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Práxis

Os filósofos limitaram-se sempre a interpretar o mundo de diversas maneiras; porém, o que importa é modificá-lo.

Práxis

Os filósofos limitaram-se sempre a interpretar o mundo de diversas maneiras; porém, o que importa é modificá-lo.

Crise hídrica: apagão de Bolsonaro cada vez mais próximo

17.09.21

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Por: PSTU Brasil

Já não bastavam a inflação, o desemprego e a pobreza em alta. Nos próximos meses, o país também está ameaçado de sofrer um apagão elétrico. A situação é gravíssima, conforme os próprios órgãos do setor reconhecem.

Os reservatórios do Sudeste e do Centro-Oeste, que respondem por 70% da geração de energia do país, estão com 22% da capacidade de armazenamento, nível menor que o registrado em agosto de 2001, quando o país enfrentou o famoso apagão do então governo FHC.

O próprio Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE), órgão presidido pelo Ministério de Minas e Energia, reconhece que há uma “relevante piora” das condições hídricas no país. Diante da escassez, o governo foi obrigado a acionar as usinas termoelétricas (que geram eletricidade através com a queima de o bagaço de plantas, madeira, óleo combustível ou diesel, gás natural e carvão), para tentar suprir a falta de água nos reservatórios. Já o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) prevê que o sistema pode chegar a 10%, o que é muito grave e representa a perda do controle técnico da geração de energia.

Os dados dos sete reservatórios que abastecem a Grande São Paulo também são reveladores. Eles já trabalham com menos de 50% da capacidade. O Sistema Cantareira opera com 37,9% da capacidade e especialistas temem que até o fim do ano esteja com 20%. A situação é pior do que o mesmo período em 2013, um ano antes da crise hídrica que deixou São Paulo sem água.

 

Governo sabia sobre a longa estiagem

Tudo isso pode piorar porque as chuvas dos próximos meses (Primavera e Verão) serão menores do que o normal. Segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (InMet), as chuvas podem se reduzir em até 30% no Centro-Sul-Sudeste. Isso ocorre devido ao fenômeno climático “La Niña”, que vai agravar a seca, a crise hídrica e, também, a crise do setor elétrico no país.

Tudo isso já era de pleno conhecimento do governo. Sabia-se, desde o ano passado, que os reservatórios estavam se reduzindo rapidamente, que havia a possibilidade de uma crise energética e, também, das previsões de estiagem para este ano. Mas, absolutamente nada foi feito.

Nos últimos dias, Bolsonaro teve que reconhecer a crise numa “live” e pediu, de forma patética, que cada um de seus seguidores apagasse uma lâmpada. Daqui a pouco, quando a crise estourar, o presidente-genocida vai jogar a culpa da crise na população, falando que o povo gasta muita luz.

 

“Tarifaço, e daí?”

Mas é injusto dizer que o governo não fez nada. Eles aumentaram a conta de luz, que subiu mais de 20,86% em 12 meses; ou seja, mais que o dobro da inflação acumulada no período, que foi de 9,3%. E vai subir ainda mais.  A previsão da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) é que, no ano que vem, o aumento deva chegar a 16,68%. Isto é, tudo vai ficar ainda mais caro com a elevação da tarifa de energia e dos combustíveis.

Mas o governo Bolsonaro não tá nem aí pra população. “Não adianta ficar chorando”, disse o Ministro da Economia Paulo Guedes, que, em 25 de agosto, cinicamente perguntou: “Qual seria o problema da energia ficar um pouco mais cara porque choveu menos?”.

 

Privatização e meio ambiente

Por que chegamos próximos de mais um apagão?

O primeiro nome do problema é “privatização”. Hoje, apenas no segmento de geração de energia, cerca de 60% dos ativos estão privatizados. No que se refere à transmissão, 85% das linhas são operadas por empresas privadas.

Nenhum governo nesses últimos anos deu um passo para reverter a privatização do setor e, principalmente, no que se refere a planejar a diversificação da matriz energética do país.  Bolsonaro ainda quer ir mais além, privatizando a Eletrobras, responsável pela geração de 30% da energia do Brasil, acabando, assim, de uma vez por todas com a participação do Estado no setor.

