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Práxis

Os filósofos limitaram-se sempre a interpretar o mundo de diversas maneiras; porém, o que importa é modificá-lo.

Práxis

Os filósofos limitaram-se sempre a interpretar o mundo de diversas maneiras; porém, o que importa é modificá-lo.

ALGUMAS REFLEXÕES SOBRE O PROCESSO DE TRADUÇÃO: REESCRITURA OU TRANSPOSIÇÃO?

27.11.18

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"[…] Na verdade estou para condená-lo a nada menos que a desterro perpétuo, mesmo que contenha parte da criação do famoso Matteo Boiardo,10 de onde também teceu sua teia o poeta cristão Ludovico Ariosto,11 por quem não terei respeito algum, se o achar por aqui me falando em outra língua que não a sua. Mas, se me falar em seu idioma, eu o porei nas nuvens.
— Eu o tenho em italiano — disse o barbeiro —, mas não o entendo.
— Nem seria bom que o entendêsseis — respondeu o padre. — E aqui poderíamos perdoar o senhor capitão se não o tivesse trazido para a Espanha e o feito espanhol, pois lhe tirou muito de seu valor original; e o mesmo farão todos aqueles que quiserem transpor livros de verso para outra língua: por mais cuidado que tenham e habilidade que mostrem, jamais chegarão ao ponto que os versos alcançaram no primeiro parto. Digo, enfim, que este livro e todos os que tratam dessas coisas da França sejam atirados num poço seco até que com mais calma se veja o que se há de fazer […]"

Cervantes, Miguel de. DOM QUIXOTE DE LA MANCHA. Cap. VI - Do grande e divertido escrutínio que o padre e o barbeiro fizeram.


Traduzir de uma língua para outra, ao que parece, é das tarefas mais difíceis, pois, mesmo que se tenha uma ideia do panorama geral da língua de partida, das imagens e até mesmo de elementos simbólicos mais complexos, “transportá-los” para uma outra língua (o que chamamos de língua de chegada), de maneira que atinjam o mesmo efeito, não é tarefa simples. Pelo contrário.

Afinal, um texto – e principalmente um texto de cunho literário, por exemplo – não é composto apenas de “conteúdo”, mas de outras matérias bem mais complexas, que afetam diretamente o seu propósito. Refiro-me a questões como estilo, figuras de linguagem, dentre outras, que podem obscurecê-lo mais que clareá-lo[1].

Obviamente, que ao se traduzir um texto, o tradutor não pode – ao menos ao meu ver – sofrer a tentação de deixar a obra traduzida tal qual sua original, não escoimando uma única vírgula sequer. Ora, se cada língua tem seu ritmo e seus modos de dizer algo, a tradução literal significa o avesso da fidelidade, pois ao fazê-la torna o texto repleto de “obstáculos” indesejáveis, afastando-o da língua nativa do leitor ao qual se destina, ao mesmo tempo em que o força não somente a compreender elementos históricos-culturais do autor do texto base, mas também força-o a captar o ritmo da língua de partida. Segundo Ernani Ssó:

A tentação menardiana é compreensível, mas não se aguenta em pé: as palavras não têm a consistência dos números. O número sete vale sete numa conta tanto em Trombudo do Norte como em Cuernavaca ou na Cochinchina. Mas sete não vale sete num texto. A palavra “sete”, para nós, evoca sorte, mentira, esoterismo. Vá saber o que evoca na Cochinchina. A cultura e o lugar alteram, ou colorem, o significado de uma palavra. O tempo, então, nem se fala. No caso do Quixote o tempo talvez seja o fator mais hostil.[2]

Obviamente que isso parece claro, talvez ululante, até constrangedor. Principalmente se tomarmos como premissa o argumento de Ssó. Todavia, muitas das traduções brasileiras, quando não recorrem a este modus operandi, por vezes acabam estilizando demais o texto original, deixando-o bem outro na língua de chegada. Um exemplo é o livro Fausto, de Goethe, que a tradução brasileira[3] tornou o texto mais obscuro que a obra original.

Todavia, a tentação ciceroniana em deixar o texto mais compreensivo, importando-se com conteúdo em detrimento da forma – assim como faziam os tradutores franceses à época de sua grande Revolução – parece-me também no mínimo perturbador, já que à tradução cabem algumas piruetas em uma berlinda, mas jamais o salto da corda, como bem explanou Ssó. Não vejo a literatura (como qualquer outro tipo de texto) como uma “reescritura completa”, uma espécie de adaptação do original em que pese somente o texto de chegada.

