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Práxis

Os filósofos limitaram-se sempre a interpretar o mundo de diversas maneiras; porém, o que importa é modificá-lo.

Práxis

Os filósofos limitaram-se sempre a interpretar o mundo de diversas maneiras; porém, o que importa é modificá-lo.

Lógica formal de Aristóteles, a Dialética de Hegel e o Materialismo Dialético de Marx

18.05.16

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A lógica formal aristotélica

 

Para Aristóteles, a lógica não é ciência e sim um instrumento (órganon) para o correto pensar. O objeto da lógica é o silogismo.

 

Silogismo nada mais é do que um argumento constituído de proposições das quais se infere (extrai) uma conclusão. Assim, não se trata de conferir valor de verdade ou falsidade às proposições (frases ou premissas dadas) nem à conclusão, mas apenas de observar a forma como foi constituído. É um raciocínio mediado que fornece o conhecimento de uma coisa a partir de outras coisas (buscando, pois, sua causa).

 

Em si mesmas, as proposições ou frases declarativas sobre a realidade, como juízo, devem seguir apenas três regras fundamentais.

 

1- Princípio de Identidade: A é A;

2- Princípio de não contradição: é impossível A é A e não-A ao mesmo tempo;

3- Princípio do terceiro excluído: A é x ou não-x, não há terceira possibilidade.

 

Dessa forma, o valor de verdade ou falsidade é conferido às proposições, pois são imediatamente evidenciados. No entanto, a lógica trabalha com argumentos.

 

As proposições classificam-se em:

 

  • Afirmativas: S é P;
  • Negativas: S não é P;
  • Universais: Todo S é P (afirmativa) ou Nenhum S é P (negativa);
  • Particulares: Alguns S são P (afirmativa) ou Alguns S não são P (negativa);
  • Singulares: Este S é P (afirmativa) ou Este S não é P (negativa);
  • Necessárias: quando o predicado está incluso no sujeito (Todo triângulo tem três lados);
  • Não necessárias ou impossíveis: o predicado jamais poderá ser atributo de um sujeito (Nenhum triângulo tem quatro lados);
  • Possíveis: o predicado pode ou não ser atributo (Todos os homens são justos).

 

O silogismo é composto de, no mínimo, duas proposições das quais é extraída uma conclusão. É necessário que entre as premissas (P) haja um termo que faça a mediação (termo médio sujeito de uma P1 e predicado da P2 ou vice-versa). Sua forma lógica é a seguinte:

 

A é B

Logo, B é C (sempre os termos maior e menor).

C é A

 

 

Observem que o termo médio é o termo A, que é sujeito numa frase e predicado na outra. Assim ele não aparece na conclusão, evidenciando que houve mediação e que a conclusão é, de fato, uma dedução ou inferência, isto é, ela é realmente extraída da relação entre as premissas.

 

A relação entre as proposições acontece da seguinte maneira:

 

  • Proposições Contraditórias: quando se diz que Todo S é P e Alguns S não são P ou Nenhum S é P e Alguns S são P;
  • Proposições contrárias: quando se diz que Todo S é P e Nenhum S é P ou Alguns S são P e Alguns S não são P;
  • Subalternas: quando se diz que Todo S é P e Alguns S são P ou Nenhum S é P e Alguns S não são P.

 

O silogismo, portanto, é o estudo da correção (validade) ou incorreção (invalidade) dos argumentos encadeados segundo premissas das quais é licito se extrair uma conclusão. Sua validade depende da Forma e não da verdade ou falsidade das premissas. Desse modo, é possível distinguir argumentos bem feitos, formalmente válidos, dos falaciosos, ainda que a aparência nos induza a enganos. Por exemplo:

 

P1 – Todo homem é mortal;

P2 – Sócrates é homem;

C – Logo, Sócrates é mortal.

 

O argumento é válido não porque a conclusão é verdadeira, mas por estar no modelo formal:

 

 

A é B

Logo, B é C

C é A


Outro exemplo:


P1 – Todos os mamíferos são mortais;

P2 – Todos os cães são mortais;

C – Logo, todos os cães são mamíferos.

 

Ora, embora as premissas e a conclusão sejam verdadeiras, não houve inferência, já que por não estarem formalmente adequadas, as premissas não têm relação com a conclusão.

 

Formalmente o argumento é: A é B - C é B.

 

Logo, A é C, argumento falacioso, já que o termo médio não faz ligação entre os outros termos. São várias as combinações, o importante é atentar para a forma. É dela que se pauta a lógica formal.


Em suma, a lógica formal é metafísica e raciocina com o Princípio da Identidade. Todas as coisas são sempre idênticas a si mesmo, nada muda. Congelam-se. Eternizam-se…

 

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A Dialética Hegeliana

 

Para um dos filósofos mais influentes na carreira de Marx, Hegel, dialética é uma forma de pensar a realidade em constante mudança por meio de termos contrários que dão origem a um terceiro, que os concilia.

 

A dialética compõe-se, assim, de três termos:

 

  • tese;
  • antítese;
  • e síntese.

