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Práxis

Os filósofos limitaram-se sempre a interpretar o mundo de diversas maneiras; porém, o que importa é modificá-lo.

Práxis

Os filósofos limitaram-se sempre a interpretar o mundo de diversas maneiras; porém, o que importa é modificá-lo.

Amor e realidade: idealismo no tempo presente

30.10.19

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O tempo presente nos apresenta uma série de considerações sobre o que é o amor. Na maioria das vezes são considerações apaixonadas, recheadas de idealismo romântico, e que não nos fazem nenhum mal a princípio.

Entretanto, com o desenvolver desta manifestação do amor, o sujeito pode passar a demonstrar a maior e mais forte negação de si mesmo. Esta é a nossa tese central aqui: o amor como negação de si.

Para que nossos leitores continuem a nos acompanhar é necessário se permitir a algumas outras palavras sobre alienação e idealismo.

O filósofo prussiano, Hegel, identificava várias manifestações da alienação e uma delas se colocava no sentido positivo, onde o sujeito retirava uma parte de si e entregava, colocava em outro/no outro/outra. Tratemos de exemplificar isso.

Uma pessoa que trabalha, ao trabalhar, coloca um pouco de sim no produto do seu trabalho, identificando-se no produto que “tem a cara dele”, ou tem um pouco dele colocado no ato da criação. Assim, ao fazer uma mesa, o produtor a faz com o seu jeito, com a sua forma de cortar a madeira, de pregar as partes, de lixar, pintar e de usar de acordo com aquilo que imaginou antes mesmo de iniciar o processo de construção da mesa. Uma vez finalizado o processo de construção, o produtor olha para o produto, fruto da sua atividade e se identifica nele, mais uma vez, “tem a cara dele”. Ele se vê naquilo que construiu, ele se identifica com a mesa, há nela uma parte dele. Com efeito, ele alienou uma parte de si no produto mesa que construiu.

Neste sentido, alienação tem um sentido positivo, pois ele aliena uma parte de si no produto e se identifica nele, aquilo é parte dele objetivada e não lhe é estranho, pois vê no produto todo um processo no qual ele é sujeito criador. Mas este é apenas um sentido de alienação, repleto de positividade. Há outros sentidos para esse conceito.

Em 1844, outro pensador prussiano, Karl Marx, desenvolvia seus estudos iniciais sobre economia política e deixou-nos na forma de rascunhos uma outra leitura de alienação. Sem desconsiderar os sentidos que Hegel deu a este termo, Marx identifica na sociedade de classes uma outra manifestação do sentido de alienação. Chamaremos aqui de estranhamento o grau elevado de alienação onde o produtor não se identifica com a produção, pois sequer identifica como sendo sua a atividade produtora. Alienação, agora, seria o estranhamento diante daquilo que é produzido não existindo identificação com a ação criadora. A ação criadora já não é mais uma iniciativa daquele que produz, mas uma determinação daquele que deseja a efetividade da produção. O que isso significa? Quer dizer que a atividade criadora não pertence mais aquele que produz. Significa ainda dizer que o produtor de mesas as produz em quantidades elevadas não para atender suas necessidades, mas para servir aos interesses de outras pessoas que o contrata para produzir para este terceiro. Em outras palavras, não se produz mais para a tender as necessidades do produtor, mas para a necessidade de troca no mercado por aquele que contrata o trabalhador para fazer mesas. Aqui o trabalhador que faz mesa não a faz mais para seu uso. Não coloca espontaneamente uma parte de si no produto, pois o próprio produto e o seu destino não o interessa mais. Neste caso o trabalhador só o faz (mesas) para receber uma quantidade geral de valor, que, a partir daí sim (?), vai buscar sua realização através do consumo no mercado, onde os produtos são destinados recebendo o nome de mercadorias.

Uma enorme coleção de mercadorias sem identificação imediata por aqueles que produzem, mas com desejos vorazes por aqueles que as consomem. Mas aqui não há uma identificação? Sim. Mas radicalmente passageira! Trata-se de uma realização através do consumo e como esse consumidor não é ao mesmo tempo produtor, a sensação de frustração logo se estabelece e busca-se mais uma vez, desesperadamente, a realização via o novo consumo. Mas inutilmente, pois aquilo não tem a cara dele. É estrangeiro/estranho.

