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Práxis

Os filósofos limitaram-se sempre a interpretar o mundo de diversas maneiras; porém, o que importa é modificá-lo.

Práxis

Os filósofos limitaram-se sempre a interpretar o mundo de diversas maneiras; porém, o que importa é modificá-lo.

Cuba | Pela liberdade imediata para os presos por lutar

30.07.21

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Nos últimos dias, diversas personalidades, que dificilmente podem ser acusadas de serem “pró-imperialistas” ou “gusanas”, reconheceram que há uma forte repressão do governo cubano e se manifestaram pela liberdade dos prisioneiros e contra os processos penais. Com o passar dos dias, o caráter e o alcance da repressão da ditadura cubana contra os legítimos protestos de 11 de julho vão se dimensionando mais nitidamente. Devemos redobrar a campanha contra a repressão e pela liberdade de todas e todos os detidos.

Por: LIT-QI

Na quarta-feira, dia 21, foram divulgadas as sentenças de prisão para doze detidos durante os protestos. Dez deles foram condenados a um ano de prisão. Os dois restantes – os únicos que tinham advogado – vão cumprir pena de 10 meses. Entre eles está o artista audiovisual Anyelo Troya González, fotógrafo e um dos produtores do videoclipe “Pátria e Vida”, que se tornou referência para muitos manifestantes cubanos. Troya foi detido enquanto tirava fotos dos protestos. Foi acusado pelo regime de promover “desordem pública” e condenado a um ano de prisão em julgamento sumário, sem advogado de defesa, sem a presença da família. Nenhum membro da família teve acesso a uma cópia da sentença. Foi uma aberração jurídica característica dos piores regimes ditatoriais que se pode conhecer. Outros presos – a maioria deles jovens, fotógrafos, artistas, jornalistas independentes, etc. – estão privados de sua liberdade por acusações tão arbitrárias quanto “desacato” ou “crimes contra a segurança do Estado”.

A plataforma cubana El Toque Jurídico afirmou que não se trata de um caso isolado: “O governo cubano decidiu processar centenas de manifestantes pacíficos por meio de julgamentos sumários, procedimento que permite que pessoas acusadas ​​de crimes sejam julgadas em menos de 20 dias, quando o parâmetro da sanção não exceda um ano de privação de liberdade” [1]. Nesse tipo de processo, vai acusação policial, sem a mediação de promotores ou advogados, ao julgamento oral, no qual data e hora também são desconhecidas até o último momento. Isso torna extremamente difícil para os réus contratarem advogados ou que suas famílias possam estar presentes. Esse foi, segundo seu irmão Yuri, o caso de Anyelo: “Viemos correndo com o advogado e o julgamento já havia sido concluído. Eles o julgaram sem advogado. Havia 12 jovens no mesmo julgamento sumário e apenas dois tinham advogado porque os pais descobriram a tempo”, segundo informa a agência EFE [2].

A organização que citamos explica que se trata de “julgamentos, nos quais não é necessário que promotor nem o advogado estejam presentes. O sumário é o processo perfeito para que os acusados, ainda mais se forem julgados por exercício de direito constitucional, sejam silenciados. Não pelo fato de não poderem falar, mas porque fazê-lo sem conhecimentos especializados ou sem a assistência jurídica de um profissional limita as possibilidades de articulação de um discurso que foque aa ilegitimidade de seu julgamento” [3].

O mesmo site informa que, apesar das autoridades cubanas negarem a existência de pessoas desaparecidas, houve centenas de casos de pessoas que não foram localizadas depois de serem presas nem houve informação sobre seu paradeiro ou as acusações contra elas. Elaborada a partir de várias iniciativas, há uma lista muito detalhada de 665 pessoas detidas desde 11 de julho, das quais 37 estão desaparecidas e 134 foram libertadas. [4] Neste vídeo, a jornalista Cynthia de la Cantera explica ao site Periodismo de Barrio como surgiu e quais os critérios que utilizam para elaborar e atualizar a lista de detidos e desaparecidos [5]. Em 21 de julho, o ativista cubano Maykel González Vivero, repórter do site Tremenda Nota, já havia denunciado que havia mais de 500 pessoas detidas e que menos de cem haviam sido libertadas. [6] Esses dados mudam constantemente, já que as prisões não ocorreram apenas durante os protestos. Também há relatos de caçadas de casa em casa em alguns municípios, depois que a polícia identificou alguns rostos por meio de vídeos postados nas redes [7].

Entre essas centenas de presos, há muitos menores. Em 19 de julho, o ativista cubano Salomé García Bacallao compilou uma lista de nove presos: Amanda Hernández Celaya (17 anos), Axel López Ramírez (16 anos), Brandon David Becerra (17 anos), Christian Batista Valdés (17 anos), Giancarlos Alvarez Arriete (17 anos), Glenda de la Caridad Marrero Cartaya (15 anos), Jonathan Pérez Ramos (16 anos), Katherin Acosta (17 anos), Leosvani Giménez Guzmán (15 anos), Luis Manuel Díaz (16 anos) e Yanquier Sardiña Franco (16 anos) [8]. Em 24 de julho, de acordo com a lista que citamos, soubemos os presos com 18 anos são pelo menos 23, já que 10 foram soltos ou absolvidos.