 

Tese (A) é uma afirmação; antítese (B), é uma afirmação contrária, e síntese (C), como o nome indica, é o resultado da síntese entre as duas primeiras. A síntese supera a tese e a antítese (portanto, é algo de natureza diferente), ao mesmo tempo em que conserva elementos das duas e conduz a discussão, nesse processo, a um grau mais elevado. E, na sequência, dá origem a uma nova tese, que inicia novamente o ciclo.

 

Por exemplo, eu tenho uma ideia a respeito de algo, é minha tese (A): “Países com climas quentes são melhores para se viver”. Meu interlocutor não concorda e contra-argumenta: “Não, são países com climas frios que são melhores para se viver”. Esta é a antítese (B). Depois de alguma discussão, chegamos a uma conclusão – a síntese (C): “Países com climas amenos são mais agradáveis para se morar.”

 

Pode parecer bobagem, mas é justamente assim que, em nosso cotidiano, usamos a dialética mesmo sem o saber, toda vez que conciliamos ideias opostas – em casa, no trabalho, na comunidade, etc – em assuntos diversos. E é por isso que nos jornais que lemos costumamos encontrar ao menos dois pontos de vistas divergentes sobre um determinado tema, para que possamos fazer uma síntese do que de melhor cada um deles nos apresenta. (Bem, isso é uma piada).

 

A originalidade de Hegel foi fazer desta lógica dialética uma lógica do ser, isto é, que rege o próprio modo de ser das coisas que, para ele, é um perpétuo vir-a-ser, um realizar-se contínuo. Assim, também, a própria história, em que o Estado moderno seria a síntese de interesses em conflito entre família e sociedade civil, segundo Hegel.

 

Contudo, sua dialética é idealista, pois para Hegel, a ideia é predominante. Ou seja, as contradições nas coisas dependem de uma razão que transcende nossa realidade. Em outras palavras, Hegel relegava a um segundo plano as condições materiais de existência como as determinantes para o surgimento da consciência. Neste Estado teleológico, onde o que predomina é o mundo das ideias (como se estas tivessem vida própria, independentemente do meio social e material), natureza e espírito são a mesma coisa e se desdobram no que chamamos de história da razão. Há um interesse da razão no desenvolvimento de si mesma para concretizar no mundo o seu ideal. O real é racional e o racional é real, diria Hegel, ao estabelecer as noções de tese, antítese e síntese como o próprio movimento do pensamento humano.

 

Em cima disso, baseando-se neste tripé (tese-antítese-síntese), cria o que chama de negação, que é, em suma, a superação do velho pelo novo (veja: não é sua eliminação total), que se dá não com uma ruptura brusca, mas gradual, através do acúmulo de contradições. Vejamos: em A Origem das Espécies (1859), Charles Darwin chega à conclusão de que os seres mais adaptados são os sobreviventes (a seleção natural), sendo essa adaptação oriunda de uma evolução gradativa e seletiva da própria natureza, esta senhora assaz dialética.

 

Em 18611, apenas dois anos após o lançamento desta que foi uma das maiores obras científicas de todos os tempos, descobriu-se um fóssil, que veio a chamar-se de Archaeopteryx lithographica, mais conhecido como a ave original, adaptação do alemão Urvögel. Este fóssil se tornou uma peça chave de evidência no debate sobre a evolução aberto após a obra de Darwin. Essa ave primitiva, como ficou um século mais tarde confirmado, é fruto de alguns milhares ou milhões de anos de evolução desde o período mesozoico2.

 

Mas o que isso tem a ver com a dialética hegeliana?3 Na verdade tudo. Isso porque se tirarmos deste exemplo as conclusões devidas, veremos, na prática, que, ao contrário do que defende a lógica formal, uma ave é um dinossauro, como afirmara Hegel. Ou seja, apropriando-nos do argumento anteriormente citado de que do dinossauro para a primeira ave primitiva conhecida ouve uma evolução gradativa como saída para a “sobrevivência da espécie”, estamos afirmando que ouve uma evolução dialética, no sentido proposto por Friedrich Hegel. Em suma, que ouve a negação do dinossauro enquanto tal.

 

Vou explicar: somente com um acúmulo de contradições que vão surgindo4 de maneira gradual (um pequeno braço que diminui pouco a pouco com o passar das gerações, até que some; a adaptação das patas em garras; o alongamento das unhas; o surgimento de pelugem, que evoluirão para penas; o surgimento de asas primitivas; o surgimento de bico no lugar da mandíbula; a diminuição gradativa dos dentes…) transformam aquela espécie numa outra completamente distinta da original. Ou seja, muitas contradições quantitativas, geram uma contradição qualitativa, transformando o dinossauro numa ave, não eliminando-o, mas criando uma nova espécie a partir de uma outra, de maneira gradual. A este processo, Hegel chama de Negação, pois o dinossauro inicial é gradualmente “negado”, com o passar dos anos e segundo os desafios que vão exigindo da espécie a adaptação, até tornar-se algo completamente estranho ao “dinossauro original”5, negando-o completamente. AS QUANTIDADES TRANSFORMAM-SE EM QUALIDADE.

 

Tomemos um outro exemplo: a água. Se formos aquecendo-a, acrescentado mais quantidade de calor (de 20o para 30o, daí pra 40… – várias contradições), chega um momento em que o aumento da temperatura interna rompe o equilíbrio do líquido e muda de estado, passando do líquido para o gasoso (100o C). Deu-se o salto de qualidade. Ao contrário acontece a mesma coisa: Se formos resfriando a água chega-se a um momento em que ela deixa o estado líquido e passa para o sólido – o gelo6. E assim finalizamos Hegel.