A esse respeito, Paul Groussac[4], em sua Segunda conferência sobre Cervantes e o Quixote, fez uma observação interessante e bastante pertinente: “esse admirável primeiro capítulo, o melhor do livro, e cujo esmero nos traz involuntariamente à memória (apenas a lembrança parece uma crueldade) o tempo e o vagar de que gozava o preso para cuidar seu estilo”. Parece ótima a constatação, porém faz-se necessário lembrar que Cervantes, apesar do aparente desleixo[5], é fluente. Aliás, não somente fluente, mas atual, complexo no concerne às suas inovações artísticas e bastante cheio de graça. Indo na esteira de Ssó:

Enfim, mesmo que eu tivesse o cacife de Borges, não me meteria a copidescar Cervantes. Não copidesco nem romances populares. Não é por ser bonzinho ou muito humilde. É mais simples: uma tradução é meio como andar na corda bamba. Pode-se fazer uma ou outra pirueta, mas saltar da corda, mesmo para cair de pé com a elegância devida, é outro espetáculo. Se me passei numa ou noutra frase ou palavra, foi em nome da clareza e do vigor. Na hora do aperto, prefiro ser mais fiel ao Quixote que a Cervantes. Se essa distinção parece obscura, paciência, logo chegaremos aos exemplos.[6]

Partindo dessa reflexão, cabem alguns questionamentos. O primeiro deles – e acho que o mais sensível – é o de sabermos como recuperar para a língua de chegada toda a fluência que existe no texto de partida. Se estou bem certo, o primeiro autor a se preocupar mais detidamente sobre estas questões foi Martin Luther (o Lutero). Para o autor alemão, tradutor da bíblia, quem quer falar alemão não deve seguir a estrutura linguística do hebreu, mas cuidar de entender o homem hebreu para captar o sentido, e refletir: como falaria um homem alemão neste caso? Quando tiver encontrado as palavras alemãs adequadas, deve libertar-se das palavras hebreias e expressar livremente o sentido no melhor alemão de que for capaz.

Seguindo a lógica luterana, o tradutor não deve se prender à estrutura gramatical de uma língua, já que cada uma expressa o mundo de uma maneira diversa. Continuando em Cervantes, aquele que o traduzir para o português, deverá fazê-lo de uma forma como se o próprio autor escrevesse em português, para que o texto não desafine e para que Quixote não arranje um outro adversário, muito mais perigoso que os de suas aventuras: a língua de chegada. Daí a necessidade da análise, do estudo da língua de partida, bem como da cultura do povo e do escritor que a escreveu no original. Retornemos a Ssó, para que nos ajude com exemplos:

Como uma discussão sem exemplos práticos não serve para grande coisa, vamos a um, pego ao acaso. No capítulo XXVI da segunda parte, depois que dom Quixote destroça a espadadas o teatro de marionetes, mestre Pedro diz: “Con que me pagase el señor don Quijote alguna parte de las hechuras que me ha deshecho, quedaría contento y su merced aseguraría su conciencia”. Atenção ao grifo. Segundo os dicionários, o equivalente em português é “as feituras que me desfez”. Quantos de nós entendemos a piada sem consultá-los?[7]

Guimarães Rosa, por exemplo, para quem “traduzir é conviver”, se tornou um grande admirador de seu tradutor em italiano. Segundo o mestre das palavras, Grande Sertão: Veredas era melhor em italiano que no seu idioma original, o “português”. Fluente em italiano, Rosa reconheceu em seu tradutor um outro autor, bastante profuso e que soube levar o sertão para a Itália. Afinal, como o próprio autor ressalta, o sertão é o mundo.

Bem da verdade, o que fez o tradutor foi muito mais que um “simples” trabalho de decodificação linguística, transportando (de maneira assaz competente) para o modo de ser e pensar do italiano uma obra bastante complexa escrita em uma outra língua. O trabalho foi amplamente mais árduo, ainda mais se pensarmos que Bizzarri, o tradutor de Rosa para o italiano, teve que lidar com nada mais nada menos que 942 neologismos em Grande Sertão: Veredas. O que demandou não somente um estudo aprofundado do autor mineiro, mas também e principalmente um conhecimento bastante profundo de outras línguas, como alemão e latim[8], bem como ter um conhecimento quase que enciclopédico da cultura brasileira de uma determinada região. Todavia, mesmo com todos estes conhecimentos, nada seria possível se o tradutor não dominasse com mestria seu próprio idioma, pois a um tradutor, mais que a língua de partida, é necessário que conheça a língua de chegada. Ou seja, é preciso um domínio amplamente superior do italiano que do próprio português brasileiro, ou melhor, que do português falado por brasileiros em uma determinada região do país.

Entretanto, os problemas não cessam aí. No início desta argumentação explanei que a tradução ipsis literis, palavra por palavra, significa ser infiel por desprezar as diferenças entre as línguas de partida e de chegada. Agora, o que fazer, por exemplo, com termos caros à obra, termos que podem situar uma obra universal à época e ao espaço em que foi escrita? Ao meu ver, esses termos devem ser mantidos os mais fieis possíveis, sendo complementados, se necessário for, por notas de rodapé que situem o leitor na narrativa. A mim parece óbvio! Porém, embora seja um recurso bastante pertinente na tradução de uma obra como Dom Quixote de la Mancha, não é possível em Grande Sertão: Veredas, esta obra de cavalaria do século XX. Se a cada neologismo o autor for complementar o conceito com uma ou outra nota de rodapé, imaginemos o quão enfadonha e cansativa se tornará a leitura de uma obra densa como a de Rosa.

