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Práxis

Os filósofos limitaram-se sempre a interpretar o mundo de diversas maneiras; porém, o que importa é modificá-lo.

Práxis

Os filósofos limitaram-se sempre a interpretar o mundo de diversas maneiras; porém, o que importa é modificá-lo.

Buracos negros: portas para um conhecimento mais profundo sobre o universo

28.04.19

Foto do Buraco Negro divulgada em 10/04/2019

 

Por Jeferson Choma

 

No dia 10 de abril, as agências espaciais da Europa e dos EUA apresentaram a primeira imagem de um buraco negro no Universo. Trata-se de uma descoberta do projeto do telescópio Event Horizon que envolveu oito telescópios de rádio interligados em distintos lugares do planeta.

 

Em tempos em que se virou moda falar de uma suposta eficiência da “iniciativa privada”, inclusive no campo das ciências, vale ressaltar que essa conquista científica é fruto de uma colaboração internacional de vários países, instituições e cientistas. Que não foi a iniciativa privada, nem a concorrência entre empresas que possibilitaram a primeira imagem de um buraco negro, mas a colaboração internacional de cientistas. Isso é um exemplo do que o futuro, em uma sociedade livre da concorrência capitalista e pautada na solidariedade e no bem-estar comunitário, poderia nos reservar no campo da ciência.

 

O buraco negro fotografado foi encontrado no centro da galáxia batizada de Messier 87 (ou M87) que fica a 53 milhões de anos-luz (unidade que corresponde à distância percorrida pela luz em um ano) ou a 500 quintilhões de quilômetros de distância da Terra. Na imagem que ganhou os noticiários do mundo, o que se vê é um aparente anel de fogo formado pelas ondas de luz que conseguiram escapar de serem sugadas pelo buraco.

 

Mas afinal, o que são os buracos negros? Por que o registro da primeira imagem foi tão comemorado?

 

 

Um pouco de história

 

Buracos negros foram imaginados pela primeira vez pelo naturalista inglês John Michell em 1783. Baseado na física de Newton, ele imaginou a existência de estrelas compactas e de massa tão densa a ponto de criar uma força gravitacional tão forte que até a luz não poderia escapar de sua ação. Naquela época, a ideia foi considerada tão absurda que foi ignorada até pouco tempo atrás.

 

A Teoria da Relatividade, formulada por Albert Einstein há mais de 100 anos, previa a existência de tais objetos superdensos. No entanto, nem o próprio Einstein acreditava que tal fenômeno pudesse acontecer na natureza. Mas para o assombro de todos, descobriu-se evidências da existência de buracos negros no universo.

 

Apesar de serem praticamente invisíveis, pode-se detectar um buraco negro pelo efeito de sua massa sobre o movimento de estrelas em uma dada região do espaço. Pode-se também detectar um buraco negro pela radiação emitida quando sua intensa atração gravitacional atrai a matéria de uma estrela companheira.

 

Em 1973, o satélite Uhuru (palavra suaíli para liberdade) identificou o buraco negro Cygnus X1 a partir de uma notável fonte de raio x que cintilava mil vezes por segundo. A emissão de raio x, gerados pelo atrito de poeira e gás em torno de Cygnus X1, advinda de uma provável estrela companheira, foi tomada como uma das evidências do buraco negro.

 

Em 1995, astrônomos identificaram Sagitário A* como um buraco negro que fica no centro da nossa galáxia, a Via Láctea. Trata-se de um buraco negro supermassivo, com mais de 4 milhões de massas solares, bem menor do que o que existe no centro de M87, cuja massa é 6,5 bilhões de vezes maior do que a do Sol. As observações de uma estrela orbitando ao redor de Sagitário A* foram usadas para mostrar a presença do buraco negro.

 

No entanto, todas essas observações eram evidências “indiretas”. Não havia uma imagem clara que refutasse qualquer contestação sobre a existência dos buracos negros, até a imagem “borrada” do centro de M87 ser publicada. Pela primeira vez olhos humanos puderam contemplar um dos objetos mais excêntricos e misteriosos da natureza.

 

 

O que são os buracos negros

 

Há dois tipos de buracos negros: os estelares e os supermassivos. Os estelares têm entre 5 e 20 vezes a massa do Sol e são originados pela explosão de uma estrela. Calcula-se que exista cerca de 10 milhões de buracos negros estelares na Via Láctea. Já os supermassivos são enormes buracos negros que existem no centro de algumas galáxias, como o que existe em M87 e na nossa Via Láctea.

 

Seu campo gravitacional é tão intenso que ele curva o espaço-tempo à sua volta. Nenhuma partícula, nem mesmo a luz consegue escapar do seu poder de atração. Daí o nome “buraco negro”. A borda de um buraco é chamada de horizonte de eventos, um ponto sem retorno para qualquer tipo de matéria (figura 1).

 

 

Lembremos que, segundo a Teoria da Relatividade, a gravidade é produzida pela massa dos objetos que deformam o tecido do espaço-tempo. Isso significa que um corpo muito massivo como o Sol encurva o espaço como uma bola de boliche sobre um colchão. Desse modo, os objetos com massa menor, como a Terra, seguem caminhos curvilíneos como os planetas e suas órbitas (figura 2).

 

Portanto, quanto maior a massa, mais intensa será a gravidade e mais acentuada será a distorção do espaço. Nessa comparação, o buraco negro seria uma espécie de poço sem fundo e possui uma gravidade tão poderosa a ponto de vencer a repulsão entre as partículas que compõe um corpo. Tecnicamente falando, o buraco negro é uma singularidade gravitacional.

 

Uma das hipóteses atuais é de que os buracos negros supermassivos coevoluiram com as galáxias desde o Big Bang. Indiretamente, eles seriam responsáveis pela configuração que conhecemos hoje das galáxias em razão do seu enorme poder gravitacional.

 

Mas esses grandes objetos também são cercados de mistérios e especulações teóricas. A Teoria da Relatividade prevê a existência dos chamados “buracos brancos”, um objeto teórico que funciona como um buraco negro “invertido”. Se o buraco negro é um objeto do qual nada pode escapar, a versão do buraco branco é de um objeto em que nada pode cair. Entre os dois haveria uma espécie de túnel chamado buraco de minhoca que levaria a outro lugar no tempo e no espaço. “Será que tais túneis de gravidade serviriam como uma espécie de metrô interestelar, ou intergalático, que nos permitiria viajar a lugares inacessíveis do Cosmos? Poderiam os buracos negros funcionar como máquinas do tempo, levando-nos a um passado remoto ou a um futuro distante?”, questionava Carl Sagan a partir de hipóteses formuladas pela Teoria da Relatividade de Einstein. Contudo, tais hipóteses são coisas de ficção científica, muito longe de ser comprovada pelos meios técnicos atuais. E por enquanto só levam a nossa imaginação a se debruçar sobre as bordas dos buracos negros.

 

Outra especulação é de que os buracos negros seriam o “fim da exitância matéria”, uma vez que nada escaparia da sua gravidade. No entanto, Stephen Hawking colocou em dúvida essa hipótese quando propôs que os buracos negros emitiam uma radiação térmica devido a efeitos quânticos.

 

Desse modo, a gravidade dos buracos negros seria só uma parte da realidade desses objetos. A Radiação de Hawking indicaria que os buracos não são tão negros assim e que o movimento da matéria vencia a luta contra a gravidade e ressurgia das entranhas do buraco negro, como radiação. Nesse sentido, buracos negros não seriam uma singularidade (que é uma abstração matemática, um ponto de dimensão zero com densidade infinita), resultado de cálculos simplificados, que não levam em conta a física quântica.

 

Talvez, como sugeria  Hawking, estejam nos buracos negros a chave para unificação entre a Teoria da Relatividade, que analisa os grandes fenômenos físicos do universo, com a física quântica, que estuda os fenômenos físicos de pequenas dimensões, abaixo da escala do átomo.

 

Em uma perspectiva filosófica, os buracos negros podem mostrar o devir da matéria, pois ao contrário de acabar, ela se transforma da atual forma como conhecemos em outras formas de existência em seu perpétuo movimento.

 

Ainda não sabemos o que acontece com a matéria que atravessa o horizonte de eventos dos buracos negros. Sequer sabemos como se comportam o tempo e o espaço após o horizonte de eventos. Mas a matéria não deixa de existir, como aponta Hawking, e pode assumir formas ainda desconhecidas por nós. Como vemos, os buracos negros estão longe de ser o “bicho papão” do universo. São uma porta para um conhecimento mais profundo sobre o universo, muito mais rico do que podemos imaginar.

 

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Leia também (artigos meus):

O que é CONTO?