 

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Lógica Marxita: o Materialismo Dialético7

 

Karl Marx afirmou que o velho Hegel, embora genial, via o “mundo de cabeça para baixo”, já que sua dialética invertia as medidas, dando ao mundo das ideias (o que Marx chama de superestrutura) predominância sobre as forças produtivas (a estrutura).

 

Marx8 evolui de uma ramificação do hegelianismo, que já superava o idealismo revolucionário dos jovens hegelianos, de cujo movimento participou. Seu pensamento engajado com as lutas proletárias se edificou em base de uma grande síntese de três fontes9: a economia política inglesa, o materialismo francês e a filosofia alemã10. Dessa síntese formulou uma nova lógica ou teoria histórica, que ficou conhecida como “materialismo histórico-dialético”, que poderia também ser definido como uma “dialética realidade-idealidade evolutiva”. Ou seja, as relações entre a realidade e as ideias se fundem na práxis11, e a práxis é o grande fundamento do pensamento de Marx, pois sendo a história uma produção humana, e sendo as ideias produto das circunstâncias em que tais ideais brotaram, fazer história é a grande meta.

 

O trabalho teórico de Karl Marx está fundamentado no que ele chama de concepção materialista da história. O período em que ele viveu foi marcado pelas grandes mudanças causadas pelo crescente processo de industrialização dos países europeus. Marx testemunhou o crescimento das indústrias e fábricas, o inchamento dos meios urbanos e o consequente aumento vertiginoso das desigualdades sociais. De acordo com a concepção materialista, fundamentada por Karl Marx e Friedrich Engels, as mudanças sociais que se passam no decorrer da história de uma sociedade não são determinadas por ideias ou valores. Na verdade, essas mudanças são influenciadas pela realidade material, isto é, a situação econômica dos atores da sociedade em questão. No materialismo histórico, as respostas para os fenômenos sociais estão inseridas nos meios materiais dos sujeitos. Isso quer dizer que diferentes situações materiais, o que em uma sociedade capitalista traduz-se em situação econômica, moldam diferentes sujeitos. Essa diferença seria, para Marx, vetor de conflitos entre grupos de indivíduos submetidos a realidades materiais diferentes.

 

Com essa ideia, Marx faz referência ao conflito incessante entre classes, o que julga ser “o motor da história”. A preocupação de Marx vai além do estudo dos problemas das sociedades modernas, pois seu trabalho direciona para a busca de uma lógica do desenvolvimento humano ao longo da história. Sob essa perspectiva, os modos de produção de uma sociedade são determinantes tanto para a constituição da realidade social quanto para a determinação dos rumos que seu desenvolvimento venha a tomar.

 

O conceito de modos de produção é uma das ideias-chaves dos estudos econômicos de Marx. Podemos resumi-lo como sendo as formas de organização de um grupo social diante das relações de produção de seu meio. Em outras palavas, trata-se das relações envolvidas no processo de construção e manutenção da estrutura econômica de uma sociedade. Nisso se insere o trabalho, em razão da produção de subsistência do trabalhador, e as consequentes divisões em função das condições materiais dos indivíduos. Como Marx explica: “O modo de produção da vida material condiciona o processo da vida social, política e espiritual em geral. Não é a consciência do homem que determina o seu ser, mas, pelo contrário, o seu ser social é que determina a sua consciência.” Em negrito resumo Marx, em sublinhado Hegel.

 

Eis o processo contínuo e movido pela incessante luta de classes, entendida como a força que empurra a história adiante (a história da humanidade “resume-se” na história das lutas entre as classes sociais). Assim como os pequenos mercadores burgueses uniram-se e derrubaram a ordem estabelecida no período feudal, a luta de classes entre proletários e burgueses movimentará novamente a roda da história em favor de um ou de outro.12

 

Em aspecto geral e bastante sucinto é o que podemos falar de Marx e Engels. Contudo, mesmo que em rápidas linhas, como se desenrola todo este processo? Voltemos ao conceito de negação, abordado lá em Hegel, que do seu ponto de vista, por meio da negação desenvolve-se apenas a ideia, o pensamento.13

 

Marx e Engels, tendo conservado o termo, interpretaram-no do ponto de vista materialista. Demonstraram que a negação representa um momento inseparável do desenvolvimento da própria realidade material. “Em nenhuma esfera – indica Marx – pode ocorrer um desenvolvimento que não negue suas formas anteriores de existência”. A negação não é algo introduzido de fora no objeto ou no fenômeno; é o resultado de seu próprio desenvolvimento interno. Os objetos e fenômenos, como já dissemos, são contraditórios e, desenvolvendo-se na base de contradições internas, criam as condições para a sua própria destruição, para a passagem a uma qualidade nova e superior.

