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Práxis

Os filósofos limitaram-se sempre a interpretar o mundo de diversas maneiras; porém, o que importa é modificá-lo.

Práxis

Os filósofos limitaram-se sempre a interpretar o mundo de diversas maneiras; porém, o que importa é modificá-lo.

A deliciosa inutilidade da Literatura

24.04.22

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Retrato, de Cecília Meireles.png

 

 

 

 

 

 

 

A epígrafe deste texto talvez não fique clara à primeira vista. Este belo Retrato de Cecília Meireles fala sobre os efeitos do tempo e de como - embrenhados em nossas atividades cotidianas - perdemos nosso vigor e nossa juventude. O "eu poético" denota um certo tom de arrependimento por não ter vivido plenamente e por ter deixado a juventude e o vigor escaparem-lhe pelas mãos sem que notasse.

Mas juro! Juro que a epígrafe cabe na medida do bolso para este curto ensaio. Primeiro porque falamos de Literatura, como sugere o título; depois porque falamos de sua (in)utilidade. Em vários outros artigos aqui neste blog dissertei sobre o tema, visando a justificar a necessidade da arte e da literatura e intentando mostrar a indispensabilidade de ambas em um mundo como o que vivemos, principalmente neste mundo onde vivemos.

E este é um raciocínio que continua válido, afinal não seria sensato cuspir no prato em que como. Carlos Drummond de Andrade no poema No meio do caminho assim canta: No meio do caminho tinha uma pedra / tinha uma pedra no meio do caminho / tinha uma pedra / no meio do caminho tinha uma pedra (...). São belos versos de um poema muito conhecido de um dos nossos poetas maiores e que serviriam também para ilustrar brilhantemente a epígrafe deste texto que pretende responde a pergunta "Pra que serve a Literatura?".

A este questionamento sejamos categóricos e assumamos uma postura corajosa ao respondê-lo: a Literatura não serve para nada, não tem qualquer utilidade. E acrescento: essa sua inutilidade além de indispensável é deliciosa. Mas o que se pretende dizer com isso?

Antes de mais nada coloquemos as coisas em ordem: por "utilidade" compreende-se geralmente a produção de algum bem ou serviço que tenha usufruto imediato. Este o sentido mais prosaico e que se remete diretamente a um bem (i)material. Sob este aspecto, a atividade do professor que ensina sua displina é prática, assim como a da médica, que prescreve seus medicamentos e a da engenheira, que realiza seus cálculos para a contrução de um edifício. Essa perspectiva não é válida, contudo, para a Literatura, assim como para a arte em geral.

Confessar entretanto sua inutilidade não é o mesmo que afirmar que ela seja desnecessária. Pelo contrário! O fato de não solucionar um problema imediato não a qualifica como algo supérfluo. Caso assim fosse, a própria ciência seria supérflua em muitos aspectos. Bem da verdade, ela é essencial ao ser humano, como dissertei várias vezes por estas paragens.

Embuído de um espírito pragmático no sentido mais estrito e banhado por propagandas constantes que buscam não transmitir uma mensagem senão vender alguma coisa, o ser-humano contemporâneo vê-se muitas vezes a si próprio como uma mercadoria que deve ser útil se quiser ser boa e não ser descartável. Isso faz com que tudo a nossa volta seja percebido sob essas lentes: se for vantajosa a manutenção de um relacionamento, por exemplo, por que desprezá-lo? Se fulano ou cicrano me trazem retorno, me agregam clientes ou trazem outras possibilidades por que dispensar esses relacionamentos mesmo que sejam danosos, não sejam de confiança ou camaradagem? Este espírito oportunista de serventia prática que permeia nossas relações e que transmite ideias como a de "sujeito pró-ativo" ou "sujeito reativo", que já se tornaram jargões entre os trabalhadores, significa o inverso daquilo a que a Literatura se propõe.

Essas relações interpessoais nas sociedades contemporâneas, fragmentadas e guiadas por interesses de cunho meramente prático e mercadológico, aceleradas todas elas e padronizadas todas, provocam muitos males em massa, ocasionando também as sensações de incompletude, de incompetência e de frustração, muito bem apresentadas pelo sucinto poema de nossa maior poetisa.

A literatura e a arte caminham na contramão dessa lógica utilitarista, sendo portanto inúteis em nossa sociedade, embora necessárias. A partir do viés pragmático, por exemplo, a simples existência de uma pedra no meio do caminho seria desprezada. No contexto da Literatura, com toda sua carga simbólica e sua preocupação com a "beleza", o obstáculo não é desconsiderado, podendo ser a pedra a ignorância que nos bloqueia. E se é correto que o poema de Drummond não auxiliaria o trabalhador na manutenção da via em questão, não é inverdade que sua poesia o daria ao menos o curto acesso a um instante de beleza.

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