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Práxis

Os filósofos limitaram-se sempre a interpretar o mundo de diversas maneiras; porém, o que importa é modificá-lo.

Práxis

Os filósofos limitaram-se sempre a interpretar o mundo de diversas maneiras; porém, o que importa é modificá-lo.

Declaração da LIT-QI | Fora as garras de Putin, EUA, OTAN e União Europeia da Ucrânia!

24.02.22

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Por uma Ucrânia unificada livre da opressão russa!

Por: LIT-QI

1- Putin acaba de assinar um decreto reconhecendo as “autodenominadas repúblicas” de Donetsk e Lugansk como Estados independentes, desvinculados da Ucrânia. Paralelamente, apoiando-se em “tratados de amizade” assinados com as autoridades fantoches desses territórios, enviou tropas para a área com a desculpa cínica de “salvaguardar a paz”.

2- O reconhecimento dessas “repúblicas” fantoches, sustentadas por quadrilhas paramilitares controladas por Moscou, com o apoio do exército russo, é uma agressão frontal à soberania nacional e integridade territorial da Ucrânia. Esta agressão russa é uma continuidade da anexação da Crimeia em 2014.

3- O reconhecimento dessas falsas repúblicas independentes por Putin explode o Acordo de Minsk, assinado em 2015 para deter a escalada militar. Este acordo, imposto à Ucrânia sob o pretexto da superioridade militar russa, mantinha o status quo favorável à Rússia e reconhecia a “autonomia” desses territórios do Donbas. No entanto, mesmo assim, esses territórios foram formalmente reconhecidos como parte da Ucrânia. O acordo também incluía a retirada de grupos paramilitares pró-russos da área e a recuperação do controle das fronteiras pelo governo ucraniano. Porém os grupos paramilitares nunca foram embora, mas foram reforçados, e a Ucrânia também não recuperou o controle de suas fronteiras orientais. Agora Putin não reconhece mais esses territórios como parte da Ucrânia e envia seu exército para protegê-los.

4- O reconhecimento representa o risco direto de agressão contra o resto dos territórios do Donbas, dos quais as repúblicas fantoches de Donetsk e Luhansk ocupam apenas um terço, embora reivindiquem todo esse território em suas “constituições”. Isso desencadearia uma guerra com milhares de mortes, devastação e consequências imprevisíveis.

5- O reconhecimento da independência dessas “repúblicas” e o envio de tropas russas foram acompanhados por um discurso televisionado de Putin de grande importância no qual, além de justificar suas ações com acusações surrealistas de um suposto “genocídio” da população russa nos territórios do leste ou do caráter “nazista” do regime ucraniano, expôs, com a solenidade de grandes ocasiões, as aspirações imperiais do capitalismo russo. Um capitalismo fraco, dependente financeiramente e reduzido ao papel de fornecedor de energia, mas ao mesmo tempo, uma superpotência militar herdada da URSS. Suas aspirações repousam, em primeiro lugar, na subjugação das ex-repúblicas soviéticas que pertenciam à URSS.

6- Putin, amigo de toda a ultradireita europeia, que admira seu regime ultranacionalista e autoritário, foi muito nítido ao dizer que a Ucrânia foi “uma criação dos bolcheviques” quando não é mais do que parte integrante da Rússia. Ele atacou violentamente os princípios de Lenin sobre nacionalidades: “Nós demos a eles o direito de deixar a URSS sem termos ou condições. Isto é uma loucura”. Em vez disso, elogiou Stalin, que reprimiu com sangue todas as aspirações nacionais dos povos soviéticos e impôs uma opressão feroz ao nacionalismo grã-russo, em continuidade direta com a política czarista que Lenin combateu frontalmente.

7- Para Putin, o colapso da ex-URSS, que permitiu a liberdade nacional dos povos submetidos ao nacionalismo grã-russo, foi “a maior catástrofe do século XX” que deve ser revertida. E como não pode fazer de outra forma, ele usa a força militar. Além da Ucrânia, é o caso do apoio ao regime autoritário de Lukashenko na Belarus diante da insurreição popular. Ou a recente intervenção de tropas russas no Cazaquistão (abençoadas nesta ocasião pelos EUA, UE e China), visando esmagar a revolta popular contra o regime daquele país, que foi realizada sob a égide da aliança militar CSTO (formado pelo governo russo e os das ex-repúblicas soviéticas).