Entre eles , ganhou notoriedade o caso de Amanda Hernández Celaya, estudante e dançarina que foi presa por filmar os protestos com seu celular. Sua mãe, Heissy, afirmou: “Tenho certeza de que minha filha estava lá tirando fotos, que foi o que ela me disse. Mas vamos supor que ela gritou também. Diga-me, meu Deus, em qual dos dois está o crime? Ao filmar ou gritar, onde está o crime? Minha filha não pertence a nenhum grupo dissidente, ela não é jornalista independente, nada. É apenas uma jovem que vive pela dança” [9]. Amanda passou dez dias presa e mantida incomunicável na temível prisão 100 e Aldabó. Na quinta-feira, 22, ela foi submetida a um julgamento sumário, mas foi absolvida por falta de provas. [10] Sem a comoção e a solidariedade que o caso de Amanda desencadeou, como declarou a jornalista Miriam Celaya e tia da ré, “o resultado teria sido diferente” [11].

A repressão do regime castrista, com múltiplas violações dos direitos humanos e das normas processuais elementares, despertou a solidariedade de importantes personalidades cubanas, que dificilmente poderiam ser acusadas de “gusanos” ou “mercenários”.

O cantor e compositor Silvio Rodríguez, ícone da música da ilha e defensor da revolução cubana, pediu anistia para todos os detidos em decorrência dos protestos do 11-J: “Eles me pediram para ligar para alguém e pedir anistia para todos os presos. Lembro-me da última vez que pedi uma anistia. Foi na Tribuna Anti-imperialista. Um segundo antes de subir uma autoridade me disse para não dissesse. Se eu não digo isso, não digo nada, respondi. E consegui chegar ao microfone. E entre muitas outras coisas pedi a liberdade daquelas pessoas com quem não concordo. E algumas semanas depois (não por minha culpa) 70 vidas foram libertadas. Não sei quantos presos têm agora, dizem que centenas. Peço o mesmo para os que não foram violentos e mantenho a minha palavra. Eles não me devem nada porque não pedi nada. Espero que nunca mais se sintam fora (desejo lançado ao ar)”, escreveu [12].

O conhecido escritor cubano Leonardo Padura, Prêmio Nacional de Literatura de Cuba e Prêmio Princesa das Astúrias de Literatura na Espanha, também criticou a repressão da liderança castrista: “Para convencer e acalmar a esses desesperados, o método não pode ser soluções de força e incertezas, como impor o apagão digital que corta há dias as comunicações de muitos, mas que, no entanto, não impede as conexões de quem quer dizer algo, a favor ou contra. Muito menos a resposta violenta pode ser usada como um argumento de convencimento, especialmente contra pessoas não violentas,. E já se sabe que a violência não pode ser apenas física” [13].

O povo saiu às ruas gritando “Abaixo a ditadura”. (Foto de YAMIL LAGE / AFP)

O regime cubano, além da repressão física, desencadeou uma intensa campanha de criminalização de quem participou ou apoiou as diversas manifestações de descontentamento social. As declarações das autoridades cubanas não diferem das de nenhum outro governo capitalista que enfrenta um processo de mobilização popular. Desde o início dos protestos, Díaz-Canel descreveu os manifestantes como “marginais” infiltrados, supostamente “pagos pelos EUA”, ou como vândalos que buscam apenas criar “distúrbios”: “Ontem vimos delinquentes. Ontem a proposta não foi pacífica, houve vandalismo (…) apedrejaram polícias, viraram carros. Um comportamento totalmente vulgar, indecente, delinquente…” [14].

Para o governo cubano, assim como para todo o coro internacional de defensores do regime ditatorial, torna-se cada vez mais difícil esconder tanto as justas reivindicações populares da ilha, como a política repressiva com que as autoridades responderam. Está colocada com urgência a necessidade de assumir a defesa do direito de protesto do povo cubano e se posicionar contra a repressão.

Nesse sentido, o papel desempenhado por grande parte da chamada esquerda, que boicota a solidariedade para com o povo cubano, é desastroso. O stalinismo – liderado pelos ditos partidos comunistas – e suas variantes se posicionaram contra as manifestações populares e na defesa incondicional da ditadura castrista.

Com o argumento de que os protestos estariam constituídos por mercenários pagos pelo imperialismo para derrubar um governo e um Estado supostamente “socialistas”, apoiam as prisões e repressão dos chamados “gusanos contrarrevolucionários”. Outras correntes, de forma vergonhosa, absolutizam a denúncia do bloqueio norte-americano (que rejeitamos e chamamos a derrotar como fazemos com qualquer ingerência imperialista), mas sem dizer uma palavra contra o regime cubano ou sobre os presos políticos e desaparecidos. Todos os males de Cuba teriam origem externa à ilha. Assim, de fato, também contribuem para a repressão interna da ditadura castrista.

O caráter das mobilizações de 11 Julho não foi reacionário nem “pró-imperialista”. É um processo de luta justo e legítimo, baseado nas mesmas demandas de outros países latino-americanos. Ao alarmante deterioro das condições de vida em Cuba se soma o elemento de completa falta de liberdade para se organizar e lutar contra a ditadura. Além do fato de que o imperialismo e seus agentes certamente tentaram e tentarão influenciar esse descontentamento, o significado político do processo não é a “entrega” de Cuba a Washington ou Miami ou qualquer coisa assim. Esta interpretação não é mais do que uma cortina de fumaça que a ditadura castrista usa para deslegitimar qualquer expressão de oposição política.

