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Práxis

Os filósofos limitaram-se sempre a interpretar o mundo de diversas maneiras; porém, o que importa é modificá-lo.

Práxis

Os filósofos limitaram-se sempre a interpretar o mundo de diversas maneiras; porém, o que importa é modificá-lo.

O capitalismo configura-se como um sistema ecônomico calcado no consumo? É a sociedade capitalista uma "sociedade do consumo"?

13.02.19

 
[No capitalismo] O dinheiro é a essência alienada do trabalho e da existência do homem; a essência domina e ele o adora.
Karl Marx
O fator determinante final da história é a produção e reprodução da vida imediata.
Friedrich Engels
 
Sociedade de consumo. Completamente ausente das análises de Marx e Engels, este conceito, popularizado no século XX, mostrou um longo alcance, estando presente nas leituras críticas dos teóricos da escola de Frankfurt, através de Ana Arendt, a intelectuais contemporâneos como Fredric Jamenson e Zygmunt Bauman. De fato, nada parece mais coerente do que o capitalismo como sociedade de consumo, afinal, a marcha imparável do capital em direção a uma maior apreciação multiplica a quantidade e a diversidade dos bens que enfrentamos a cada dia, inserindo-os em nossas vidas diárias como uma necessidade que não podemos mais evitar.
 
Apesar do óbvio (o truísmo), é útil dizer que tal concepção é muito superficial e, como tal, falsa. Essa ilusão deriva do fato de que as relações sociais reais entre indivíduos da forma social capitalista estão veladas na forma bruta e natural de mercadorias e dinheiro. E por essa razão, o que vemos diretamente é a expansão quantitativa e qualitativa dos bens considerados em si, desconsiderando o processo social que os fez emergir.
 
Em seu grande livro, O Capital, Karl Marx descreve o consumo como a realização do "valor de uso" dos produtos. Embora a mercadoria seja um valor de uso pelo simples fato de satisfazer uma certa necessidade humana, a realização desse valor de uso é dada em seu consumo, que é posterior à sua troca. Isto é, a realização do valor de troca. Isso significa que se o valor de troca não for realizado, seu valor de uso também não será realizado. Como mercadoria, para chegar ao campo do consumo, é necessário primeiro superar a esfera do comércio.
 
Deste ponto de vista, o consumo aparece subordinado à esfera da troca, ainda que o valor de uso seja o suporte material do valor de troca na forma de capital e o conteúdo material de riqueza em cada sociedade. Então, Marx analisa a fórmula da simples circulação de produtos: M-D-M (mercadoria-dinheiro-mercadoria). Nesta fórmula, o dinheiro aparece como um mero mediador do processo, e sua finalidade é o valor de uso. Em outras palavras, o objetivo final da forma M-D-M é consumir, e seu limite é a satisfação das necessidades dos consumidores e seu valor de uso. Por esta razão, esta forma é sintetizada por Marx na forma: vender para comprar. Mas a forma M-D-M é apenas um momento abstrato e superficial das relações sociais capitalistas, visíveis na esfera do comércio de bens. Portanto, Marx começa a analisar a forma M-D-M', que traz a especificidade do processo de troca de bens na forma de capital, considerado por Marx como a fórmula geral do capital.
 
Na fórmula geral do capital, transformações fundamentais podem ser observadas. A mercadoria é comprada para revenda e não mais para satisfazer uma necessidade individual. O dinheiro não funciona mais exclusivamente como dinheiro, mas como uma forma universal de riqueza. O que impulsiona a realização deste circuito não é o valor de uso, mas o valor de troca. Desta forma, valorizar o valor para o infinito torna-se um objetivo absoluto. Em suma, a satisfação das necessidades de consumo e o valor de uso são transformados em meros meios desse movimento insaciável de autovalorização.
 

É óbvio que o valor de uso e a realização das necessidades humanas historicamente constituídas pelo consumo não são literalmente rejeitadas no modo de produção capitalista. O que diferencia essa forma social de todas as anteriores é que a produção precedida de valores de uso não está mais subordinada às necessidades do homem, mas sim à valorização do valor. Em todas as relações sociais pré-capitalistas predomina a produção para o uso imediato de produtos do trabalho. Ou seja, a produção é o valor de uso e a prestação de serviços em espécie. Não sem razão, Marx verifica que nunca houve, entre os mais velhos (refere-se às sociedades antigas), uma questão sobre a forma de propriedade da terra, etc., qual é a mais produtiva, qual delas cria a maior riqueza, porque a riqueza (no sentido de acumulação) não aparece como um objetivo de produção.

Portanto, a riqueza sempre se apresenta em seu aspecto material, em sua configuração objetiva, em suas determinações concretas, contrárias à sociedade burguesa, que está representada na figura abstrata do dinheiro. Até mesmo a exploração e o controle do trabalho dos outros são voltados para o prazer privado, a satisfação das necessidades de seus respectivos donos. Mas não somente: nas formas sociais que precederam o capitalismo, frente a riqueza  em sua determinação material, "o homem se confronta como sujeito".

No capitalismo, o operário e o próprio capitalista só aparecem como um de seus momentos. O processo usual de acumulação de capital ocorre sem o conhecimento dos produtores e o capital se manifesta com a força de um sujeito automático. Em suma, bens valiosos não estão mais ligados uns aos outros como um meio de satisfazer as necessidades humanas. Pelo contrário! Os homens é que estão ligados uns aos outros para atender às necessidades de valorização do capital e, portanto, não mais se defronta com os produtos materiais como sujeito; antes, como algo externo, estranho, alheio a sua vontade.

Como pode ser visto, para além das falsas aparências que surgem da esfera da simples circulação da mercadoria, quando esta se torna autônoma, todas as formas sociais que precederam o capital são o que podemos chamar de "sociedade de consumo". No entanto, nada mais errado do que designar o capitalismo como sociedade de consumo. Vivemos em uma sociedade de trocas, do dinheiro enquanto forma universal e autonomizada da riqueza, regida pela sua acumulação de capital através da extração de mais-valor. De fato, em nenhum outro momento da história humana o consumo foi tão valorizado quanto é hoje.

A grande maioria das pessoas acaba de comprar uma mercadoria em particular e o fetiche desaparece de sua aquisição. Nos EUA, por exemplo, o "lar do consumo", é comum encontrar-se casas com garagens repletas de mercadorias compradas e nunca consumidas. O sonho que habita a imaginação de quase todos nesta forma social, capitalistas ou trabalhadores, não é a posse e usufruto de qualquer bem em particular, mas a quantidade de dígitos de seu extrato bancário.

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CONCEITOS:

Valor de troca: para o marxismo, o valor de troca é medido pelo tempo de trabalho socialmente necessário, isto é, o tempo padrão para produzir uma mercadoria. Assim, é possível conhecer o preço justo de cada mercadoria pelo tempo de trabalho que é aplicado a ela;

Valor de uso: é a qualidade que tem um objeto para satisfazer uma necessidade, determinada por suas condições naturais;

Mais-valor (mais-valia): é a diferença entre o valor produzido pela obra e o salário pago ao trabalhador. É, portanto, a base da exploração do sistema capitalista no mercado de trabalho. Dela é que deriva o lucro do burguês.

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