8- Um dos argumentos que Putin vem usando para justificar sua política em relação à Ucrânia é o cerco militar ao qual a Rússia está, efetivamente, submetida pela OTAN. Mas para se defender verdadeiramente contra esse cerco, o governo russo deve convocar a mobilização dos povos ucraniano e europeus, norte-americano e russo contra o aumento da presença militar e das ameaças, e também exigir medidas radicais de desarmamento mútuo. Mas Putin e os oligarcas russos que ele representa temem mais as massas populares do que o imperialismo e não estão dispostos a enfraquecer o militarismo grã-russo, seu grande trunfo contra o povo russo e os povos de sua periferia, seu único ponto forte onde apoiar suas aspirações contra as grandes potências. Assim, a “defesa” de Putin contra a OTAN é uma agressão brutal contra a nação ucraniana. Com isso não faz nada mais do que oferecer argumentos para que os EUA, a OTAN e a UE apareçam como os protetores da Ucrânia, para transformá-la em uma semicolônia militar da OTAN e aumentar sua presença militar no leste da Europa.

 

Fora as garras dos Estados Unidos, da OTAN e da União Europeia!

9- Mas as ações dos EUA, da UE e da OTAN nada têm a ver com a defesa da soberania ucraniana, cinicamente manipulada segundo os interesses de duas facções contrarrevolucionárias: a Rússia de Putin de um lado e, de outro, o imperialismo norte-americano, sua OTAN e seus sócios europeus. Ambos os lados estão usando o conflito ucraniano para defender suas posições, fortalecer o militarismo na Europa e no mundo e alimentar uma corrida armamentista.

10- O conflito na Ucrânia é também um palco de operações em que os EUA buscam fortalecer sua autoridade em relação à União Europeia, em particular à Alemanha, em detrimento de suas relações com a Rússia, seu principal fornecedor de energia. Em última análise, os EUA querem disciplinar a Alemanha rigidamente em sua grande disputa com a China.

Mais de 150.000 soldados russos cercam a Ucrânia desde novembro de 2021

  • A Rússia não tem direitos sobre a Ucrânia. Fora as tropas russas e paramilitares de Donbas. Retirada das tropas e equipamentos militares russos da fronteira oriental e da Belarus. Devolução da Crimeia.
  • Dissolução da OTAN. Fora as tropas e bases americanas dos países da Europa Ocidental e Leste Europeu.
  • Dissolução da aliança militar CSTO (Organização do Tratado de Segurança Coletiva) do Estado russo com as ex-repúblicas soviéticas, usada para enviar tropas para esmagar revoltas populares e apoiar oligarcas submissos, como no Cazaquistão.
  • Por uma Ucrânia unificada, livre da opressão russa, fora das garras dos Estados Unidos, da OTAN e da União Europeia.
  • Contra a política opressora do nacionalismo “grã-russo” de Stalin e Putin, reivindicamos a política leninista do direito à autodeterminação nacional dos povos.
  • Parar a militarização e a corrida armamentista. Redução drástica dos orçamentos militares. Destruição de arsenais nucleares e armas de destruição em massa.

Por uma Ucrânia da classe trabalhadora.jpeg

Socialismo e meritocracia

23.02.22

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Um argumento mil vezes repetido sobre a impossibilidade do socialismo é que somente no capitalismo teríamos estímulos para as ações e iniciativas individuais. Segundo essa lógica, esta forma de sociedade estimularia a inovação e o “mérito” de cada um, por estar baseada na competição de todos contra todos. Sem tal competição generalizada, os indivíduos se paralisariam, já que não teriam compensação individual pelos sucessos de seus esforços e a livre iniciativa.