15.04.19

jornada

 

O CONTO, segundo Massaud Moisés

 

Do ângulo dramático, é unívoco, univalente. Constitui uma unidade ou célula dramática: um só conflito, um só drama, uma só ação. Tudo leva a um mesmo objetivo, a um mesmo ponto. Ao conto aborrece as divagações, digressões, excessos. É um drama que apresenta um fim em si próprio, com começo, meio e fim, corresponde ao momento mais importante da vida da personagem, sem importar o antes ou o depois. Pode haver uma “síntese dramática”, mas o passado e o futuro possuem pouco ou nenhum significado.

No conto há unidade de ação, espaço, tempo e tom. Em relação ao espaço, o lugar físico em que a ação decorre possui interesse dinâmico. Em relação ao tempo, o período é sempre curto, horas ou dias (ou não será um conto). Preocupa-se com o centro nevrálgico da questão, sendo objetivo e atual, vai direto ao ponto, sem deter-se em pormenores secundários. Essa objetividade é ressaltada justamente pela unidade de ação, lugar e tempo. Quanto ao tom, a intenção é provocar no espírito do leitor uma só impressão: pavor, piedade, ódio, simpatia ou seus contrários. O conto opera com ação e não com “caracteres”. Ele apenas cria situações conflituosas em que todos nós, indistintamente podemos espelhar-nos. Nesse caso as personagens são consideradas como instrumentos da ação.

As unidades requeridas de ação, tempo, lugar e tom só podem estabelecer-se com poucas personagens. Só não existe o conto com uma única personagem. Se uma só aparecer, outra figura deve estar atuando para a formulação do conflito. Por fim, as personagens tendem a ser estáticas, imóveis no tempo, no espaço e na personalidade. Figura-se uma tela em que se fixa plasticamente o apogeu de uma situação humana.

Por ser “objetivo”, “plástico”, “horizontal”, costuma ser narrado na terceira pessoa. Usa as palavras suficientes e necessárias, convergindo para o alvo; a imaginação prende-se plasticamente à realidade concreta em verossimilhança com a vida.

À linguagem do conto cabe ressaltar a ação, antes da intenção. Por seu estofo eminentemente dramático, deve ser, tanto quanto possível, dialogado. Sem diálogo não há discórdia, desavença ou mal entendido; sem isso não há conflito, nem ação. As palavras como signos de sentimentos, ideias, pensamentos, emoções, podem construir ou destruir. Sem diálogo torna-se impossível qualquer forma completa de comunicação O diálogo é a base expressiva do conto. Há quatro tipos de diálogo: direto, indireto, indireto livre e diálogo, sendo que no conto predomina, segundo Massaud, o primeiro deles.

Já narração e descrição são pouco utilizadas, mas a descrição pode ter mais importância, dependendo do tipo de estória. As personagens dos contos são diferenciadas pelo contorno dramático ou psicológico e não pela fisionomia ou vestimenta. Não há interesse em oferecer desenho acabado das figuras. O drama mora nas pessoas, não nas coisas ou roupagens; estas, quando muito, refletem-no.

A trama é (quase) sempre linear, objetiva, segue a cronologia do relógio em continuidade semelhante à da vida real. Quando começa, já está perto do epílogo. É dominado pela “precipitação”. Apesar disso, contém um mistério, um nó dramático a ser desfeito, sem truques, de forma que o drama explode imprevistamente.

A grande força do conto consiste no jogo narrativo para prender o leitor até o desenlace, que é de regra geral um enigma. O final é uma surpresa, deixa uma semente de meditação ou de pasmo diante da nova situação e a narrativa suspende-se e escapa das mãos. A vida continua, mas o conto se fecha completo. Há casos em que o enigma vem diluído ao longo do conto.

No que concerne ao foco narrativo, Massaud Moisés se apropria da classificação de Cleanth Brooks e Robert Penn Warren, que diz:

 

  1. personagem principal conta sua estória: primeira pessoa do singular; é um tanto limitador pois pode parecer juiz em causa própria;
  2. uma personagem secundária conta a estória da personagem central: mais distância entre o leitor e o conteúdo da narrativa; quem conta foi ou é testemunha; pode ainda constituir disfarce do autor, mais do que as outras personagens;
  3. o escritor, analítico ou onisciente conta a estória: o escritor torna-se o demiurgo; acompanha as personagens a todos os lugares, entra-lhes na intimidade, devassa seu mundo psicológico, esquadrinha-lhes os abismos inconscientes e subconscientes, conhece-lhes as mínimas palpitações; nesse caso a fabulação perde em impacto por ser indireta, oblíqua, mas ganha em riqueza de situações e pormenores; presta-se a narrativas lentas do gênero psicológico ou introspectivo; perde também em verossimilhança, característica fundamental do conto;
  4. o escritor narra a estória como observador: amplia a faixa de observação do segundo foco; suspende ou diminui a penetração psicológica (considerando a referência do terceiro foco) em favor da ação, do conflito, de modo a tornar a narrativa mais linear, menos complexa.

 

Os focos primeiro e quarto implicam a análise interna dos acontecimentos, ao passo que os outros relacionam-se à observação externa; no primeiro e no segundo, o narrador funciona como personagem e nos outros casos se coloca fora dos acontecimentos, como observador, ou tem livre, sendo o contista, via de regra, obrigado a escolher um dos focos. No conto moderno, experimentam-se vários agrupamentos do enfoque narrativo para compensar as desvantagens e conferir vida à fabulação, no sentido de permitir que ela “fale por si, que se escreva sozinha”, ou reflita o cosmorama social de todos os pontos de vista; para fazer desaparecer o “autor” a fim de que que nele (conto) se expressem todas as interferências.

Assim, pode-se dizer que “o ficcionista é sempre onisciente, ainda quando pareça conceder aos personagens a primazia da narrativa ou do diálogo (...) porque a obra nasce dele, sobretudo entendendo onisciência não como consciência, mas como conhecimento integral ( isto é, pela memória, pela imaginação, pela reflexão) dos materiais de ficção (isto é, o Homem, a Natureza, o Tempo, a História).”

 

Quanto aos tipos de conto, Moisés se apropria da divisão elencada por por Carl H. Grabo:

 

  • histórias de ação;
  • histórias de personagem;
  • histórias de cenário ou atmosfera (“setting or background”);
  • histórias de ideia;
  • história de efeitos emocionais.

 

 

DO INTROITO AO CABO

 

O cuidado do contista está mais em como iniciar a narrativa, pois das primeiras linhas depende o futuro do conto, do que em terminar. Se o leitor se deixa prender desde o começo, certamente irá até o fim; do contrário esmorece e passa adiante. Acontecendo muito próximos o começo e o fim, o contista não pode perder tempo em delongas, então o epílogo se incrusta na introdução e atraído pelo mistério intuído o leitor vai em busca do final dramático que desconhece, que mal pode imaginar, mas que lhe põe a sensibilidade em sobressalto.

Como a fabulação começa próxima do fim há grande importância em como mostrar o passado anterior ao fato para justificar as páginas seguintes. O contista não pode deter-se no início em prejuízo do restante. Não há que perder tempo em principiar, já que se está orientado para um fim que de súbito se anuncia, num movimento acelerado que oferece ao leitor uma impressão instantânea de drama, de luz ou de som.

O epílogo pode ser enigmático, imprevisível, surpreendente e destituído de enigma surpresa ou imprevisto (conto moderno), mas mesmo nesse caso se respeitam as características fundamentais do conto. Em suma, o que o leitor procura no conto é o desenfado e o deslumbramento perante o talento que alcança pôr em reduzidas páginas, tanta humanidade em drama.

O que é NOVELA?

10.04.19

dom-quixote

 

A NOVELA, de Massaud Moisés

 

O subgênero novela, segundo Massaud Moisés, se desenvolveu por volta dos séculos II a. C. a III d. C. . Foi cultivada nessa época de maneira embrionária. “O texto mais antigo data provavelmente daquela centúria: Nino e Semíramis, de autor desconhecido, de que se conhecem três fragmentos.”

A Novela renasceu com o Renascimento na Europa, por volta dos séculos XVI e XVII foi dos clássicos mais lidos, as novelas de cavalaria eram os tipos mais lidos, além das históricas e satíricas, ou pitorescas.

Podemos organizá-las do seguinte modo:

 

  1. novelas de cavalaria;
  2. novelas sentimentais e bucólicas;
  3. novelas picarescas;
  4. novelas históricas;
  5. novelas policiais e de mistério.

 

Com o Dom Quixote (1605, 1615), Cervantes não só constrói a obra suprema da novela de cavalaria , como ergue a novela ao mais alto ponto atingido antes ou depois.”

A novela se moderniza com a chegada do romantismo. “A estética romântica, com sua demofilia, transforma a novela num de seus meios prediletos de atingir os leitores.”