A privatização do setor elétrico resulta inevitavelmente em apagões, como aconteceu no final de 2020, no Amapá. Lá, a empresa privada que administra a energia do estado deixou a maior parte das cidades do estado sem energia elétrica por quase 30 dias, simplesmente porque, para diminuir os custos de sua operação, negligenciou a manutenção dos equipamentos da subestação.

 

Aumento da demanda e crise ambiental

Em 20 anos, a demanda por energia do país quase dobrou, mas nenhuma empresa privada realizou um importante investimento na produção de energia, pois isso diminui seus lucros. Enquanto isso, os governos do PT jogavam dinheiro nas mãos das empreiteiras para construir a hidrelétrica de Belo Monte, na Bacia do Rio Xingu, no norte do Pará, que é (como foi previsto) um verdadeiro fiasco no que se refere à produção energética. Por isso, Lula e o PT não soltam um pio perante a crise.

Mas se privatização é o nome do problema, “crise ambiental” é o seu sobrenome. A ciência vem demonstrando que houve importantes mudanças climáticas nas últimas décadas, com redução das chuvas durante o período úmido e extensão do período seco. De acordo com a Pesquisa do MapBiomas, divulgada recentemente, desde o início dos anos 1990, houve uma retração de 15,7% da superfície coberta com água no Brasil.

E qual é a causa disto? Cerca de 70% de toda água consumida no país vai para o agronegócio, sobretudo para as monoculturas de exportação, como café, cana-de-açúcar e, com destaque, soja. Segundo a Agência Nacional de Águas, esse consumo vai aumentar em mais de 20% nos próximos dez anos e já vivemos uma situação de estresse hídrico (desequilíbrio entre quantidade de água exigida por uma plantação e a capacidade do solo em supri-la). Além disso, o aquecimento global e o desmatamento da Amazônia (leia abaixo) também podem explicar essa enorme redução.

 

Para não ficar no escuro: controle do Estado e novas matrizes energéticas

A crise hídrica e energética está entrelaçada com as privatizações, a devastação do meio ambiente e as mudanças do clima. É nesse cenário que Bolsonaro quer privatizar a Eletrobras, o que vai significar a perda de controle do Estado sobre a regulação do sistema num momento de crise hídrica. Um absurdo monumental.

Além disso, a privatização do setor impossibilita uma verdadeira e necessária mudança na matriz energética no país, uma vez que hidroelétricas e termoelétricas se tornam cada vez mais obsoletas. A alternativa está na diversificação da produção energética do país, incentivando, sobretudo, o aumento da produção da energia eólica (produzida pelos ventos) e fotovoltaica (solar), que, hoje, garantem meros 7% da energia do país.

Mas apenas o controle pleno do Estado no setor da energia elétrica do país pode garantir a transição energética para fontes renováveis. Do contrário, o país ficará completamente à mercê das empresas privadas internacionais associadas a grupos empresariais brasileiros, que só querem lucrar e apagar o Brasil. Por isso, é preciso lutar contra a privatização da Eletrobras e pela estatização de todo setor elétrico do país.

 

Saiba mais

O que a crise hídrica tem a ver com a Amazônia?

A crise hídrica também pode estar relacionada ao desmatamento da Amazônia. A devastação deste bioma  causa uma diminuição significativa na força da massa Equatorial Continental, uma umidade que é produzida pela própria floresta e, depois, transportada por correntes gigantescas de ventos que correm da Amazônia (chamado de rios voadores) e adentram no Centro Oeste, Sudeste e Sul do Brasil.

Com a diminuição da floresta, que está, literalmente, pegando fogo, a massa perdeu sua intensidade, produzindo, já em 2019-2020, uma diminuição nos reservatórios de água e severas estiagens (notem: antes mesmo do fenômeno “La Niña”). Isso já ocorria em 2014, mas ganhou mais força após 2017. Cientistas alertam que o desmatamento de algo em torno de 20% a 30% compromete esse sistema, intensificando a secas no país. Já estamos quase lá.

 
O apagão vem aí!

Quais suas causas?

