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Práxis

Os filósofos limitaram-se sempre a interpretar o mundo de diversas maneiras; porém, o que importa é modificá-lo.

Práxis

Os filósofos limitaram-se sempre a interpretar o mundo de diversas maneiras; porém, o que importa é modificá-lo.

Parabéns, Tias Professoras

15.10.22

Voando

Parece que foi ontem. Era uma manhã de 1987. Eu, com meus 07 anos de idade descendo minha rua para ir ao ponto de ônibus pegar a condução para ir à escola que meus pais tinham me matriculado. Chamava-se Alferes Tiradentes, uma instituição de caráter militar brando, que eu iria descobrir somente anos mais tarde, muito tempo depois de tê-la deixado, em 1991.

Apesar de não ser novidade uma sala de camaradinhas, aquela era uma sensação bastante nova e bastante empolgante. Roupas engomadas, material escolar novo, tênis brilhando, mochila, lancheira e cabelo penteado após uma noite mal dormida, ansioso para que amanhecesse e fosse à minha primeira aula. A escola situava-se no centro da cidade, na Rua Tiradentes, esquina com a Avenida Hercílio Luz. Eu nada conhecia do centro, pois, à minha época, a infância fora toda vivida e construída com amigos, amigas, parentes e camaradinhas do Nei Judite Fernandes de Lima, ao lado de minha casa, no bairro Saco Grande I (hoje João Paulo).

Na época não tínhamos carro, a ponte Hercílio Luz, nossa "velha senhora", estava praticamente fechada, quase sem condições de tráfego, e os ônibus eram poucos, apesar de ser um bairro vizinho ao centro. Mas nada me incomodava: nem a estrada de chão, tampouco o tempo que ficaria na parada, muito menos o tempo que levaríamos para lá chegar, apesar de minha ansiedade. A mim só importava experienciar essa nova sensação, que não se iniciaria na escola, mas desde a hora em que me levantei da cama para ir para minha primeira aula. Era como se aquela criança - que há poucos dias estava na pré-escola - amadurecesse horrores de uma hora para outra. E pensando bem, acho que foi isso mesmo.

Meu primeiro dia de aula na escola oficial (agora eu era um aluno de verdade, pois não estava mais na pré-escola - já fazia parte das pessoas que faziam história) correspondeu às expectativas, a julgar pelas memórias. Até hoje me lembro da tia Marluce: professora negra do primeiro ano que me ensinou as primeiras letras, os primeiros cálculos matemáticos e as primeiras lições de ciências. Que maravilha foi adquirir aquele conhecimento. Como fora honesta, sincera, perseverante e generosa a tia Marluce. Aliás, todos os colegas da classe foram-me generosos: durante os primeiros meses sempre era eu quem terminava minhas tarefas mais tarde. Principalmente as atividades de escrita. E todos, pacientemente, sempre me esperavam terminá-las, sem nada falar e sem me criticar, respeitando o meu tempo.

Os primeiros anos de escola foram uma descoberta enorme, mas nenhum foi como o primeiro ano escolar. E deste ano, creio que a primeira semana vivida dentro da salinha apertada do Colégio Alferes Tiradentes, quase um corredor onde compartilhava experiências com meus novos comparsas, foram de todas as melhores experiências daquele período em diante. Pelo menos até a chegada à Universidade. E digo daquele momento em diante porque, durante minha pré-escola, meses antes, visitei o circo. Conduzido por uma professora, a tia Ione, mulher negra também, com uma fala mansa gostosa e com um sorriso encantador, levou-nos (a sua filha, a meu irmão e a mim) em uma matinê circense.

Eu, uma criança de 06 anos, no circo. Encantado, maravilhado, estupefato... no circo. Que vislumbre! Que encantamento! Que ensinamentos. Uma de minhas grandes memórias de infância a desta tarde. Tão clara quanto este momento! Fora a primeira vez que voei, que me deixei levar tão alto quanto uma criança de 06 anos poderia ir. E devo este despertar à tia Ione, minha professora da pré-escola, muito amiga de minha tia Maria, a merendeira, e amiga pessoal de meus pais. Escola de bairro, de cidade pequena. Escola onde as pessoas são amigas, são parentes e as professoras e professores parecem continuar com a educação fora do seu expediente: nas ruas, em nossas casas etc. Como se quisessem sempre nos indicar o rumo certo a tomar, ao menos nos primeiros anos de nossas vidas.

Quanta falta me fazem estas tias professoras. E quão decisivas foram na minha formação. Em anos de grandes dificuldades, de retiradas de direitos, de baixos salários, de péssimas condições de trabalho desses profissionais tão importantes, é nelas (e em outras e outros professores) que me espelho. É também por eles que continuo nesta jornada. Que esse dia 15/10, dia do professor, nos sirva de reflexão e de inspiração. E nos dê forças para continuarmos nossa tarefa - dentro e fora da escola -, assim como fizeram Tia Ione e Tia Marluce, sempre vivas em meu coração. Que descanse em paz a Tia Ione, que já deixou este plano. E que Tia Marluce, se ainda viva for, que viva plenamente seus últimos dias, ciente de seu trabalho muito bem realizado. Esse texto e o dia de hoje dedico a elas e àqueles(as) que nos formaram, apesar dos ataques, das lutas que travaram (e travam) pela sobrevivência e das dificuldades que enfrentam. VIVA as Tias Professoras!

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