 

Agora sobre o idealismo. Do que se trata?

O idealista desenvolve um conjunto de perspectivas que não possuem, necessariamente, conexão com a vida social que está inserido. Tratemos que esclarecer. Um trabalhador que recebe um salário mínimo (no caso brasileiro, menos de 1000 reais) pode desenvolver a ideia de que se poupar poderá ter a sua casa própria e sair do aluguel. Nada mais sóbrio do que este desejo! Entretanto, a perspectiva não está considerando a relação entre os valores. Como pode um assalariado que recebe uma quantidade de equivalente geral de valor (dinheiro) menor que a quantidade de equivalente de uma casa ter a sua moradia e sair do aluguel?

Para exemplificarmos de outra maneira: se estou apaixonado, eu e minha companheira, no maior calor de todas as paixões… resolvemos ir ao cinema para nos realizarmos no consumo da arte, e, nesta perspectiva idealizamos que seria muito gostoso nos sentarmos naquelas poltronas confortáveis e tomarmos um refrigerante acompanhado de dois maravilhosos pacotes de pipocas amanteigadas e quentinhas? Até aqui tudo bem… concordaríamos que isso seria muito bom! Entretanto, mais uma vez, ficaríamos no campo do idealismo se não considerássemos que os bolsos estão vazios e que no final do mês as coisas são ainda mais difíceis. Logo, poderíamos, ainda assim, caminharmos por quilômetros até chegarmos a sala de cinema, poderíamos até consumirmos a propaganda dos cartazes, o cheiro da pipoquinha e o barulhinho do abrir das garrafas de refrigerantes, mas nos frustraríamos, provavelmente, no caminho (a pé) de volta para casa!

Não queremos desanimar os caros leitores, mas apenas colocarmos algumas palavras sobre alienação e idealismo em nosso tempo presente.

Agora passaremos a tese central deste nosso artigo e certamente a mais abusada: o amor como negação de si. Não nos deteremos aqui em realizamos um estudo sobre a origem do amor e a sua pluralidade semântica, por isso, vamos direto ao tema, fazendo apenas uma consideração: nos referiremos ao amor como forma de alienação e negação de si mesmo, considerando que esta é apenas uma forma de se entender a questão e muito particularizada de uma das manifestações daquilo que chamamos de amor na sociedade de classes. Dito isso, passemos a nossa tese.

O verbo amar comparece cotidianamente e na maioria absoluta das vezes é conjugado da forma mais banal que conseguirmos imaginarmos. A banalização do amor não está só, vem acompanhada do imperativo “meu”, da primeira pessoa do singular “eu” e até mesmo a primeira do plural “nosso”.

São ricos os casos banais da conjugação do amor. Podemos encontrar da mais vulgar expressão “amor bandido” até a mais clássica: “amor é fogo que arde sem …”. E tudo isso expressa a pluralidade que nos referimos anteriormente, e, contra ela não temos nenhuma crítica, pois é a maior expressão da criatividade humana na história da opressão e da exploração. Não nos cabe aqui um juízo maior por conta do espaço.

Entretanto, o amor nem sempre se coloca de forma tão inofensiva em uma sociedade em que a regência do capital impõe a alienação da produção e reprodução da vida, recheado de idealismos de todas as espécies, onde, mesmo trabalhando com meias verdades (ideologias no sentido de Engels e Marx em 1845). (?)

Diante destas relações sociais os sujeitos se relacionam em busca da tal realização a todo custo. Nesta verdadeira Via Crúcis, contrai inevitáveis relações sociais onde o amor se manifesta como uma das formas mais belas e reluzentes de coexistirem, principalmente diante das dificuldades do tempo presente no capitalismo.

É verdade que este tipo de aproximação se coloca na história muito anteriormente a sociedade capitalista, mas é no capitalismo que o fenômeno amor ganha proporções inimagináveis, estabelecendo um tipo de alienação nociva e destruidora, capaz de fazer a negação de si mesmo ser a tônica mais perniciosa da construção do ser social!