Esse raciocínio é curioso, pois se observarmos a sociedade capitalista com profundidade, para além da aparência de um mundo de indivíduos soltos no mundo com suas capacidades individuais, veremos que é a forma menos meritocrática que já existiu na história; conceito que, por si só, já precisa ser problematizado, como veremos abaixo.

Quem elabora as ideias, realiza os projetos, inova e constrói toda riqueza de que dispomos – sejam iphones, aviões, automóveis ou sistemas computadorizados – são indivíduos que atuam como trabalhadores assalariados, cuja remuneração é proporcional a sua qualificação. Esses trabalhadores e trabalhadoras, quaisquer que sejam suas aptidões e talentos desenvolvidos no decorrer da vida, estarão sempre sujeitos à demissão e aos rumos incertos do mercado de trabalho.

 

Não existe "mérito" privado ou individual

Além disso, estamos acostumados a atribuir o “mérito” das inovações a uma dada empresa. Muitos dizem: “Vejam o novo sistema da Google ou o novo avião da EMBRAER!”. Esses produtos, no entanto, não foram projetados e produzidos pela ação da empresa.

Empresas privadas não falam, não pensam e nem se movem. Podemos tocar e ver as instalações de uma montadora de automóveis, mas não podemos tocar nem ver a empresa propriamente dita. Ela poderá ser vendida amanhã, mudar de nome e permanecer com as mesmas instalações e, até mesmo, os mesmos trabalhadores. A empresa é algo formal e abstrato. Seu papel é conceder a propriedade de tudo que lá ocorre a um tipo muito particular de indivíduos: os capitalistas e empresários.

Os capitalistas e empresários não estão soltos no mundo como os trabalhadores assalariados. Eles possuem a propriedade do capital, o que lhes permite enriquecer cada vez mais com o produto das aptidões, talentos e trabalho alheio. Para mover as grandes empresas, que produzem a quase totalidade do que consumimos, são necessários bilhões, normalmente herdados e acumulados por muito tempo.

Nenhum trabalhador terá acesso a um montante desse tamanho pelo seu próprio “mérito”. Mesmo nos raros casos dos “homens de negócio” que miraculosamente ascenderam socialmente, o processo se assemelha mais a uma loteria do que a meritocracia. Todos eles dizem em seus testemunhos: é porque eu estava “no lugar certo e na hora certa”.

Vale ressaltar que a própria noção de capacidade individual não é algo dado por natureza, mas desenvolvido por cada indivíduo à luz das possibilidades que lhe são oferecidas no curso de sua vida. Nesse caso, deve-se lembrar que, mesmo no interior da classe trabalhadora, as possibilidades para o desenvolvimento de cada indivíduo são muito distintas. Por exemplo, o machismo, o racismo, a LGBTIfobia e xenofobia, impõem profundas desigualdades em relação às condições sociais, culturais e materiais de vida.


No socialismo: desenvolvimento das aptidões individuais para o bem coletivo

A sociedade capitalista é aquela que suga a todo momento o mérito, o esforço e a alma dos trabalhadores. Transformam seu sucesso individual em patentes e capital pertencentes a outro indivíduo: o proprietário da empresa. Nem sequer conhecemos os nomes daqueles cujo mérito resultou em toda riqueza e tecnologia dos produtos que vemos ou utilizamos. Talvez, estejam até desempregados.

O socialismo, ao contrário, é a possibilidade de uma sociedade em que os indivíduos sejam valorizados e reconhecidos pelo seu “mérito real”. Ao se colocar fim em uma sociedade baseada na luta de todos contra todos por meio do mercado; a conquista de cada um deixa de ser uma ameaça aos seus concorrentes e se converte em uma conquista de todos. Torna-se do interesse de cada um o livre e máximo desenvolvimento de todos demais.

Em uma sociedade em que todo trabalho é distribuído entre todos os seus membros, de modo consciente, todos e todas terão tempo livre de sobra para se dedicar às atividades mais adequadas às suas qualidades e aptidões individuais: sejam artísticas, culturais, científicas etc. No capitalismo, ao contrário, cada um é obrigado a seguir a última tendência e moda do mercado; tendência essa que se altera a cada ano. Raros são aqueles que podem se dedicar a atividades de seu interesse, condizentes com seu talento e aptidão.