 

A dialética e a metafísica concebem de modo diverso a questão da essência da negação. A metafísica, deformando o processo de desenvolvimento da realidade material, compreende a negação como a eliminação e a destruição absoluta do velho. Os dialéticos denominam tal concepção da negação como inútil, pois ela exclui qualquer possibilidade de desenvolvimento posterior. A concepção dialética da negação parte de que o novo não destrói simplesmente o velho, mas conserva tudo o que de melhor estava contido neste. Mas é preciso ter em vista que o novo nunca toma o velho inteiramente em sua forma anterior. Conserva-o, reelaborando-o; o eleva a um grau mais elevado. A dialética marxista, por exemplo, não incorporou simplesmente as conquistas do pensamento filosófico do passado, mas reelaborou-as criticamente, enriqueceu-as com as novas conquistas da ciência e da prática, elevou a ciência filosófica a um estágio qualitativamente novo e superior. Assim, como consequência da negação, soluciona-se uma ou outra contradição, o velho é destruído e afirma-se o novo. Mas, cessará com isso o desenvolvimento? Não, com o aparecimento do novo o desenvolvimento não cessa. Tudo que é novo não permanece eternamente novo. Ao desenvolver-se, prepara as premissas, as condições para o aparecimento do que é ainda mais novo e avançado.

 

Nesse ínterim, todavia, surge uma discussão que prevalece até hoje para alguns: a da inevitabilidade do socialismo. Isso porque, o jovem Marx, juntamente com o igualmente jovem Engels, ainda na primeira fase de sua vida intelectual (antes d’O capital), mais especificamente em O Manifesto Comunista, sugeriu que o socialismo seria inevitável14. Mais tarde, contudo, eles mesmos notaram o erro e se revisaram, concluindo: o capitalismo criará e amadurecerá as condições para a sua destruição, mas não morrerá de "morte morrida", senão o contrário: será necessário levá-lo à morte por meio de uma revolução operária, que é a classe capaz de cumprir tal tarefa, já que incorpora em si todas as contradições do próprio sistema capitalista.

 

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Embora este texto tenha caráter independente, sugere-se sua leitura em conjunto com o artigo As Origens do materialismo e sua evolução ao materialismo dialético: o legado teórico de George Novack, publicado dois dias antes neste blog.

 

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Notas

 

1 Encontrado por um arqueólogo alemão, na Europa.

 

2 As aves compartilham centenas de características do esqueleto com os dinossauros, especialmente com as derivadas dos terópodes maniraptoranos como os dromeossaurídeos, que a maioria das análises mostra serem seus parentes próximos. TEXTO DA WIKIPEDIA. Digite no google depois estes nomes para veres imagens.

 

3 Primeiro porque sem Hegel não existiria Darwin, nem Marx. Ao menos não como o conhecemos.

 

4 No caso da natureza, de maneira até aleatória, muitas vezes.

 

5 Ler este pequeno texto de Plekhanov. Irá clarificar mais as diferenças entre a lógica formal e a dialética, pois está escrito de maneira bastante clara e sucinta: https://www.marxists.org/portugues/plekhanov/1907/mes/dialetica.htm.

 

6 Vejamos que a aplicação rasteira da lógica formal (que é bastante importante, já que serve para qualificar os objetos) gera o que chamamos de estereotipia. Quanto qualifica-se, por exemplo, o povo italiano como mafioso, ladrão… o que se faz é dizer, de maneira vulgar, que todo o italiano é assim. Que se italiano é X e fulano é italiano, logo fulano é X, invariavelmente, independente de sua classe social, de suas influências, de sua profissão…, como se estivesse no gene primário do italiano ser assim como ele o é. Todo estereótipo é fruto dessa analogia, dessa visão (pré)conceituosa do outro, com base numa aplicação simplificada e rasa da lógica formal. Já a lógica marxista, que abordaremos de maneira mais sucinta a seguir, veria as coisas da seguinte maneira, mais ou menos: não apropriando-se da sinédoque, mas buscando primeiramente entender os fenômenos sócio-político-culturais que levaram ao surgimento de uma máfia (no caso da Itália), numa determinada região daquele país, num determinado extrato social e contexto político não somente deste extrato, mas de todo o país..., buscando elementos concretos não só para explicá-la, mas para superá-la.

 

7 Há um texto bastante curto, mas bem explicativo, não sobre a lógica dialética em si, mas sobre a formulação do pensamento de Marx. Leia-o, pois vale à pena: https://www.marxists.org/portugues/lenin/1913/03/tresfont.htm.

 