No século XIX, proliferaram as infindáveis novelas de folhetins, estampadas nos jornais e depois reunidas em volume. Algumas vezes, a garantia de acolhimento por parte do público, notadamente o feminino, fazia que os editores lançassem as novelas em livro, em vez de fragmentá-las em capítulos semanais ou quinzenais.”

A época de esplendor da novela em Portugal, o Romantismo. Não pequeno número de prosadores dedicam-se a essa modalidade de narrativa: Garrett, Herculano, etc”

Encarada como modo de conhecimento, a novela ilude e mistifica, por imprimir aos episódios um movimento acelerado e cheio de novidades, que não pode ser o do cotidiano.[...] A novela contempla, não indaga, finge, não questiona, fantasia, não interroga.”

Não significa que todo romancista seja superior a todo novelista, mas que o nível atingido pelo mais talentoso dos romancistas é sempre superior ao equivalente em matéria de novela.”

À semelhança do capítulo referente ao conto, iniciemos pela ação. Do confronto das narrativas mencionadas no item destinado ao histórico da novela depreende-se que é essencialmente multívoca, polivalente: constitui-se de uma série de unidades ou células dramáticas. De onde se segue que a primeira característica estrutural da novela é sua pluralidade dramática: ao invés do conto, que gira em torno de um conflito, a novela focaliza vários. E cada um deles apresenta começo, meio e fim.”

A novela, segundo MOISÉS, é formada por um conjunto de contos em uma determinada ordem. “As células dramáticas organizam-se numa ordem sequencial, uma após outra, em rosário.”

O novelista não esgota por completo o conteúdo de uma unidade para depois efetuar o mesmo com as seguintes: no fim de cada episódio, procura deixar sementes de mistério ou conflito para manter aceso o interesse do leitor. É raro que esvazie o recheio dramático duma célula antes de prosseguir, pois frustraria a curiosidade do leitor.”

Em suma multiplicidade dramática, numa corrente horizontal. Por isso, o número de páginas pode crescer à vontade: a pluralidade pressupõe uma estrutura aberta, de modo que novos episódios possam adicionar-se numa cadeia sucessiva, assim como o fim provisório da narrativa implica a multivocidade.”

A estrutura linear e plural da novela lhe impõe limitações: não lhe interessando, ou não podendo, em razão da economia interna, seguir os passos das personagens desde o nascimento, surpreende-as no momento em que estão maduras para agir. De onde reduzir-lhes o passado a umas poucas linhas, àquilo que colabora para esclarecer-lhes o modo de ser e diz respeito ao fulcro da narrativa. Quanto ao futuro, pertence ao imponderável, à lei do acaso, que pode conduzir à morte, ao exílio, ou a formas equivalentes de sair de cena”

O tempo da novela é o histórico, assinalado pelo relógio ou pelo calendário, ou pelas convenções sociais. O presente é categoria dominante, em que pese às referências sumárias ao pretérito. Tudo se passa como se os dias, as semanas, os meses e os anos, de efêmera importância, significassem muito. A ação desenrola-se por inteiro no presente, aqui e agora: condensado o pretérito em breves anotações”

A noção de espaço, inextricavelmente ligada à de tempo, acompanha-lhe de perto o desenvolvimento dentro da novela. Como esta se organiza em torno de episódios sucessivos, cria-se um dinamismo acelerado semelhante à pressa no cinema mudo. Tais características implicam a ausência de unidade espacial. Aborrecendo ficar num único lugar, as personagens buscam, no deslocamento físico, dar fim à angústia, ou atender ao gosto pela aventura. A pluralidade do espaço é, pois, marca distintiva, ainda que a ação se realize numa só cidade.”

À semelhança do conto, a estrutura da novela caracteriza-se por ser plástica, concreta, horizontal. Assumindo as mais das vezes a perspectiva da terceira pessoa, o autor se coloca fora dos acontecimentos, ou concede a uma personagem a direção da narrativa. A vida imaginária sobrepõe-se à vida observada: o novelista concentra-se em multiplicar os expedientes narrativos, formulando sucessivas células dramáticas, sem atentar para os imperativos da verossimilhança. O enredo, além de visível, não esconde nada, não dissimula profundidades dramáticas ou psicológicas: com o predomínio da ação, tudo o mais se torna menos significativo.”

A linguagem da novela caracteriza-se, antes de tudo, pela simplicidade: a metáfora, quando presente, há de ser despojada, de imediata apreensão. O narrador se esmera em dirigir-se ao leitor dum modo direto, sem retoricismos, ou com o mínimo de sofisticação: entre a chamada linguagem figurada e a linguagem própria, decide-se pela segunda.”

Os recursos expressivos (diálogo, narração, descrição, dissertação) acompanham a metamorfose decorrente das circunstâncias internas da novela. O diálogo, não obstante o alargamento da perspectiva horizontal e a pluralidade dramática, predomina, mas sem o relevo que ostenta no conto.”

Quanto às personagens, o panorama muda de figura em relação ao conto. Em decorrência da multiplicidade dramática, a população da novela não conhece limite, salvo o imposto pela própria extensão do entrecho. Os protagonistas centrais tornam-se numerosos, e as personagens secundárias aparecem com frequência: em razão do entrelaçamento de dramas, o ficcionista engendra numerosos coadjuvantes, cuja ação, momentânea e ocasional, pode não ter consequência futura.”

Em suma: as personagens da novela são planas, ou bidimensionais, carentes de profundidade, estáticas e definidas.17 E podem ser substituídas sem comprometer a obra, uma vez que ao novelista interessam menos do que a ação: agentes da ação, instrumentos de peripécias, não estabelecem com elas nexos de causalidade ou necessidade.”

O ritmo da novela é acelerado, precipitado, decorrente do fato de basear-se mais na ação do que nos caracteres. Essa predominância da ação resulta de que o leitor deseja resposta à sua insaciável pergunta: e depois? e depois? Pouco interessado na sondagem psicológica, busca o enebriamento resultante de peripécias sem conta, submetidas a um galope frenético. Visto que o tempo da ação acompanha os ponteiros do relógio, o problema dos novelistas reside no modo como entrelaçar as células dramáticas, de acordo com um andamento que se deseja avassalador e subordinado à cronologia histórica e espacial. Para consegui-lo, têm à mão os seguintes recursos:

 

  1. As personagens centrais permanecem ao longo das unidades dramáticas, aglutinando-as e servindo de elemento catalisador para as peripécias que nelas se desencadeiam.
  2. Os protagonistas centrais vão sendo substituídos a cada episódio, em progressão: a passagem de uma célula para outra dá-se pelo acaso ou pela morte do herói, e a consequente substituição por um seu herdeiro ou figurante próximo.
  3. A substituição se opera graças a um nexo de parentesco entre as personagens, de modo que a substituta fosse secundária no episódio anterior: filho do protagonista, ou agregado, ou mordomo, etc.”

O governo Bolsonaro é um governo fascista?

05.04.19

Bolsonaro assina acordos com Israel. Foto Alan Santos PR

 

Primeiramente, antes que julguem o livro pela capa, é importante afirmar que o texto não personaliza a análise na figura de Jair Messias Bolsonaro. É inegável a sua conciliação ideológica - em muitos pontos - com o fascismo, mas não é dele que falamos, e sim do seu (des)governo. Bem sabemos que, a depender da cabeça daquele que ocupa o cargo máximo do parlamento burguês brasileiro, muitas dessas ideias fascistas seriam postas em prática diretamente, sem nenhuma espécie de intermediação parlamentar. Mas é isso possível neste momento, nesta conjuntura?

 

Não podemos cobrir o sol com uma peneira; o regime democrático burguês está em crise, do mesmo jeito que está o capitalismo. Vivemos em uma época em que todos os valores burgueses estão sendo questionados pelas massas. Bolsonaro mesmo é fruto dessa derrocada. O regime democrático burguês - tão alardeado, infelizmente, principalmente pelos opositores de Bolsonaro - não passa de uma falácia. Crermos que Bolsonaro irá desrespeitá-lo, levá-lo a uma derrocada histórica é de uma inocência sem tamanho por parte de uns e de uma canalhice por parte de outros. O Estado é burguês, bem como sua organização e suas instituições, e é utilizado pelos capitalistas para retomarem o crescimento da taxa de lucros. É importante reafirmar que esta necessidade de retomada das taxas  de lucro da burguesia é uma necessidade global, do capitalismo, pois derivam daí todos estes planos de austeridade impostos para a classe trabalhadora no mundo, de forma desigual, porém altamente combinada!

