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Práxis

Os filósofos limitaram-se sempre a interpretar o mundo de diversas maneiras; porém, o que importa é modificá-lo.

Práxis

Os filósofos limitaram-se sempre a interpretar o mundo de diversas maneiras; porém, o que importa é modificá-lo.

2021 chega ao fim com a Amazônia em chamas

30.12.21

Brigadistas do Prev Fogo do Ibama, checam area de floresta derrubada e queimada no municipio de Apui, Amazonas. Foto: Bruno Kelly/Amazonia Real

Por PSTU Brasil

A Amazônia segue sendo queimada. O ano de 2021 chega ao fim com a maior floresta tropical do planeta em chamas. De acordo com os dados do Sistema de Alerta de Desmatamento, do Imazon, publicados na última segunda-feira, dia 20, entre janeiro e novembro deste ano, a Amazônia Legal perdeu 10.222 km² de floresta, o equivalente a sete vezes o tamanho da cidade de São Paulo.

É o maior acumulado dos últimos 10 anos para o período. Apenas em novembro, foram 480 km² desmatados na região, a segunda pior taxa para o mês em dez anos (o recorde foi registrado em 2020, com 484 km²).

Caos fundiário, falta de fiscalização e invasão de terras públicas sem uso da União ajudam a explicar destruição da floresta. Toda essa barbárie ambiental é incentivada pelo governo Bolsonaro, que incentiva ações de grileiros e destruiu a política de fiscalização de órgãos que deveriam atuar em defesa das terras, da floresta e da fauna amazônicas, como o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra).


Falta de fiscalização = invasões de terras públicas

Segundo o Imazon, 54% do desmatamento mensal da Amazônia está concentrado em uma categoria chamada de “áreas privadas ou terras públicas sob diversos estágios de posse”, que compreendem: terras públicas não destinadas; terras públicas inscritas no Cadastro Ambiental Rural (CAR); imóveis privados cadastrados no Incra.

Pesquisa do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) também aponta a invasão de áreas públicas como principal responsável pelas queimadas. Segundo Ipam, considerando o período entre agosto de 2020 e julho de 2021 – meses em que se mede a temporada do desmatamento na Amazônia – o principal responsável pelo desmatamento foi a invasão de terras públicas não destinadas (28%), seguido pelo desmatamento em imóveis rurais (áreas privadas; 26%) e, em terceiro, em assentamentos (23%).

O Ipam explica que “as florestas públicas não destinadas são áreas na Amazônia que, por lei, deveriam ser dedicadas à proteção ou ao uso sustentável“. Entretanto, “até hoje não tiveram destinação específica e, por isso, são alvo constante de grilagem“, alerta o Instituto. O relatório da pesquisa ressalta que “o desmatamento nas florestas públicas cresceu muito nos últimos anos. O governo sabe e é sua responsabilidade fiscalizar essas áreas”.

Mas o que vimos no governo Bolsonaro foi justamente uma redução na fiscalização. Dados de relatórios recentes sobre desmatamento e autuações contra crimes ambientais, compilados pelo Observatório do Clima, mostram um padrão que está se intensificando na Amazônia: quanto menor o número de autuações por crimes ambientais, maior foi a taxa de desmatamento.

Os dados apontam que o enfraquecimento das ações de fiscalização coincidiu com a aceleração do desmate. Os números oficiais do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) apontaram que o Brasil perdeu (entre agosto de 2020 e julho de 2021) a maior área de floresta desde 2006 – 13.235 km². Neste período, o total de autuações foi o menor da série histórica.

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As autuações do Ibama, que já estavam em queda, caíram ainda mais: foram lavrados 2.472 autos de infração entre 2020 e 2021, um número 41% menor do que o último monitoramento feito antes da gestão de Jair Bolsonaro e o menor número da série histórica para o período.


Derrotar Bolsonaro para salvar a Amazônia

A política predatória de destruição da Amazônia imposta por Bolsonaro precisa ser derrotada urgentemente, para que a maior floresta tropical do planeta não seja destruída.

O desmatamento da Amazônia é consequência direta do avanço da agricultura capitalista na Região, que é incentivada por Bolsonaro, como parte do projeto de recolonização imperialista, que recria a velha plantation, fazendo do Brasil um grande exportador de commodities, como nos tempos da dominação portuguesa. Agora, como uma nova roupagem.

Para seguir até o fim com sua política de destruição e fazer avançar a propriedade privada, Bolsonaro estimula a invasão das terras indígenas e Unidades de Conservação, pois são pedras que estão no meio do caminho e atrapalham seu projeto entreguista e destruidor. Segundo o levantamento do Imazon, terras indígenas (TIs) e unidades de conservação (UCs) são as terras públicas menos desmatadas: em novembro, unidades de Conservação representaram 4% do desmatamento e Terras Indígenas, 2%.

Por isso, a luta em defesa da Amazônia passa pela tarefa imediata de colocar para fora Bolsonaro e Mourão. Combinada com a luta contra esse sistema destruidor, predatório, que transforma nossas florestas e terras em propriedade privadas.

