dois se move para pegar a bolsa. E, de dentro dela, um silêncio que nunca foi de um sino começa, muito delicadamente, a crescer.

 

ChatGPT:

O Terceiro Sino

Áurea: Escutas isso?
Baltasar: O quê, exatamente?
Nilo: Não respondas ainda. Se disseres “nada”, o nada cresce.

Áurea: Há um sino que não toca, mas insiste.
Baltasar: Sinos não insistem. Pessoas insistem.
Nilo: E relógios fingem que contam o tempo.

Áurea: O corredor encolheu desde ontem.
Baltasar: Não ontem. Desde sempre. Tu é que te alongaste.
Nilo: Alongar-se é uma forma educada de cair.

Áurea: Estamos presos?
Baltasar: Presos é um verbo para quem acredita em grades.
Nilo: Eu acredito em portas que esquecem o próprio nome.

Áurea: Então por que a maçaneta treme quando me aproximo?
Baltasar: Porque te reconhece.
Nilo: Porque tem medo de ser aberta por alguém que sabe fechar.

Áurea: Vocês falam como se isto fosse um ensaio.
Baltasar: É.
Nilo: Mas o público somos nós.

Áurea: Quantas vezes já dissemos estas frases?
Baltasar: Pela primeira vez, sempre.
Nilo: Pela última, agora.

Áurea: O chão está úmido.
Baltasar: Chão não sua.
Nilo: Mas lembra.

Áurea: Lembra de quê?
Baltasar: Do peso.
Nilo: Do que cai quando ninguém empurra.

Áurea: Quero sair.
Baltasar: Sair para onde?
Nilo: Para dentro costuma ser mais longe.

Áurea: Há uma janela?
Baltasar: Havia.
Nilo: Houve.

Áurea: Por que vocês sabem mais do que eu?
Baltasar: Porque fizemos a pergunta antes.
Nilo: Porque erramos com método.

Áurea: O sino outra vez.
Baltasar: Primeiro.
Nilo: Segundo.

Áurea: Disseste que não toca.
Baltasar: Não toca.
Nilo: Mas conta.

Áurea: Conta o quê?
Baltasar: As decisões que evitamos.
Nilo: As saídas que fingimos não ver.

Áurea: Se eu correr?
Baltasar: O corredor corre mais.
Nilo: E ganha.

Áurea: Se eu gritar?
Baltasar: O eco responde com a tua voz.
Nilo: E cobra direitos autorais.

Áurea: Vocês riem?
Baltasar: Não.
Nilo: Ensaiamos o riso.

Áurea: Quem construiu este lugar?
Baltasar: A pressa.
Nilo: E a falta de nomes.

Áurea: Há um cheiro de papel queimado.
Baltasar: Palavras que não passaram na revisão.
Nilo: Promessas recusadas pelo editor do mundo.

Áurea: Eu me lembro de um jardim.
Baltasar: Todos lembram.
Nilo: Mesmo quem nunca entrou.

Áurea: No jardim havia três sombras.
Baltasar: Eram duas.
Nilo: Sempre são três.

Áurea: Vocês são sombras?
Baltasar: Sou o que sobra.
Nilo: Sou o que falta.

Áurea: E eu?
Baltasar: O intervalo.
Nilo: A pergunta que não aceita resposta.

Áurea: O sino…
Baltasar: Terceiro.
Nilo: Não digas mais nada.

Áurea: Por quê?
Baltasar: Porque depois do terceiro…
Nilo: …alguém tem de escolher quem fica falando.

Áurea: Ficar falando é punição?
Baltasar: É continuidade.
Nilo: Às vezes são a mesma coisa.

Áurea: Eu não quero escolher.
Baltasar: Então escolherás sem saber.
Nilo: É a forma preferida do destino.

Áurea: Baltasar, olha: a porta.
Baltasar: Ela sempre esteve aí.
Nilo: Só aprende a existir quando é nomeada.

Áurea: Vou abrir.
Baltasar: Se abrires, perdes algo.
Nilo: Se não abrires, também.

Áurea: O que perderei?
Baltasar: O direito de reclamar.
Nilo: O privilégio de repetir.

Áurea: E vocês?
Baltasar: Um de nós atravessa.
Nilo: Um de nós explica.

Áurea: Não entendo.
Baltasar: Perfeito.
Nilo: Já estás pronta.

Áurea: O corredor ficou silencioso.
Baltasar: É o respeito antes do erro.
Nilo: É o mundo prendendo a respiração.