8 Como evolução e crítica do "materialismo contemplativo" de Ludwig Feuerbach, Marx defendia a "práxis" (ou prática) ou um materialismo ativo. Seu pensamento político criticou todas as correntes socialistas por não terem um caráter decididamente transformador, mas somente reformador. Assim, defendia não uma melhoria das condições de vida do proletariado, mas a própria emancipação do proletariado, o fim da condição proletária. Não se tratava de amenizar a exploração, mas de aboli-la. Mas as condições dessa emancipação, que só a prática poderia realizar, estava nas condições reais em que estava inserida. Por isso, em Marx, é o desenvolvimento do capitalismo que cria a proletarização, que é o exercito que irá destronar a burguesia. E a própria hostilidade que o capitalismo produz sobre a condição proletária é que cria as condições subjetivas para explodir uma revolução. Criticou também o anarquismo por sua visão ingênua do fim do Estado, por querer acabar com o Estado "por decreto", ao invés de acabar com as condições que fazem do Estado uma necessidade e realidade, já que para Marx o estado nasce como forma de regulação social entre as classes sociais, ou seja, como forma de a classe social que o controla poder subjugar as outras à sua política. Daí suas instituições: os três poderes (legislativo, executivo e judiciário), as forças armadas, incluindo a polícia, e as instituições de ensino (que são reforçadas pela imprensa e pelas instituições religiosas), que servem aí para propalar as ideias da classe que controlam aquele estado. Em suma, enquanto houver estado, seja ele de que forma for, haverá ditadura, pois o estado nada mais é que a materialização da força coercitiva exercida de uma classe social sobre outra. Por isso o combate dos revolucionários (Lenin e Trotsky iniciaram esta batalha) contra a política criminosa da burocracia stalinista, que congelou o estado, impedindo que a revolução socialista se expandisse para o mundo. Obviamente que tal política, invés de internacionalizar a revolução, fazia freá-las, ao mesmo tempo que destruía, pouco a pouco, as conquistas obtidas no outubro vermelho de 1917, sujando o nome daquilo que eles chamariam de socialismo, mas que era, bem da verdade, sua negação.

 

9 As chamadas TRÊS FONTES DO SOCIALISMO.

 

10 Da economia política inglesa, ele bebeu principalmente em David Ricardo e Adam Smith; do materialismo francês, bebeu nos teóricos materialistas do final do século XVIII da época da revolução francesa, como Toqueville; da filosofia alemã, além de Hegel, bebeu principalmente em outros dois teóricos, como o materialista Ludwig Feuerbach, por exemplo.

 

11 Prática; ação concreta. A teoria não deve ser separada da prática; deve ser experimentada nela, vinculada a ela, pois, ao contrário do que Hegel acredita, não se teoriza nada que não esteja em construção, em formação. Em suma, o surgimento de uma teoria, de uma ideia, surge somente quando as condições materiais estão prontas para que nasça. Se não fosse assim, um escritor como Machado de Assis, por exemplo, seria possível no Brasil dos 1600, já que bastaria que surgir alguém que tivessem ideias geniais para tal. Por isso Marx fala que Hegel via o mundo de cabeça para baixo, pois nele as ideias seriam determinantes para a aquisição da consciência.

 

12 Bem da verdade, o marxismo é muito mais rico que o que exponho. Este é apenas uma apanhado geral de um dos aspectos da sua vasta obra. Há um texto que aborda uma questão interessante na obra de Marx: http://blogconvergencia.org/?p=6555.

 

13 E assim o é, porque, tendo sua “inspiração” com a revolução industrial, Hegel, apesar de descobrir uma arma poderosa, que é a dialética, não pretendia mudar o mundo, mas simplesmente eternizá-lo. Daí sua idealização.

 

14 Retomemos a discussão da negação (a negação da negação) nascida lá em Hegel: as contradições quantitativas tornam-se qualitativa. Dessa forma, à medida que as contradições em uma determinada época histórica não se resolvem, pelo contrário, acentuam-se, tornando-se mais profundas e gerando outras novas, chegaria um momento em que as instituições do estado de dissociariam tanto dos anseios da sociedade que não seriam mais capazes de cumprir seu papel coercitivo. Desse princípio nasceria o socialismo. Veja que isso de fato ocorre, mas quando as contradições se acentuam desta forma, gerando, em última instância a etapa que chamamos de CRISE REVOLUCIONÁRIA (estamos numa etapa revolucionária mundialmente e pré-revolucionária nacionalmente), surgem as REVOLUÇÕES (neste século XXI já tivemos algumas, que se não terminaram vioriosas são por questões outras que não cabe aqui abordar, já que não é o cerne do debate pretendido), não necessariamente o fim do sistema.

As Origens do materialismo e sua evolução ao materialismo dialético: o legado teórico de George Novack

16.05.16

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George Novack foi um dos mais brilhantes intelectuais marxistas do século XX e pertenceu a um dos mais importantes partidos da Quarta Internacional, o Socialist Workers Party (SWP – Partido Socialista dos Trabalhadores) dos Estados Unidos. Graduara-se com honras em 1927 por nada menos que a Universidade de Harvard, onde estudara filosofia e literatura. Trazia consigo um cabedal cultural sólido e raro entre seus pares. Apesar de suas credenciais louváveis, que poderiam lhe ter rendido louros no universo acadêmico, Novack dedicou sua produção mais à educação teórica da classe trabalhadora que à elite intelectual. Compreendera o marxismo como poucos.

Proposto como continuação ao excelente Introdução à Lógica Marxista (2006), que aborda especificamente o aspecto dialético do pensamento de Marx, As Origens do Materialismo pretende se focar em seu aspecto materialista, em perspectiva histórica, mas, como o outro livro, com finalidade sobretudo didática de apresentar as linhas gerais e decisivas do assunto. Novack teve a pretensão de escrever, com As Origens do Materialismo, parte de um trabalho mais amplo que abarcasse também o quase desaparecimento do materialismo durante o medievo – não fossem suas aparições esporádicas na literatura europeia e seu cultivo por judeus e árabes no mesmo período – bem como seu reaparecimento e amadurecimento com o advento do mundo burguês.

