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Práxis

Os filósofos limitaram-se sempre a interpretar o mundo de diversas maneiras; porém, o que importa é modificá-lo.

Práxis

Os filósofos limitaram-se sempre a interpretar o mundo de diversas maneiras; porém, o que importa é modificá-lo.

O que é CONTO?

15.04.19

jornada

 

O CONTO, segundo Massaud Moisés

 

Do ângulo dramático, é unívoco, univalente. Constitui uma unidade ou célula dramática: um só conflito, um só drama, uma só ação. Tudo leva a um mesmo objetivo, a um mesmo ponto. Ao conto aborrece as divagações, digressões, excessos. É um drama que apresenta um fim em si próprio, com começo, meio e fim, corresponde ao momento mais importante da vida da personagem, sem importar o antes ou o depois. Pode haver uma “síntese dramática”, mas o passado e o futuro possuem pouco ou nenhum significado.

No conto há unidade de ação, espaço, tempo e tom. Em relação ao espaço, o lugar físico em que a ação decorre possui interesse dinâmico. Em relação ao tempo, o período é sempre curto, horas ou dias (ou não será um conto). Preocupa-se com o centro nevrálgico da questão, sendo objetivo e atual, vai direto ao ponto, sem deter-se em pormenores secundários. Essa objetividade é ressaltada justamente pela unidade de ação, lugar e tempo. Quanto ao tom, a intenção é provocar no espírito do leitor uma só impressão: pavor, piedade, ódio, simpatia ou seus contrários. O conto opera com ação e não com “caracteres”. Ele apenas cria situações conflituosas em que todos nós, indistintamente podemos espelhar-nos. Nesse caso as personagens são consideradas como instrumentos da ação.

As unidades requeridas de ação, tempo, lugar e tom só podem estabelecer-se com poucas personagens. Só não existe o conto com uma única personagem. Se uma só aparecer, outra figura deve estar atuando para a formulação do conflito. Por fim, as personagens tendem a ser estáticas, imóveis no tempo, no espaço e na personalidade. Figura-se uma tela em que se fixa plasticamente o apogeu de uma situação humana.

Por ser “objetivo”, “plástico”, “horizontal”, costuma ser narrado na terceira pessoa. Usa as palavras suficientes e necessárias, convergindo para o alvo; a imaginação prende-se plasticamente à realidade concreta em verossimilhança com a vida.

À linguagem do conto cabe ressaltar a ação, antes da intenção. Por seu estofo eminentemente dramático, deve ser, tanto quanto possível, dialogado. Sem diálogo não há discórdia, desavença ou mal entendido; sem isso não há conflito, nem ação. As palavras como signos de sentimentos, ideias, pensamentos, emoções, podem construir ou destruir. Sem diálogo torna-se impossível qualquer forma completa de comunicação O diálogo é a base expressiva do conto. Há quatro tipos de diálogo: direto, indireto, indireto livre e diálogo, sendo que no conto predomina, segundo Massaud, o primeiro deles.

Já narração e descrição são pouco utilizadas, mas a descrição pode ter mais importância, dependendo do tipo de estória. As personagens dos contos são diferenciadas pelo contorno dramático ou psicológico e não pela fisionomia ou vestimenta. Não há interesse em oferecer desenho acabado das figuras. O drama mora nas pessoas, não nas coisas ou roupagens; estas, quando muito, refletem-no.

A trama é (quase) sempre linear, objetiva, segue a cronologia do relógio em continuidade semelhante à da vida real. Quando começa, já está perto do epílogo. É dominado pela “precipitação”. Apesar disso, contém um mistério, um nó dramático a ser desfeito, sem truques, de forma que o drama explode imprevistamente.

A grande força do conto consiste no jogo narrativo para prender o leitor até o desenlace, que é de regra geral um enigma. O final é uma surpresa, deixa uma semente de meditação ou de pasmo diante da nova situação e a narrativa suspende-se e escapa das mãos. A vida continua, mas o conto se fecha completo. Há casos em que o enigma vem diluído ao longo do conto.

No que concerne ao foco narrativo, Massaud Moisés se apropria da classificação de Cleanth Brooks e Robert Penn Warren, que diz:

 

  1. personagem principal conta sua estória: primeira pessoa do singular; é um tanto limitador pois pode parecer juiz em causa própria;
  2. uma personagem secundária conta a estória da personagem central: mais distância entre o leitor e o conteúdo da narrativa; quem conta foi ou é testemunha; pode ainda constituir disfarce do autor, mais do que as outras personagens;
  3. o escritor, analítico ou onisciente conta a estória: o escritor torna-se o demiurgo; acompanha as personagens a todos os lugares, entra-lhes na intimidade, devassa seu mundo psicológico, esquadrinha-lhes os abismos inconscientes e subconscientes, conhece-lhes as mínimas palpitações; nesse caso a fabulação perde em impacto por ser indireta, oblíqua, mas ganha em riqueza de situações e pormenores; presta-se a narrativas lentas do gênero psicológico ou introspectivo; perde também em verossimilhança, característica fundamental do conto;
  4. o escritor narra a estória como observador: amplia a faixa de observação do segundo foco; suspende ou diminui a penetração psicológica (considerando a referência do terceiro foco) em favor da ação, do conflito, de modo a tornar a narrativa mais linear, menos complexa.

 

Os focos primeiro e quarto implicam a análise interna dos acontecimentos, ao passo que os outros relacionam-se à observação externa; no primeiro e no segundo, o narrador funciona como personagem e nos outros casos se coloca fora dos acontecimentos, como observador, ou tem livre, sendo o contista, via de regra, obrigado a escolher um dos focos. No conto moderno, experimentam-se vários agrupamentos do enfoque narrativo para compensar as desvantagens e conferir vida à fabulação, no sentido de permitir que ela “fale por si, que se escreva sozinha”, ou reflita o cosmorama social de todos os pontos de vista; para fazer desaparecer o “autor” a fim de que que nele (conto) se expressem todas as interferências.

Assim, pode-se dizer que “o ficcionista é sempre onisciente, ainda quando pareça conceder aos personagens a primazia da narrativa ou do diálogo (...) porque a obra nasce dele, sobretudo entendendo onisciência não como consciência, mas como conhecimento integral ( isto é, pela memória, pela imaginação, pela reflexão) dos materiais de ficção (isto é, o Homem, a Natureza, o Tempo, a História).”

 

Quanto aos tipos de conto, Moisés se apropria da divisão elencada por por Carl H. Grabo:

 

  • histórias de ação;
  • histórias de personagem;
  • histórias de cenário ou atmosfera (“setting or background”);
  • histórias de ideia;
  • história de efeitos emocionais.

 

 

DO INTROITO AO CABO

 

O cuidado do contista está mais em como iniciar a narrativa, pois das primeiras linhas depende o futuro do conto, do que em terminar. Se o leitor se deixa prender desde o começo, certamente irá até o fim; do contrário esmorece e passa adiante. Acontecendo muito próximos o começo e o fim, o contista não pode perder tempo em delongas, então o epílogo se incrusta na introdução e atraído pelo mistério intuído o leitor vai em busca do final dramático que desconhece, que mal pode imaginar, mas que lhe põe a sensibilidade em sobressalto.

Como a fabulação começa próxima do fim há grande importância em como mostrar o passado anterior ao fato para justificar as páginas seguintes. O contista não pode deter-se no início em prejuízo do restante. Não há que perder tempo em principiar, já que se está orientado para um fim que de súbito se anuncia, num movimento acelerado que oferece ao leitor uma impressão instantânea de drama, de luz ou de som.

O epílogo pode ser enigmático, imprevisível, surpreendente e destituído de enigma surpresa ou imprevisto (conto moderno), mas mesmo nesse caso se respeitam as características fundamentais do conto. Em suma, o que o leitor procura no conto é o desenfado e o deslumbramento perante o talento que alcança pôr em reduzidas páginas, tanta humanidade em drama.