1) Privatização
60% da geração de energia foi privatizada e nenhum governo reverteu isso.
O setor privado não investe em geração de energia para não diminuir seus lucros. A situação vai piorar com a privatização da Eletrobras por Bolsonaro.

2) A destruição do meio ambiente.
O desmatamento na Amazônia diminui os “rios voadores”, causando mais secas. O aquecimento global também vem diminuindo as chuvas. Nos últimos 30 anos, a coberta com água no Brasil  diminuiu em 15,7%.Tudo isso piora com o fenômeno climático La Niña.

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O Cânone Literário

13.09.21

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Todo(a) o(a) leitor(a) curioso(a) e disposto(a) a imergir a fundo na literatura, seja ela clássica, romântica, moderna ou contemporânea, nacional, internacional, ocidental ou universal (aqueles livros que são referências históricas para várias culturas...) acaba se apegando ao cânone para iniciar suas leituras. E não tem como ser diferente. Sem esse referencial já cristalizado, torna-se impossível tomar ciência de um corpus tão extenso e variado como o literário, sendo consequentemente inviável a tarefa de adentrar profundamente nesse universo mágico e importante da literatura.

É um tema instigante este (o do cânone) e que inculca aquele(a) leitor(a) mais experimentado(a) e questionador(a), que sai em buscas de leituras e respostas para uma problemática contemporânea da literatura: o que é o cânone literário? Esta mesma uma questão complexa e que se desdobra em várias outras, como: de onde ele vem?; por que existe?; qual o seu propósito?...

Antes de iniciarmos este "diálogo", é importante frisar que este não é um texto acadêmico. Escrevo para um blog e para leitores estrangeiros, o que me permite tratar da questão de maneira en passant, porém não menos cuidadosa e respeitosa, já que o terreno pantanoso das diferenças culturais pode nos colocar em um buraco sem volta. Daí o certo formalismo e a organização textual mínima necessária para que se realize a tarefa, a despeito do tom pessoal que buscarei. E por não ser de fulcro acadêmico, é despretencioso, sendo relativamente curto dada a complexidade da questão. Mesmo porque, neste mesmo blog já há outros textos que tratam da questão sobre uma outra ótica, mais da perspectiva do leitor, e que certamente complementam as reflexões aqui iniciadas. Estes artigos deixarei-os citados e "lincados" no final deste ensaio (Leia também) para que se possa compreender a complexidade da questão. Sugiro que os leiam, mesmo porque, dentre outras coisas, há uma série de sugestões de leituras, algumas talvez desconhecidas da maioria.

Voltemos contudo ao assunto. Devo dizer que a ideia deste texto não surgiu de seus predecessores, mas da leitura de um interessante artigo intitulado Educação literária e cânone literário escolar, de Blanca-Ana Roig Rechou, da Universidade de Santiago de Compostela que, em apenas 05 páginas, levantou questões bastante interessantes a respeito do cânone escolar e alguns de seus desdobramentos. Devo salientar, no entanto, que, embora considere bastante relevante a leitura deste ensaio acadêmico, este artigo é independente do de Rechou, sendo mais ligado em propósito e ideias àqueles que cito e referendo no final do texto. De Blanca-Ana me veio a "inspiração"! E com base no que penso sobre literatura o diálogo fraterno e enriquecedor - ao menos para mim.

Blanca-Ana inicia sua argumentação a partir de uma discussão surgida em Platão, o qual defendia o estabelecimento de um canône a partir da formulação de discursos (logoi). Para o filósofo grego pouco importa se são verdadeiros ou falsos estes discursos, desde que sejam discursos. Essa perspectiva platônica, a meu ver, não simplifica o problema, mas o acentuo. E desde o seu tempo! Primeiramente porque Platão foi um idealista, que divinizava fenômenos sociais e políticos com os quais não podia ou não queria aprofundar. Lembremos que Platão fora representante intelectual de uma aristocracia parasitária que administrava os recursos da cidade oriundos das atividades laborais dos escravos ou então dos navegadores comerciantes, outra classe eminente na sociedade e que ajudou a formular a filosofia materialista (Parmênides, Demócrito, os atomistas...) anterior a Platão e rival direta de suas ideias. Não à toa a formulação intelectual centrada eminentemente no discurso (logos), desvinculada - muitas vezes - de uma análise mais profunda e interna dos fenômenos sócio-político-culturais e naturais.