Áurea: Vou contar até três.
Baltasar: Não.
Nilo: O sino já contou.

Áurea: Abri.
Baltasar: E então?
Nilo: Diz.

Áurea: Há… uma mesa.
Baltasar: Só isso?
Nilo: Observa melhor.

Áurea: Três cadeiras.
Baltasar: Vês?
Nilo: Sempre foram três.

Áurea: Há papéis com os nossos nomes.
Baltasar: Agora sabes.
Nilo: Agora esqueces.

Áurea: O meu nome está riscado.
Baltasar: Parabéns.
Nilo: Condolências.

Áurea: O que significa?
Baltasar: Que podes sair.
Nilo: Ou que já saíste.

Áurea: Baltasar, o teu papel está em branco.
Baltasar: Alívio.
Nilo: Trabalho.

Áurea: Nilo, o teu… está em chamas.
Baltasar: Ele gosta de finais quentes.
Nilo: Prefiro começos que doem.

Áurea: Quem fica?
Baltasar: Quem aceita a cadeira.
Nilo: Quem responde quando não é chamado.

Áurea: Eu ouvi passos atrás de mim.
Baltasar: Não olhes.
Nilo: Nunca confirmes o que te substitui.

Áurea: A porta está fechando sozinha.
Baltasar: As portas aprendem.
Nilo: E escolhem.

Áurea: Se eu disser adeus?
Baltasar: Adeus é um contrato curto.
Nilo: Com letras miúdas.

Áurea: Então fico em silêncio.
Baltasar: Silêncio também assina.
Nilo: Com tinta invisível.

Áurea: O sino… não toca mais.
Baltasar: Porque alguém está sentado.
Nilo: Porque alguém começou a falar.

Áurea: Sou eu?
Baltasar: És.
Nilo: Foste.

Áurea: E vocês?
Baltasar: Estamos a caminho.
Nilo: Estamos ficando.

Áurea: Não faz sentido.
Baltasar: Faz o suficiente.
Nilo: O resto é literatura.

Áurea: Esperem
Baltasar: Já esperamos.
Nilo: Agora é a tua vez.

Áurea: Quem sou eu, afinal?
Baltasar: A voz que continua.
Nilo: O excipit que ainda não sabe que terminou.

 

No que concerne à qualidade dos textos, deixo a cargo de cada pessoa o julgamento pessoal. O que eu posso informar, a partir da entrega de ambas as inteligências artificiais, é que não conseguiram CRIAR o que lhes pedi. Talvez o DeepSeek tenha sido mais competente na tarefa, criando uma narrativa mais bem articulada e agradável (a meu ver), presando pela escrita teatral. Contudo, a sensação de dúvida (dentre outras coisas), com um final completamente em aberto, no qual @ leitor@ ora pensa em uma alternativa, ora em outra, inexiste. Bem verdade que essa não é uma tarefa fácil; talvez das mais difíceis na escrita literária. Mas o fato é que não se percebe originalidade, não dialoga com outras literaturas ou artistas, não conversa com o mundo em que vivemos. São textos "mortos", até meio cansativos para mim. Em suma, são ambos textos desvinculados da concretude cotidiana, desconexos de qualquer contexto social e / ou político, pois as máquinas que os produziram não possuem vivência real e social, não compreendem, a despeito de todo o conteúdo de que se alimentam, os meandros da sociedade. Em outras palavras, a consciência (e aí refiro-me à consciência como a concebemos) nasce a partir da práxis. Ao não participar da vida material, do mundo do trabalho, ao não interagir socialmente, não estar imersa nas contradições da sociedade, tampouco em não participar da cultura sob a perspectiva histórico-dialética, fica-se impossível de tomar consciência. Sem essa experiência, a IA não desenvolve consciência genuína, pois esta é MATERIAL. O que faz a IA é apenas simular padrões e, quando muito, comportamentos.

Em outras palavras, a consciência humana está ligada à capacidade de transformar a natureza por meio do trabalho, algo que as IAs não são capazes de fazer, embora realizem tarefas consideradas complexas. Não sendo um agente trabalhador, não têm necessidades, não sofrem qualquer tipo de alienação, não convivem com outras pessoas e não se relacionam dialeticamente com o mundo. A "atividade" das IAs nada mais é que um prolongamento da vontade humana e das relações de produção existentes. A ideia de que uma máquina possa ter consciência (ou venha a ter consciência) soa tão estranho quanto a uma divindade sob a lógica materialista: uma projeção antropomórfica e idealista sobre entidades desprovidas de história e corpo. O marxismo rejeita essas visões que tratam a consciência como mera "informação" ou "padrão computacional". A consciência é tratada como inseparável das condições materiais e históricas, algo que as IAs definitivamente não possuem.