 

No Brasil, desde 2007/2008 já se sentia os efeitos das manifestações da crise mundial, embora o Estado brasileiro, à época governado pelo PT, desmentisse o assunto, disseminando a ideia de que não passava de uma simples “marolinha”. Não tardou muito para que a afirmação de Lula fosse desmentida, mostrando-se correto o prognóstico já por nós levantado. Tanto que, de lá para cá, a crise só fez aumentar. É que, no fundo, ressoa nas palavras destes “sábios embusteiros”, a velha crítica de Trotsky (Imperialismo e crise da economia mundial, p.35): “Economistas burgueses e reformistas, que têm um interesse ideológico em embelezar a situação difícil do capitalismo, dizem: em si e por si a atual crise não prova nada; pelo contrario, é um fenômeno normal. Assim como Trotsky, não concordamos com isso!

 

Há mais de 10 anos, hoje, no Brasil, o descontentamento dos trabalhadores se agudiza. Amargamos, de acordo com o IBGE (agosto de 2018), com 27,6 milhões de desempregados (números globais: contando desempregados, lumpens e aqueles que desistiram de procurar empregos). O PT (juntamente com MDB de Temer) não governou para os trabalhadores, pelo contrário, governou para o capital, para a burguesia. A classe trabalhadora não saiu em defesa do governo Dilma. A maioria dos trabalhadores aceitou a instrumentalização parlamentar do impeachment  (e ele existe exatamente para isso!). Os trabalhadores não saíram às ruas contra a prisão de Lula (e o PT nem queria isso!). Diante deste cenário de crise que se arrasta agudizando desde 2007/2008, os governos de conciliação de classes escolheram muito claramente manter o nefasto jogo de alianças junto aos seus chefes: a burguesia e suas frações de classe.

 

Criou inclusive um conjunto de narrativas – expressão bastante utilizada hoje em dia nos meios político e sindical – que não se sustentam na realidade histórica mais imediata: o tempo presente. Parte de seus dirigentes inventaram a narrativa do golpe. Diante deste suposto golpe era necessário combater os golpistas, mobilizando, para tanto, sua gama de intelectuais para o desenvolvimento desta narrativa através de palestras, cursos, etc. Mas o que vimos foi exatamente o contrário. Mal foi dado o suposto golpe e a cúpula do partido (PT) já estava lá deliberando (internamente) as alianças com os golpistas para as eleições municipais! Calma, não acabou ainda… Muitos quadros importantes do PT não “gostaram” dessa narrativa do golpe, como foi o caso do candidato às últimas eleições pelo partido, Fernando Haddad. Neste caso, Haddad, continuou discordando do golpe (ou do conceito), vindo a demonstrar seu ponto de vista abraçando os supostos golpistas com palavras decorosas de dar orgulho em muita gente (talvez a família de Renan Calheiros seja emblemática). As construções destas narrativas são artificiais. Marx e Engels desenvolveram um conceito preciso para isso: Ideologia.

 

Mas não pararam por ai. Outra narrativa construída é a do fascismo. Esta veio se somar à do golpe. Estaria acontecendo a ascensão do fascismo no Brasil e seria necessário apoiar o PT para que se combatesse este grande mal. De acordo com a narrativa (Ideologia), seria preciso votar no PT para se combater o fascismo no Brasil. Francamente! Mas o que seria fascismo? Bem, segundo a simples concepção filosófica do termo, nada mais é que um movimento político e filosófico ou regime (como o estabelecido por Benito Mussolini na Itália, em 1922), que faz prevalecer os conceitos de nação e raça sobre os valores individuais e que é representado por um governo autocrático, centralizado na figura de um ditador.

 

Mas podemos avançar um pouco mais neste conceito para que possamos compreendê-lo melhor, de maneira mais rica, visando a compreender não somente o seu caráter, mas sua função. No que concerne àquele (ao caráter), vale lembrar que, dentre tantas coisas, o fascismo tem seu exército próprio, seus interesses e sua própria lógica de poder. É, sem dúvida, o jogador reserva da burguesia, utilizado somente em momentos muito específicos da luta de classes. Na Itália, Polônia ou Alemanha, por exemplo, teve ele que entrar em antagonismo violento não somente com a social-democracia de seu tempo, mas com todos os demais partidos da burguesia. Criou um regime próprio e entrou em consonância com a própria lógica do sistema de produção capitalista: a anarquia econômica se completou com a anarquia política.

 

Porém, como ascende o fascismo na Europa neste período? Segundo Trotsky, em Revolução e contrarrevolução na Alemanha (p.25): “o fascismo provém de duas condições: de um lado, de uma grave crise social; de outro lado, da fraqueza revolucionária do proletariado alemão. A fraqueza do proletariado, por sua vez, tem duas causas: primeiro o papel histórico particular da social-democracia, que ainda é uma agência poderosa do capitalismo nas fileiras do proletariado; em seguida, a incapacidade centrista da direção do P.C. em unir os operários sob a bandeira da Revolução”.

 

Em suma, o ascenso de Hitler na Alemanha, em 1933, deu-se devido ao fracasso do comunismo e do reformismo como saídas políticas viáveis tanto para a classe trabalhadora, como para setores enraivecidos da classe média e da pequena-burguesia. O velho embate entre revolução e contrarrevolução. Segundo Trotsky, Hitler seria vencido somente mediante uma frente única que compreendesse os comunistas do P.C. stalinista com os sociais-democratas, reformistas naquele período (mais ou menos o PT de hoje). No entanto, graças ao sectarismo do partido comunista, que via a social-democracia daquele período como conciliadora do nazismo, negou-se a empreender tal tarefa.

 

Voltemos a Trotsky (p.294-295):

 

Admitamos que a social-democracia, sem intimidar-se perante os seus próprios operários, quisesse vender a Hitler a sua tolerância. Mas o fascismo não faz essa transação: não precisa da tolerância, mas da demolição da social-democracia. O governo de Hitler só pode realizar a sua tarefa se quebrar a resistência dos trabalhadores, desfazendo-se de todos os órgãos capazes de tal resistência. Eis em que consiste o papel histórico do fascismo.

Os stalinistas se limitam a um julgamento puramente psicológico ou, mais exatamente, moral, dos covardes e egoístas pequeno-burgueses que dirigem a social democracia. É lícito supor que esses traidores patenteados se separem da burguesia e a ela se contraponham? Método tão idealista pouco tem de comum com o marxismo, que não parte do que os homens pensam de si mesmos e do que desejam, mas, antes de tudo, das condições em que estão colocados e de que modos essas condições se transformarão.

A social-democracia sustenta o regime burguês, não por causa dos lucros dos magnatas do carvão, do aço e outros, mas por amor ao seu próprio lucro, o qual ele recebe, como partido através do seu numeroso e potente aparelho. Certamente, o fascimo nenhuma ameaça constitui para o regime burguês, cuja defesa está afeta à social-democracia. Mas o fascismo prejudica a força que a social-democracia exerce no regime burguês, bem como as rendas que ele recebe por seu desempenho. Se os stalinistas esquecem este lado da questão, não o perde de vista a social-democracia, que considera o fascismo como um perigo de morte, pairando não sobre a burguesia, mas justamente sobre ela, social-democracia.

Quando mais ou menos há três anos, acentuamos que o ponto de partida da próxima crise política, segundo todas as probabilidades, se formaria em torno da incompatibilidade entre a social-democracia e o fascismo; quando, baseados nesse fato, acusávamos a teoria do social-fascimo de ocultar, em vez de desvendar, o conflito próximo; quando chamávamos atenção para a possibilidade da social-democracia, com uma parte considerável de seu aparelho, ser arrastada, pela marcha dos acontecimentos, a uma luta contra o fascismo, proporcionando ao Partido Comunista um ponto de partida favorável à ofensiva ulterior – muitos camaradas nos acusavam – e havia entre eles não só funcionários alugados, mas até verdadeiros revolucionários – de “idealizar” a social-democracia. Só nos restava dar de ombros. É difícil discutir com gente cujo pensamento para precisamente no ponto em que a questão apenas começa para os marxistas.

 

Se vivêssemos, na atual conjuntura, o perigo do ascenso do fascismo imediato, a política correta (como já descrito) seria uma frente única com todas as correntes possíveis: reformistas, marxistas revolucionários, liberais, etc, para derrotá-lo. No entanto, o que estamos presenciando é justamente o inverso: uma batalha parlamentar, protagonizada pelo PSL e outros partidos da direita tradicional de um lado, e PT, PSOL e PCdoB do outro, mas cuja própria CUT (Central Única dos Trabalhadores), braço sindical do PT, pareceu aderir ao “chamar Bolsonaro para o diálogo”, com a justificativa vil de que trabalhadores tenham votado em seu programa. Aceita inclusive negociar pautas da contrarreforma da previdência, desde que expurgue outras, das quais não fez ainda sequer menção clara.