Veja o trabalho monumental do tradutor. Traduzir é antes de tudo (re)escrever. Afinal, se os escritores criam as literaturas nacionais, cabe aos tradutores fazerem a literatura universal. Senão, de que outra maneira poderíamos ler Shakespeare, Rosa, Dostoiévski, Camões, Homero, Cecília Meireles ou Nagib Mahfuz, artistas tão diferentes e dispersos no tempo e no espaço? Como poderíamos chorar com Jean Valjean, nos compadecer de Mulan e rirmos com Gargântua, senão pelo contato da obra traduzida? Notemos aí, por meio de alguns simples exemplos, que mesmo a tradução pensada para a língua de chegada, imaginando-a escrita diretamente nesta língua[9], denota em si mesma uma complexidade bastante grande. E isso porque nos restringimos basicamente em discutir textos em prosa, apesar da categoria textual múltipla em que ao meu ver se insere Grande Sertão: Veredas. Quando o assunto é verso, a tarefa é ainda mais árdua, pois outros elementos próprios da linguagem poética do autor (rima, ritmo, jogo de palavras, musicalidade...) precisam ser respeitados.

Ernesto Sábato, em uma conversa com Jorge Luiz Borges, afirmou preferir pensar os tradutores como escritores de estilo mais apagado, pois somente desta forma não poderiam interferir no estilo da obra original. Ao meu ver, este princípio parece mais um desvão daquele em que busca recriar a obra de arte no contexto da língua de chegada, a exemplo do que buscava Schleiermacher. Ora, se cabe ao tradutor o ofício de (re)escrever uma obra em uma outra língua, como o fazer de maneira “pura”? Certamente que incorreria em uma tradução em boa parte estéril, sem carisma Ou muito me engano, ou um escritor com estilo mais vivo tem mais recursos estéticos e estilísticos para criar e recriar sua obra. Todavia, como uma parte enorme das decisões depende de fatores subjetivos, fica fácil criticar qualquer tradução, por melhor que seja.
Voltemos a Ernani Ssó:

Os inumeráveis ditados de Sancho deram um trabalho à parte. Gastei horas e horas atrás de ditados equivalentes, quando eles perdiam agilidade e harmonia em português, ou eram de compreensão duvidosa, ou tinham sua graça ameaçada. Os rimados foram os piores. Por exemplo, o que fazer com “não importa com quem nasces, mas com quem pasces”? Uma piada evidente no tempo de Cervantes, mas você tem de ser um leitor inveterado de dicionários para saber o que é “pasces”. Então? Então parti para o tudo ou nada: reinventei o ditado. “Não importa a casta, mas com quem se pasta.”[10]

Há, como se pode notar, um problema diacrônico, que remete não somente à solução que o tradutor precisa encontrar para a (re)significação de antigos provérbios que precisam ser traduzidos para um outro idioma alguns séculos mais tarde. Mas também de percepção de mundo: os personagens às vezes se atiram a longos discursos, com frases intrincadas e palavras luxuosas. Facilmente esses discursos podem se tornar pomposos na língua de chegada, já parte não desprezível deles – em decorrência do tempo que os separam de hoje – podem beirar ao absurdo.

Segundo Dom Quixote, traduzir de uma língua fácil não prova nem talento nem bom estilo, como buscamos mostrar na citação que abre este texto, “como não o prova quem transcreve ou copia um texto de um papel para outro”. Como complementa Ernani Ssó: “Para nós, que falamos português, o espanhol está entre as línguas fáceis, bem mais acessível que o francês e o italiano. Talvez só perca para o galego. Bem, tenha ou não tenha razão o velho fidalgo, uma coisa é certa: não tive a felicidade do doutor Cristóbal de Figueroa nem a de dom Juan de Jáuregui. Assim, devo me contentar por não ter empregado meu tempo em coisas piores e torcer para, nos embates com as semelhanças enganosas, não ter feito uma triste figura, como nosso cavaleiro ao apanhar de um moinho”.

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REFERÊNCIAS

AMATE, Virginia Gil. Las conferencias de Paul Groussac sobre Cervantes y el Quijote. In: Territorios de la Mancha. Versiones e subversiones cervantinas em la literatura hispanoamericana. Actas del VI Congresso Internacional de la Asociación Española de Estudios Literarios Hispanoamericanos. Cuenca: Ediciones de la Universidad de Castilla-La Mancha, 2007, p. 341-355.

Fröhlich, Luciane Reiter. SENDBRIEF VOM DOLMETSCHEN de Martinho Lutero. 2004. 94 f. Dissertação de Mestrado. Centro de Comunicação e Expressão, UFSC, Florianópolis, 2005.

FURLAN, Mauri. Brevíssima História da Teoria da Tradução no Ocidente. 1.ed. Florianópolis: Editora da UFSC. [s.d.].

