Tempestade

A ilha sempre fingira estabilidade, um dorso eterno de pedra oferecido ao sol. No alto, as casas grandes, de muros alvos e varandas vigilantes, bebiam a brisa como quem sorve um privilégio antigo, naturalizado. Embaixo, na enseada em forma de punho cerrado, o mar lambia as tábuas dos casebres com uma paciência irônica, como quem sabe esperar — nada entre esses dois espaços, a não ser as muralhas frias das falésias que separavam estes dois mundos. Naquele dia, porém, fora diferente: o céu se adensou sem aviso, um escurecimento que não pedia licença nem dava explicação. Era o anúncio de uma tempestade que chegava sem dar recado, cedo demais. Chuva premonitória. Nem o calor esturricado suportaria tamanha massa de água que se avizinhava: nuvens carregadas, de um cinza azeviche, pesadas, baixas e violentas, se deslocavam do sul rapidamente, fazendo a temperatura despencar. A tempestade veio então sem método. Nada de uma chuva fina, educada, descendo pelas encostas como um cálculo: descambou logo pesada, água engrossada, multiplicada, carregada de raios, essas artérias furiosas que conectam a cólera acumulada das nuvens à sede da terra. Chegou arrastando consigo a poeira acumulada dos jardins altos, os restos de construção, o excesso de tudo aquilo que se empilha onde há sobra. As calhas dos ricos cuspiram com violência o que não podiam mais conter e o que era escoamento virou sentença. Na enseada a água não chegava pura, vinha barrenta, pastosa, transbordando pelas beiradas das ruas, escura demais para ser água, pois vinha carregada de folhas caras, de lama fértil demais, de resíduos que nunca haviam sido pensados para descer. Jorrados por enormes correntezas que pareciam estar lá desde sempre, os barracos de baixo rangiam antes mesmo de serem tocados, como se o pressentimento fosse um conhecimento antigo. Cada estocada desferida sobre os casebres embebia seus interiores pelas frestas largas das estruturas já frágeis. E cada estaca fincada na areia, ao ser lambida agora pelo furor dessas águas polutas, lembrava-lhes o quanto a areia não promete nada, o quanto é instável e desordenada. A encosta parecia um organismo que suava seus excessos sobre quem estava abaixo. Nada ali era exatamente culpa, mas responsabilidade. A chuva obedecia à gravidade, e a gravidade, por sua vez, obedecia ao desenho invisível dos lotes, às escrituras, às cercas bem alinhadas. E embora a torrente de água não escolhia onde caía, sendo homogênea em toda a região, a água sabia por onde correr porque alguém já havia decidido onde era permitido ficar seco. Quando o primeiro barraco cedeu, não se ouviu os gritos; a madeira apenas desistiu, como um corpo cansado de sustentar o que nunca foi leve. Foi tão rápido e intenso, que os residentes dali mal tiveram tempo de saquear de seu interior as crianças e a cachorrinha, tão assustada e temerosa que não conseguia latir. O mar recebeu os destroços com a indiferença de quem já viu muitos naufrágios domésticos. E a enseada, calosa já de tantos despojos, se enchia de ruído: telhas batendo, móveis boiando, memórias dissolvidas em uma espuma barrenta. O caos estava instaurado, mas de cima não se ouvia nada além do estardalhaço das águas chocando-se contra as telhas das casas nobres. Lá em cima, por sua vez, as luzes acenderam mais cedo. Cortinas grossas foram fechadas contra o vento, taças foram afastadas das janelas. A tempestade era assunto, comentário, talvez um incômodo estético. O som da chuva nos telhados bem feitos soava, para alguns, quase como um aplauso contido, um espetáculo seguro de quem jamais sentiu na pele a “temperatura da calçada”, como se diz. No fundo da enseada, porém, a noite não precisava de lâmpadas; a água refletia um brilho opaco, misto de céu e esgoto, e o chão desaparecia sob os pés. Não havia para onde subir, tampouco para onde fugir. O que restava era enfrentar os