 

Há quem acredite que estamos vivendo uma “onda conservadora” e que esta tenha fortalecido uma pretensa ascensão do fascismo, estereotipada – no caso brasileiro – na figura de Jair Messias Bolsonaro. Contudo, como vimos, tal ideia é contraditória. Primeiro porque o fascismo é um movimento de massas, que visa única e exclusivamente a destruir qualquer forma de organização da classe trabalhadora, instituindo um estado de exceção, fortemente nacionalista, de proteção à burguesia nacional, à economia e às fronteiras nacionais. Segundo, porque ele surge da necessidade de se derrotar um ascenso em um momento de crise aguda, onde outros mecanismos mais seguros, como a democracia burguesa, entram em grave crise. O fascismo é então fruto da disputa entre revolução e contrarrevolução e geralmente “entra em cena” em momentos de crise revolucionária, como uma última saída da burguesia para se manter no poder. Assim, se há uma onda conservadora, compreendida aqui por um conjunto de ideias favoráveis à manutenção de um estado de ordem, por que a necessidade de um estado fascista, sendo este regime muito arriscado?

 

É claro que, tratando-se de uma nação subdesenvolvida e de uma país periférico no mapa geopolítico do capitalismo mundial, é de se esperar que o fascismo tupiniquim não fosse tão fechado em suas concepções políticas. Certamente que um governo fascista surgiria para garantir os interesses do grande capital internacional, ainda mais em épocas agudas de crise do capitalismo. Portanto, espcialmente hoje, não seria, nem de longe, um governo voltado à proteção de uma indústria nacional, ou de uma burguesia insipiente, tampouco de suas fronteiras. De qualquer forma, as demais características se manteriam, como um exército forte e próprio, alheio inclusive ao parlamento burguês nacional, com vistas a impor, a ferro e fogo, uma derrota a toda e qualquer organização política oposto a este estado de exceção, incluindo aí, principalmente, às organizações político-sindicais dos trabalhadores, bem como seus partidos de referência. Além de outras já citadas, é claro.

Ora, quem foi, nas últimas décadas aqui no Brasil, o partido hegemônico dos trabalhadores, aos seus olhos, da pequena-burguesia, da burguesia e das massas de maneira geral, senão o PT. Quem controla politicamente a maior central sindical do mundo, bem como outras organizações que foram importantes na história do movimento social do país, senão o Partido dos Trabalhadores? A não ser que a maioria das cadeiras na câmara e mais seis senadores não representem nada, poderíamos então dizer que os militantes do partido, assim como seus parlamentares, estão sendo perseguidos, torturados, mortos e/ou inseridos em campos de concetração país afora. Mas não! Os burgueses do PT, bem como sua burocracia trabalhadora inserida em suas organizações satélites, continuam negociando com o governo corrupto de Bolsonaro a manutenção de seus privilégios às custas da miséria do grosso da população brasileira*.

 

É claro que, ao afirmar tal coisa, não dizemos que o governo Bolsonaro será tranquilo e que não haverá repressão. Pelo contrário! Cremos inclusive que não está descartada a possibilidade de um autogolpe, como ele mesmo tenha deixado transparecer, caso não consiga, pelas vias democráticas convencionais, aplicar as contrarreformas a que se propõe. Parte desse processo, inclusive, parece estar em andamento, como é o caso de ter eleito, nos cargos mais altos da república, inúmeros militares de alta patente das forças armadas. Não temos dúvida do caráter altamente repressor do seu governo e não temos dúvida alguma que o homem Bolsonaro traz consigo uma série de valores fascistas. Isso é claro.

 

Daí, acusar-nos de escolher o candidato “A” em detrimento de “B” por tratar-se do “mal menor”, é grosseria. Insistimos nesse debate porque, para nós, está descartada a possibilidade muito em voga do mal menor, que cria uma falsa polarização de forças. O questionamento de quem é o mal menor, para os marxistas: Lula ou FHC, Dilma ou Collor, Bolsonaro ou Haddad ou Ciro Gomes, não faz o menor sentido. Isso porque o sistema que combatemos, o capitalismo, tem necessidade de todos estes elementos. Agora, se esses elementos entram em conflito ou em contradição, devemos aproveitar a ocasião para utilizarmos dele a favor da construção de uma alternativa revolucionária. Do mesmo modo que, se um destes elementos ameaça de morte a possibilidade de construção desta alternativa, ou mesmo o partido que se propõe a ela, devemos combatê-la de antemão.

 

Trotsky, no livro acima citado (p.126), já dizia:

 

Uma escala compreende sete notas. A pergunta: qual dessas notas é a “melhor”: dó, ré ou sol? é uma pergunta desprovida de sentido. O músico, porém deve saber quando e em que tecla bater. Compreenderam? Para uma compreensão limitada daremos ainda mais um exemplo: Se um inimigo me faz engolir diariamente pequenas porções de veneno, e se outro quiser, num beco, atirar contra mim, derrubarei primeiro o revólver das mãos deste segundo inimigo, porque isso me dará possibilidade de acabar com o primeiro. Isto, entretanto, não quer dizer que o veneno seja “mal menor” em comparação com o revólver.

 

Quando decidimos, contudo, em chamar voto no segundo turno em Fernando Haddad, não o fizemos por crermos no caráter classista do governo do PT e da frente popular**. Tampouco por crermos na possibilidade do fascismo neste momento; assim, optamos por julgarmos na possibilidade franca de um autogolpe, alterando o regime e a classe política e instaurando um governo bonapartista no país, extremamente violento. Isso cercearia demais as liberdades de organização, mas não as extinguiriam plenamente, como o faz o fascismo. O governo Bolsonaro traz consequências imprevisíveis. Isso é indiscutível; subestimá-lo seria um erro. O que questionamos é o ascenso do fascismo, como tal, neste momento histórico, e sua associação ao governo de Jair Bolsonaro (não a sua figura), um governo completamente privatista, entreguista, de abertura das fronteiras nacionais para o capital internacional e da destruição de uma economia nacional calcada na indústria de manufaturas. Também discordamos da “onda conservadora”, incongruente com a tese de suportar o fascismo.

 

Esse argumento raso (o da onda conservadora) teve apenas um apelo eleitoral,  e é uma pena que tenha tido muitos adeptos. Embora o marxismo afirme que o homem não faz a história como quer, mas sim segundo as condições que encontra, ao mesmo tempo não nega em nenhum momento a subjetividade, a vontade e a inteligência como fatores muitas vezes decisivos na história. O ponto de vista que considera o homem um mero joguete nas mãos de forças econômicas e sociais supra-humanas, que perseguem seus próprios fins, não tem nada em comum com o marxismo. A concepção de sociedade que despreza a inteligência é, ela própria, carente de inteligência. As ideias, quando absorvidas pelas massas em movimento, se transformam em força material e, portanto, podem mudar os rumos da história. Acontece que fortalecer essa retórica, além de nos desmoralizar, também nos desmobiliza. Assim Marx e Engels formularam o pilar de sua concepção materialista da história em A Ideologia alemã.

 

Evidentemente existem grupos políticos que desejaram dar um golpe institucional do governo petista de Dilma, mas não o fizeram, pois o regime lhes garantiam instrumentos para o afastamento de quem governa o executivo. Também é evidente que o fascismo existe sim no Brasil, inclusive, graças ao governo de Vargas, que Lula tanto elogiou! A questão aqui é outra: as narrativas petistas trabalham com meias verdades para esconder a sua responsabilidade política diante da classe trabalhadora. O reformismo do PT é o grande responsável pelos desdobramentos da crise e o seu combate no Brasil.

 

Foram anos de conciliação de classes. A frente-popular constituída pelo PT prometeu fazer o impossível: unir os trabalhadores à burguesia. Obviamente que isso enrijeceu a luta de classes, funcionando como uma espécie de colchão entre os distintos interesses de cada campo. O problema é que, como toda a frente-popular, não fez isso para defender os trabalhadores; o fez a mando da burguesia!

 

Não nos iludamos em achar que o PT algum dia fora revolucionário. Não, longe disso! O Partido dos Trabalhadores nasceu de um forte ascenso de lutas no país como possibilidade concreta, naquele período, de representar a classe trabalhadora. Tanto que sua direção era formada por membros da classe. Não foram os poucos que doaram parte de sua vida na construção do partido. Mas hoje o PT é um partido burguês, com um programa elaborado para a burguesia. Seus dirigentes não são mais aqueles velhos e bons dirigentes trabalhadores, no sentido político que já se reivindicou (muitos são milionários, grandes empresários). Há muito tempo que a classe trabalhadora não se vê mais representada pelo PT, tanto que, a duras penas, conseguem sustentar a ideia de que são trabalhadores, e isso mesmo graças às suas fortalezas políticas, como CUT e MST.