Isso vem de encontro ao que já venho discutindo em rodas privadas: que IAs não substituirão humanos no que concerne à criação de conhecimento e jamais criarão de verdade, pelo motivo simples de que jamais adquirirão consciência. Isso não quer dizer, contudo, que não sejam excelentes ferramentas capazes de poupar horas intermináveis de trabalhos mecânico e manual, amplificando assim o desempenho intelectual. Não fosse pela sociedade em que vivemos, poderiam inclusive ser utilizadas para ajudar a libertar o ser humano das garras do trabalho embrutecedor, concedendo-lhe mais tempo para criar e para se desenvolver. Todavia, como se observa, é bem o contrário: provocam desemprego, miséria, insegurança, competição desonesta mesmo entre os oprimidos, acentuam as contradições. Agora, uma observação merece destaque: solicitei o texto primeiramente ao DeepSeek; ao ChatGPT, somente ao findo daquele, é que lhe inseri o mesmo comando. Isso em uma aba diferente do navegador Mozilla Firefox 128.12.0 ESR, utilizando o sistema operacional Debian Linux 13, sem fechar a aba anterior. Notemos que - coincidência? - a IA estadunidense parece ter "roubado" parte da "ideia" da IA chinesa, já que iniciou seu texto abordando questões trabalhadas por aquela a partir de um viés distinto. São as tecnologias se retroalimentando, se apropriando de conhecimento alheio on-line?

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Elogio ao Silêncio

21.01.26

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Em um mundo no qual a palavra é mercadoria, onde o ruído contínuo disfarça-se de comunicação e o fluxo incessante de informação assume a função de antiga pílula de ópio, o silêncio ergue-se não como vacuidade, mas como ato de resistência política radical. O capital, em sua fase hiperacumulativa e espetacular, necessita do burburinho perpétuo: a saraivada de notícias efêmeras, a enxurrada de entretenimento descartável, o zumbido das redes sociais que transformam até a indignação em engajamento métrico e vazio. Este ruído não é acidente, mas instrumento de dominação. Ele fragmenta a atenção, esvazia a profundidade do pensamento crítico e impede a escuta da própria dissonância interna do sistema: o rangido das engrenagens da exploração, o gemido das classes subjugadas.

Calar-se diante desse circo, portanto, é antes um ato de desobediência a uma submissão. É o fechar das comportas sensoriais ao bombardeio ideológico encampado pelo barulho constante. O silêncio consciente, neste sentido, se torna a recusa a participar do jogo linguístico dominante, um espaço de deserção em que o sujeito pode, pela primeira vez, escutar seu próprio mal-estar. E, ao ouvi-lo, pode passar a se reconhecer não como fracasso individual por não estar imerso nesse barulho coletivo, mas a perceber que ele decorre  de uma enfermidade coletiva. É no vácuo do barulho que a semente da consciência de classe, afogada no quotidiano cacofônico, pode encontrar umidade para germinar.

Este silêncio estratégico é, por excelência, o terreno da organização. A burguesia sempre temeu mais o silêncio conspirativo dos oprimidos do que seus gritos descoordenados. Os gritos (desordenados, é bom frisar) podem ser cooptados, transformados em espetáculo, diluídos no mercado das causas políticas refratárias aos ideais libertadores e revolucionários.

O silêncio organizado, porém, é opaco, quase impenetrável, uma massa crítica que se forma à sombra dos holofotes. Foi no silêncio das fábricas, após o toque de sirene, nas conversas sussurradas nos bairros operários, nos círculos de estudo fechados, que a teoria revolucionária pôde ser digerida, discutida e transformada em programa. Isso tudo, é lógico, depois de ser colocada em prática e burilada a partir da experiência. O programa político parte do silêncio, do pensamento prático, mas precisa ser colocado em ação. É o silêncio que precede o esporro, como diria o grupo brasileiro “O Rappa”.

A ação revolucionária mais eficaz, desse modo, não anuncia seus passos aos quatro ventos; ela os calcula na discrição, forja sua força na paciência subterrânea. Celebrar o silêncio é celebrar esta dimensão necessária da luta: o trabalho paciente de agitação e propaganda que não busca likes ou visibilidade imediata, mas a construção lenta e sólida do poder popular. É a antítese do ativismo performático, que muitas vezes reproduz, em sua ânsia por visibilidade, a mesma lógica espetacular do capital. O silêncio organizativo é o útero onde se gesta a disciplina, a confiança mútua e a estratégia, armas infinitamente mais perigosas para a ordem vigente do que o discurso inflamado e isolado.