Além disso, ao contrário do que reza o senso comum, o socialismo não é uma forma de sociedade em que todos recebem precisamente a mesma coisa. Existem diferenças individuais de aptidão, de capacidade, de necessidades. Todas essas diferenças poderão e serão levadas em conta no estabelecimento da quota da riqueza social a que cada um tem acesso.

No socialismo, as diferenças individuais não serão negadas, mas potencializadas. É justamente porque cada indivíduo é diferente dos demais, que a divisão social do trabalho é possível de forma consciente e planejada. Isto é possível porque, nesta sociedade, os desenvolvimentos de cada um não estão, de antemão, em conflito com o do outro. Não existe a cisão entre público e privado na atuação social. É evidente que, para tal, deve-se desenvolver políticas diferenciadas (no campo da educação, da qualificação, formação etc.) voltadas para aqueles e aquelas que foram historicamente marginalizados e tratados como desiguais.

Somente assim, poderemos distribuir as diferentes funções e objetivos aos diferentes indivíduos e capacidades. Os critérios de acesso de cada um a quota da riqueza socialmente produzida não serão definidos pela lógica maluca do mercado, que transforma o mérito de um na riqueza do outro. Serão definidos pelos próprios produtores, em base as suas capacidades e as necessidades sociais, individuais e ambientais.

Não é o paraíso na Terra, mas uma sociedade transparente em que as relações sociais entre os indivíduos não são mascaradas e distorcidas pelo dinheiro e pela propriedade do capital. Agora, o livre desenvolvimento individual apenas potencializa o desenvolvimento da sociedade inteira.

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Como aplicar metodologias de pesquisas nos estudos literários - algumas considerações

17.02.22

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Falar de metodologia nos estudos literários é, no mínimo, adentrar em um terreno pantanoso. Isso porque – ao contrário de outras áreas do conhecimento, como as ciências exatas – nos estudos literários é impossível de se reivindicar uma finalidade para o objeto analisado, já que o discurso literário não pode ser pressuposto. Em outras palavras, discutir um traço que lhe seja inerente é impossível, já que não existe um discurso literário, embora possamos afirmar que exista literatura. Assim, falar de metodologia nos estudos literários tem como pré-condição incontornável criticar o desejo de reificar a metodologia como um fim em si.

Na área dos estudos literários, a investigação se dá por meio de conceitos, no campo superestrutural das ideias. Não à toa a sintonia que esta disciplina tem com o espírito do nosso tempo. E embora haja de fato um aspecto racional, a literatura como tal – o texto escrito – sempre se descortina no momento de sua escritura, e não antes. Por mais elaboradas que sejam as ideias e mais rebuscado o raciocínio para concatená-las, o ato da confecção textual se revela sempre como uma ocasião de descoberta. Nada diferente, por sinal, daquilo que ocorre durante a leitura.

Essa ideia, portanto, de que o “artefato” não sabe tudo de si confere à pesquisa em literatura certa fragilidade não encontrada talvez em nenhuma outra área do conhecimento. E com um “agravante”: à medida em que toma corpo, o texto dito literário – esse artefato um tanto difuso – se distancia do autor que o escreve, em um movimento inversamente proporcional percorrido pelo leitor, que se aprofunda no objeto à medida que adentra à obra. Não à toa ocorrer o mesmo tipo de receptividade e abertura ao texto tanto na avaliação crítica da obra quanto em sua leitura, seja esta ou não sob um viés analítico mais profundo.

A literatura está em crise, bem o sabemos. Desde pelo menos meados do século XX que não frequenta os espaços públicos de discussão, os cafés e os lares. Coube às Universidade então acolhê-las, porém não como centro de leituras destes textos, mas como objetos a serem analisados e interpretados à luz de teorias mais diversas. Decorre daí certa relação conflituosa entre literatura e pesquisa. Isso porque se é esta a responsável pela inserção dos estudos literários na universidade, é bem verdade que a pesquisa tende a deformar tanto a obra quanto seu leitor, principalmente quando convertida em prática dominante, como é o caso. Ainda mais por ser a interpretação o cerne da pesquisa em literatura.