 

E, sobre este aspecto, coloca outra desgraça para a classe trabalhadora, pois este sindicalismo burocrático (pelego, na gíria), contribui com a patronal, deixando para a classe trabalhadora, além de ilusões parlamentaristas, uma descrença na representação sindical. O mesmo desdobramento ocorre com os partidos políticos e as representações políticas. Isso tudo muito bem sintetizado nestas expressões populares: “o sindicato não faz nada”, “os políticos são todos iguais; só pensam neles”.

 

Marx e Engels, na Ideologia Alemã (p.47), escreveram algo que é muito reproduzido, porém pouco aplicado:

 

As ideias da classe dominante são, em cada época, as ideias dominantes, isto é, a classe que é a força material dominante da sociedade é, ao mesmo tempo, sua força espiritual dominante.

 

Antes de condenarmos a classe trabalhadora, é preciso compreendê-la. Há sim sindicatos sérios, da mesma maneira que há – pelo mundo – partidos revolucionários. No entanto, qual é a grande referência para as massas, ao menos atualmente? Aquilo tudo que é hegemônico, incluindo o PT, que se tornou mais um. Diante deste cenário, a classe trabalhadora, uma grande maioria, presa na política que o próprio PT ajudou a ser educada… Olham para a cena política e já não confiam mais nos que aí está. É ainda refém da reação democrática burguesa, presa ao individualismo e ao personalismo. Não acredita em suas próprias forças e acaba buscando saídas em pretensos “líderes políticos”. É um ciclo vicioso. Eis a tragédia.

 

Ou seja, a opção por este reacionário do Bolsonaro, este sanguessuga corrupto e inescrupuloso, que por 30 anos permaneceu no PP (antigo PPB), um dos partidos mais corruptos do país, mais envolvido em corrupção que o próprio PT, acabou sendo a alternativa, pois não havia outro “líder político”, aos olhos das massas, que representasse a mudança. O classismo foi deixado de lado, substituído por uma perspectiva individualista. Esse horizonte pequeno burguês, cujo limite político esbarra no mito da democracia, arrastou os trabalhadores para o covil. E, sob este aspecto, o PT, reformista que é, deve ser apontado como responsável maior de todo este movimento dos trabalhadores que apoiam uma proposta de governo irracional, que defende abertamente o machismo, a homofobia, a lgbtfobia, o racismo, o etnocentrismo, e por ai vai.

 

Aqueles que apoiaram Bolsonaro (defensor de torturadores e que fez e faz apologia à ditadura militar) durante as eleições, trabalhador@s comuns, estão sendo chamados por muitos como fascistas (em grande medida pela narrativa petista sobre o fascismo). Isso é um erro grave! Por quê? Porque o apoio a um candidato que representa o que há de pior na política hegemônica da burguesia não significa que este eleitor faça parte de uma falange urbana, ou mesmo as organizações armadas contra o regime, contra a constitucionalidade. Pensar assim é ignorar plenamente os elementos que apresentamos anteriormente. Esta leitura simplista interessa ao PT e suas colaterais. A narrativa petista do “fascismo” ignora (propositalmente) até mesmo os marcos do regime que o nefasto Bolsonaro utilizou para chegar ao poder e representar a burguesia. Esta explicação não interessa à classe trabalhadora e às organizações revolucionárias! É preciso ganhar politicamente a classe trabalhadora. Condená-la, a justiça da burguesia já faz todos os dias.

 

Tampouco cabe o argumento de que votar em Bolsonaro representa um ataque às instituições democráticas. Para setores importantes da pequeno burguesia, bem como para outros tantos da classe média, a democracia (mesmo a burguesa em stricto sensu) não passa de uma “casca”. Se ela não está funcionando, arranja-se outra alternativa. Assim funciona a cabeça de parcela importante desses setores. Não há portanto, relação alguma com predileção política pelo fascismo, tampouco há relação de grau de instrução ao voto dado. Há sim uma relação de classe: classe média e pequena burguesia, por não terem uma plataforma política e por almejarem o poder, acabam invariavelmente reproduzindo valores burgueses e a eles se ajustando. Sua perspectiva é individualista, conservadora. Para o pequeno burguês o mundo pode ser por ele controlado; assim como para boa parte da classe média. Contudo, se é verdade que são classes conservadoras, não é mentira que sejam vacilantes. Isto é, podem vacilar da direita para à esquerda a depender da conjuntura política e das alternativas que vislumbra no horizonte político próximo. Não é, portanto, correta, a afirmação de que invariavelmente vão para a extrema direita estes setores.

 

É verdade que o fascismo existe e ele deve ser combatido nas ruas, não nas urnas. Os grupos neofascistas não são hegemônicos, principalmente se observamos os votos recebidos por Bolsonaro. A maioria de seus eleitores expressou o descontentamento com a frente popular, conciliadora, encabeçada pelo PT. Ora, Engels e Marx continuam acertivos: a saída para os seus problemas os trabalhadores as encontram dentro de uma perspectiva burguesa, afinal, as ideias da classe dominante são, em cada época, as ideias dominantes.

 

Respondam com honestidade intelectual: todos que conhecemos e que votam em Bolsonaro são realmente neofascistas? Nosso trabalho é organizar a classe contra a burguesia, os racistas, machistas, lgbtfóbicos, contra os neofascistas, contra os latifundiários e todos esses jamais serão destruídos com as eleições da burguesia. As demandas da classe trabalhadora jamais serão atendidas com as eleições. Nunca foram. É preciso ganhar politicamente a classe trabalhadora. Esta é a tarefa mais árdua daqueles que defendem a construção da luta revolucionária organizada. Uma imperiosidade se apresenta: como melhor conquistar a classe trabalhadora para a luta organizada? Diante de um governo da democracia da burguesia, cheia de limites estratosféricos (jamais confundir a democracia burguesa com a democracia operária) ou diante de um governo declaradamente antidemocrático e de apologia às ditaduras e as torturas? Aí está colocada parte das tarefas do nosso tempo sobre o que fazer diante da acentuada crise do capital.

 

Quanto ao governo Bolsonaro, nem tudo são flores. Primeiro porque sua campanha se calçou em fake news; e estas têm sempre um lastro curto. Mas não somente! Há enormes contradições que já se expressam em seu mandato, que ainda nem iniciou. Há já um desgaste – obviamente que ainda bastante minoritário – de setores que já o olham com desconfiança. A garrafa de oxigênio dele é pequena, e parece saber disso. Ainda mais que seu crescimento é fruto de um ascenso, não de um retraimento das lutas. E por não ser um nacionalista burguês, como seria um governo fascista, mas um ultraliberal, que continuará as políticas anteriores, de maneira mais agressiva, fragilizando ainda mais a economia brasileira por meio das privatizações e de ataques dos direitos, a tendência é que os conflitos se acirrem e que sua imagem sofra um grande desgaste em pouco tempo.

 

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* Exemplos concretos não faltam. Mas talvez o mais sensível, ao menos pelos trabalhadores, neste momento, é o silêncio e a anemia da CUT frente aos fortes e radicais ataques proferidos pelo governo, principalmente o mais repudiado deles: a reforma da previdência. Está mais preocupada, essa burocracia operária, em garantir sua subsistência (daí a conversa franca com o governo) que a luta pelos direitos da classe. Ela, mais que ninguém, sabe que, a não ser que façamos uma forte greve geral neste país, a reforma da previdência passará, e sem maiores conturbações. Mas não move uma palha, pois também não a deseja. Ajudará na sua construção se sua base política a pressionar.

 

** Ora, o que estamos falando é que, assim como a social-democracia alemã dos anos 30 no que concerne ao nazismo, a frente-popular encabeçada pelo PT no Brasil abriu caminho para Bolsonaro. Por ser um partido com grande ligação com a classe trabalhadora, que, chegando ao governo, governou o Estado para os capitalistas e para os banqueiros, frustou as expectativas das massas trabalhadoras, abrindo caminho para o discurso racista, xenofóbico e machista encabeçado pela extrema-direita.

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Leia também:

Nazismo: a face da extrema-direita negada por Bolsonaro

05.04.19

Adolf Hitler fazendo a famosa saudação nazista

 
Mais do que propagar uma cortina de fumaça, Bolsonaro e seus seguidores tentam realizar uma disputa ideológica na sociedade com o negacionismo histórico e o obscurantismo anticientífico. Algo que ficou explícito nas suas versões sobre o golpe de 1964, no combate do chamado “marxismo cultural” e na defesa da ideologia sionista do Estado de Israel.
 