Não estamos diante de uma história da filosofia. Antes, o livro discute as origens materiais, as bases sociais, as contribuições epistemológicas e as implicações políticas de uma de suas correntes. O desenvolvimento do materialismo ocidental atravessou três fases, dando origem a três materialismos distintos: 1) antigo: de Tales (séc. VI a.C.) a Epicuro (séc. I a.C.); 2) burguês: da Itália do séc. XVI a Feuerbach no séc. XIX; 3) dialético: de Marx e Engels, no séc. XIX, quando chega ao pleno desenvolvimento, até hoje. Cada uma destas fases teve etapas distintas, mas o estudo de Novack se foca apenas no materialismo antigo que, por si só, já consiste num assunto demasiadamente extenso para um livro tão curto. Tarefa, portanto, árdua, mas realizada com maestria pelo autor, dotado de singular poder de síntese e capacidade de simplificar sem falsear, donde resultam poucas imprecisões relevantes e apenas uma lacuna considerável.

 

 

Materialismo e idealismo

 

Uma síntese resumida de quase mil anos de desenvolvimento de um rico pensamento filosófico obviamente precisa estar estruturada pelas linhas de um esquema interpretativo. A mais evidente linha de força do referido esquema é a oposição entre materialismo e idealismo. Novack procura, ao longo das 239 páginas deste livro, identificar cada pensador individual ou escola específica à corrente materialista ou à idealista. É neste sentido que se deve entender o procedimento de Novack, que muitas vezes apara as arestas das especificidades e contradições de distintas correntes, escolas e pensadores para obter contornos mais homogêneos e, assim, viabilizar uma esquematização inteligível. Isto tende a embaçar as distinções entre as escolas e é neste ponto que identificamos um grande mérito de Novack: dentro de suas limitações de tamanho e de propósito, As Origens do Materialismo nos mostra não apenas as características gerais da filosofia materialista antiga ao longo de sua história. Igualmente evidencia, de modo muito coerente e perspicaz, suas principais diferenças internas e as que há em relação à corrente oposta. Também deixa entrever como traços de materialismo e de idealismo, apesar de radicalmente opostos, misturam-se em todos os pensadores da antiguidade, sem render-se à dissolução da fronteira entre as duas correntes (tão em voga na pós-modernidade) ou à preguiça mental que apressadamente alega a impossibilidade de classificar determinado pensador como materialista ou idealista.

Os méritos do livro não ficam por aí. O esquema de oposição entre materialismo e idealismo encarna-se numa dialética cujos resultados revelam a complexidade do tema. Mostra-nos que materialismo e idealismo, em sua oposição, contribuíram com o desenvolvimento um do outro, seja pela oposição desafiadora propriamente dita, seja pela apropriação direta das descobertas de uma corrente pela outra. Assim, Novack nos revela que os postulados da lógica, a teoria do conhecimento e os primeiros avanços na psicologia se devem sobretudo aos idealistas, mas foram incorporados e desenvolvidos pelos materialistas em novas bases. Da mesma forma, a pesquisa das incipientes ciências naturais, da constituição da vida, da matéria, da história humana e de seu desenvolvimento social, de suas leis e instituições, capitanearam-na principalmente os pensadores materialistas, cujas descobertas não raro foram apropriadas pelas construções teóricas idealistas. Este movimento do pensamento aparece ao longo do livro como parte integrante dos processos históricos políticos, econômicos e sociais.

A oposição talvez mais radical entre as duas correntes situa-se no campo do embate entre religião e ateísmo, mais que no campo da mistificação em oposição à ciência, por dois motivos. Primeiro porque Novack reconhece que, a despeito de suas descobertas formidáveis, os pensadores materialistas tinham muitas ideias confusas ou nubladas por ideologias religiosas e trabalhavam com limitações técnicas e sociais comparativamente enormes às da ciência moderna. Seu método, contudo, afirma Novack, desenvolveu-se precipuamente nas mesmas linhas científicas que as atuais. A segundo razão é que os idealistas deram muitas contribuições inestimáveis ao desenvolvimento das ciências – como a concepção de leis racionais matemáticas regendo o conjunto da realidade, por exemplo – muito embora o idealismo, no essencial, seja oposto ao conhecimento científico materialmente fundado. Compreende-se, então, que o compromisso radical do materialismo com a concepção laica de mundo, ainda que nenhum dos materialistas antigos tenha sido declaradamente ateu, esteve sempre na raiz de uma visão de mundo emancipadora para o homem, embora tenha a todo tempo as limitações impostas pelas condições materiais a tal projeto emancipatório. O idealismo, por sua vez, ao associar-se, sob diversas formas e até hoje, com pensamentos de caráter mistificador e/ou religioso, ainda que racionalista, aprisiona o homem às ideias que mais ou menos explicitamente o condenam à inconsciência acerca de seu protagonismo como agente histórico.

