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Práxis

Os filósofos limitaram-se sempre a interpretar o mundo de diversas maneiras; porém, o que importa é modificá-lo.

Práxis

Os filósofos limitaram-se sempre a interpretar o mundo de diversas maneiras; porém, o que importa é modificá-lo.

Libertas Quae Sera Tamen

21.09.07

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    Quem se depara com o título desse texto deve se perguntar por que diabos um dístico latino... Por que exatamente esse trecho, "Liberdade ainda que tardia", extraído da primeira Égloga de Virgílio e proposto pelos inconfidentes mineiros para marcar a bandeira da república que idealizaram, no século XVII, vem sugerir o assunto desse texto? Logo uma expressão latina, "antiquada" para os dias de hoje e apenas lembrada quando nos deparamos com a bandeira do Estado de Minas Gerais?

    Pois bem, o que sugere a colocação de um título desse quilate não é, a bem da verdade, nada tão inovador e/ou revolucionário quanto a conotação que o dístico assumiu nos idos do século XVII, num país colônia chamado Brasil. Sugerido, na época, por Alvarenga Peixoto e aprovado por Cláudio Manuel da Costa e Tomás Antônio Gonzaga, todos exímios latinistas, a frase serviu como palavra de ordem para a Inconfidência Mineira, movimento revolucionário ocorrido em 1789 contra o domínio português. Não, o propósito aqui é bem outro e recai, talvez, em algo até sem importância: os blogs.

    Até bem pouco tempo, como afirmei no primeiro texto postado aqui no Sapo, não sabia nem como iniciar um texto nesse pequeno quadrado que nos oferecem para postamos o que nos der vontade, independente de sermos ou não lidos, se seremos ou não "ouvidos" (eu, particularmente, penso que não). O que então me compraz a escrever algumas turvas linhas sobre algo quase que irrelevante, usado na maioria das vezes como diário pessoal, e não como laboratório de ideias?

    A resposta para esse questionamento é simples e direta: a liberdade que os blogs proporcionam às pessoas de se comunicarem e de exporem o que sentem e pensam. Mas acima não afirmei que os blogs são, na maioria das vezes, irrelevantes? Sim, e são mesmo. Na minha opinião a maioria dos blogs espalhados pela web não têm importância alguma (inclusive este, de repente), a não ser para as pessoas que o escrevem e para um pequeno grupo que se identifique com ele. Do mais, servem apenas para serem guardados em quartinhos sujos de badulaques. Mesmo porque acredito que mais de 90% dos blogs que rolam na internet são produzidos com o intuito puro e simples de diário pessoal, ou melhor, de fofocas pessoais do cotidiano adolescente.

    Todavia, mesmo nesses blogs há algo um pouco maior que a fofoca diária e irrelevante. Remeto-me à liberdade de expressão e à rapidez com que são "publicadas" idéias e fatos, a um baixíssimo custo. Talvez sejam essas as grandes vantagens de um blog. Em tempos em que as pessoas se encastelam em suas casas, tornando-se cada vez mais consumistas e individualistas, porém fragmentadas por diversas identidades*, essa ferramenta acaba atuando como veio comunicador (ainda que restrito) entre pessoas de um mesmo grupo. Ou seja, em tempos em que a liberdade é ainda mais limitada, Fulano escreve um texto e o repassa para Cicrano, que deixa seu comentário...

    Essa rede acaba proporcionando a comunicação e a troca de experiências entre os grupos e até mesmo entre pessoas que gravitam em torno desses grupos. Mesmo que sejam mexericos interpostos e "enriquecidos" com imagens e vídeos, há a troca de experiências que, para esta ou aquela pessoa, dizem algo. Esse é também o papel dos sítios de relacionamentos, onde encontramos pessoas que há tempos não víamos e até conhecemos novas através das comunidades que freqüentamos.
    Vejam bem que não sou um entusiasta dos blogs, fotologs e sítios de relacionamentos, irrelevantes para mim, ainda que eu tenha um blog e uma conta no orkut. Ao contrário... Como eu passei toda a minha adolescência distante da internet, ainda sou mais adepto da concepção de José Saramago, que diz que a carta é muito mais romântica que o e-mail, por exemplo, na medida em que naquela podemos esperar uma lágrima e neste não**.