Ao depositar um pouco de si no outro, identificamo-nos neste outro e o fazemos com prazer, com amor. O outro, ao agir da mesma forma, também busca se identificar e juntos buscam a realização naquilo que equivocadamente é chamado de amor.

Diante da carência de consumo, diante da não realização diante da produção, buscam a realização diante de si mesmos! E até aqui a problemática não se manifesta de forma tão fenomênica.

Quase tudo é alegria, festa e motivo de risada. Fazem planos, idealizam, romantizam… e até aqui tudo maravilha, pois esta é a parte inicial da questão e normalmente ela nos coloca em uma situação apoteótica do viver onde os problemas do tempo presente são secundarizados e a sociedade de classes pode ser radicalmente ignorada! É o momento de sentir, imaginar, gozar e poetizar independente do concreto que mora ao lado. É realmente tudo muito gostoso e não há como negar, é bom demais! Todavia, nosso caro leitor terá que se permitir considerar o momento pós-gozo.

Quem já se apaixonou e se disse amando deve se identificar plenamente com nossas palavras, então, continuemos (…).

Quem é que já conjugou o verbo amar e não acrescentou: “amor, que saudades”; “amor, eu te amo muito”; “amor sem você eu não existo”; “amor, você é meu porto seguro”; “amorzinho, saudades”; “amor, você é muito importante para mim”; “amor da minha vida”; “amor, você é tudo”; Amor… amor… amor (…).

Tudo isso pode ser verdade e não estamos aqui a julgar nada, mas apenas identificando algumas situações do dia a dia, possíveis de se manifestarem entre aqueles que amam, ou acreditam amar.

Mas a questão pode se tornar complexa e auto negadora, e, é disso que escrevemos aqui. A relação de amor pode chegar a tal ponto que a identificação daquele que ama só é possível diante da pessoa amada. A realização só é aceitável ao lado do amor tão declarado a ponto de se estranhar diante de si mesmo. E aqui teríamos uma situação de alienação elevada, oque inicialmente apontamos como estrangeiro (estrangeirismo).

Nesta situação o sujeito passa pelas maiores privações de si mesmo quando distante do grande amor, do porto seguro, da pessoa a qual ele mesmo diz não ser nada sem ela/e!

Trava-se as demais relações sociais, nega-se a identidade que agora so é identificável na outra pessoa. Se entristece fulminantemente com a ausência, pois apenas si não é existente sem a outra parte. O que acontece?

Ao depositar não apenas parte se si no outro, mas entregar-se (idealmente) totalmente ao outro pode fazer acreditar que a vida já não possui mais sentido sem a pessoa amada… Que a existência perdeu o sentido de ser… Que a vida deve ser ao lado do amor distante, ou mesmo renegado… Ignora-se que o estado de idealização ao lado de outra pessoa não considerou a realidade mais concreta que sempre esteve ao lado [ao lado escrito duas vezes]. Idealiza-se (o que inicialmente não é ruim) o bom, o bem, a alegria e o prazer em um mundo frio, bárbaro e violento. Aliena o máximo de si em uma construção idealista (em dada media…insistimos… inevitável), pois a realidade da produção da vida não nos permite a realização plena da felicidade, seja na produção ou mesmo no consumo de mercadorias.

Neste sentido, o amor, tão apregoado pela indústria acaba por funcionar como um elixir. Ameniza, mas jamais curará, pois o farmacêutico necessita da venda de mercadorias e os sujeitos não podem ser curados plenamente, pois isso significaria a sua ruína (a do farmacêutico). Assim o amor, não à toa, é entoado por todos os cantos, por várias vozes, por vários encantadores de flautas em punhos.