Essa formulação teórica a extraímos da obra OS SOFISTAS. Em Atenas, à época de Platão, dava-se à oratória - enquanto ferramenta de formulação do discurso em si - um papel relevante dentro do estado. Aquele que não dominava essa técnica praticamente não tinha chances de ascensão ao poder. Em Atenas, para poder existir (e isso pressupunha um cargo de destaque na hierarquia estatal altamente excludente) era necessário "saber falar". E isso era uma atividade eminentemente divina, já que pertencia aos deuses o dom da linguagem*. Se o logos (o discurso) existia para dizer as coisas como elas eram, aos homens cabia confiar nele. Independentemente de se dizer o certo ou o errado para o tempo, pouca validade tinha isso para o pensamento platônico; o importante era saber fazê-lo da forma mais similar possível a dos deuses.

À parte de sua genialidade, dentre os idealistas Platão talvez fora o menos dialético. Parece contradição exigir de um idealista a arma dialética, que adentra ao fenômeno buscando interpretá-lo à luz das condições do seu tempo. Mas foi uma tônica da filosofia grega clássica. E Aristóteles - seu discípulo que se tornou seu mestre - compreendeu muito bem isso**.

Vejamos a complexidade do conceito de cânone já à época de Platão: em uma sociedade composta majoritariamente por escravos e com uma classe social pequena composta por comerciantes não afeita ao pensamento filosófico, cabia - na visão do filósofo - o controle do estado àqueles que detinham um poder divino, o da oratória. E quem detinha, dentre os habitantes daquela sociedade, o privilégio do ócio senão uma aristocracia? Não à toa Platão formula sua República (livro de onde podemos extrair o mito da caverna) dirigida por filósofos.

Ou seja, a despeito do jogo frasal centrado na formulação de discursos ou narrativas, cânone pressupõe a criação de um gosto formulado a partir de valores e conceitos aceitos por uma determinada sociedade. Esses valores são determinados por indivíduos que controlam o poder político e econômico dessa sociedade, que formulam ideologias como forma também de justificar seu proeminente status social. Em suma, canonizar é acima de tudo EXCLUIR. E esta exclusão - embora se desenvolva a partir da formulação de ideologias (discursos ou narrativas para outros) - se dá partindo de pressupostos de ordem econômica, isto é, a partir de uma perspectiva de classe social. O próprio conceito de filosofia pré-socrática é um exemplo. Se na luta de classes da Grécia antiga tivessem vencido os comerciantes marítimos, de repente conheceríamos a filosofia grega a partir de Demócrito, o maior de todos os materialistas gregos. E então, todos os filósofos posteriores ficariam reconhecidos como pós-Democritianos.

Eis um ponto importante e que o utilizo para discutir de maneira franca com Blanca-Ana Roig Rechou, a qual é partidária da complexidade da problemática partindo do problema das nacionalidades e suas línguas oficiais. Tendo a discordar parcialmente desta questão. Digo parcialmente porque, a depender da condição à qual submetemos nossa análise, é de fato um elemento a se levar em conta. Como bem citou a autora, as ideias pressupostas na obras O CÂNONE OCIDENTAL, de Harold Bloom, pressupõe um cânone universal centrado a partir de Shakespeare e de um cânone ocidental incluindo ao seu lado Dante Alighieri.

Homem, branco e estadunidense, professor de uma universidade nos Estados Unidos, Bloom teve toda a sua formação espiritual calcada em valores ocidentais, que, se não tem mais a Europa como centro de irradiação intelectual universal, ao menos de forma isolada, foi a gestora de nossas sociedades contemporâneas. Principalmente a partir da Revolução francesa, em finais do século XVIII, período que colocou a burguesia europeia no controle da nova dinâmica social. Dinâmica esta que nascera séculos antes em Portugal e, em seguida, na Espanha, mas que amadurece a partir do desenrolar politico em França e da Revolução industrial anos mais tarde, na Inglaterra.