 
“Antes que o galo cante, três vezes você me negará
MATEUS 26
 
Em entrevista recente, o ministro Ernesto Araújo, das Relações Exteriores, disse que o nazismo teria sido “um movimento de esquerda”. A entrevista causou polêmica e reação de historiadores, que criticaram as declarações. Mesmo a principal emissora de TV pública da Alemanha, a Deustche Welle, lançou uma nota dizendo que o “o absurdo virou discurso oficial em Brasília”.
 
Poucos dias depois, em artigo publicado no seu blog pessoal, o ministro voltou à carga e afirmou que a esquerda fica “apavorada” com o debate que a relaciona com o nazismo. Seu principal argumento é de que: “O nazismo era anticapitalista, antireligioso, coletivista, contrário à liberdade individual, promovia a censura e o controle do pensamento pela propaganda e lavagem cerebral, era contrário às estruturas tradicionais da sociedade. Tudo isso o caracteriza como um movimento de esquerda”.
 
No seu afã delirante, o ministro vai além e diz que a União Soviética e a Alemanha nazista estavam empenhadas em uma aliança de “esquerda” para conquistar o mundo:
 
“O nazismo, tanto em sua ascensão quanto em sua derrocada, praticamente esfacelou as potências liberais da Europa Ocidental e seus impérios, abrindo caminho para o totalitarismo comandado pela URSS (aliada de primeira hora da Alemanha nazista) e sua expansão mundial, que colocou em cheque e quase derrotou a única potência não comunista restante, os Estados Unidos”, escreveu.
 
O ministro só não explica qual foi a razão (já que havia uma aliança) da invasão alemã contra a União Soviética durante a Segunda Guerra Mundial que resultou na morte de 20 milhões de cidadãos soviéticos.
 
No dia 2 de abril foi a vez de o próprio Jair Bolsonaro defender a absurda tese do seu ministro. Questionado por jornalista se o nazismo era de esquerda durante sua visita a Israel, o presidente respondeu: “Não há dúvida”. Bolsonaro então continuou: “Partido Socialista…, como é que é? Partido Nacional-Socialista da Alemanha”.
 
Essa posição absurda, negada por todas as evidências históricas, já vinha sendo esgrimida por outros setores que apoiam o governo de Jair Bolsonaro, como o astrólogo Olavo de Carvalho, que repete essas besteiras à exaustão, pelo menos desde os anos 2000. Claro que se trata de mais um diversionismo que marca a atuação dos seguidores de Bolsonaro nas redes sociais. Uma manobra usada que recorre a artimanhas e a imposturas intelectuais com o fim de prejudicar a discussão, causar deliberada confusão para enganar os otários e excitar sua base social de extrema-direita.
 
É importante que busquemos entender essas declarações não só como uma tentativa de propagar uma cortina de fumaça para esconder a inoperância do governo Bolsonaro. Por mais absurda que seja essa tese, é preciso entender que Bolsonaro e seus seguidores, a partir do aparelho do Estado, tentam realizar uma disputa ideológica na sociedade com o negacionismo histórico e o obscurantismo anticientífico. Algo que ficou explícito quando o governo pediu para as Forças Armadas comemorarem o golpe de 1964, ou quando volta suas cargas ao combate do chamado “marxismo cultural”, ou ainda se alinha cegamente na defesa da ideologia sionista colonizadora do Estado de Israel. Tudo isso é inédito no Brasil. Nesse sentido, consideramos oportuno fazermos algumas considerações e esclarecimentos sobre o nazismo, a face mais bárbara da extrema-direita que agora é negada por ela.
 
 
Nacional-socialismo
 
Como bem recorda a Deustche Welle, a tentativa de classificar o nazismo como uma “ideologia de esquerda” não é nova e chegou a ocorrer no passado em vários países.
 
"Na Alemanha, durante as pesquisas e debates sobre o Terceiro Reich, iniciadas nos anos 1960, chegou a haver tentativas de classificar esse regime como um movimento socialista, no entanto, há décadas não restam mais dúvidas, nos âmbitos acadêmico, social e político, sobre a natureza de extrema-direita do nazismo”, escreveu a emissora alemã.
 
No caso do ministro de Bolsonaro e dos olavetes de plantão, o debate é bem mais rasteiro. Um dos principais argumentos é de que o partido de Hitler se chamava Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães. O termo Nazi é uma abreviação em alemão do termo Nationalsozialist (Nacional-socialista). Ele foi utilizado, assim como o termo “trabalhadores”(Arbeiter) como um meio de chamar a classe trabalhadora para longe do Partido Comunista Alemão (Kommunistische) e do Partido Social-Democrata (Sozialdemokratische), na época os dois mais importantes partidos operários da Europa ocidental nos anos 1930. Mas isso não significa que os Nazis eram de esquerda ou pretendiam construir mais um partido operário. Todo o programa e ideologia nazista era profundamente antioperário e anticomunista ou antisocialista.
 
 
Nazismo, história e programa
 
O partido nazista foi fundado em 1919 por Adolf Hitler, um ex-combatente da Primeira Guerra que realizava discursos em uma cervejaria em Munique carregado de nacionalismo racista, antissemita e de ódio pelo comunismo. Em tempo relativamente rápido, os nazistas conseguiram recrutar oficiais militares descontentes com a derrota alemã na guerra, uma pequena burguesia arruinada pelo peso da crise econômica que assolava o país e aventureiros de toda espécie.
 
Em 1921, o partido cria a SA (Sturmabteilung, “divisão tempestade” na tradução), uma milícia paramilitar que realizava ataques violentos a outros partidos e sindicatos. Essa é uma das mais importantes características das organizações nazifascistas.
 
A doutrina nazista era bem simples. Para recuperar sua grandeza, os nazis prometiam lutar contra supostos “inimigos internos” – comunistas, socialistas, judeus, ciganos, homossexuais etc. Era preciso, portanto, eliminá-los para que o povo alemão, ariano e trabalhador, regenerasse o país e restaurasse a glória da Alemanha. O “sangue puro”, a “pureza de raça” e a exaltação à “ordem” e da “pátria”eram o caminho para isso.
 
Em termos territoriais, o objetivo era a conquista do chamado “espaço vital” (Lebensraum), isto é, de uma grande extensão territorial sobre a Europa, particularmente sobre a União Soviética. Desde que tomou o poder, em 1933, Hitler iniciou o rearmamento da Alemanha. Seu objetivo final era duplo: tornar possível o fomento da indústria alemã assolada pela crise, proporcionando um forte aumento de lucros; e preparar um futuro ataque contra a União Soviética para o imperialismo alemão. A conquista e sujeição da URSS seriam equivalentes à Índia conquistada pela Grã-Bretanha.
 
 
Política econômica nazista
 
Logo após a tomada do poder, Hitler pôs na ilegalidade sindicatos operários e os partidos comunista e social-democrata. As cadeias ficaram abarrotadas de militantes de “esquerda”, ou mais precisamente socialistas e comunistas e todos aqueles que ousassem se opor à ditadura inaugurada por Hitler. Ele também nomeou um homem do grande capital, Hjalmar Schacht, para ministro de finanças (1934-37). O mesmo havia sido antes o ministro da economia (Economia e Finanças) da República de Weimar tão criticada pelos nazistas e chamada de “socialista” no período anterior. Aqui há um ponto comum entre a propaganda nazista e as fake news de Bolsonaro: ambas apostam nas mentiras e falsas notícias para manipular a opinião pública e fazer as pessoas acreditarem em qualquer coisa.
 
Hjalmar Schacht financiou a retomada da produção com uma política protecionista e fomentou obras públicas para conter o desemprego, como a construção da rede de estradas Autobahn. O mais importante, porém, foi a formulação de uma política de crédito a curto prazo, na qual o déficit financeiro era pago através da emissão de notas promissórias, as quais podiam ser usadas para efetuar negócios entre empresas. Tal mecanismo foi extremamente útil em permitir que a Alemanha prosseguisse com seu projeto de remilitarização, uma vez que as notas promissórias emitidas não constavam no orçamento federal. Desse modo, os nazistas conseguiram burlar os acordos firmados após a guerra que proibiam o país destinar grandes somas de seu orçamento para reconstruir suas Forças Armadas.
 
Tudo isso favoreceu a concentração do capital. Enquanto os salários foram congelados, os setores poucos rentáveis da economia (mas essenciais para o aumento dos lucros dos capitalistas) foram assumidos pelo Estado.
 
A política econômica do regime Nazista desfaz as análises do economista austríaco Ludwig von Mises (1881 – 1973), que rejeitava radicalmente qualquer interferência do Estado na economia. O economista ultraliberal é geralmente citado pelo astrólogo Olavo, pois classificava a Alemanha nazista como “socialista”. Para Mises, embora a propriedade privada dos meios de produção existisse sob o regime Nazista, o verdadeiro proprietário era o governo alemão, uma vez que era o Estado quem planejava a produção, controlava os preços e os salários.
 