________________. A teoria de tradução de Lutero. 2004. In: Annete Endruschat & Axel Schönberger (orgs.). Übersetzung und Übersetzen aus dem und ins Portugiesische. Frankfurt am Main: Domus Editoria Europaea. (p. 11-21).

NATALINO, Laís Gonçalves. A palavra e o significado sob a percepção do tradutor renascentista. Belas Infiéis, v. 2, n. 1, p. 149-156, 2013.

ROMAN, Jakobson. Linguística e Comunicação. 1.ed. São Paulo: Cultrix. [s.d.].

Schleiermacher, Friedrich. Über die verschiedenen Methoden des Übersetzens / Sobre os diferentes Métodos de Tradução. In: Clássicos da Teoria da Tradução. Antologia Bilingue. Vol. 1. Alemão Português. Werner Heidermann (Org.). Florianópolis: UFSC/Nuplitt, 2001, p. 25-87.

__________________________. Über die verschiedenen Methoden des Übersetzens / Sobre os diferentes Métodos de Traduzir. In: Revista Princípios, Vol. 14, Nº 21, 2007, p. 233-265; tradução revisada pelo tradutor e republicada in Clássicos da Teoria da Tradução. Antologia Bilingue. Vol. 1. Alemão Português. Werner Heidermann (Org.). 2.ed. Florianópolis: UFSC / Nuplitt, 2011, p. 39-101.

SSÓ, Ernani. Reflexões de um escudeiro de Cervantes. In: CERVANTES, Miguel de. Dom Quixote de la Mancha. [s.e.]. São Paulo: Penguim. [s.d.].

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NOTAS

1 A palavra traduzir se origina do latim TRADUCERE, “converter, mudar”, originalmente “transferir, guiar”, de TRANS- mais DUCERE, “guiar, conduzir”.Segundo o dicionário eletrônico Houaiss, Traduzir é “transpor de uma língua para outra”. Essa definição, entretanto, é bastante reducionista, já que o processo de transferência de significados não necessita necessariamente ser de uma língua para outra, pois segundo Jakobson, além da tradução interlingual, ou tradução propriamente dita, que consiste na interpretação dos signos verbais por meio de alguma outra língua, existe a intralingual, que é a interpretação dos signos verbais por meio de outros signos da mesma língua, bastante corrente em uma conversa entre um adulto e uma criança, assim como em uma conversa entre duas pessoas de regiões diferentes de um mesmo país, ou até de países distintos. Além dessas, e segundo ainda o próprio Jakobson, existe uma outra tradução, denominada por ele de intersemiótica, que nada mais é que a interpretação dos signos verbais por meio de sistemas de signos não-verbais. Entre as traduções desse tipo, encontra-se a das artes plásticas e visuais para a linguagem verbal e vice-versa, ou a tradução de um texto literário para o teatro ou para o cinema. Contudo, a intenção deste texto é discutir apenas a tradução interlingual a partir de um texto escrito.

2 SSÓ, Ernani. Reflexões de um escudeiro de Cervantes. In: CERVANTES, Miguel de. Dom Quixote de la Mancha. [s.e]. São Paulo: Penguim. [s.d].

3 GOETHE, Johann Wolfgang von. Fausto. Tradução de Jenny Klabin Segall. Belo Horizonte: Editora Itatiaia, 1997.

4 AMATE, Virginia Gil. Las conferencias de Paul Groussac sobre Cervantes y el Quijote. In: Territorios de la Mancha. Versiones e subversiones cervantinas em la literatura hispanoamericana. Actas del VI Congresso Internacional de la Asociación Española de Estudios Literarios Hispanoamericanos. Cuenca: Ediciones de la Universidad de Castilla-La Mancha, 2007, p. 341-355.

5 Particularmente, acho a linguagem de Dom Quixote revolucionária para a época e muito bem trabalhada, no que diz respeito ao fluxo narrativo. Se utilizo o termo “desleixo”, o faço por “imitar” alguns estudiosos de Cervantes, sem contudo concordar com a asserção. A verdade é que Cervantes brinca com a linguagem, parodiando estilos, mas nem sempre de modo escancarado. Às vezes parece compartilhar a seriedade da personagem, mas sempre de maneira muito sutil. Porém, neste jogo de vai e vem, boa parte da graça e da ironia da obra dependem de pequenos detalhes. Assim como dependem também da aceitação do jogo por parte do leitor — se ele aceita e adentra a atmosfera proposta por Cervantes, à medida que se debruça e compartilha com Dom Quixote suas aventuras, fica cada vez mais gostosa.