Aliás, é interessante a resposta ao argumento de que “são todos mercenários” que Leonardo Padura escreveu ao mencionar “o grito de desespero de pessoas entre as quais certamente havia gente paga e delinquentes oportunistas, embora me recuse a acreditar que no meu país, nesta altura, pode haver tantas pessoas, tantas pessoas nascidas e educadas entre nós que se vendem ou cometem crimes. Porque se assim fosse, seria o resultado da sociedade que os fomenta” [15]. Existem muitas reflexões assim. Basta fazer uma busca, agora que há acesso à internet e às redes sociais, encontrar dezenas de militantes cubanos que são anti-imperialistas e não negam o passado revolucionário em seu país, mas enfrentam a ditadura que oprime o país. .

Na realidade, os partidos e personalidades pró-castristas, que se apresentam como “anti-imperialistas” e defensores de um suposto “último bastião do socialismo”, estão prestando um enorme favor à campanha hipócrita do imperialismo norte-americano e de todos os expoentes da direita e ultradireita tradicionais, que enchem a boca com palavras de “liberdade” e “democracia” para o povo cubano, mas que não tem outro interesse senão aprofundar a recolonização da ilha. O governo Biden, por exemplo, acaba de anunciar o congelamento de bens nos Estados Unidos do Ministro das Forças Armadas Revolucionárias (FAR) de Cuba, Álvaro López-Miera, e de qualquer membro da unidade militar de elite popularmente conhecida como “vespas Negras”. Uma medida com mais efeito midiático do que prático, pois exerce pouca ou nenhuma pressão sobre os responsáveis ​​pela repressão em Cuba. Se os EUA realmente se importassem com o destino do povo cubano, entre outras coisas, eliminaria o embargo comercial à economia cubana.

Ao não se opor ao regime castrista nem denunciar seus crimes, a maioria da esquerda deixa nas mãos do imperialismo e da direita mais recalcitrante a justa defesa das liberdades democráticas para a população cubana. Ao calar-se diante dos abusos, que em qualquer outro país seriam rapidamente denunciados, a maioria da esquerda acaba jogando o jogo não só com a ditadura castrista, mas do próprio imperialismo que afirma combater, já que facilitam para Biden e seus cúmplices a disputa por mentes e corações daqueles que vão às ruas para exigir dias melhores.

A LIT-QI, como explicamos na declaração e em outros artigos [16], sustentamos que o capitalismo foi restaurado em Cuba pela própria direção castrista, que agora compõe a nova burguesia nacional. Esta definição é muito importante, porque significa que não estamos perante um “país socialista”, mas sim um estado burguês e uma economia regida pelas regras do mercado, com uma penetração escandalosa do imperialismo europeu e canadense em sectores-chave (como o turismo e os negócios capitalistas na zona franca do porto de Mariel), e com uma classe trabalhadora que, presa a um regime ditatorial liderado pelo Partido Comunista de Cuba (PCC), é oferecida como mão de obra barata às empresas imperialistas e ao enorme complexo empresarial controlado pelos altos comandos militares (GAESA).

Mas, independentemente das diferentes posições que possamos ter sobre o caráter do Estado cubano, seu regime, o papel do castrismo, etc., é hora de redobrar a campanha, junto com centenas de ativistas cubanos, para libertar todos os presos políticos no país caribenho. É inadmissível que haja pessoas desaparecidas, presas ou condenadas em julgamentos sumários pelo simples fato de terem protestado contra uma ditadura que aplica um plano de ajuste capitalista brutal – que agrava ainda mais as misérias do povo, em meio a uma pandemia – e reprime o seu próprio povo quando sai às ruas exigindo alimentos, remédios, liberdade política.

É urgente articular ações de todos os tipos em defesa das liberdades democráticas para o povo cubano. As mesmas liberdades que exigiríamos para qualquer outro povo. Isso significa liberdade de associação em sindicatos e partidos políticos por fora do regime; liberdade de acesso à internet; liberdade de imprensa e expressão; direito de greve e liberdade de manifestação por seus atos direitos na forma como o povo se autodetermine e se organize.

Para levar a cabo esta luta, é necessária uma ampla unidade de ação, que não deve se limitar à militância socialista ou de esquerda, mas deve abranger todos os lutadores dispostos a defender os direitos humanos e as liberdades democráticas para a população da Ilha.

A LIT-QI, portanto, chama a impulsionar todo tipo de iniciativas unitárias, exigindo a liberdade imediata dos presos políticos e o fim da repressão contra o povo cubano.

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Notas:

[1] Veja: <https://eltoque.com/juicios-por-protestas-en-cuba-sin-abogados-defensores>.

[2] Veja: <https://www.bbc.com/mundo/noticias-america-latina-57925005>.

[3] Veja: <https://eltoque.com/juicios-por-protestas-en-cuba-sin-abogados-defensores>.

[4] Esta é a lista, que é atualizada periodicamente: <https://docs.google.com/spreadsheets/d/1-38omFpJdDiKTSBoUOg19tv2nJxtNRS3-2HfVUUwtSw/edit?fbclid=#IwAR3vc8YZn8#b3#HKy#td623i ###>

[5] Veja: <https://www.facebook.com/periodismodebarrio/videos/630079334634121/>. Veja o site: <https://www.periodismodebarrio.org/>. Dados em 24/07/2021.

[6] Veja: <https://twitter.com/MGVivero/status/1417700583608311808>.

[7] Veja: <https://www.bbc.com/mundo/noticias-america-latina-57882931>.

[8] Veja: <https://www.facebook.com/salome.garciabacallao/posts/3659265360840058>.

[9] Veja: <https://www.bbc.com/mundo/noticias-america-latina-57882931>.