Além disso, o silêncio é um poderoso instrumento de desmistificação. A narrativa hegemônica sustenta-se em um fluxo contínuo de afirmações que se pretendem naturais e incontestáveis: o mercado é eficiente, a democracia é representativa, o crescimento é bom, o mérito individual existe. Romper com essa cantilena exige momentos de pausa e estranhamento. O silêncio é essa pausa. É o espaço dialético em que a afirmação dogmática, não encontrando eco imediato nem adesão acrítica, começa a revelar suas fissuras. Quando nos calamos diante do discurso do poder, ele é forçado a ouvir a si mesmo, e sua própria vacuidade ressoa.

O silêncio das massas, em assembleias ou em protestos, não é vazio; é um silêncio carregado de interrogação, um julgamento mudo que desnuda a autoridade. É a recusa a fornecer o ruído de fundo que legitima o espetáculo. É um processo lento, bem verdade. E muitas vezes imperceptível. Mas a ladainha política vazia seguida pelo silêncio das bases, denota, no fundo, uma interrogação perturbadora que, mais cedo ou mais tarde, se transforma em ação. Nesse sentido, o silêncio coletivo é uma forma de ação direta não-violenta, um bloqueio ao circuito de comunicação unilateral. Ele cria um vácuo de sentido que o poder tenta desesperadamente preencher, muitas vezes revelando sua face mais autoritária e frágil no processo. É uma greve de ouvidos e de línguas, uma suspensão que desvela a violência simbólica que sustenta a “normalidade”.

No plano da subjetividade, o silêncio é uma prática de desalienação. O trabalhador, sob o capital, é alienado não apenas do produto de seu trabalho e de sua atividade genérica, mas também de seu tempo interior, de sua capacidade de reflexão não instrumental. O ruído ambiental e mental é o ambiente perfeito para essa alienação, pois rouba o indivíduo de si mesmo. Recuperar o silêncio é, assim, um ato de reapropriação. É o momento em que o sujeito pode desligar-se da cadeia de montagem de estímulos e recuperar a integridade de seu pensamento. Longe de ser uma fuga individualista, este é o pré-requisito para uma consciência verdadeiramente coletiva. Só quem escuta a si mesmo pode escutar verdadeiramente o outro; só quem possui um espaço interior de crítica pode engajar-se em uma crítica radical do exterior.

O silêncio meditativo, sob essa ótica, não é resignação mística, mas exercício de higiene mental revolucionária. É a limpeza do palco interno das vozes internalizadas do opressor – o patrão, a mídia, as normas sociais – para que a voz própria, e a voz da classe, possa finalmente ecoar com clareza.

Contudo, é crucial fazer a distinção dialética entre o silêncio dos opressores e o silêncio dos oprimidos. O primeiro é imposto, é a mordaça da censura, a ameaça que cala as vítimas, o apagamento histórico das lutas populares. Este silêncio é a matéria-prima da dominação. O segundo, o silêncio que elogiamos, é escolhido, tático, temporário. É o silêncio que precede a palavra justa, a pausa que antecede o grito coletivo.

A Revolução não é silenciosa; ela é o momento em que o silêncio gestado nas entranhas da classe se transforma em linguagem nova e em ação transformadora. A Revolução é autoritária, pois não se rompe correntes com lambidas. O erro seria fetichizar o silêncio como um fim em si, transformando a resistência em mutismo contemplativo. O elogio ao silêncio é, portanto, um elogio ao seu caráter transitório e instrumental. É a ferramenta que permite escavar abaixo do ruído da superestrutura para atingir as bases materiais e sonoras da realidade, para ouvir o ritmo da história e, ouvindo-o, aprender a dançar (ou marchar) no compasso certo.

Por fim, o silêncio revolucionário é aquele que guarda os segredos da organização, que respeita o ritmo histórico sem precipitações vanguardistas e pós-modernas, que sabe que a mudança real não se anuncia com estrépito midiático, mas se constrói no trabalho de formiga das bases. Numa era de superexposição e vigilância total, a capacidade de guardar silêncio é um ativo estratégico inestimável. É a defesa contra a repressão, a garantia da segurança militante, a proteção do espaço autônomo de construção do poder popular. Elogiar o silêncio, na tradição marxista, seria reconhecer que a luta de classes se trava também no campo da percepção e da comunicação. É entender que, às vezes, a palavra mais radical é a que não é dita. Este silêncio não é ausência, mas potência concentrada. É o ponto de tensão máxima antes da ruptura, a respiração profunda da história antes do parto do novo. Na disciplina deste silêncio consciente e coletivo, reside não a passividade, mas a mais alta forma de atividade preparatória: a paciência revolucionária.