6 SSÓ, Ernani. Reflexões de um escudeiro de Cervantes. Op.Cit.

7 SSÓ, Ernani. Idem.

8 Muitos dos aproximadamente 1200 neologismos rosianos foram criados a partir do alemão, do latim e do grego.

9 Na contramão desta forma de pensar tradução, cito outro alemão, mais próximo de nós que Lutero, que é do século XIV. Refiro-me a Schleiermacher, filósofo e tradutor alemão do século da segunda metade do século XVIII e primeira metade do século seguinte, que optou por aproximar o leitor do autor, proposta que dificulta a leitura por exigir daquele um conhecimento mais aprofundado deste. Oriundo de uma época em que a Alemanha não existia enquanto nação, Friedrich Schleiermacher acreditava em uma tradução como forma de enriquecer a língua alemã, para ele pobre. Daí todo o seu esforço em forjar uma tradução mais próxima o possível do original. Não se trata de uma tradução palavra por palavra, mas sim de uma em que respeitasse ao máximo elementos culturais e estruturais da língua de partida, praticamente desprezando os da língua de chegada. Seu projeto de tradução estava alinhado politicamente com o do refinamento da língua alemã, bem como com um projeto elitista de nação, aos moldes das potências capitalistas europeias, a exemplo de França, Holanda e Inglaterra.

10 SSÓ, Ernani. Idem.

Inflexão de ideias. Ou simplesmente RADICALIDADES!

27.11.18

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VEJAM como os ARGUMENTOS dos CONSERVADORES continuam PRATICAMENTE INTACTOS há milênios. Eis um excerto extraído de Platão, filósofo idealista grego, acusando os materialistas gregos de ateus que solapam a religião, subvertem a ordem moral existente, fomentam a guerra civil, enganam os jovens e os corrompem.

« - Dizem que a terra, o ar, o fogo e a água existem por natureza ou pelo acaso, não por desígnio e que dessas substâncias totalmente inanimadas surgiram os corpos secundários como a terra, o sol, a lua e as estrelas. Colocadas em movimento por suas propriedades individuais e afinidades mútuas, tais como o calor e frio, o úmido e o seco, o duro e o mole e demais combinações formadas necessariamente pela mistura casual dos opostos, criou o céu junto com tudo o que este contem, junto com os animais e as plantas e as estações também possuem sua origem: não a mente, nem Deus, nem a arte, senão como disse, a natureza e o acaso. A arte surgiu depois deles e em base a eles, de origem mortal, para produzir certos joguetes que na realidade não participam da verdade senão que consistem em imagens relacionadas com a mesma, tais como as que produzem a pintura, a música e as artes concomitantes, enquanto que as artes que obedecem a algum propósito sério, como a medicina, a agricultura e a ginástica, colaboram ativamente com a natureza; assim mesmo em certa medida a política, mas esta é sobretudo arte; o mesmo com a legislação: esta é totalmente arte, não natureza, e suas premissas são falsas.
- Como é isso?
- Os deuses, meu amigo, segundo essa gente não existem na natureza e sim somente na arte, visto que são produto das leis que variam de um lugar a outro segundo as leis aceitas pelos legisladores; e a bondade natural é distinta ao que é bom aos olhos da lei; e não existe a justiça natural; constantemente discutem e mudam e visto que é questão de arte e lei e não da natureza, quaisquer que sejam as mudanças introduzidas a cada tanto são válidos para o momento. Isto é o que nossos jovens ouvem de lábios de poetas profissionais e indivíduos que dizem que a força é o direito e o resultado é que caem em pecado, achando que os deuses não são o que as leis lhes ordenam que creiam na contenda civil, visto que lhes induzem a viver de maneira natural, quer dizer, exercendo o domínio sobre os demais em vez de estar submetidos legalmente a eles.
- Que história terrível e que desgraça para a moral pública e privada dos jovens. »
In: AS LEIS, de PLATÃO (+ou- 427-347 a.C.)

ISTO SOA CONHECIDO; se parece muito com as acusações que os círculos conservadores contemporâneos lançam contra os materialistas e os marxistas. A DIALÉTICA INEXISTE na cabeça destas pessoas. O que nos conforta é sabermos que, a despeito dessas ideias conservadoras e reacionárias, a roda da história está sempre girando, apesar de os argumentos serem praticamente os mesmos (por parte deles) há 2.500 anos.

PAPAGAIOS DE PIRATA

27.11.18

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E Cuba?
E Venezuela?
Esquerdista !
Esquerdopata!
Botar ordem!
Ah, o Kit gay?
ideologia nas escolas!
E Cuba?
E Venezuela?
Esquerdista !
Esquerdopata!
Botar ordem!
Ah, o Kit gay?
ideologia nas escolas!
E Cuba?
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Ah, o Kit gay?
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Botar ordem!
Ah, o Kit gay?
ideologia nas escolas!
Currupaco, currupaco, currupaco...
Assim dizia o papagaio de pirata...

Marcelo Serafim Batista Serafim Dos Santos, obrigado.

Aos SOFOMANÍACOS

27.11.18

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SOFOMANÍACO: indivíduo estúpido que se acha extremamente inteligente.