[10] Veja: <https://www.14ymedio.com/cuba/Absuelta-Amanda-Hernandez-Celaya-detenida-11-julio-Cuba_0_3135286457.html>.

[11] Veja: <https://www.facebook.com/miriam.celayagonzalez/posts/3460658514037049>.

[12] Veja: <https://twitter.com/mjorgec1994/status/1417983467036594177>. Veja: <https://www.infobae.com/america/america-latina/2021/07/21/silvio-rodriguez-pidio-una-amnistia-para-todos-los-manifestantes-cubanos-detenidos-por-la -ditadura-durante-os-protestos em massa /? outputType = amp-type & __ twitter_impression = true & s = 08>.

[13] Veja: <https://internacional.laurocampos.org.br/es/2021/07/un-alarido/>.

[14] Veja: <https://www.bbc.com/mundo/noticias-america-latina-57882931>.

[15] Veja: <https://internacional.laurocampos.org.br/es/2021/07/un-alarido/>.

[16] Veja: <https://litci.org/es/66419-2/>.

 

Um Dom Quixote "miserável" em um país das maravilhas: da necessidade da literatura às adaptações literárias

24.07.21

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As sociedades mudam os seus valores à medida que evoluem. Entende-se por evolução aí as necessidades objetivas que surgem a partir de demandas novas oriundas estas das transformações sociais provocadas pelos meios de produção de um determinado tempo. Não é de hoje que o homem tenta compreender seu lugar no mundo e sua relação com o tempo em que vive. Para Plotino, antigo filósofo grego da tradição platônica, o tempo só pode e deve ser medido a partir da eternidade. Isso porque, na visão do filósofo, a divisão do todo (o UNO) em partes seria responsável pela perda da sua essência. Teoria claramente idealista e que jogaria no ocidente uma pá de cal nas primeiras formulações materialistas daqueles filósofos atomistas Leucipo e Demócrito, anteriores a Sócrates. No caso deste, Platão inverteria inclusive a sua lógica ao se "apropriar" de sua teoria dos elementos.

Somente no século XVI o termo materialismo seria (re)pensado de forma consciente pelo matemático alemão Gottfried Leibniz. Nesse campo das ideias filosóficas sugeriu-se o conceito no século XVI, porém, somente no século XIX a escola materialista retornaria com força, dois mil anos mais tarde, graças às formulações teóricas de Karl Marx e Friedrich Engels.

Karl Marx, aliás, acertou em cheio ao inverter a lógica hegeliana, acrescentando-lhe um elemento poderoso: o materialismo. Hegel superestimou a razão especulativa em relação ao próprio processo social. Em Introdução à crítica da Filosofia do direito de Hegel, escreve Marx: “É certo que a arma da crítica não pode substituir a crítica das armas, que o poder material tem que ser derrocado pelo poder material; mas também a teoria se transforma em poder material, tão logo se apodera das massas. A teoria é capaz de se apoderar das massas quando argumenta e demonstra ad hominem, e argumenta e demonstra ad hominem quando se torna radical. Ser radical é tomar as coisas pela raiz. Mas a raiz, para o homem, é o próprio homem”. (Grifo meu).

Trazendo essa discussão de Marx para o campo "religioso-filosófico-literário" (iniciemos aqui uma brincadeira), subvertemos um pouco seus pressupostos retornando para o nosso ponto de partida: a antiga civilização grega. E o que nos vem à mente entre nós, estudantes e / ou leitores de literatura, antes mesmo de Demócrito, Aristóteles ou Platão senão sua mitologia? Dentre os mitos abordados na antiga religião helênica talvez um dos mais conhecidos seja o de Prometeu. Mas quem ou que foi Prometeu?

Do grego Προμηθεύς: Promēthéus, "antevisão" ou “premonição”, foi um Titã da segunda geração. Filho da ninfa Clímene com Jápeto, neto de Urano (que comeu os filhos, vomitando-os depois) e irmão de Atlas, Epimeteu (aquele que via aquém, o inverso de Prometeu, que via além) e Menoécio, é conhecido pela sua inteligência e astúcia e por ser um defensor da humanidade ao roubar o fogo de Héstia*, dando-os aos mortais. Eis a narrativa racional que o antigo homem grego formulou para o domínio do fogo, cujo desfecho todos nós o conhecemos: Zeus, que temia que os mortais ficassem tão poderosos quanto os próprios deuses, o teria então punido por este crime, deixando-o amarrado a uma rocha por toda a eternidade enquanto uma grande águia comia diariamente seu fígado — que se regenerava no dia seguinte. Tempos depois foi liberto, mas isso é assunto para outras conversas.

É bastante interessante essa narrativa, principalmente pressupondo que, para os gregos, fora Prometeu aquele quem os libertou do julgo completo dos deuses, concedendo-lhes algo distinto do que o cristianismo trataria por livre-arbítrio, mas dando-lhes a ferramenta necessária para sua libertação, similar ao que propõe Marx no que concerne ao papel da teoria: levar as massas ao movimento assim que por elas assimilada, transformando-se em poder material e em ferramenta de libertação do julgo dos seus opressores. O maior pensador que a humanidade já conheceu que me desculpe a tacanhez dessas reflexões, mesmo porque seu herói predileto fora o gladiador Espártaco, de carne e osso.

