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Práxis

Os filósofos limitaram-se sempre a interpretar o mundo de diversas maneiras; porém, o que importa é modificá-lo.

Práxis

Os filósofos limitaram-se sempre a interpretar o mundo de diversas maneiras; porém, o que importa é modificá-lo.

As três verdades

07.12.25

Arte abstrata três: Divisão das meninas encarada em três rostos - Ekaterina GorbunovaPara o Nícolas Cunha Chastanet, o melhor "futuro(?)" médico otorrino da cidade. Porque hoje é o seu dia.

— Tu vieste rápido.
— Disseste que era urgente.
— De fato. Senta-te.
— Não vou me sentar enquanto tu não explicares por que me chamaste às três da manhã.
— Porque descobri.
— Descobriste o quê?
— Quem matou o Rafael.
— … Não brinques com isso.
— Não estou brincando.
— A polícia não encontrou nada.
— Porque procuraram no lugar errado.
— E tu, que nem detetive és, achaste a resposta?
— Não eu.
— Quem, então?
— Ele.

(Silêncio)

— Tu estás dizendo que… falaste com ele?
— Sim.
— Isso é impossível.
— É. Mas aconteceu.
— Como?
— Pelo telefone.
— Ele está morto!
— Morto para ti.
— O que isso deveria significar?
— Que ele não está morto para mim.
— Para com isso; estás me assustando.
— Ele pediu para eu te contar três verdades.
— Verdades sobre o quê?
— Sobre tu, ora.

(Silêncio mais denso)

— Sobre mim?
— É.
— Eu não fiz nada.
— A primeira verdade é que tu estiveste com ele na noite em que ele sumiu.
— Eu já disse: foi coincidência; estávamos no mesmo bar.
— A segunda verdade: tu saíste atrás dele quando foi embora.
— Eu só fui pegar o meu casaco!
— A terceira verdade…
— Não quero ouvir.
— Vais ouvir.
— Não vou!
— Tu vais, porque ele mandou dizer.
— Dizer o quê?!
— Que tu não precisavas tê-lo empurrado.

(Outro silêncio. Quase sólido)

— Tu… Tu... não sabes de nada.
— Sei.
— Não sabes o que aconteceu de verdade!
— Sei.
— Ele escorregou!
— Não escorregou.
— Eu tentei ajudá-lo!
— Não tentou.
— Como tu podes afirmar isso? Tu não estavas lá!
— Eu estava.
— Mentira.
— Eu sempre estive.
— Não faz sentido.
— Faz. Porque eu não morri naquela noite.
— O quê…?
— Quem morreu… foste tu.
— Isso é loucura.
— Queres ouvir a voz dele?
— De quem?
— Do Rafael. Ele ainda está na linha.
— Isso não… não pode…
— Atende.
— Eu estou com o telefone aqui. Não toca.
— Toca, sim.
— Não…
— Tu só não escutas.

(Um som distante inicia: trim… trim… trim…)

— Estás ouvindo agora?
— Eu… não…
— Atende.
— Estou com medo.
— Atende.
— Mas… se eu atender… o que acontece?
— A mesma coisa que aconteceu comigo.

(O telefone soa mais alto: TRIM! TRIM! TRIM!)

— Atende.
— Eu… eu...

(Clic)

— … Alô?

(A porta atrás deles se fecha)

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