Não é de hoje que vemos se espalharem por aí comentários - muitos dos quais baseados em mentiras escandalosas - sobre temas polêmicos soltos a esmo, sem critério científico e analítico algum. Esses comentários (não passam disso) não passam de "opiniões" emitidas por sujeitos que não têm o conhecimento necessário para fazê-las. E o pior: por se basearem em ideologias arraigadas no senso comum, indignam-se quando são contrariados.

Sim, acabo de me deparar com esta palavra, antes desconhecida a mim: SOFOMANÍACO. Não há muito tempo, respondendo a um comentário estúpido que um colega me fez a um dos meus "posts", lhe adverti do problema da construção de seus argumentos, todos eles calçados em pré-conceitos e, portanto, longe do método científico-analítico. Desvinculado, portanto, da realidade. Na ocasião, lhe passei as fontes oficiais de onde tinha tirado as informações, e de onde havia partido minhas reflexões. Pois o sujeito os relegou, preferindo reproduzir um discurso pré-concebido há anos e que julga pronto e acabado para qualquer ocasião. Seja ela em que época for. É, há sofomaníacos de baldes pela Internet. Que pena de eu não ter conhecimento deste léxico vernacular à época; teria economizado linhas.

Esse "achismo" todo, muitas vezes dito de maneira ríspida por pessoas canalhas, é construído quase sempre a partir de juízos de valor e não por uma leitura sincera - a partir de uma perspectiva, seja ela qual for - da realidade. E isso gera comentários estúpidos (no sentido de ignorantes - de não saber mesmo) e insipientes. O triste é ver pessoas honestas respaldando esses argumentos.

Pré-conceitos são oriundos de ideologias que trazemos conosco pela vida e que nos são transmitidas a partir do senso comum. A filosofia as trata como "falsa consciência", "falso conhecimento", justamente por trazerem valores e fatos que não têm lastro na realidade quando analisados de forma crítica, científica, consciente e honesta. E a única forma de superá-las é negando-as. Não no sentido de afirmá-las como erradas "de cara", tampouco no sentido de ignorar sua existência. Pelo contrário! Negar, neste sentido, significa pensar cientificamente, criticamente, para superar algo que está colocado como inconteste. Como fazem os cientistas, que pegam uma determinada teoria anterior, a observam a partir de um olhar diferente e com novos elementos oriundos de outras descobertas, e a superam, sem, contudo, desprezar a anterior. É assim que caminha a humanidade: por meio de negações dialéticas. Conhecer é antes de tudo negar.

Para que criemos novas categorias precisamos negar e não reproduzir fatos como forma de justificar certos valores que portemos conosco e dos quais não queremos nos libertar. Fazer isso é difícil e oneroso? Sim. E muitas vezes, a despeito desse método, comete-se erros. Até mais que acertos. Mas o caminho é esse mesmo. E é gratificante. Há poucos dias postei um excerto de um livro do genial Platão, filósofo idealista grego que viveu há quase 2500 anos. O livro chama-se AS LEIS e o trecho relata todo o ódio que ele trazia contra os filósofos materialistas, a corrente rival. E os argumentos dele, conservadores já para o período, são os mesmos que repetidos hoje pelos conservadores e reacionários: ele acusa os materialistas gregos de ateus que solapam a religião, subvertem a ordem moral existente, fomentam a guerra civil, enganam os jovens e os corrompem. Ou seja, os mesmos argumentos contra os marxistas de hoje. A mesma coisa. A mesma formulação de pensamento, com praticamente as mesmas palavras. Sem a genialidade do excelente filósofo, no entanto. Há mais de 2500 anos. A dialética inexiste nessas cabeças. Ao menos é o que parece.

E isso gera bate-bocas desnecessários, xingamentos, calúnias, mentiras e outras barbaridades. As discordâncias são normais e salutares. O que não é para ser normal e correto são as mentiras fomentadas por certos discursos caducos, que não fazem mais do que gerar confusão nas cabeças honestas, que são muitas. Por isso é importante que tenhamos o mínimo de amor próprio, de dignidade e de vergonha na cara na hora de publicarmos alguma coisa na Internet, mesmo em resposta a um "post".

Não sou obrigado a concordar ou discordar de um texto, de um vídeo, de uma colagem de link remetendo a uma determinada matéria específica. Mas isso não me dá o direito de esbravejar insultos a ninguém, mesmo nos casos em que noto a má intenção do sujeito no "post". Neste caso, o mais sensato seria marcar sua contestação com ideias bem fundamentadas e construir seu discurso embasado não só na(s) teoria(s), mas mantendo os dois pés bem firmes na realidade. Não para convencer o canalha, mas para mostrar a vilania de seu discurso, sua falta de caráter e a ausência de rigor científico no seu método argumentativo. E, nesses casos, o mais sensato seria nem responder à resposta que viria à sua resposta (se ele não apagasse seu "comentário"), pois os imbecis rebaixam seus discursos, distorcem suas palavras, reproduzem preconceitos... Afinal, é a única ferramenta que têm para tentarem se igualar ao debate... E na cabeça deles saem vencedores, mesmo sem saber exatamente o que estão fazendo ou falando.