O que significa isso? Que palavras são estas… pode perguntar nossos leitores… Um pessimismo, um ato contra o amor? Respondemos: não, trata-se de não aceitar o amor como alienação, como mercadoria, como propriedade opressiva, mas de defendê-lo a todo custo como forma de realização humana que não nos parece possível integralmente, ainda, na sociedade de classes. Trata-se de não entender o amor como uma ideologia, no sentido de falseamento da realidade na sociedade onde impera o trabalho alienado e onde o idealismo nos atravanca a busca da emancipação humana. Trata-se de propor uma forma de entender o amor diante da realidade que vivemos, não nos permitindo a reprodução de peças enganosas para fundamentarem as relações sociais mais plenas de amor e realidade.

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Sobre a Liberdade

02.10.19

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Jóe José Dias

Em 1944, em um artigo intitulado A república do silêncio, Sartre afirmou nunca terem os franceses sido tão livres quanto à época da ocupação alemã. De fato um "paradoxo" que somente a filosofia é capaz de produzir. Afinal, por que diabos era livre um povo que tinha seus direitos suprimidos e sua liberdade destruída pelo Reich alemão? Que liberdade era essa se os gestos mais triviais do cotidiano eram rigidamente controlados pelo nazismo em ascensão na Europa? Ora, porque para Sartre - dialogando diretamente com Bertolt Brecht - cada gesto era um compromisso. Assim, a resistência - como qualquer outra coisa - significava uma escolha, sendo portanto um exercício de liberdade. Isso significava não renunciar à construção de sua própria existência quando os invasores queriam moldá-la, reduzindo-a a objeto passivo e sem forma.

A mulher mais revolucionária do século XX, Rosa Luxemburgo, utilizando-se de uma linguagem mais poética, afirmou que "quem não se movimenta não percebe as correntes que o aprisionam". De fato, à revolucionária alemã ficou o legado de várias frases sobre a liberdade, como a conhecidíssima "A liberdade é quase sempre, exclusivamente, a liberdade de quem pensa diferente de nós", aludindo obviamente à privatização e ao controle da informação e dos valores às elites, de maneira similar como - também poeticamente - exclamou Brecht, em seu poema Privatizado.

Sartre foi um existencialista. E para o existencialismo a existência precede a essência. Assim, para o filósofo francês e a corrente filosófica por ele encampada, não há algo anterior à existência que impeça um ser humano de tomar livremente as decisões que construirão o seu futuro. Isto dá ao humano a plena imputabilidade pelos seus atos. O que ele faz da sua existência é culpa ou mérito exclusivamente seu. O que ela é hoje resulta de decisões que tomou no passado, e o que será resultará das decisões que toma no presente.

A despeito do caráter estreito e pequeno-burguês de seu raciocínio ao afirmar que o indivíduo em um mundo controlado e dividido em classes é dono do seu destino, Sartre foi feliz ao notar o caráter de resistência que há no ato de conquistar a liberdade. Crer que todos os sujeitos têm direito à escolha neste mundo em que vivemos é desprezar as relações sociais históricas forjadas há séculos, que tanto privilégios têm gerado a uma meia dúzia de eleitos às custas da miséria social e intelectual de uma imensa maioria. É, em suma, abdicar-se da reflexão justa, partindo de um pressuposto de que todos partem de um mesmo lugar e que têm as mesmas condições. Sartre, neste ponto, é a negação encarnada do pensamento revolucionário de Rosa Luxemburgo.

De qualquer forma, o pensamento de Sartre continua vivo, principalmente se o abordamos a partir de um pressuposto classista. Na França da segunda guerra, ocupada pelo nazismo alemão, parte considerável da população (uma fatia bastante superior àquela que os próprios franceses gostam de admitir) foi complacente ou colaborou com o invasor, que tanto oprimiu e massacrou o povo enquanto aniquilava os direitos mais elementares conquistados a sangue e suor pelos trabalhadores franceses. Neste processo encontravam-se a burguesia, a pequena burguesia e setores médios da França arrastados política e ideologicamente por estes setores.

E não à toa. O velho Trotsky dizia que há em todo o pequeno-burguês uma partícula de Hitler. A França, como a Alemanha e o conjunto da Europa ocidental, passava por uma grave crise econômica que levara milhões de pessoas à miséria quase absoluta. A burguesia francesa convivia diariamente com a possibilidade de uma revolução que à expropriaria do poder*: precisava urgentemente derrotar a classe operária, restabelecer a ordem e acalmar os ânimos da pequena-burguesia, raivosa e falida, mas não tinha forças para isso.