 

 

Origens da filosofia

 

O ponto mais alto desta obra provavelmente está na análise das raízes materiais e históricas do pensamento filosófico. Não apenas as do materialismo, pois – já como forma de argumentar a favor do pensamento materialista, uma vez que o livro desde o início não faz enganosas profissões de neutralidade – o autor mostra que, irrecusavelmente, o idealismo também não pode ser compreendido em seu surgimento e desenvolvimento sem adjudicarmos devidamente suas bases materiais. A referida análise, cujo núcleo vai da página 41 a 88, além de ocupar diversos outros trechos do livro, é notável porque sintetiza uma massa imensa de conhecimentos das áreas de estudos clássicos no âmbito da História, Arqueologia, Linguística, Literatura, Filosofia e Economia. É surpreendente, também, sua atualidade, para um livro escrito na década de 50. De modo geral, a investigação das bases materiais e históricas que condicionaram o surgimento da filosofia e do pensamento materialistas vai de encontro à visão idealista – muito comum entre classicistas da época de Novack e ainda em vigor hoje – do “milagre grego”, segundo a qual a filosofia e o esplendor da civilização da Grécia Antiga não teriam explicação plausível, nem antecedentes ou grandes débitos para com outras culturas. Seria fruto do “espírito grego”, essencialmente.

Novack mostra que o desenvolvimento da civilização grega clássica e de sua filosofia se deve a fatores como a posição geográfica da Grécia no Egeu e a abundância de recursos naturais que foram fundamentais para o desenvolvimento do comércio; o desenvolvimento da metalurgia do ferro que fez crescer o contingente de artesãos e popularizou ferramentas superiores; o desenvolvimento do comércio e da moeda como formas de se lidar com a produção a partir de sua propriedade abstrata, seu valor de troca, e não mais a partir de suas propriedades concretas e particulares; a criação do alfabeto como escrita mais apropriada à análise de enunciados e fácil de dominar; o surgimento de uma classe autônoma e numerosa de artesãos e marinheiros, bem como o fortalecimento de uma elite comercial que enfraqueceu o poder da aristocracia rural, o que, mediante o período de transição das tiranias, conduziu a uma muito menor centralização do poder em relação às civilizações orientais e ensejou o surgimento da democracia; e a democracia, por sua vez, fomentava a participação política e estimulava o livre debate de ideias, o questionamento das tradições, a manifestação de diversos pontos de vista sobre uma mesma questão.

Neste contexto, a elite dos cidadãos que dispunham de ócio e dos recursos para a atividade especulativa – que, contudo, não nasceu dissociada de questões práticas e envolvimentos políticos – pode fazer surgir pela primeira vez um pensamento conceitual, de teor racional, de caráter sistemático e em constante questionamento e renovação de si mesmo: a filosofia, e as bases de sua coirmã, a ciência. Refratário ao determinismo, Novack mostra o quanto estes rebentos do pensamento foram criativos em sua forma e conteúdo revolucionários – quando comparados às reformas do pensamento religioso levadas a cabo com o advento das religiões monoteístas em todo o mundo antigo mais ou menos na mesma época – e variados em suas proposições e contradições, problemas e limitações.

 

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O materialismo jônico

 

Os primeiros filósofos surgiram na cidade de Mileto, na Jônia (região costeira da atual Turquia). Os milésios deram as bases para o posterior desenvolvimento do conceito de matéria. Buscavam explicar a origem da vida e do universo, a sua diversidade de formas e suas transformações constantes recorrendo a causas materiais, não mais à ação sobrenatural de deuses. Heráclito, da cidade de Éfeso, foi o criador da dialética. Para ele, tudo estava em constante movimento exatamente porque a realidade se estruturava a partir de opostos que oscilavam entre a harmonia e o conflito. Já os primeiros atomistas eram assim chamados por conceberem que o mundo era composto por átomos (semelhantes em alguns aspectos aos da ciência atual) e por vazio, através do qual os átomos se deslocavam, aproximavam-se uns dos outros ou se afastavam. Com esse mecanismo, explicavam a origem, a variedade e a dinâmica da realidade, da própria alma humana e dos deuses, que em sua concepção de mundo não tinham grande poder sobre a realidade. Os atomistas desenvolveram o materialismo jônico absorvendo as contribuições dos primeiros idealistas: a concepção de que a realidade era constituída segundo leis racionais matemáticas, de Pitágoras; relativizando a ontologia da permanência absoluta de Parmênides. Puderam fazer isso graças ao trabalho de pensadores como Empédocles e Anaxágoras, que reabilitaram a experiência sensível e a observação como fontes de conhecimento (totalmente repudiadas pelos idealistas), desde que mediadas pela crítica racional.

Outros três desenvolvimentos fundamentais aconteceram sob o espírito do materialismo. Criou-se a medicina hipocrática, que buscava compreender a saúde e a doença em termos físicos, não como produto de forças espirituais. Nasceu a história, com Heródoto e Tucídides, como explicação secular do desenvolvimento das sociedades humanas distinta da mitologia que embasava a religião. Por fim, a sofística, como prática filosófica de professores e oradores itinerantes que investigavam a linguagem como instrumento de ação política na democracia e acabaram por fornecer as bases sobre as quais o idealista Aristóteles desenvolveria a lógica, um dos mais importantes instrumentos do pensamento científico. Contribuíram também para a crítica dos valores aristocráticos tradicionais com seu humanismo relativista.