Brincadeiras à parte, penso ter ficado claro o intuito deste preâmbulo. As filosofias e mitologias greco-romana, assim como outras mitologias importantes, tais quais as dos povos originários das Américas**, as africanas, egípcia etc estão não somente temporalmente e espacialmente afastadas de nós, mas também – em boa medida – culturalmente. Dessa forma, poderíamos desde aí categorizar que a tradução e a adaptação das obras literárias, filosóficas, místicas, religiosas, os mitos... para públicos receptores distintos são não somente importantes, mas necessárias à compreensão e à disseminação não somente desses cânones, mas igualmente daquilo que nos unifica: a compreensão das nossas características mais humanas vista por meio da forma diferente (mas nem tanto) de como fazemos nossa história.

É importante salientar que Antonio Candido, sempre genial, qualificou de original a leitura “mal feita” que os intelectuais do parnaso brasileiro fizeram de escritores do romantismo francês, senão estou enganado. O que para muitos significaria um defeito artístico, para o crítico simbolizava, em boa medida, originalidade na obra final. E com razão, ainda mais se tratando dos primórdios de nossas letras.

Milton Santos, grande geógrafo brasileiro reconhecido mundialmente pela profundidade de seu pensamento, foi enfático ao afirmar que “A força da alienação vem dessa fragilidade dos indivíduos que apenas conseguem enxergar o que os separa e não o que os une.” Li pouco do fundador de nossa geografia, mas do que li me incomodou, no bom sentido do termo. A particularidade com que trata de conceitos como Imperialismo, por exemplo, ampliaram-me não a noção do conceito em si, mas de um período histórico importante para a humanidade: o início do capitalismo mercantilista.

Todavia não é disto que falamos, não é mesmo? Nem por isso o citamos. É que M.S. nesta frase conhecida trata de um conceito central para esta discussão, já elencado por mim em outra ocasião, inclusive em um texto didático sobre o tema: as ideologias (link para o texto aqui). E aí entra a literatura (e a arte), com o seu potencial iconoclasta e sua capacidade de constantemente se reescrever graças ao seu material de trabalho: o ser humano, com suas particularidades (vistas de dentro para fora, forçando-nos à empatia e à aproximação destas diferenças), e também nossas semelhanças.

Daí a necessidade também da arte e da literatura. E de difundi-las, proliferá-las. Mas como fazer isso em larga escala, principalmente aos iniciantes, e mais ainda aos jovens, ainda mais neste século midiático, de narrativas curtas, vorazes, focadas em vídeos de 1 minuto, sem adaptá-las, principalmente os clássicos ou aquelas obras de “difícil digestão”, como James Joyce, Guimarães Rosa e por aí vai? E quando me refiro às adaptações tanto faz que sejam em livros, quadrinhos (as HQs), audiobooks, vídeos na internet ou para o cinema. Pouco importa a plataforma desde que se traga ao público contemporâneo obras literárias e de arte importantes para a humanidade. Quantos de nós lemos Homero em prosa, em edições pequenas, ilustradas, curtas e de fácil acesso no ensino médio? Atire a primeira pedra quem nunca conheceu um clássico por meio do cinema antes de lê-lo? Quantos de nós conhecemos - nem que por nome - estas narrativas graças tão somente às adaptações do cinema e / ou da televisão? Muitas vezes desprezamos, é verdade, porém quantas vezes nos aproximamos da narrativa pelas adaptações? Afinal, quando bem-feitas exercem bem a sua função: transportam o leitor  / espectador / ouvinte para o universo mágico da obra original, tornando-o mais aberto e receptivo àquele universo e instigando-lhe a passos maiores e mais promissores, dentro inclusive de um universo literário mais amplo.

Notemos contudo – sem querer polemizar – que salientei a adaptação bem-feita como aquela a transportar o leitor para um universo distinto do seu. Não o inverso. É importante explicar melhor esta ideia. O que seria afinal uma tradução / adaptação bem-feita? Em suma, aquela que não incorresse no erro quase sempre intencional de transportar à personagem protagonista da trama (ou à própria trama como um todo) valores bastante distintos àqueles da obra original, como faz as adaptações de Walt Disney, por exemplo. Afinal, em grande medida qual a distinção de caractere entre Mulan, a guerreira chinesa que vai à guerra, Pocahontas, a indígena americana que fez fama nos EUA, e Alladin, o personagem árabe de As Mil e uma Noites? Aprofundando mais a discussão: quais os valores gerais inseridos nestas três narrativas e quais suas diferenças se comparadas a outras franquias do estúdio como Miney e Mickey e A dama e o vagabundo? São valores distintos daqueles que a Disney defende, eminentemente burgueses, ou Mulan traz em seu cerne características de uma obra com qualidades épicas da China medieval?

Não precisamos de um olhar arguto para percebemos que entre a “América virgem”, a China medieval e os Estados Unidos capitalista haja similitudes de caráter e de valor que são bastante distintos nas obras originais ou em suas personagens. Eis um aspecto bastante negativo e que afasta – invés de aproximar – jovens contemporâneos das narrativas de partida. A esse aspecto talvez Alladin consiga se distinguir. E não por se tratar de uma adaptação que escape às fórmulas da indústria cinematográfica estadunidense (ver texto sobre ideologias referendado anteriormente), mas por trazer certo aspecto mágico que se sobrepõe à própria obra: as noites árabes e todo o encanto que ainda é capaz nos proporcionar. E talvez por este aspecto, alguém se sinta atraído em buscar o "verdadeiro" Alladin.