Sejamos honestos, o nazismo veio a calhar na França daquele período: não havia outra saída enquanto classe para burguesia e parte da pequena-burguesia senão a de se juntarem placidamente às fileiras do nazismo: covardemente se curvaram ao Reich alemão. De fato, não cabe aos dominadores o conceito de Liberdade explanado por Sartre, tampouco àqueles que gravitam o poder; ao oprimido cabe este exercício. E quem mais preparado a exercê-lo que o operário, que está no âmago da produção e encarna em si todas as contradições do sistema capitalista?

Antes de salvar a França das garras do fascismo, a burguesia preferiu salvar sua própria pele e arrastou consigo os setores diretamente a ela ligados. Suplantou, em detrimento de suas necessidades enquanto classe, as palavras de ordem da revolução que ela mesma dirigira, quase um século e meio antes: liberté, egalité, fraternité. Todas as instituições do estado burguês foram coniventes à invasão nazista, e não somente na França. Aos oprimidos coube a resistência, este ato de escolha Revolucionário e Libertário.

Hoje, com a crise do capitalismo avançando e abocanhando os direitos que os trabalhadores conquistaram e mantiveram durante décadas de duras lutas (praticamente isolados, diga-se de passagem) a muitos está colocada novamente esta problemática. A resistência enquanto instrumento de libertação e ato de Liberdade está na agenda de atividades da classe trabalhadora. Rebeliões se espalham em todo o mundo: Chile, Equador, Vietnã, Iraque, Hong Kong, Haiti, Palestina e Catalunha são apenas alguns dos exemplos.

O mundo arde (e não é isso uma metáfora) e o capitalismo falido não tem condições de resolver as contradições que ele próprio criou. Pelo contrário! Por incapacidade, as acentua. Hordas de desempregados e pobres morando nas ruas assolam a Europa e os Estados Unidos, enquanto banqueiros espoliam dos estados a riqueza coletiva. Assim como a destruição do planeta pela necessidade de acumulação de capital da burguesia... Eis alguns exemplos da barbárie iminente. E embora o desenvolvimento da luta de classes tenha seu desenvolvimento desigual no planeta, é um sofisma afirmar que os elementos que a desencadeiem não sejam combinados.

A história é prenhe de surpresas, e seu desenvolvimento, embora combinado, se dá de maneira desigual. Em 2013, por exemplo, em um momento diferente da luta de classes do continente, o Brasil foi vanguarda no processo de lutas que hoje se desencadeia de maneira mais radicalizada. Este processo, bastante discutido, culminou na eleição de Bolsonaro para a presidência da República do Brasil.

A partir de então muito se tem escrito. Os reformistas, incapazes de fazer uma autocrítica, desvinculam-se covardemente deste processo, acusando aos trabalhadores pela situação em que o país se encontra. Acusam a sociedade brasileira de assistir intencionalmente inerte ou de maneira complacente a retirada do resto de direitos que nos sobram. Esquivam-se de falar, contudo, que foi o fracasso do modelo reformista que culminou, como em outros momentos da história, com o ascenso da extrema-direita ao poder.

Porém, nem tudo são espinhos ou flores! A conjunta brasileira em si traz algo de positivo: desmascarou o caráter do Estado democrático de direito tão alardeado pelos galardões da burguesia e colocou em cheque o próprio conceito de democracia tão defendido por todos aqueles que historicamente suprimiram a liberdade de pensar e agir da maioria da população. E, a despeito daqueles que jubilam-se em afirmar que deu-se um ou dois passos atrás, esquivam-se de afirmar que a vitória do Messias é oriunda de um processo histórico que se repete (não como tragédia, mas como farsa) e de que ele mesmo, Bolsonaro, é filho desta democracia, deste estado laico que sempre oprimiu com a ponta da baioneta aqueles que historicamente luta(ra)m por liberdade e direitos.