Sob esta ótica universal e/ou ocidental, creio ser um problema sim essa discussão canônica, porém somente a partir de uma discussão local europeia (levando em conta as nações periféricas deste continente) ou mesmo das nacionalidades, onde há línguas que se sobrepõem a outras. Mas aí surgem questões importantes. Por que temos línguas que sobrepõem no panorama social de uma região a outras? Será pela sua sonoridade, ou pela sua dinâmica interna de funcionamento, ou ainda pela quantidade de falantes? Creio que saibamos a resposta para essas questões: essa relação se dá a partir de uma imposição cultural e política. Eis o fulcro da questão. E a partir dele é que temos que mirar nossos olhares.

Em texto que precedeu este (Para além dos clássicos! Ou nem tanto...), indaguei por que não ter caído em nossas mãos literaturas de escritor@s indígenas do Paraguai. É uma questão interessante, haja vista estarmos falando de uma nação cuja maioria absoluta da população opta pelo guarani como língua de comunicação em detrimento do idioma do colonizador: o espanhol. E isso não é pouco se pensarmos que os poucos escritores paraguaios que conhecemos escrevem no idioma de Cervantes e não no de Krenak ou Jekupê.

Acho que já compreendemos o papel do cânone: determinar o gosto, a forma de nos dizer o que é certo ou errado, bom ou ruim, aceitável ou inaceitável dentro de um determinado assunto. É a partir dele que os valores sociais hegemônicos são disseminados, tornando-se incontestes. Contudo, algo de positivo há nele: bem ou mal nos referencia uma lista daquilo que devemos ler, possibilitando-nos a formulação do conhecimento no decorrer da história em seus momentos não somente de relativa estabilidade, mas também de vital ruptura. Afinal, não se teoriza algo que não se esteja em construção. Às ideias sobrepõem-se a dinâmica do mundo em funcionamento. O problema só é discutido quando ele existe.

Falamos, falamos e falamos... Porém, e a literatura, objeto de nossos prazeres e dessas discussões, como ela fica? No lugar que lhe cabe: no pedestal que a Arte lha reservou. Afinal, corroboro com Candido algo que o cânone às vezes despreza justamente pela necessidade de haver esse recorte como forma de se sobrepor valores sociais e econômicos: a arte nos humaniza, coloca ordem no caos estabelecido, traz em seu âmago, a partir de uma lógica tão somente sua, de leis intrínsecas e muitas vezes revolucionárias, a expressão daquilo que nos faz humano e de como essa humanidade nos faz agir dessa maneira e não daquela, levando-nos à reflexão de nós e do mundo. Um belo exemplo para o que falo é Caio Fernando Abreu: em vários de seus contos nos faz ter empatia por suas personagens. Empregando uma linguagem poética, insere-nos na trama como se fôssemos nós mesmos quem estivéssemos vivendo aqueles dramas, como é o caso daqueles do conto "Aqueles Dois", talvez seu texto mais conhecido. A verdadeira arte vislumbra valores que já existem em nossa sociedade, mas que ainda não são proeminentes. E as entrelinhas do pensamento de Even-Zohar só reforçam esta ideia quando afirma que essas evidências supra-históricas estão contidas no texto.

Estes pormenores são aceitos, a meu ver, quando a discussão é uma literatura hoje reconhecidamente de outro tipo: a infantil. Como bem explanou Rechou, surge somente na era vitoriana um cânone infantil e parte este da necessidade de se organizar um conjunto de obras que se adaptassem à formação espiritual dos filhos da burguesia europeia, principalmente a inglesa e a francesa. Obviamente que uma literatura elaborada para um público infantil ou jovem é obra não do século XIX, mas já do século XVII, e um cânone, como aquele já instituído, é obra posterior, sendo estes agentes, os mesmos da literatura já consagrada por este meio. Vemos o que falou Rechou:

"Entre esses agentes contamos com os pais, bibliotecários, animadores culturais e o professorado com grande poder de decisão, ainda que este, em parte, esteja submetido aos administradores, com base no currículo desenhado pelas políticas educacionais e socioculturais e mesmo pela cultura escolar de cada instituição, que reproduz a sua ideologia. Também interferem nesse processo as promoções e políticas editoriais, os meios de comunicação e os recursos econômicos. (...) Dá-se, assim, uma convergência de critérios na seleção de textos escolares. De um lado, situam-se as variáveis empresariais, econômicas, ideológica; de outro, as acadêmicas, que deveriam basear-se, penso, como veio ocorrendo através dos tempos na literatura central, na qualidade literária, no conceito de clássico, nos modelos literários, em suma, nos juízos de valor, que mesmo as novas teorias sistêmicas não deixam de reconhecer".