 

 

O idealismo ateniense

 

O idealismo surgiu nas colônias gregas no sul da Itália, alcançou seu mais alto cume, porém, na Atenas dos séculos IV-V, com Sócrates, Platão e Aristóteles. Um dos papéis centrais do idealismo foi reabilitar a religião, desacreditada pelo relativismo sofístico e pelo materialismo. Assim, criaram os alicerces da teologia: a justificação filosófica e racional da religião, pilar ideológico e institucional de toda ordem oligárquica. Novack afirma que o idealismo “Era a expressão ideológica da aristocracia escravista em sua batalha defensiva pela supremacia contra as tendências democratizantes das forças mercantis e plebeias das cidades-estado gregas” (NOVBACK, 2015, p. 181), visto que “A seus olhos [dos idealistas] os homens eram desiguais e estavam divididos em classes por natureza. Cada um ocupava seu lugar apropriado na hierarquia do corpo civil. Só desta maneira os homens poderiam ser realmente humanos e tornar-se totalmente civilizados” (idem, p. 182).

Isto é decerto esquemático demais, uma vez que Sócrates fora condenado à morte sob acusação de ateísmo, embora de fato tenha sido julgado pelo regime democrático. Platão foi o mais severo crítico de Homero, cujos poemas representavam por excelência os valores aristocráticos, postulou que o valor dos homens derivava da qualidade de suas almas, não da família em que nasceram, e professou que a educação deveria ser dada tanto a homens quanto a mulheres e que estas poderiam governar (algo inaceitável para qualquer grego e principalmente para a aristocracia escravista); Aristóteles formulou justificativas teóricas para a escravidão, mas por outro lado era um meteco, um estrangeiro sem direito à cidadania. É claro que estas e outras contradições em relação ao esquema proposto só poderiam ser devidamente assentadas em vários estudos de fôlego focados em cada uma destas grandes figuras do pensamento. Novack chama atenção para algumas destas dissonâncias em sua explicação. Num livro introdutório e sintético como este, não poderia fazer mais que isso.

 

 

O eclipse do materialismo antigo

 

Os capítulos finais são dedicados ao desenvolvimento da filosofia helenística e romana, com o epicurismo, o atomismo de Lucrécio e a sátira cética de Luciano. Não foram os momentos de maior criatividade da filosofia antiga, mas Novack situa Lucrécio, com seu poema Sobre a Natureza, como o autor da mais acabada exposição do materialismo antigo. Luciano, segundo Engels, teria sido o “Voltaire da antiguidade”. Enfim, As Origens do Materialismo encerra com a indicação de que, durante a Idade Média, a filosofia foi dominada pelo idealismo, antes de o materialismo renascer no início da Idade Moderna, muito embora até hoje o idealismo ainda seja a ideologia dominante em nossa sociedade e em nossas academias, não obstante o crescente desenvolvimento e fortalecimento do materialismo e da ciência.

Na longa epopeia do pensamento que nos é narrada por Novack neste livro, delicioso de ler apesar da densidade do assunto, identificamos apenas uma lacuna digna de nota. Como não aborda a filosofia dos Cínicos, Novack afirma que nenhuma expressão filosófica do materialismo antigo correspondeu às classes mais baixas. Estas recorriam sobretudo à religião e ao mito, mas também à ideologia de camadas superiores. Sabemos que foi isto o que se deu mais comumente, mas a filosofia dos cínicos expressa, no helenismo, o ponto de vista dos setores mais pauperizados da sociedade e inclusive de filhos de escravos, pregando uma ética da abstinência, o ascetismo material e a marginalização social. Então, que a filosofia fora atividade quase que exclusiva das camadas mais abastadas é inegável, mas não se pode confundir a ideologia de classe com a classe dos ideólogos. Afinal, Marx e Engels não eram proletários, mas sua filosofia, exercida por membros ociosos (embora não da elite) claramente distintos do proletariado, expressa como nenhuma outra os interesses do proletariado alijado da própria atividade teórica.

Um capítulo sobre o cinismo enriqueceria bastante o valioso texto de Novack: Diógenes de Sínope, o mais folclórico de todos os filósofos, que vivia num barril e teria dito que na casa de um rico não há lugar para cuspir senão em sua cara não poderia faltar numa história do materialismo antigo. No entanto, para um livro que abrange um processo histórico tão longo em tão poucas páginas, que condensa uma matéria tão complexa em um desenvolvimento explicativo de validade, rigor, coerência e clareza raríssimas em obras do gênero, esta lacuna é de fato um detalhe quase relevável, por relevante que seja. Talvez o maior problema seja a edição, com não poucas gralhas, falhas de pouco peso na tradução e outras tantas na revisão que se deveriam consertar. Em todo caso, um livro de tamanho valor educativo para o leigo e tão instigante em sua proposta explicativa para o estudioso do tema merece ser lido e relido, editado e reeditado, até que o materialismo triunfe como emancipação da humanidade e de seu pensamento.

 

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Sugere-se a leitura do artigo Lógica formal de Aristóteles, A Dialética de Hegel e o Materialismo Dialético de Marx, publicado dois dias após neste blog e complementar a este artigo.

 

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Referências bibliográficas

 

NOVACK, George. Introdução à lógica marxista. São Paulo: Sundermann, 2006.

NOVACK, George. As origens do materialismo. São Paulo: Sundermann, 2015.