Em suma, com toda a sua arrogância que lhe é peculiar, e com toda a imbecilidade vulgar de seu raciocínio raso, o presidente do estado brasileiro nada mais é que a encarnação viva e escancarada de um mundo burguês que há décadas está em crise, e em todas as suas esferas: política, de valores, social..., na qual o Brasil, com sua elite colonial, não é apenas mais que uma reles amostra vulgar e torpe de um mosaico mais rico e diversificado e com proporções globais. Que os valores democráticos burgueses - assim como as suas instituições - não servem à classe trabalhadora é insofismável. Acontece que, depois de toda a nossa experiência contemporânea, defendê-la ficou ainda mais complicado. É como dizia Lenin: "Um imbecil pode, por si só, levantar dez vezes mais problemas que dez sábios juntos não conseguiriam resolver". E que assim o seja!

Não há como prever (a curto prazo) o que acontecerá. Convulsões sociais poderão desalojar os usurpadores do poder, ou poderemos seguir para o cadafalso como humanidade. O que é certo, no entanto, tomando a frase de Sartre, é que somente poderão dizer no futuro que foram livres neste tempo os que agora estão se comprometendo e resistindo. Mas não somente contra este ou aquele governo, contra este ou aquele regime, tampouco somente neste ou naquele país; contra o capital a nível global. E que vivamos com a dignidade que somente os seres livres podem ostentar, pois são realmente livres aqueles que resistem!!

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* A burguesia foi expropriada por meio de uma revolução vitoriosa no final da segunda guerra mundial. Contudo, sob ordem de Stalin, o partido comunista devolve-a o poder, restabelecendo o estado capitalista.

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Exercícios de Tradução

01.10.19

Funes, o memorioso

Este pequeno texto trata-se apenas de um exercício de tradução livre de pequenos excertos de leituras referentes aos textos de Borges e Valery, citados na sequência. Este trabalho foi proposto pela professora Dra. Luciana Rassier (DLLE UFSC), na disciplina de Literatura Francesa 3. As reflexões estão organizadas em formas de questões, nas quais colocarei o trecho original em francês adido da nota, juntamente com a tradução por mim feita.

 

1- Traduza o documento 1 (início de um artigo da revista Sciences Humaines).

Et si le secret d’une bonne mémoire était d’oublier, mais à bon escient ? Mieux encore, il semble que pour maintenir notre identité à flot, nous soyons obligés de sélectionner, filtrer, remodeler nos souvenirs… Plutôt qu’un musée, la mémoire est un laboratoire.

La nouvelle de Jorge Luis Borges, Funès ou la mémoire, présente un personnage incapable d’oublier quoi que ce soit. Son existence, ses pensées, ses perceptions sont parasitées en permanence par un jaillissement de souvenirs d’une précision inutile. Il devient incapable de vivre avec une telle mémoire, qu’il compare à un tas d’ordures, et s’enferme dans une pièce vide pour ne plus rien enregistrer. Dans la réalité, ce phénomène, « l’hypermnésie », existe bel et bien occasionnellement, et dans de moindres proportions, chez certains patients atteints de troubles neurologiques. D’autres sujets souffrent d’un état de stress posttraumatique : autrefois confrontés à un événement particulièrement dramatique et dangereux, ils peuvent être envahis tout à coup par la certitude de sa reproduction imminente. (...)

 

E se o segredo de uma boa lembrança fosse o de esquecer, mas de maneira sensata? Melhor dizendo, parece que, para mantermos nossa identidade à tona, somos obrigados a selecionar, filtrar, remodelar nossas memórias ... Ao invés de um museu, a memória é um laboratório.

O conto de Jorge Luis Borges, "Funes o memorioso", apresenta um personagem incapaz de esquecer qualquer coisa. Sua existência, seus pensamentos, suas percepções são constantemente parasitados por uma explosão de memórias de uma precisão inútil. Ele se torna incapaz de viver com elas, comparando-as a uma pilha de lixo, e se tranca em uma sala vazia para nada mais reter. Na realidade, esse fenômeno, a "hipermnésia", ocorre ocasionalmente e, em menor proporção, em alguns pacientes com distúrbios neurológicos. Outros sujeitos sofrem de um estado de estresse pós-traumático: uma vez confrontados com um evento particularmente dramático e perigoso, eles podem ser subitamente invadidos pela certeza de sua reprodução iminente. (…)

 

 

2- Traduza o documento 2 (resumo de artigo acadêmico).