A propósito, não existe pesquisa sem interpretação. Mesmo nas ciências chamadas exatas! A diferença é que estas partem de certos experimentos para se chegar às conclusões necessárias, enquanto que, no campo dos estudos literários, elabora-se uma hipótese de leitura para objetos distintos. E, embora obras literárias mais complexas sejam capazes de abarcar uma quantidade enorme de avaliações e leituras a seu respeito, certo é que não se pode falar simplesmente qualquer coisa sobre elas, mesmo que aquilo exposto o seja de forma lógica e até criteriosa.

Não cabe à pesquisa (e portanto ao pesquisador) julgar, a partir de si mesma, o valor daquilo que é produzido. Aplicar uma hipótese de leitura pode denotar algo previsível ou até mesmo entediante. Todavia, como a pesquisa está preocupada com o ineditismo, não há nada de errado neste movimento, mesmo porque, na área dos estudos literários, à medida que se aprofunda a pesquisa, a hipótese de leitura sofre – em menor ou maior grau – modificações.

Toda obra advém de um processo de reescrita. Muitas vezes reescrita de si mesma. Não há escrito que não oriunde de outras leituras; não há texto que não olhe para trás. Seja qual for sua origem e sua importância. Homero ou Gilgamesh, a Bíblia ou o Código de Hamurabi; nada é novo neste sentido. Mas somente neste sentido! É que na base do conhecimento está o ato de negar, base fundamental da dialética. Desse processo é que se originam as grandes obras, aquelas verdadeiramente originais e “novas”. Ao negar a poesia de seu tempo, Dante criou algo completamente novo; Cervantes reescreveu a cavalaria negando-a. E de lambuja criou um novo estilo narrativo e um herói irreverente.

É parte constituinte do conhecimento humano a negação. Porém, mesmo estes grandes autores não partiram do “nada”. Todos eles desenharam seu tempo olhando também para trás, buscando compreender a construção do conhecimento humano anterior a eles. Sem esse ato não poderiam recriá-la, transformá-la, negá-la. Mas é preciso estar atento, pois, como dizia Karl Marx, não se teoriza aquilo que não esteja em construção. Temos então uma lição: a construção do conhecimento – seja no campo artístico, filosófico ou científico – pressupõe uma via de mão dupla: deve-se buscar conhecer a tradição sem, no entanto, deixar de atender as necessidades prementes do tempo corrente.

Eis uma hipótese! E, como tal, um veículo de descoberta à medida que une sujeito e objeto, promovendo o confronto entre a ideia que se faz do mundo e este particularmente dito. Obviamente que esta relação instrumental não é a única imaginável no contato com a literatura. Bem da verdade, o ideal para um pesquisador deve ser o inverso: antes de aprofundar sua análise em seu artefato, desenvolver o gosto pela literatura, visando a instruir o prazer ao lê-la ou refinar o gosto, por exemplo.

Por isso a necessidade neste campo da leitura livre, desinteressada. Afinal, quanto mais independente for o leitor, quanto mais bagagem cultural possuir, mais profunda será sua experiência estética e mais fácil será para ele formular hipóteses de leitura. Inclusive no que concerne à compreensão do objeto analisado como um todo.

Justiça para Moïse Kabagambele! Basta de racismo e de xenofobia!

05.02.22

Moïse Kabagambele

Por PSTU Brasil

No dia 24 de janeiro, o congolês Moïse Kabagambele foi brutalmente assassinado na Barra da Tijuca, bairro nobre da Zona Oeste do Rio de Janeiro. Seu assassinato é uma trágica combinação do racismo, da xenofobia[1] e do desprezo à vida do trabalhador que assola o Brasil, país que insiste em vender a imagem de que aqui impera uma “democracia racial”.