Subscrevo Marx: não é pela literatura que acabaremos com a exploração, mas ela pode nos ser a porta de entrada para que compreendamos o mundo e suas contradições. Isso se nos deixarmos levar pelo seu universo, é claro. Que venham as adaptações nos mostrar as similitudes entre a mitologia grega e os deuses do candomblé africano, ou entre a mitologia egípcia e as estórias da mitologia cristã. E que venha a literatura nos descortinar narrativas diferentes, com suas cores, particularidades e gostos, nos mostrando que há diferenças entre os homens e que nem todas são saudáveis, precisando algumas ser enfrentadas e superadas. Estará aberta então a via para que nos compreendamos a partir de nossas semelhanças, vislumbrando em nossas diferenças não o paródico, mas o sensível que nos faz humanos, com nossos problemas a serem resolvidos e com a necessidade de buscarmos soluções (espero que de classe) para resolvê-los. Que assim seja!

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* Aqui merece uma nota. Héstia era para os gregos a deusa dos lares. E não à toa, já que, em épocas remotas, antes dos deuses se tornarem universais, ou mesmo expressões típicas de um povo, como as divindades do Olimpo eram para os gregos, eram eles pessoais. Ou seja, cada lar cultuava, de maneira individual, uma divindade, evolução de uma prática oriunda de um tempo ainda mais remoto, onde as pessoas enterravam na terra seus mortos, levando-os comida e bebidas de tempos em tempos visando a saciar-lhes suas necessidades. Neste processo de culto à uma divindade privada, o fogo exercia um papel central, sendo mantido aceso dentro das casas. Essa prática se manteve mesmo após superado esse estágio embrionário das religiões, sendo frequentes em todo o decorrer dos impérios grego e romano. Para compreendermos o início das religiões e o papel central do fogo, uma obra interessante é A Cidade Antiga, de Fustel de Coulanges.

** Muito interessantes são os mitos a respeito do fogo dos povos originários da região brasileira. Embora não haja sacrifícios divinos como os de Prometeu, que usou da astúcia para prover a humanidade com este elemento libertador, há também a esperteza ao enganar os animais que portavam o fogo para que a humanidade pudesse caminhar e se desenvolver. Em suma, nas mitologias ameríndias, o fogo também chegou ao homem por meio de um terceiro e foi conquistado igualmente graças à astúcia, muito comum nas aventuras da mitologia grega.

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O que pode a Literatura?

06.07.21

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Texto extraído do livro A Literatura em Perigo, de Tzvetan Todorov. In: TODOROV, Tzvetan. A Literatura em perigo. Tradução: Caio Meira. se. Rio de Janeiro: Diefel, 2009.

 

Em sua Autobiografia, publicada logo após a sua morte, em 1873, John Stuart Mill narra a intensa depressão da qual foi vítima aos 20 anos. Ele se torna "insensível a toda alegria, assim como a toda sensação agradável, num desses mal-estares em que tudo o que em outras ocasiões proporciona prazer se torna insípido e indiferente". Todos os remédios que experimenta se mostram ineficazes, e sua melancolia se instala de forma contínua. Ele continua a cumprir mecanicamente os gestos habituais, mas sem nada sentir. Esse estado doloroso se prolonga por dois anos. Depois, pouco a pouco, se dissipa. Um livro que Mill lê por acaso naquele momento tem papel particular em sua cura: trata-se de uma coletânea de poemas de Wordsworth. Mill encontra no livro a expressão de seus próprios sentimentos sublimados pela beleza dos versos. "Eles me pareceram ser a fonte na qual eu podia buscar a alegria interior, os prazeres da simpatia e da imaginação que todos os seres humanos podem compartilhar [ ... ]. Eu precisava que me fizessem sentir que há na contemplação tranquila das belezas da natureza uma felicidade verdadeira e permanente. Wordsworth me ensinou tudo isso não somente sem me desviar da consideração dos sentimentos cotidianos e do destino comum da humanidade, mas também duplicando o interesse que eu trazia por eles."

Aproximadamente 120 anos mais tarde, uma mulher ainda jovem se encontra numa prisão de Paris, presa por ter conspirado contra o invasor alemão. Charlotte Delbo está sozinha em sua cela; submetida ao regime de "Noites e nevoeiro"*, ela não tem acesso à leitura. Mas a detenta da cela de baixo pode retirar livros da biblioteca. Então, Delbo tece uma corda com fios retirados do seu cobertor e faz subir um livro pela janela. A partir desse momento, Fabrice del Dongo** passa a ser seu companheiro de cela. Apesar de não falar muito, ele permite que ela interrompa sua solidão. Alguns meses mais tarde, no vagão de animais que a conduz a Auschwitz, Dongo desaparece, mas Charlotte ouve uma outra voz, a do Alceste, o misantropo***, que lhe explica em que consiste o inferno para o qual ela se dirige e lhe mostra o exemplo da solidariedade. No campo, outros heróis sedentos do absoluto lhe fazem visita: Electra, Don Juan, Antígona. Uma eternidade mais tarde, de volta à França, Delbo sofre para voltar à vida: a luz cegante de Auschwitz varreu toda ilusão, proibiu toda imaginação, declarou falsos os rostos e os livros ... até o dia em que Alceste retorna e a arrebata com sua palavra. Em face do extremo, Charlotte Delbo descobre que as personagens dos livros podem se tornar companheiras confiáveis. "As criaturas do poeta", ela escreve, "são mais verdadeiras que as criaturas de carne e osso, porque são inesgotáveis. É por essa razão que elas são minhas amigas, minhas companheiras, aquelas graças às quais estamos ligados a outros seres humanos, na cadeia dos seres e na cadeia da história.