Jorge Luis Borges, à travers « Funes le mémorieux », met en scène un personnage dont la mémoire est infaillible. Paul Valéry, pour sa part, imagine Monsieur Teste, un être abstrait doté d’une intelligence mécanique quasi parfaite. Au-delà des similitudes existantes entre les héros et leurs créateurs, Funes et Teste incarnent, mieux qu’aucun autre de leurs personnages, un idéal intellectuel inatteignable cher à chacun des deux écrivains. Mais leur nature, en inadaptation avec le monde réel, les transforme en monstres abstraits dont les propres entreprises intellectuelles sont vouées à l’échec et leur destinée à une mort précoce imminente.

 

Jorge Luis Borges, em seu "Funes o memorioso", nos apresenta um personagem cuja memória é infalível. Paul Valéry, por sua vez, imagina o Sr. Teste, um ser abstrato dotado de uma inteligência mecânica quase perfeita. Além das semelhanças entre os heróis e seus criadores, Funes e Teste personificam, melhor do que quaisquer outros dentre seus personagens, um ideal intelectual inatingível caro a ambos os escritores. Mas sua natureza, em desajuste com o mundo real, transforma-os em monstros abstratos cujas próprios projetos intelectuais estão fadados ao fracasso e os destinam a uma morte precoce e iminente.

 

 

3- Compare a primeira frase dos documentos 1 e 2: como é descrito o personagem?

 

Si dans le premier document Funes et sa condition sont décrites de manière négative, cela « incapable d’oublier que ce soit », au deuxième document c’est bien le contraire : la connotation est clairement positive par l'utilisation du terme « infaillible ».

 

 

4- Marmion: Quel est le sujet de l’article ? Le sujet de l'article est la mémoire et la nécessité d'oublier pour maintenir notre identité. Pourquoi l’auteur fait-il allusion au personnage de Borges ? Parce que ce personnage là est incapable d’oblier leurs mémoires. Comme le sujet de la nouvelle de Borges est justement la mémoire, l’auteur fait-il allusion à lui comme une manière de exemplifier le sujet de son article. c) Que fait Funes pour échapper à l’hypermnésie ? Ireneu Funes compare l’hypermnésie à un tas d’ordure, il se devient incapable de vivre avec ce phènomène. Et pour échapper à l’hypermnésie il s’enferme dans une pièce vide pour ne plus rien enregistrer.

 

 

5- Otero: traduza os seguintes trechos:

a) primeiro parágrafo do artigo (p.475: « Irineo... parfaite »);

Ireneo Funes est le plus valéryen des personnages de Jorge Luis Borges et Edmond Teste le plus borgésien des personnages de Paul Valéry. Ce qui est indéniablement commun à ces deux personnages est le rapport que chacun d’entre eux entretient avec son créateur. Les deux héros, ou devrions-nous dire, anti-héros, incarnent ce que nous pouvons appeler un homme idéal ou une qualité idéalisée que les deux écrivains admirent et qu’ils voudraient posséder : pour Borges une mémoire infaillible, pour Valéry, une intelligence parfaite.

 

Ireneo Funes é o mais valeriano dos personagens de Borges e Edmond Teste o mais borgiano dos personagens de Valéry. O que é inegavelmente comum a estes dois personagens é a relação que cada um deles mantém com o seu criador. Os dois heróis, ou deveríamos dizer, anti-heróis, personificam o que podemos chamar de um homem ideal ou uma qualidade idealizada que ambos os escritores admiram e gostariam de possuir: para Borges, uma memória infalível, para Valéry, uma inteligência perfeita.