Moïse era negro, tinha apenas 24 anos e estava com sua família há anos no país, na qualidade de refugiado político vindo do Congo. Prestamos toda a nossa solidariedade aos seus amigos e familiares.


Um assassinato com a marca do racismo

No dia 24 de janeiro, Moïse foi ao quiosque onde trabalhava reivindicar o pagamento de dois dias trabalhados que não foram pagos por seu patrão. Moïse foi imobilizado e espancado até a morte por cerca de cinco pessoas, sem contar com a solidariedade de ninguém que via ou passava pelo local.

Como parte da tentativa de “abafar o caso”, apenas na noite de terça-feira, 1º de fevereiro, foi divulgado o vídeo com as cenas do seu assassinato. As cenas geraram uma enorme indignação nacional e internacional, mobilizando a construção de atos unitários exigindo justiça por Moïse.

Diante da mobilização dos familiares de Moïse e da crescente indignação popular, a polícia prendeu três dos assassinos: Aleson Cristiano de Oliveira Fonseca, Brendon Alexander Luz da Silva e Fábio Pirineus da Silva. Mas ainda há muito a ser explicado: Quem mandou matar Moïse? Por que a polícia levou quatro dias para intimar o dono do quiosque Tropicália? Quem é o dono do Tropicália e por que ele ainda não foi preso? Há fortes suspeitas de que exista envolvimento de milicianos neste assassinato.

Exigimos justiça para Moïse, prisão de todos os envolvidos neste assassinato brutal e reparações e proteção à família de Moïse e aos imigrantes congoleses no Brasil. Além disso, não vamos aceitar a tentativa da grande mídia de manchar a imagem de Moïse para tentar justificar a violência racista sofrida por nosso irmão congolês.


Bolsonaro dá carta branca para os racistas e para a extrema-direita

É importante lembrar que a Barra da Tijuca é morada de Jair Bolsonaro e de alguns de seus filhos. Bolsonaro nunca escondeu que é racista e que possui vínculos com milicianos do Rio de Janeiro. Além do mais, Bolsonaro e seus filhos contam com a simpatia ativa de grupos fascistas que têm se sentido à vontade para saírem do bueiro e praticarem ações violentas contra nós negros, mulheres e LGBTs.

Isto coloca para nós negros e trabalhadores a necessidade de preparar formas de autodefesa de nossas vidas e de nossos irmãos e irmãs.

Além de promover uma política genocida durante a pandemia da COVID-19, Bolsonaro pôs na presidência da Fundação Palmares um capitão do mato, Sérgio Camargo. À frente da Fundação que leva o nome do mais importante quilombo da história deste país, Camargo suspendeu as certificações dos processos de titulação de terras quilombolas, impedindo que esses processos prossigam na via crúcis burocrática para à regularização desses territórios.

E como se isso não bastasse, em maio do ano passado, Camargo revogou uma instrução normativa da própria Fundação Palmares que estabelecia termos para licenciamento e proteção ambiental de terras quilombolas. Com isso, os territórios quilombolas ficam sem qualquer proteção jurídica contra a sanha de empreiteiras, madeireiros e latifundiários. Por isso gritamos Fora Sérgio Camargo! Palmares não é lugar de Capitão do Mato! e Fora Bolsonaro e Mourão!

  • Justiça por Moïse!
  • Chega de Racismo! Abaixo a Xenofobia!
  • Basta de genocídio do povo negro e pobre!
  • Direito à imediata cidadania brasileira para os imigrantes! Direito ao trabalho, direitos sociais e trabalhistas!
  • Fora Bolsonaro e Mourão!
  • Fora Claudio Castro!
  • Fora Sérgio Camargo da Fundação Palmares!
  • Pela revogação da Reforma Trabalhista e Previdenciária!
  • Desmilitarização da Polícia Militar!
  • Chega de Guerra às drogas! Descriminalização já!
  • Reparações Já!
  • Abaixo o feminicídio das mulheres negras e a cultura do estupro!
  • Titulação dos territórios quilombolas!