O Quilombo dos Palmares e a resistência negra de 1597 a 1695*

20.11.18

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Você acredita que o povo brasileiro é acomodado? Que a população negra é preguiçosa, vadia e alienada? Pois é, foi essa a história ensinada nas escolas e transmitida em livros, jornais, novelas e filmes.

 

E as lutas sociais negras no Brasil, você conhece? Balaiada, Cabanagem, Revolta dos Malês, Revolta da Chibata e a formação de milhares de quilombos de norte a sul: o que você sabe sobre isso? Aprendeu que eram revoltas de bandidos e que quilombos eram espaços de pretos fugidos e nada mais?

 

A nossa memória é marcada pela negação da maioria significativa da composição social brasileira de negros e indígenas. Porém, acima de tudo, pela deturpação de suas lutas e formas de resistência. A maior parte das pessoas não sabe que, no Brasil, formaram-se centenas de quilombos, mais de 500 mil negros se rebelaram e aconteceram 38 insurreições negras em 300 anos, como parte de um ascenso em toda a América, cujo ponto alto foi a revolução haitiana. Não temos memória da violência da escravidão. A Igreja, por exemplo, pelo Padre Antônio Vieira, dizia: “Escravidão é uma benção. Quanto mais dura aqui na terra, maior glória depois da morte.”

 

Vamos na contramão dessa memória elitista e buscaremos o verdadeiro significado das lutas sociais negras, tendo como referência o Quilombo dos Palmares.

 

Quilombos como espaços de resistência
Os quilombos eram espaços de resistência e negação do trabalho escravo, mas foram apontados como locais de marginais perigosos. Em 1740, a Coroa portuguesa definia Quilombo como “toda a habitação de negros fugidos que passem de cinco, em parte despovoada, ainda que não tenham ranchos levantados nem se achem pilões neles”.

 

Durante séculos, essa definição distorceu a memória da resistência negra. O resultado foi que a população negra não queria associar-se aos quilombos por acreditar que eram espaços de bandidos em fuga. Não é à toa que, nos dias de hoje, nas comunidades negras rurais, os moradores mais idosos têm dificuldade em assumir a identidade quilombola.

 

É verdade que também havia fugitivos nos quilombos mas não exclusivamente. As fugas representavam um duro golpe na estrutura escravista, além de ser uma das primeiras manifestações de resistência à exploração do trabalhador brasileiro, negando o escravismo, na base da acumulação de capital, e as relações de produção profundamente violentas. Isso é o que explica a imensa repressão que sofreram os quilombos.

 

Os quilombos e atualmente os remanescentes quilombolas expressam uma história de rebeliões da classe trabalhadora no Brasil que nunca devemos esquecer. O Quilombo de Palmares, Zumbi, Dandara são símbolos da resistência negra.

 

Quilombo

 

Palmares: símbolo de luta por uma sociedade igualitária
Desde o início da colonização do Brasil, os africanos procuraram meios de resistir à escravização de seus corpos e de suas mentes. O suicídio, o assassinato de seus senhores, as fugas, a formação de organizações culturais foram alguns desses meios. Os quilombos foram uns dos principias instrumentos da luta negra.

 

A palavra kilombo vem da língua banto umbundo e se refere a uma instituição militar da África Central (Congo e Angola) dos povos jagas ou imbangala. O quilombo brasileiro é, sem dúvida, uma cópia do quilombo africano reconstruído pelos escravizados para se opor a uma estrutura escravocrata pela implantação de outra estrutura política, na qual se encontraram todos os oprimidos.

 

A partir de 1597, a floresta e as montanhas na fronteira dos estados de Pernambuco e Alagoas serviram de palco para a formação do Quilombo dos Palmares. Formado por uma associação de comunidades negras, os mocambos, Palmares teve importantes lideranças, como Acotirene, Aqualtune, João Tapuia, Gaspar, Ambrósio, Ganga Zumba e Zumbi.

 

Zumbi, entre tantos feitos, tornou-se reconhecido por ter se colocado contra o acordo com os escravocratas e o governo de Pernambuco, um acordo que garantiria a liberdade aos palmarinos, mas, em troca, exigia a renúncia à luta contra a escravidão. Além disso, o acordo tinha por objetivo ganhar tempo, devido ao enfraquecimento das forças militares europeias, e dividir os palmarinos. O governo europeu só propôs o acordo depois de dezenas de fracassos dos seus exércitos.

 

Esse acordo, que foi aceito por Ganga Zumba, propunha: libertação aos pretos nascidos em Palmares; entrega de terras (que se mostraram improdutivas); legalização do comércio dos pretos palmarinos; aceitação, por parte dos palmarinos, de que seriam súditos da Coroa portuguesa, ou seja, aceitariam a ordem estabelecida da escravidão. Quanto aos negros e negras fugidos para Palmares por conta própria, seriam reescravizados.