escombros e se ancorar nos vizinhos, que padeciam da mesma fortuna. Aqueles que construíam o mundo, incluindo as mansões daqueles que residiam sobre suas cabeças, não tinham agora sequer onde morar. A fragilidade deste mundo cindido e desumano ficava escancarada com a tormenta raivosa que persistia em continuar. Era a natureza demonstrando ao homem quão frágil era sua natureza e quão limítrofes eram as condições daqueles mais explorados. Crianças sujas ao relento, olhos esbugalhados buscando amparo em si mesmas. Mulheres e homens desesperados vendo o pouco que tinham sendo engolido pelas águas. Animais domésticos correndo aos círculos, como cegos buscando farejar odores inundados pelas águas. A ilha, que sempre prometera horizonte, mostrava agora seu desenho vertical: quem nasce embaixo aprende cedo que o mundo escorre. Lição de geografia coreografada pela correnteza. A chuva insistia, disciplinada, como se cumprisse um contrato antigo. Nada ali era exceção. A tragédia não rompia a ordem, apenas a tornava visível e ainda mais cruel. Cada tábua arrancada era um parágrafo de um texto escrito muito antes, quando se decidiu que a vista era mercadoria e o risco, um detalhe transferível. A chuva surgia tão pulsante e veloz que os animais das ruas sequer tiveram chances de se precaver. Baratas boiavam, de pernas para cima, mortas pelas águas; um camundongo, desesperado, buscava salvar-se: nadando de maneira desordenada, chiava violentamente pela vida. Compadecido, um homem o ajudou a procurar uma região mais alta, protegida da inundação. Vendo-se talvez naquele pobre animalzinho, o homem sentiu o peso frio da cumplicidade. Ele não era um salvador; era um sobrevivente tardio, um que acordara no meio do desastre e tentava, em um gesto ínfimo, descrever um parágrafo do texto já rubricado. A chuva não cessava, apenas cumpria sua cláusula, página após página. Então o homem seguiu seu caminho pela correnteza, convicto de que todos ali não passavam de meros camundongos, com a diferença de que não havia mão externa alguma para ajudá-los a superar a tragédia. Daquela cumplicidade forjada na lama, brotou uma solidariedade rude e necessária. Como casas açorianas amparadas pelas paredes e com as portas despontando para as ruas — clara solução protetiva e de resistência daqueles desumanizados pelo mundo que os oprimia —, a comunidade se organizou para não definhar. Por meio de mutirões salvaram o pouco que lhes restava: alimentos industrializados, roupas molhadas, colchões que boiavam… Nada daquilo que lhes mantinha agarrados ao pouco de dignidade que lhes restava ficou de fora. E no centro da pilha úmida, uma garrafa de espumante. Destinada outrora ao brinde íntimo de uma única família, ao esplendor ilusório de um 2026 que se descortinaria dali a menos de três dias, repousava como uma promessa recalcitrante. Seria aberta quando a água recuasse, não por um, mas por muitos: seu conteúdo consagraria não uma data no calendário, mas o pacto tácito daquela irmandade acidental. A própria tragédia entregara-lhes a única coisa intransferível: o outro, igualmente à deriva, igualmente agarrado ao último fragmento de chão seco. Vítimas do mundo violento e vertical que os cercava, o ombro ao lado era o único farol possível. Quando a tempestade começou a ceder, deixou para trás um silêncio viscoso. A enseada já não tinha forma de abrigo, senão de inventário. O mar, saciado, devolvia o que podia, reorganizando os restos segundo uma lógica própria, mais honesta do que qualquer planejamento urbano. No dia seguinte, o sol voltou sem pedir desculpas e sem dar explicações. A ilha reapareceu bela, quase intacta, como se nada tivesse acontecido. Mas o cheiro permaneceu, subindo devagar das margens, lembrando que certas construções só se mantêm porque outras são feitas para cair — e que a chuva, ao fim, apenas revela aquilo que sempre esteve mal assentado.