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* Dentro da mitologia grega não são poucos os exemplos do logro por meio da mentira (astúcia) como forma de superação de um obstáculo. Vemos por exemplo a cena de Odisseu na caverna dos Ciclopes (Homero. ODISSEIA - canto 9).

** Aliás, não somente da filosofia clássica (aquela greco-romana, sabe); boa parte da filosofia idealista foi dialética: Hegel, Feuerbach, Nietzsche, dentre outros são alguns exemplos. Os bons idealistas estão mais próximos da dialética rica, que os materialistas vulgares. Eis um fato.

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Biografemas para não deslembrar

01.09.21

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Tânia Regina de Oliveira Ramos

O apetite da imaginação adulta e o anseio da lembrança são alimentados pela sustância de aventuras vividas por seres de papel. Os velhos, os bichos pensantes, a sabedoria do burrinho: aquela leitura obrigatória se tornou um grande prazer, vivido e saboreado, que me lembrou de um tanto de mundo que existia além do que eu via. Cito o Sagarana porque ele me ensinou algo essencial: a empatia** Algumas (lembranças) perduram na memória mais que outras, "se essa rua, essa rua fosse minha... eu mandava, eu mandava ladrilhar. O que fica na memória além da melodia são também imagens do que eu formava ao escutar minha mãe cantando, e por mais que a música fale de solidão, a sensação maior da lembrança é de acolhimento, pelo brilho da rua refletido em um lindo túnel de árvores que leva até um bosque também iluminado, pelo anjo que mora lá.** Hoje me recordo dessa época em meio a risos e nostalgia: a leitura de um livro nunca é igual, até porque nós também não somos. Reli Querido John no ano passado, no início da pandemia, e o que é mais encantador é a forma como não sinto as mesmas sensações da minha adolescência, mas consigo me lembrar exatamente como é sentir cada uma delas. ** Já é tempo de haver alguma tecnologia que manipule os borrões da minha mente e os transforme em palavras.Essa tecnologia sou eu. Mas não dou conta.. Não dou conta... Ainda mais com memória antiga, que não quer ficar, e cada dia mais imprecisa, mais longe de mim, mais perto de repousar profunda, naquele lugar onde vivem os segredos de quem morreu sem revelar.E é por isso que eu invento de novo, que é por medo de perder de vez e não sobrar nem o cheiro dessa imagem, minha avó lendo uma Bíblia ilustrada na beirada da cama **. Alguns anos depois resolvi que queria ler Orgulho e Preconceito, dessa vez pra valer! E não é que consegui? Mais do que isso, simplesmente me encantou a obra. Tornei-me fã. Amo este romance de Jane Austen que me fez rir, ficar apreensiva, e me fez adorar esse estilo de linguagem antiquada, mas irônica e bem humorada, e adorar essa personagem tão forte, desconstruída e inspiradora que é Elizabeth ** . A iniciação no mundo dos clássicos foi para mim – assim como para a maior parte das pessoas, acredito – como pisar um terreno movediço. Eu tinha por volta de catorze anos de idade quando chegou pelo correio uma edição de Lolita, que fazia parte da Biblioteca Folha, como uma espécie de brinde para os assinantes. A proximidade da minha idade com a de Lolita, a época de transição entre infância e adolescência, as mudanças no corpo e a curiosidade típica dessa fase fizeram com que eu decidisse enfrentar aquela leitura mais adulta, bem diferente do que estava acostumada a ler até então** Sempre tive contato com livros de histórias, fábulas, mágica, charadas e outros, quando era criança, pois meu pai vendia livros. Mas nada me encantou tanto quanto a primeira leitura após sofrer incessantemente (esse era o meu sentimento na época) por um amor errado. "Para todos os amores errados" foi o livro de Clarissa que me prendeu durante muito