 

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Zumbi disse não
Zumbi e outros líderes não aceitaram esse acordo de conciliação, pois sua luta não era apenas pela liberdade dos palmarinos: era contra a estrutura escravista. Não bastava emancipar os palmarinos, era preciso emancipar toda a população negra. Emancipar a população negra era o mesmo que emancipar toda a população trabalhadora brasileira, pois a sociedade escravista foi estruturada sobre a exploração e a opressão de negros e negras.

Palmares foi a negação do sistema escravista. Representava outra forma de organização social, política, econômica e cultural. Uma nova forma de sociabilidade e de produção e reprodução da vida, levada à frente por mais de 30 mil pessoas de diferentes grupos étnico-raciais dirigidos por lideranças negras. Fazer uma aliança com os poderosos oligarcas era negar esse projeto, negar outra forma de produzir a existência humana baseada em princípios de produção e repartição igualitários.

 

Sem rendição
Zumbi e Palmares são um exemplo de quem não se rendeu. Zumbi só confirmava a tradição da história de Palmares, que teve inicio na dominação holandesa sobre Pernambuco e terminou na dominação portuguesa. Nesse confronto entre holandeses e espanhóis (Portugal estava sob domínio da Espanha), muitos negros tiveram de optar por um dos lados.

 

Foi o exemplo do negro Henrique Dias, comandante de tropas negras que lutaram ao lado dos portugueses. Nessa disputa entre o ruim e o pior, Palmares não tomou lado. O lado de Palmares era o da população negra em sua luta por liberdade e condições de existência. Escravista era escravista, não importa se holandês, espanhol ou português.

 

Classe dominante quer eliminar Palmares
Foram dezenas de expedições holandesas e portuguesas contra o quilombo nordestino. Até o assassinato de Zumbi dos Palmares, em 20 de novembro de 1695, sua memória rondou como um espectro de liberdade e emancipação da população negra. Tanto é que Zumbi foi decapitado e sua cabeça foi exposta em praça pública em Recife para servir de exemplo.

 

Em 14 de março de 1696, o governador de Pernambuco, Caetano de Melo de Castro, escreveu ao rei de Portugal, João V: “Determinei que pusessem sua cabeça num poste, no lugar mais público desta praça, para satisfazer os ofendidos e justamente queixosos e atemorizar os negros que supersticiosamente julgavam Zumbi um imortal.”

 

Essa ideia do governador de Pernambuco e do Império português fracassou. Zumbi está vivo entre nós, trabalhadores brasileiros, que não esquecemos sua resistência e recitamos em alto e bom tom: “Por menos que conte a História / Não te esqueço meu povo / Se Palmares não vive mais / Faremos Palmares de novo” (José Carlos Limeira).

 

Como se organizava o Quilombo dos Palmares?

 

Economia
A principal atividade econômica era a agricultura. Também produziam artesanato e faziam comércio. Tinha abundância alimentar. Todo quilombola recebia terra, mas não podia vender e era obrigado a cultivar. Toda produção ia para o Conselho, que repartia entre todos. Era uma forma coletivizada de produção. O excedente, além de ser comercializado, provando que não havia isolamento do quilombo, era repartido e estocado para evitar escassez e fome.

 

Organização social
As decisões eram coletivas e democráticas no Conselho. Por exemplo, para aceitar ou rejeitar acordos com o Império. Os líderes eram eleitos pela base.

 

Mulheres
Uma de suas fundadoras foi Acotirene. As mulheres tinham um papel fundamental, participavam do conselho de líderes, das atividades econômicas e também participavam da guerra. A poliandria – organização familiar na qual uma mulher tem vários companheiros – era comum. Isso porque a quantidade de mulheres era menor (o tráfico de escravos no Brasil dava preferência a homens jovens, mas também porque refletiam o matriarcalismo muito presente em regiões da África.

 

Defesa
Existia uma disciplina de acampamento de guerra: o povo em armas. Diferentemente de Ganga Zumba, que achava que seria incorporado pacificamente pelo Império, Zumbi acreditava que o acampamento de guerra era a melhor forma de enfrentar os portugueses.

 

Composição populacional
Seus membros vinham de vários estados do Nordeste – Alagoas, Pernambuco, Bahia, Sergipe. Em sua maioria, eram negros e negras. Também havia mestiços, brancos pobres e indígenas. Era um espaço de acolhida para aqueles massacrados pela miséria e pela repressão da Coroa portuguesa. Foi justamente essa aliança entre palmarinos e trabalhadores pobres contra a exploração que fez com que a classe dominante latifundiária e comercial tomasse medidas para eliminar Palmares.

 

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Artigo escrito em comemoração ao dia da consciência negra (20/11) por Rosenverck Estrela Santos, militante do PSTU Maranhão, do Quilombo Raça e Classe e vocalista do grupo de Rap Gíria Vermelha, em 13/11/2018. Publicado originalmente, com o mesmo título, em: https://www.pstu.org.br/o-quilombo-dos-palmares-e-a-resistencia-negra-de-1597-a-1695/

 

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