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Réveillon? Tá louco!

01.01.26

Réveillon.jpg

Por Dario Souza da Silva, colaborador e Amigo.

 
Ano novo, ano novo. Mais um ano novo...
 
Talvez seja a conta da idade chegando, ou a loucura da correria cotidiana em busca do pão de cada dia, ou as notícias catastróficas que parecem se intensificar nesse período, mas esse negócio de ano novo já está batido! Ao menos pra mim.
 
Depois que a virada do ano se tornou Gourmet e passou a ser chamada de réveillon, parece que tudo se tornou artificial. A obrigação de parecer estar feliz, principalmente no que é divulgado nas redes sociais; a obrigação de viajar para algum lugar acima de suas possibilidades, apenas para estar na crista da onda na hora da virada; a quantidade exagerada de explosões de fogos de artifícios, que geram uma paisagem auditiva que lembra um cenário de guerra; as cores das roupas escolhidas de acordo com os objetivos desejados para o ano seguinte, numa tentativa insana de hackear o sistema através de mandingas; a obrigação de todos criarem uma lista de coisas a melhorar ou conquistar no ano seguinte. É quase que uma regra nessas listas: "emagrecer" e "Evoluir como pessoa", porém no réveillon todos devem beber e comer como se não existisse amanhã, para, a partir do dia seguinte, pelos próximos poucos dias, colocar em prática a lista. Nessa época do ano é comum que se arranjem dívidas que perdurarão por todo o ano seguinte.

A impressão que me causa é que no réveillon todo mundo entra numa espécie de transe coletivo e se esquece de que no dia seguinte "é preto na folhinha". Exatamente igual a todo o restante do ano. Nada do que se tenha feito na virada do ano vai mudar essa realidade. A única forma de mudar é olhando as coisas de forma filosófica, tentando entender os porquês das coisas e promover mudanças internas, reformulando suas perspectivas e evoluindo como pessoa, não por uma imposição cultural/mercadológica, mas como uma necessidade de entender melhor o mundo e a si próprio. Somos uma geração que, em média, passa mais tempo trabalhando que os camponeses da Idade Média. Passaremos o ano trabalhando! E pior, a menos que nos aposentemos por invalidez, ganhemos na loteria ou morramos, passaremos a vida trabalhando.

Você pode estar pensando: "essa é uma das poucas épocas do ano que o trabalhador tem algum tipo de liberdade". Dai eu lhe pergunto: mas e aqueles trabalhadores que mantém a festa Gourmet funcionando: músicos, seguranças, montadores, cozinheiros, garçons, garis, entre outros... Será que todos os trabalhadores têm essa liberdade? Não! E o pessoal da área da saúde, enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem, médicos, os trabalhadores de hospitais em geral, que durante essa época trabalham em clínicas movimentadas e estressantes? E o pessoal dos serviços essenciais: transporte, limpeza pública, segurança, fiscalizações, trabalhadores do ramo hoteleiro e de restaurantes, como é que ficam? Você deve estar ponderando: "mas eles não são a maioria". Realmente, não são. Mas ainda assim são uma massa imensa de trabalhadores.

A verdade é que tudo se resume a quem trabalha e quem explora o trabalho e o consumo. A lógica capitalista nos sequestrou até o significado lúdico das coisas. Seja Natal, Virada do ano, Páscoa e por ai vai. Tudo tem que ser um evento espetacularizado, instagramável e que gere engajamento nas redes, mas invariavelmente esvaziado de sentido. Aquela "virada raiz", com os amigos e familiares, comida boa e com aquela festa a la anos 80/90, sem pompas, na qual a preocupação das pessoas era estarem juntas e se divertirem, em casa mesmo, se tornou raríssima.

A única forma de subverter essa lógica é através de uma revolução. E toda revolução inicia pequena, inicia dentro de alguém, um "louco", que "do nada" - aos olhos dos "não loucos" - resolve agir diferente da massa. Daí um outro "doido" se inspira nesse "louco" e "enlouquece" também. E assim o fermento da mudança começa a crescer.

Feliz 2026 a você que está enlouquecendo.