tempo. O livro fez com que eu superasse essa fase da melhor maneira possível, entendendo muitas coisas que sozinha talvez eu não entenderia. Foi quando eu comecei a escrever poemas e poesias** Talvez eu tenha começado lendo Thalita Rebouças com Fala Sério, Mãe ou Meg Cabot com Princesa sob os refletores, mas conforme fui crescendo, fui achando meu próprio gosto, o qual se encontrava muito distante dos da minha irmã: distopias, fantasias, quadrinhos, ficção científica, poesia, os clássicos nacionais e internacionais, e vários outros... Não seria exagero dizer que eu e minha irmã nos encontramos para sentar uma ao lado da outra com nossos kindles e passar a tarde lendo** . Eu tinha ( na verdade, ainda tenho) uma amiga leitora. Desde pequena devorava livros, um atrás do outro. Ela era quase amedrontadora , listava os títulos e autores que lia, e os quais nunca ouvi falar. Os olhos dela brilhavam compartilhando comigo suas leituras. E se eu lesse também? Com esse questionamento rondando na minha cabeça, adormeci. De volta à escola, minha amiga leitora me encontrou no recreio dizendo que tem uma surpresa para mim. Estenda sua mão: toma, um livro. Um presente para ti, disse ela.** Sempre li muuuito. Quando era pequena, sempre pedia de aniversário, natal, qualquer data especial livros. Não tínhamos TV em casa e sou filha única, então a leitura sempre me acompanhou para todos os cantos. Às vezes meu pai reclamava que eu lia muito, como hoje a gente reclama com as crianças que não saem do celular. Já fui chamada atenção por ler na sala de aula também, quando estava no ensino médio! ** É difícil mensurar a importância da literatura na minha vida, pois ela sempre fez parte do meu dia e continua fazendo, através de diversos e-books no meu celular e do livro que sempre carrego na bolsa. Mas é inegável que esse ato afetou minha percepção de mundo e ajudou a formar meu senso crítico**. Um tema bastante interessante - e do qual tenho pouco a acrescentar, haja vista minha debilidade - é o da literatura denominada infanto-juvenil, conceito desprezado por Lajolo por compreender que a literatura é universal e que o leitor é livre para escolher o que, quando e como ler determinado texto..** Ah, como me encanta José Saramago! Advém dele meu gosto por questões “perturbadoras” da sociedade moderna. A escrita por fatos da realidade. Posso dizer que por causa dele, entrei para o curso de jornalismo. Queria escrever crônicas com o mesmo sarcasmo que ele apresentava em suas obras. ** Eu lembro desse momento como um grande aprendizado, não só pela obra, Memórias de um Sargento de Milícias, mas também como um momento em que eu superei uma dificuldade pessoal e hoje faço faculdade de Letras, o que me faz pensar que tudo até aqui foi grande preparo, degrau por degrau nós subimos ao longo da vida e assim devemos encarar os desafios, como aprendizados**. Puxei minha mãe, apontei e falei: “olha lá aquele livro com o leão na capa, mãe. Quando eu me aproximo da estante, eu vejo que não era um leão no livro como eu achara, era Jesus Cristo em uma imagem na capa. A bibliotecária retira um exemplar de O Rei Leão, fazendo deste o primeiro livro que eu li **. Lia em segredo, pois acreditava e acredito que eles os ETs – estão por todas as partes. Passados quase 40 anos exulto de alegria quando ouço a NASA declarar que extraterrestres existem. Quero correr para o abraço. Finalmente encontrei minha linhagem* *

Dedico esta linda narrativa aos bibliografemas de Cláudia, Patrícia, Jéssica Simas, Rosana, Thamara, Carolina, Maikielly, Natália, Vitor, Jessica Mota, Moara, Jóe, Elisane, Ana Paula, Luiz Artur, Jessica Mota, Alba. Em cada asterisco respiro e ouço as vozes de vocês. Encontrem-se. Reconheçam-se. Salvem para ser mais um bibliografema em suas vidas. De Cláudia emprestei o título.