Não vivi nada tão dramático quanto Charlotte Delbo, tampouco conheci as agruras da depressão descritas por John Stuart Mill; no entanto, não posso dispensar as palavras dos poetas, as narrativas dos romancistas. Elas me permitem dar forma aos sentimentos que experimento, ordenar o fluxo de pequenos eventos que constituem minha vida. Elas me fazem sonhar, tremer de inquietude ou me desesperar. Quando estou mergulhado em desgosto, a única coisa que consigo ler é a prosa incandescente de Marina Tsvetaeva; todo o restante me parece insípido. Outro dia, descubro uma dimensão da vida somente pressentida antes e, porém, a reconheço imediatamente como verdadeira: vejo Nastassia Philipovna através dos olhos do príncipe Míchkin, "o idiota" de Dostoiévski, ando com ele nas ruas desertas de São Petersburgo, impulsionado pela febre de um iminente ataque de epilepsia. E não posso me impedir de me perguntar: por que Míchkin, o melhor dos homens, aquele que ama aos outros mais do que a si mesmo, deve terminar sua existência reduzido à debilidade, enclausurado em um asilo psiquiátrico?

A literatura pode muito. Ela pode nos estender a mão quando estamos profundamente deprimidos, nos tornar ainda mais próximos dos outros seres humanos que nos cercam, nos fazer compreender melhor o mundo e nos ajudar a viver. Não que ela seja, antes de tudo, uma técnica de cuidados para com a alma; porém, revelação do mundo, ela pode também, em seu percurso, nos transformar a cada um de nós a partir de dentro. A literatura tem um papel vital a cumprir; mas por isso é preciso tomá-la no sentido amplo e intenso que prevaleceu na Europa até fins do século XIX e que hoje é marginalizado, quando triunfa uma concepção absurdamente reduzida do literário. O leitor comum, que continua a procurar nas obras que lê aquilo que pode dar sentido à sua vida, tem razão contra professores, críticos e escritores que lhe dizem que a literatura só fala de si mesma ou que apenas pode ensinar o desespero. Se esse leitor não tivesse razão, a leitura estaria condenada a desaparecer num curto prazo.

Como a filosofia e as ciências humanas, a literatura é pensamento e conhecimento do mundo psíquico e social em que vivemos. A realidade que a literatura aspira compreender é, simplesmente (mas, ao mesmo tempo, nada é assim tão complexo), a experiência humana. Nesse sentido, pode-se dizer que Dante ou Cervantes nos ensinam tanto sobre a condição humana quanto os maiores sociólogos e psicólogos e que não há incompatibilidade entre o primeiro saber e o segundo. Tal é o "gênero comum" da literatura; mas ela tem também "diferenças específicas". Vimos anteriormente que os pensadores da época do Iluminismo assim como os do período romântico tentaram identificá-las; retomemos suas sugestões – completando-as com outras.

Uma primeira distinção separa o particular e o geral, o individual e o universal. Seja pelo monólogo poético ou pela narrativa, a literatura faz viver as experiências singulares; já a filosofia maneja conceitos. Uma preserva a riqueza e a diversidade do vivido, e a outra favorece a abstração, o que lhe permite formular leis gerais. É o que faz com que um texto seja absorvido com maior ou menor grau de dificuldade. O Idiota, de Dostoiévski, pode ser lido e compreendido por inúmeros leitores, provenientes de épocas e culturas muito diferentes; um comentário filosófico sobre o mesmo romance ou a mesma temática seria acessível apenas à minoria habituada a frequentar esse tipo de texto. Entretanto, para aqueles que os compreendem, os propósitos dos filósofos têm a vantagem de apresentar proposições inequívocas, ao passo que as metáforas do poeta e as peripécias vividas pelas personagens do romance ensejam múltiplas interpretações.

Ao dar forma a um objeto, um acontecimento ou um caráter, o escritor não faz a imposição de uma tese, mas incita o leitor a formulá-la: em vez de impor, ele propõe, deixando, portanto, seu leitor livre ao mesmo tempo em que o incita a se tornar mais ativo. Lançando mão do uso evocativo das palavras, do recurso às histórias, aos exemplos e aos casos singulares, a obra literária produz um tremor de sentidos, abala nosso aparelho de interpretação simbólica, desperta nossa capacidade de associação e provoca um movimento cujas ondas de choque prosseguem por muito tempo depois do contato inicial. A verdade dos poetas ou a de outros intérpretes do mundo não pode pretender ter o mesmo prestígio que a verdade da ciência, uma vez que, para ser confirmada, precisa da aprovação de numerosos seres humanos, presentes e futuros; de fato, o consenso público é o único meio de legitimar a passagem entre, digamos, "gosto dessa obra" e "essa obra diz a verdade”. Ao contrário, o discurso do cientista – que aspira alcançar uma verdade de correspondência e se apresenta como uma afirmação – pode ser submetido de imediato a uma verificação, pois será refutado ou (provisoriamente) confirmado. Não precisamos esperar por séculos e interrogar leitores de todos os países para saber se o autor diz ou não a verdade. Os argumentos relacionados logo suscitam contra-argumentos: inicia-se um debate racional em lugar de se ceder à admiração e ao devaneio. O leitor do texto científico se arrisca menos a confundir sedução e exatidão.