 

“A riqueza da Bélgica e a pobreza do Congo são irmãs gêmeas”

 

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A República Democrática do Congo fica no centro-sul da África e foi colonizada pela Bélgica no final do século XIX sob o comando do Rei Leopoldo II.

Leopoldo II consolidou sua dominação no Congo em 1885, através da Conferência de Berlim, uma reunião realizada por países imperialistas europeus, pela Rússia Czarista, pelo então Império Turco Otomano e os Estados Unidos, entre 15 de novembro de 1884 e 26 de fevereiro de 1885 e que, literalmente, partilhou o continente africano em benefício dos interesses econômicos dessas nações europeias.

Sob o pretexto de levar “civilização” aos africanos do Congo, Leopoldo II saqueou as riquezas naturais do país e escravizou congoleses para a extração de marfins dos elefantes e depois de borracha e minérios. Para garantir a pilhagem das riquezas naturais do Congo e a escravização dos congoleses, Leopoldo II impôs um regime de terror que envolvia: espancamentos, amputações de mãos, assassinatos, roubos de terras, estupros e incêndios de vilas. O resultado foi um genocídio de 10 milhões de congoleses, número superior ao do Holocausto nazista.

A Bélgica manteve o controle direto sobre o Congo após a morte de Leopoldo II, em 1909, agora como Congo Belga. Em 30 de junho de 1960, o Congo conquistou sua independência política da Bélgica através de uma intensa luta anticolonial. Patrice Lumumba, líder da luta independentista tornou-se primeiro-ministro da República do Congo, mas em novembro do mesmo ano foi preso a mando das forças belgas em associação com os Estados Unidos e, em janeiro de 1961, foi fuzilado.

Em 1965, Mobutu Sesse Seko desferiu um golpe de Estado e impôs uma sangrenta ditadura com o apoio do governo Belga que perdurou por 32 anos, garantindo a continuidade da exploração dos trabalhadores congoleses e das riquezas naturais do país, sobretudo as minerais, de cobalto, ouro, coltan, cobre e urânio.

Desde 1999 o Congo é ocupado militarmente por tropas internacionais organizadas pela ONU sob o atual nome de MONUSCO e que em muito lembra a MINUSTAH, ocupação militar no Haiti organizada pela ONU à serviço dos Estados Unidos e liderada pelas tropas brasileiras sob os governos de Lula (PT), Dilma (PT) e Temer (MDB).

A MONUSCO é a maior e mais cara ocupação militar do mundo, contando com 16.250 soldados. E, assim, como a ocupação militar no Haiti, a MONUSCO é responsável por inúmeros crimes de guerras que vão de violação de direitos humanos básicos à estupros e assassinatos.

O movimento negro e as organizações dos trabalhadores devem exigir Reparações Históricas para os irmãos e irmãs congoleses por séculos de pilhagem, exploração e assassinatos cometidos pelas nações europeias e pelos Estados Unidos e suas respectivas burguesias.

Não devemos esquecer que o capitalismo se alimentou do tráfico negreiro e do trabalho escravo de nossos antepassados africanos, e não devemos esquecer também que a partilha da África no final do século XIX serviu para a concentração de capitais das nações imperialistas e suas respectivas empresas de mineração, de petróleo e do setor financeiro. Atualmente, os grandes monopólios controlam mais de 80% do comércio africano, impondo uma situação de miséria aos nossos irmãos e irmãs africanas, agravada pela pandemia da COVID-19.

Nós do PSTU - partido político do qual faço parte - nos colocamos a serviço da luta dos nossos irmãos e irmãs de raça e classe do Congo e de toda África para expulsar as potências imperialistas do continente e assumir o controle de suas empresas multinacionais, pondo-as a serviço dos interesses da classe trabalhadora congolesa e do povo pobre africano. Esta é a condição fundamental para uma nova e real independência no Congo e o caminho para a construção de uma Federação de Repúblicas Socialistas da África Negra.

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[1] Xenofobia é o preconceito ou ódio a pessoas estrangeiras e imigrantes. A xenofobia é mais forte quando se trata de pessoas não-brancas como negros, árabes e asiáticos.

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