 

b) primeiro parágrafo da p.477: « Funes... imaginé »;

Funes ou la mémoire (si nous respectons le néologisme, nous dirons Funes le mémorieux), est l’histoire d’un jeune Indien de dix-neuf ans, simple et pauvre, dont la mémoire est d’une telle précision qu’il est capable de donner l’heure exacte, de retenir ce qu’il n’a lu qu’une seule fois, ou de reconstruire, au moindre détail près, tout ce que ses yeux ont vu ou même imaginé :

 

"Funes ou a memória" (se respeitarmos o neologismo, diremos "Funes o memorioso") é a história de um jovem indiano de dezenove anos, simples e pobre, cuja memória é de tal precisão que é capaz de dar a hora exata, de lembrar o que ele leu apenas uma vez, ou de reconstruir, nos mínimos detalhes, tudo o que seus olhos viram e até mesmo imaginaram:

 

c) « Au coeur... féroces » (p.488).

Au cœur des deux personnages gît un paradoxe. Ces deux êtres, dotés d’une qualité « idéalisée » qui les rend uniques, sont pourtant voués à l’échec et à la mort. Leurs hautes qualités intellectuelles ne font pas d’eux, hélas, des poètes. Ils sont à la fois fragiles et monstrueusement dangereux, doués de pouvoirs féroces.

 

No âmago de ambos os personagens subsiste um paradoxo. Esses dois seres, dotados de qualidades "idealizadas" que os tornam únicos são, entretanto, fadados ao fracasso e à morte. Suas altas qualidades intelectuais não os tornam, infelizmente, poetas. Eles são concomitantemente frágeis e monstruosamente perigosos, dotados de poderes ferozes.

 

 

6- Le Marc’hadour: traduza os seguintes trechos:

a) « Il est vrai ... nouvelle critique » (p.59) ;

 

É verdade que a memória de Borges era prodigiosa e que as menções a autores literários, filósofos ou pensadores (às vezes quase desconhecidos) surgem na curva de muitas linhas do discurso. Mas não deveríamos nos enganar quanto ao significado de tal prática que alguns consideram irritante. Em nossa opinião, não se trata de uma exibição vã da erudição e da cultura livresca, mas sim a respiração normal do pensamento que prossegue por referências, por reconciliações, por oposições, por deduções, por abertura de perspectivas no campo que é naturalmente inerente a Borges: o pensamento de outros escritores. A intertextualidade constitui o campo de referência lógico da literatura e Borges a enfatizava pela sua prática bem antes da teorização realizada pela "nova crítica".

 

b) « Les livres et les bibliothèques… la nuit de la cécité » (p.63) ;

 

Os livros e as bibliotecas mantiveram uma relação estreita e especial com a vida de Borges. Quando criança, ele vasculhava artigos na Biblioteca Nacional enciclopédias que o fascinavam e cuja estrutura daqueles os serviu de modelo para muitos textos de ensaio ou prosa narrativa; a partir de 1937 ele obtém um posto obscuro de primeiro assistente em uma biblioteca de bairro de Buenos Aires, Miguel Cane; finalmente, em 1955, com a queda de Perón, ele é nomeado diretor da Biblioteca Nacional: soberba ironia divina, como ele mesmo aponta em "Poema de los dones", que consiste em oferecer conjuntamente os livros e a noite da cegueira.

 

c) « Dans cette perspective…labyrinthe logomachique » (p.65-66).

 

Nesta perspectiva dinâmica das relações entre memória e cultura, a literatura de Borges nos oferece uma imagem bastante contrastada. Figura representativa da memória da cultura ocidental por sua prática literária, tanto em ensaios quanto em prosa narrativa, o escritor enfatiza, igualmente, em alguns de seus contos, o perigo que representa a redução do mundo ao mundo dos livros. Se a biblioteca do pai fora o paraíso da infância, representou também, implicitamente, uma espécie de prisão, e se Borges define sua vida como “consagrado às Letras” e seu destino como um “destino literário”, ele se esforça para nos mostrar, através da imagem da Biblioteca de Babel, como um mundo puro de livros pode se tornar um verdadeiro pesadelo. A biblioteca nada mais é que um mundo de discurso que se transforma indefinidamente em torno de si mesmo por autorreflexão e a condição mortal, reduzida à busca de sentido, só pode ser a infinita errância do homem em seu próprio labirinto de logomaquia.

 

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Références: