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Práxis

Os filósofos limitaram-se sempre a interpretar o mundo de diversas maneiras; porém, o que importa é modificá-lo.

Práxis

Os filósofos limitaram-se sempre a interpretar o mundo de diversas maneiras; porém, o que importa é modificá-lo.

O que é NOVELA?

10.04.19

dom-quixote

 

A NOVELA, de Massaud Moisés

 

O subgênero novela, segundo Massaud Moisés, se desenvolveu por volta dos séculos II a. C. a III d. C. . Foi cultivada nessa época de maneira embrionária. “O texto mais antigo data provavelmente daquela centúria: Nino e Semíramis, de autor desconhecido, de que se conhecem três fragmentos.”

A Novela renasceu com o Renascimento na Europa, por volta dos séculos XVI e XVII foi dos clássicos mais lidos, as novelas de cavalaria eram os tipos mais lidos, além das históricas e satíricas, ou pitorescas.

Podemos organizá-las do seguinte modo:

 

  1. novelas de cavalaria;
  2. novelas sentimentais e bucólicas;
  3. novelas picarescas;
  4. novelas históricas;
  5. novelas policiais e de mistério.

 

Com o Dom Quixote (1605, 1615), Cervantes não só constrói a obra suprema da novela de cavalaria , como ergue a novela ao mais alto ponto atingido antes ou depois.”

A novela se moderniza com a chegada do romantismo. “A estética romântica, com sua demofilia, transforma a novela num de seus meios prediletos de atingir os leitores.”

No século XIX, proliferaram as infindáveis novelas de folhetins, estampadas nos jornais e depois reunidas em volume. Algumas vezes, a garantia de acolhimento por parte do público, notadamente o feminino, fazia que os editores lançassem as novelas em livro, em vez de fragmentá-las em capítulos semanais ou quinzenais.”

A época de esplendor da novela em Portugal, o Romantismo. Não pequeno número de prosadores dedicam-se a essa modalidade de narrativa: Garrett, Herculano, etc”

Encarada como modo de conhecimento, a novela ilude e mistifica, por imprimir aos episódios um movimento acelerado e cheio de novidades, que não pode ser o do cotidiano.[...] A novela contempla, não indaga, finge, não questiona, fantasia, não interroga.”

Não significa que todo romancista seja superior a todo novelista, mas que o nível atingido pelo mais talentoso dos romancistas é sempre superior ao equivalente em matéria de novela.”

À semelhança do capítulo referente ao conto, iniciemos pela ação. Do confronto das narrativas mencionadas no item destinado ao histórico da novela depreende-se que é essencialmente multívoca, polivalente: constitui-se de uma série de unidades ou células dramáticas. De onde se segue que a primeira característica estrutural da novela é sua pluralidade dramática: ao invés do conto, que gira em torno de um conflito, a novela focaliza vários. E cada um deles apresenta começo, meio e fim.”

A novela, segundo MOISÉS, é formada por um conjunto de contos em uma determinada ordem. “As células dramáticas organizam-se numa ordem sequencial, uma após outra, em rosário.”

O novelista não esgota por completo o conteúdo de uma unidade para depois efetuar o mesmo com as seguintes: no fim de cada episódio, procura deixar sementes de mistério ou conflito para manter aceso o interesse do leitor. É raro que esvazie o recheio dramático duma célula antes de prosseguir, pois frustraria a curiosidade do leitor.”

Em suma multiplicidade dramática, numa corrente horizontal. Por isso, o número de páginas pode crescer à vontade: a pluralidade pressupõe uma estrutura aberta, de modo que novos episódios possam adicionar-se numa cadeia sucessiva, assim como o fim provisório da narrativa implica a multivocidade.”

A estrutura linear e plural da novela lhe impõe limitações: não lhe interessando, ou não podendo, em razão da economia interna, seguir os passos das personagens desde o nascimento, surpreende-as no momento em que estão maduras para agir. De onde reduzir-lhes o passado a umas poucas linhas, àquilo que colabora para esclarecer-lhes o modo de ser e diz respeito ao fulcro da narrativa. Quanto ao futuro, pertence ao imponderável, à lei do acaso, que pode conduzir à morte, ao exílio, ou a formas equivalentes de sair de cena”

O tempo da novela é o histórico, assinalado pelo relógio ou pelo calendário, ou pelas convenções sociais. O presente é categoria dominante, em que pese às referências sumárias ao pretérito. Tudo se passa como se os dias, as semanas, os meses e os anos, de efêmera importância, significassem muito. A ação desenrola-se por inteiro no presente, aqui e agora: condensado o pretérito em breves anotações”

A noção de espaço, inextricavelmente ligada à de tempo, acompanha-lhe de perto o desenvolvimento dentro da novela. Como esta se organiza em torno de episódios sucessivos, cria-se um dinamismo acelerado semelhante à pressa no cinema mudo. Tais características implicam a ausência de unidade espacial. Aborrecendo ficar num único lugar, as personagens buscam, no deslocamento físico, dar fim à angústia, ou atender ao gosto pela aventura. A pluralidade do espaço é, pois, marca distintiva, ainda que a ação se realize numa só cidade.”

À semelhança do conto, a estrutura da novela caracteriza-se por ser plástica, concreta, horizontal. Assumindo as mais das vezes a perspectiva da terceira pessoa, o autor se coloca fora dos acontecimentos, ou concede a uma personagem a direção da narrativa. A vida imaginária sobrepõe-se à vida observada: o novelista concentra-se em multiplicar os expedientes narrativos, formulando sucessivas células dramáticas, sem atentar para os imperativos da verossimilhança. O enredo, além de visível, não esconde nada, não dissimula profundidades dramáticas ou psicológicas: com o predomínio da ação, tudo o mais se torna menos significativo.”

A linguagem da novela caracteriza-se, antes de tudo, pela simplicidade: a metáfora, quando presente, há de ser despojada, de imediata apreensão. O narrador se esmera em dirigir-se ao leitor dum modo direto, sem retoricismos, ou com o mínimo de sofisticação: entre a chamada linguagem figurada e a linguagem própria, decide-se pela segunda.”

Os recursos expressivos (diálogo, narração, descrição, dissertação) acompanham a metamorfose decorrente das circunstâncias internas da novela. O diálogo, não obstante o alargamento da perspectiva horizontal e a pluralidade dramática, predomina, mas sem o relevo que ostenta no conto.”

Quanto às personagens, o panorama muda de figura em relação ao conto. Em decorrência da multiplicidade dramática, a população da novela não conhece limite, salvo o imposto pela própria extensão do entrecho. Os protagonistas centrais tornam-se numerosos, e as personagens secundárias aparecem com frequência: em razão do entrelaçamento de dramas, o ficcionista engendra numerosos coadjuvantes, cuja ação, momentânea e ocasional, pode não ter consequência futura.”

Em suma: as personagens da novela são planas, ou bidimensionais, carentes de profundidade, estáticas e definidas.17 E podem ser substituídas sem comprometer a obra, uma vez que ao novelista interessam menos do que a ação: agentes da ação, instrumentos de peripécias, não estabelecem com elas nexos de causalidade ou necessidade.”

O ritmo da novela é acelerado, precipitado, decorrente do fato de basear-se mais na ação do que nos caracteres. Essa predominância da ação resulta de que o leitor deseja resposta à sua insaciável pergunta: e depois? e depois? Pouco interessado na sondagem psicológica, busca o enebriamento resultante de peripécias sem conta, submetidas a um galope frenético. Visto que o tempo da ação acompanha os ponteiros do relógio, o problema dos novelistas reside no modo como entrelaçar as células dramáticas, de acordo com um andamento que se deseja avassalador e subordinado à cronologia histórica e espacial. Para consegui-lo, têm à mão os seguintes recursos:

 

  1. As personagens centrais permanecem ao longo das unidades dramáticas, aglutinando-as e servindo de elemento catalisador para as peripécias que nelas se desencadeiam.
  2. Os protagonistas centrais vão sendo substituídos a cada episódio, em progressão: a passagem de uma célula para outra dá-se pelo acaso ou pela morte do herói, e a consequente substituição por um seu herdeiro ou figurante próximo.
  3. A substituição se opera graças a um nexo de parentesco entre as personagens, de modo que a substituta fosse secundária no episódio anterior: filho do protagonista, ou agregado, ou mordomo, etc.”