A todo momento, um membro de uma sociedade está imerso num conjunto de discursos que se apresentam a ele como evidências, dogmas aos quais ele deveria aderir. São os lugares-comuns de uma época, as ideias preconcebidas que compõem a opinião pública, os hábitos de pensamento, as banalidades e os estereótipos, aos quais podemos também chamar de "ideologia dominante", preconceitos ou clichês. Desde a época do Iluminismo, pensamos que a vocação do ser humano exige que ele aprenda a pensar por si mesmo, em lugar de se contentar com as visões do mundo previamente prontas, encontradas ao seu redor. Mas como chegar lá? No Emílio, Rosseau usa a expressão "educação negativa" para designar esse processo de aprendizagem, sugerindo que se mantenha o adolescente longe de livros, a fim de afastá-lo de toda a tentação de imitar a opinião de outrem. Pode-se, entretanto, raciocinar de maneira distinta, já que os preconceitos, sobretudo os atuais, não precisam de livros para se instalarem de forma permanente no espírito dos jovens: a televisão já passou por lá! Os livros dos quais ele se apropria poderiam ajudá-lo a deixar as falsas evidências e libertar seu espírito. A literatura tem um papel particular a cumprir nesse caso: diferentemente dos discursos religiosos, morais ou políticos, ela não formula um sistema de preceitos; por essa razão, escapa às censuras que se exercem sobre as teses formuladas de forma literal. As verdades desagradáveis – tanto para o gênero humano ao qual pertencemos quanto para nós mesmos – têm mais chances de ganhar voz e ser ouvidas numa obra literária do que numa obra filosófica ou científica.

Num estudo recente, o filósofo americano Richard Rorty propôs caracterizar diversamente a contribuição da literatura para a nossa compreensão do mundo. Ele recusa o uso de termos como "verdade" ou "conhecimento" para descrever essa contribuição, afirmando que a literatura faz menos remediar nossa ignorância do que nos curar de nosso "egotismo", termo entendido como uma ilusão de autossuficiência. A leitura de romances, segundo ele, tem menos a ver com a leitura de obras científicas, filosóficas ou políticas do que com outro tipo bem distinto de experiência: a do encontro com outros indivíduos. Conhecer novas personagens é como encontrar novas pessoas, com a diferença de que podemos descobri-las interiormente de imediato, pois cada ação tem o ponto de vista do seu autor. Quanto menos essas personagens se parecem conosco, mais elas ampliam nosso horizonte, enriquecendo assim nosso universo. Essa amplitude interior (semelhante sob certos aspectos àquela que nos proporciona a pintura figurativa) não se formula com o auxílio de proposições abstratas, e é por isso que temos tanta dificuldade em descrevê-la; ela representa, antes, a inclusão na nossa consciência de novas maneiras de ser, ao lado daquelas que já possuímos. Essa aprendizagem não i;nuda o conteúdo do nosso espírito, mas sim o próprio espírito de quem recebe esse conteúdo; muda mais o aparelho perceptivo do que as coisas percebidas. O que o romance nos dá não é um novo saber, mas uma nova capacidade de comunicação com seres diferentes de nós; nesse sentido, eles participam mais da moral do que da ciência. O horizonte último dessa experiência não é a verdade, mas o amor, forma suprema da ligação humana.

Será mesmo necessário descrever a compreensão ampliada do mundo humano, à qual ascendemos mediante a leitura de um romance, como a correção de nosso egocentrismo, assim como o deseja a descrição sugestiva de Rorty? Ou então como a descoberta de uma nova verdade de desvelamento, verdade necessariamente partilhada por outros homens? A questão terminológica não me parece ser de suma importância, desde que se aceite a forte relação estabelecida entre o mundo e a literatura, assim como a contribuição específica do discurso literário relativamente ao discurso abstrato. Aliás, como bem observa Rorty, a fronteira separa o texto de argumentação não do texto de imaginação, mas de todo discurso narrativo, seja ele fictício ou verídico, desde que descreva um universo humano particular diverso daquele do sujeito: nessa perspectiva, o historiador, o etnógrafo e o jornalista se veem ao lado do romancista. Todos participam do que Kant, no famoso capítulo da Crítica da Faculdade do juízo, considerava como um passo obrigatório no caminho para o "senso comum", ou seja, para nossa pró-pria humanidade: "Pensar colocando-se no lugar de todo e qualquer ser humano." Pensar e sentir adotando o ponto de vista dos outros, pessoas reais ou personagens literárias, é o único meio de tender à universalidade e nos permite cumprir nossa vocação. É por isso que devemos encorajar a leitura por todos os meios -inclusive a dos livros que o crítico profissional considera com condescendência, se não com desprezo, desde Os Três Mosqueteiros até Harry Potter: não apenas esses romances populares levaram ao hábito da leitura milhões de adolescentes, mas, sobretudo, lhes possibilitaram a construção de uma primeira imagem coerente do mundo, que, podemos nos assegurar, as leituras posteriores se encarregarão de tornar mais complexas e nuançadas.

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* Referência ao documentário de Alain Resnais, Nuit et Brouillard (1955), primeiro a abordar e mostrar ao mundo os horrores dos campos de concentração nazistas. O documentário é escrito e narrado pelo poeta e romancista Jean Cayrol, autor do livro Poèmes de la nuit et du brouillard (1945). A expressão "noite e nevoeiro" é retirada do decreto alemão Nacht und Nebel, que determinava o encarceramento em locais secretos dos acusados de conspirar contra o regime nazista. (N.T.)

** Fabrice del Dongo é o herói do romance A Cartuxa de Parma (1839), de Stendal. (N.T.)

*** Alceste é personagem da peça O Misantropo (1666), de Molière. (N.T.)

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