Um Feliz Natal . . . ! !

25.12.21

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Em tempos onde a pobreza de espírito de cada benfazejo se expressa por meio de uma cesta básica compartilhada em imagens nas redes sociais de seus pares;

Em tempos onde a figura do papai-noel (pai natal) é festejada em uma sociedade sábia em viver de aparências;

Em tempos onde a cor da sua pele determina seu caráter;

Em tempos onde presentes valem muito mais que abraços;

Em tempos onde o verbo Amar é tratado com desdém e escárnio;

Em tempos onde o ódio é dissimulado e onde o ato de afago mais genuíno se dá durante a troca de mercadorias na noite de Natal;

Em tempos em que se falar qualquer coisa de genuína ou inocente soa como ofensa ou agressão pessoal;

Em tempos onde esquecemos de onde viemos e de quem são aqueles que fazem de nossas vidas um verdadeiro inferno;

Em tempos onde o tempo é nosso inimigo e o próprio ato de parar ou de desacelerar é ofensivo;

Em tempos onde nossa única força consiste no ato resiliente de continuar lutando, mesmo que a duras penas;

Em tempos onde resistir é cada vez mais necessário, porém cada vez menos compreendido,

Façamos ao menos igual à criança de Santa Catarina que pediu ao papai-noel uma cadeira de rodas para sua amiguinha vizinha e nada para si própria.

Um FELIZ NATAL (com reticências) . . .

O Marxismo para enfrentar o dogmatismo

23.12.21

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Há meses escrevi um artigo cujo foco foi a discução sobre as ideologias a partir da perspectiva marxista. Por meio de um texto repleto de exemplos ilustrativos, onde me "apropriei" das animações de Os Flinststones, dissertei sobre a temática, de forma a elucidar o conceito. Este texto, bem da verdade, fez parte de uma “trilogia teórica” iniciada com um curto ensaio sobre a decadência do capitalismo vista a partir da figura de um bilionário e continuada por uma discussão – tomando como base um livro de José Saramago – sobre a democracia burguesa e seus limites.

É a partir daquele texto (sobre as ideologias) que entraremos no tema proposto, o dogmatismo. Isto é bom e ruim, na medida em que posso encurtar a escritura, produzindo um texto enxuto, tangenciando o diálogo e não aprofundando elementos conceituais caros à discussão, desde que (é claro!) não se deixe ler o texto que justifica este aqui.

Para iniciarmos o debate levemos em conta a ideia de que toda sociedade comunga de um conjunto de valores que moldam o comportamento social e que são fundamentais para que aquela sociedade funcione. A esse conjunto de valores dá-se o nome de ideologia. Já os dogmas, que oriundam destas, são afirmações tidas como verdadeiras sem qualquer espécie de comprovação científica.

Ou seja, dogmáticas são afirmações do tipo: “o ser humano é bom ou mal por natureza”; “o ser humano é honesto ou corrupto por natureza”; “o mundo é justo ou injusto”; “a natureza humana é esta ou é aquela”. Frases como estas são muito comuns e bastante utilizadas para justificar, por exemplo, o fracasso do modelo econômico-social em que vivemos. E isto é um problema sério, não somente pelo seu caráter anticientífico, mas principalmente pelo seu sectarismo.

E aí é que entra o marxismo. Ao adentrar profundamente no objeto sobre o qual se propõe a estudar, sem desconsiderar inclusive a ideia que se faz acerca deste objeto ao analisá-lo, a verdadeira crítica marxista se diferencia destas concepções de mundo burguesas justamente por não aplicar ao objeto estudado concepções preestabelecidas. Pelo contrário! Enquanto o dogmático critica o mundo (e também o dogma alheio) a partir de seu próprio dogma, o marxismo busca compreendê-lo em toda a sua complexidade, em toda sua riqueza e contradições.

Por isso que entre dois grupos diferentes de dogmáticos existe um abismo impossível de ser transposto. Cada um parte de seu dogma para criticar o outro, tornando o convencimento impossível. Daí a afirmação de ser essa crítica externa e não dialética. Vejamos: um marxista vulgar geralmente parte suas análises única e exclusivamente a partir de um viés economicista. Para este falso marxista todas as relações humanas, nos mais diversos campos, devem ser vistas única e exclusivamente sob o viés econômico, suplantando à superestrutura a estrutura. A partir dessa concepção errônea, sem adentrar em seu objeto de estudo, este marxista de meia pataca “analisa” o mundo a sua volta. De fenômenos sociais dos mais diversos às disciplinas humanas (como literatura e arte) nada escapa a essa fórmula. Nada mais falso!

Melhor: um falso marxista pode tomar as classes sociais de forma dogmática. Toda sociedade, dirá ele, se baseia na exploração de uma classe sobre a outra. E ponto final. Conversa encerrada. Do outro lado, um grupo de trabalhadores pode acreditar que a sociedade é feita por pessoas independentes e livres. Pessoas que podem se dar bem ou mal na vida, a depender unicamente de suas decisões, escolhas e seu mérito individual.