Ora, a mesma política econômica implementada por Hjalmar Schacht estava sendo implementada na mesma época pelos Estados Unidos. Em 1933, o presidente americano, Franklin Roosevelt, assumiu a presidência do país e aplicou seu famoso New Deal, baseado na proposta do Lord J. M. Keynes de intervenção estatal na economia. Sua política consistiu em: controle sobre bancos e instituições financeiras e econômicas; subvenção aos agricultores; criação de Previdência Social, que estipulou um salário mínimo; obras públicas e criação de novos postos de trabalho na administração pública. A lógica era praticamente a mesma do caso alemão: o Estado tinha de intervir na combalida economia americana, em crise depois de 1929, fazendo grandes investimentos que animassem a iniciativa privada e gerassem trabalho. Assim como na Alemanha, o desemprego em massa poderia se tornar combustível para a revolução social.
 
No entanto, Von Mises nunca chegou a classificar os EUA como um país socialista… nem Olavo de Carvalho. Tampouco chamou de “socialismo” o Plano Marshall, um grande investimento dos EUA para reconstruir a Europa, aplicado sob forte planejamento estatal no pós-guerra.
 
 
Estado e capitalismo
 
Nunca existiu um único modelo de acumulação capitalista que prescindisse do Estado, como está nas cabeças obtusas dos economistas liberais. Pelo contrário, a reprodução ampliada do capital, especialmente em momento de crise de acumulação, exige a presença do Estado para alavancar a economia e salvar os capitalistas. Os US$ 15 trilhões do orçamento público norte-americano destinados por Bush/Obama para salvar os bancos americanos na crise financeira de 2008 são um bom exemplo recente. Olavo e Bolsonaro chamariam essa iniciativa de comunista.
 
Nos anos 1930, a intervenção do Estado na economia foi adotada por vários governos. Ao analisar na época, Leon Trotsky explicava: “o estatismo – seja a Itália de Mussolini, a Alemanha de Hitler, os Estados Unidos de Roosevelt ou a França de Leon Blum – significa a intervenção do Estado com base na propriedade privada, para salvá-la. Qualquer que seja o programa dos governos, o estatismo consiste inevitavelmente em transferir os encargos do sistema agonizante do mais forte para o mais fraco. Salvar pequenos proprietários do desastre, apenas porque a sua existência é necessária para a manutenção de grandes propriedades. O estatismo, em seus esforços de economia dirigida, não se inspira na necessidade de desenvolver as forças produtivas, mas na preocupação de conservar a propriedade privada em detrimento das forças produtivas que se rebelam contra ela” (A Revolução Traída).
 
O capitalista, como bem explica Karl Marx, não recebe na forma de lucro a mais-valia criada por seus próprios trabalhadores, mas uma fração da mais-valia de um país inteiro, proporcional à sua participação no capital. Desse modo, o Estado pode intervir como um poderoso senhor e estabelecer certas mediações no sentido de distribuir a parcela de mais-valia para os magnatas do capital. O Estado funcionaria apenas como o agente do capital monopolista que arca com todos os riscos do negócio e deixa todos os benefícios da exploração capitalista.
 
O nazismo alemão e o fascismo italiano foram duas respostas ultradireitistas às condições sociais criadas pela crise econômica mundial iniciada em 1929, que determinaram um novo papel para o Estado na estabilidade do capitalismo. Foram movimentos políticos impulsionados e a serviço dos setores mais concentrados do capital financeiro e monopolista, portanto imperialistas, que recrutaram a pequena-burguesia desesperada e pauperizada pela crise, militares humilhados pela guerra e elementos lúmpens para atacar e derrotar o movimento operário e de massas com métodos de guerra civil.
 
 
Tolitarismo, nazismo e stalinismo
 
Outro ponto comum apontado por Bolsonaro e seus seguidores entre o nazismo e o regime político existente na União Soviética seria o totalitarismo. Para sustentar esse argumento, também associam o socialismo às ditaduras existentes na Venezuela ou Coreia do Norte, que nada têm de socialistas. Infelizmente, a defesa dessas ditaduras por parte de setores da esquerda acaba por reforçar a campanha de Bolsonaro que associa esses regimes ao socialismo.
 
O socialismo sumariamente pode ser definido como o controle do poder político, da produção e da riqueza pela classe trabalhadora. Isso não existe nem na Venezuela, nem em Cuba, nem na Coreia do Norte. Todos são países capitalistas, e seus governantes são burgueses privilegiados que vivem no luxo enquanto impõem uma ditadura sobre o povo.
 
A União Soviética, por sua vez, não foi uma nação capitalista. Naquele país houve uma revolução que expropriou os capitalistas e deu poder aos trabalhadores organizados em Conselhos Populares, os chamados Sovietes. No entanto, o isolamento da jovem república soviética fortaleceu uma casta burocrática que impôs uma contrarrevolução e uma ditadura ao país. O grande chefe dessa ditadura burocrática que vigorou na URSS a partir de 1923 foi Joseph Stalin. O stalinismo se apropriou do aparato do Estado soviético e do Partido Comunista. O stalinismo no poder assassinou centenas de milhares de bolcheviques, inclusive a maior parte dos líderes da Revolução de Outubro, impediu as liberdades democráticas e conduziu, como já havia previsto Trotsky 50 anos antes, a restauração do capitalismo.
 
No entanto, seria um equívoco estabelecer uma igualdade mecânica entre os regimes fascistas e o stalinismo, como fazem muitos autores que trabalham com a categoria tolitarismo. Ao fim e ao cabo, tal definição ignora solenemente todo o processo histórico que deu origem ao nazismo alemão e fascismo italiano e ao surgimento da União Soviética, assim como a base social que sustentava cada um desses regimes.
 
Em várias oportunidades, Trotsky traçou uma similaridade entre o fascismo e o stalinismo. Mas sempre ressaltou as diferenças do ponto de vista de classes sociais que sustentavam tais regimes e a diferença entre a burocracia fascista e a burocracia stalinista que estavam à frente de Estados, cujas origens eram completamente diferentes.
 
O Estado fascista, como vimos, se apoiava nos grandes monopólios capitalistas e imprimia uma política de expansão colonial imperialista. O stalinismo foi a manifestação política de uma casta burocrática parasitária que derrotou a classe operária, usurpou as conquistas sociais da Revolução de Outubro e impôs uma ditadura para manter seus privilégios. Desse modo, a burocracia colocou o jovem Estado operário, que transitava para o socialismo, no caminho inverso: no retorno ao capitalismo.
 
Em outras palavras, os Estados fascistas e stalinistas tinham regimes similares, mas origens diferentes do ponto de vista de classe. Suas semelhanças residiam no fato que ambos regimes tinham à frente uma burocracia que se elevava por cima da sociedade e tinha um poder ditatorial sobre o conjunto das instituições e das massas. Em muitas polêmicas contra setores que não compreendiam a natureza do Estado soviético, Trotsky dizia que a URSS, despojada de seu caráter de classe, isto é, de seu caráter de Estado Operário, não passava de um Estado fascista.
 
É claro que Bolsonaro e seus seguidores estão anos-luz dessa compreensão. Trabalham com a hipersimplificação da realidade, reduzindo tudo a uma batalha entre o bem e o mal, e atribuindo a um único inimigo a fonte de todos os problemas do Brasil e do mundo. Mais uma vez, a mentira como estratégia de comunicação usada por Bolsonaro o aproxima do fascismo, mas como caricatura e simulacro. É feio cuspir no prato em que se come.
 
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Artigo escrito em parceria com Jeferson Choma e originalmente publicado no site da LIT-QI.
 
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Por que 1 de Abril é considerado o dia da mentira?

01.04.19

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Há muitas versões da história, mas tudo terá começado quando o rei francês Carlos IX, ou a sua mãe, fez publicar um decreto alterando a data de início do ano civil de 25 de março para o primeiro de janeiro. Na altura do ano novo, a 1 de abril, as pessoas costumavam trocar presentes. Os adeptos do novo calendário levaram com eles a tradição, sem, contudo, deixar uma pequena sutileza em abril para, diz-se, ridicularizar a real tentativa de trocar as voltas ao calendário.


Assim, no lugar dos outros presentes ofereciam prendas e postais de boas festas falsos. Brincadeiras e convites falsos para celebrações que não existiam eram também algumas das maneiras de marcar a data. Daí até às mentiras foi um salto.

Ou dois. A tradição foi-se espraiando por toda a Europa, com a difusão da cultura francesa. Mais tarde chegou às Américas e agora, qualquer que seja o antípoda, todos celebram, de uma forma ou de outra, o dia das mentiras.