Creio não ser difícil, neste caso, perceber a impossibilidade de diálogo entre as partes, já que um – a partir de suas crenças – afirmará em alto e bom som: “O mundo é assim!”, sendo imediatamente retrucado pelo outro: “Não é, o mundo é assado!”. Conversa encerrada.

Invés disso, a concepção marxista parte do pressuposto de que até mesmo as ideias erradas possuem uma base social na qual se escoram. Assim, ao estudar a sociedade não basta ao marxista compreender apenas a natureza mais profunda na qual ela se estrutura (a exploração de classes, por exemplo), mas igualmente como uma sociedade assim estruturada pode aparecer de outra forma. E mais: como sociedades distintas, vivendo sob uma mesma égide econômica (no caso o capitalismo) podem aparecer de formas distintas. Exemplo: Suíça e Brasil, ou Estados Unidos e Portugal. Compreender esses fenômenos, invés de julgá-los a partir de estereótipos ou de dogmas, é o que buscam os marxistas sérios.

Assim, compreender e explicar como uma sociedade controlada por um grupo minoritário de proprietários que vive do excedente produzido pela massa de trabalhadores pode parecer, sem análise prévia, como um conjunto de indivíduos livres e independentes, ou compreender como um Estado, cuja função única é manter essa sociedade baseada na exploração aparece como algo neutro, que supostamente corrige as desigualdades sociais, é uma tarefa na qual o marxismo se debruça. Contudo, ao fazê-lo, estuda essas estruturas por dentro, visando a compreendê-las não somente sincronicamente, mas também diacronicamente, buscando entender as bases concretas que possibilitaram os seus surgimentos, sem se abster de estudar seus processos evolutivos até sua maturação. Somente a partir deste exercício é que se busca uma resolução para superar essas estruturas de poder (Porra, que pós-moderno!).

As ideologias burguesas são, de fato, falsas. Apesar disso, elas possuem (como base) aspectos reais e verdadeiros que são por elas isolados e transformados em dogmas que explicam a sociedade inteira. Os liberais explicam a sociedade inteira pela forma como os indivíduos aparecem no mercado: como átomos soltos no mundo. Os que acreditam ser possível resolver os problemas do capitalismo por intervenção estatal, tomam o modo formal como o Estado aparece sem conectá-lo com o restante da sociedade.

O marxismo olha atrás da cortina de fumaça, por trás das aparências. A concepção marxista parte das formas mais comuns com que o capital aparece diante de todos: mercadoria, dinheiro, pessoas juridicamente livres e independentes e por aí vai e assume temporariamente as ilusões que decorrem dessas formas unilaterais. Daí a afirmação de que, para o marxismo, a ideia faz ela também parte do objeto.

Somente após este exercício de desconstrução – onde aquilo que parecia se mostrar uma face completamente contrária ao que de fato é – é que cada parte é conectada, revelando, por exemplo, que a liberdade entre os indivíduos é a forma da exploração de uma classe sobre a outra; ou, ainda, demonstrando que a separação formal do Estado é a forma como ele garante a violência permanente de uma classe sobre a outra. Por isso, em O Capital, de Marx, a luta de classes, apesar de ser o fundamento da sociedade inteira, aparece de forma explícita apenas ao final: como conclusão.

No livro, exemplar da concepção marxista, durante o percurso, as bases sociais das ilusões burguesas são gradativamente reveladas e, somente assim, elas passam a ser criticadas. Assumiu-se, por exemplo, os pontos de partidas dos próprios liberais, para somente então mostrar como esses pontos de partida são unilaterais e, por isso, suas conclusões são falsas.

A este processo de “desconstrução interna” chama-se crítica dialética. E é fundamental para os marxistas. Este método, além de nos possibilitar a compreensão do funcionamento do capitalismo, ajuda-nos a entender as ilusões dos trabalhadores que, apesar de explorados, acabam se jogando como peixinhos nas bocas dos tubarões. E mais: possibilita que – enquanto classe explorada – dialoguemos com os demais trabalhadores de forma não sectária, visando a estabelecer uma conexão entre aquilo que pensam e a necessidade de uma revolução socialista que transforme a sociedade em seu conjunto.

Dessa forma, não é atitude de qualquer militante marxista sério o prejulgamento de nenhum trabalhador, por exemplo. Essa forma de política que visa a desmoralizar uma pessoa levando-se em conta o seu candidato nas últimas eleições (como bolsomínions ou mortadelas) é uma prática estranha ao marxismo e aos marxistas honestos.

Não a toa a necessidade que têm os marxistas de compreender todo o processo político econômico-social que levaram as pessoas, as classes e a sociedade a agirem e a funcionar deste ou daquele jeito e não de outro. Esse o método correto e somente por meio dele, quer seja em uma conversa pessoal, quer seja na propaganda ou agitação para grandes massas, se pode desconstruir, por dentro, as falsas concepções que a própria classe trabalhadora assume. Somente assim as massas poderão aprender com a sua própria experiência. Esta é precisamente a crítica interna ou dialética que caracteriza a concepção marxista.

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