    Ademais, se não sou um entusiasta desse novo veículo de comunicação, que é o blog, não deixo também de salientar sua relativa importância. Isso porque nele as pessoas dizem o que querem, com uma linguagem própria -- denominada, se não estou enganado, de internetês --, livre da padronização viciante da linguagem formal e que dialoga diretamente com  a forma de ver e pensar o mundo das pessoas que a utilizam. Assim, é  plausível uma pessoa publicar um blog falando de comida, fofocas, religião, sexo, literatura (ou tudo isso junto), sem o compromisso, por hora, de ser julgado pelo que escreveu***, mesmo porque nem precisa assinar com o seu verdadeiro nome.

    Contudo, se parar-se para observar é fácil notar que essa liberdade é limitada, não ultrapassando os limites impostos pela sociedade -- nem sequer ameaçando-os. Ou seja, além de as pessoas de hoje (como as de ontem) não terem liberdade, e os weblogs, como a internet colaborarem com o nosso isolamento, ainda existe o fato de que o que se escreve nesses pequenos "diários de bordo" não ser levado à sério. Isso sim é importante, e por isso que intitulei esse texto com a "máxima" latina: Libertas Quae Sera Tamen, mesmo que tal liberdade seja assaz limitada.


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* Ver Stuart Hall.

** Da importância da internet e da revolução que ela proporcionou já tratei em outro texto, não precisando me debater aqui. É de se falar também que, mesmo não sendo mais prática corrente entre as garotas e garotos de minha geração, nós chegamos a trocar algumas cartas uns com os outros.

*** A não ser que se trate de algo assaz ofensivo.

Homem Fragmentado

21.09.07

Pablo+Picasso+-+Woman+on+the+Guitar+(Ma+Jolie)+(19

 

Na calçada um homem caminha
seu reflexo não vê.
Sua face, outrora tão nítida,
não passa agora de mosaicos
frios e obumbrosos.
Esse homem tão sutil,
de passos tão acanhados,
antes desliza que marcha
             incerto do futuro.
antes teme que sonha
             incerto do futuro;
antes geme que chora
            com medo do futuro.
Um homem caminha na calçada
E com ele mais homens
mais homens
homens
Iguais a ele...
Iguais em tudo...
Ah!, meu Deus
                    Que Solidão.

Bom, bonito, Livre e de graça

20.09.07

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    É comum dizermos que a internet é/foi uma revolução. Porém, o que a maioria das pessoas não entendem é a real profundidade de uma Revolução. A expressão Revolução sugere ruptura, mudança brusca no modo de ver e pensar o mundo, abertura e crescimento. Só se pode afirmar que houve de fato uma Revolução quando os ícones (os símbolos) à sua volta foram duramente atacados e vencidos, passando não mais a existirem, ou, na melhor das hipóteses, existindo, mas não sendo dominantes. Na história temos alguns momentos revolucionários, como o cristianismo, que alterou toda a concepção de ver o mundo no Ocidente, a Revolução Francesa (1789), que alterou os modelos sociais e de produção, institucionalizando o capitalismo, e a Revolução Russa (1917), a mais importante, sem dúvida alguma, das Revoluções do século XX.

 

    Porém, como já deve ser sabido pela maioria, uma Revolução não se dá através de um fato esporádico e isolado no tempo e no espaço. Ela nasce, na verdade, bem antes: no seio da sociedade que ela mesma derrubará. Em outras palavras, como diria o velho Marx, o modelo econômico (sócio-político) oferece as ferramentas para a sua própria derrocada. Em suma, o capitalismo nasceu nos burgos e no seio dos palacetes reais mantidos pelo modelo escravista, como o socialismo nasce do capitalismo, independentemente de crerem ou não nessa hipótese*.

 

    O que quero dizer que tudo isso é que a Internet é sim um instrumento que, se não é revolucionário, ao menos é "simpático" à revolução. Vejamos bem o porquê: a internet está mudando substancialmente e sistematicamente os hábitos das pessoas. Quando é que, há 10 ou 12 anos atrás, um sujeito iria conhecer outro em estados ou países diferentes sem sair de casa? Ou então, quando um acadêmico teria acesso a trabalhos produzidos por outros acadêmicos, em outras instituições universitárias, com poucos cliques em um mouse? A internet democratiza de fato quase tudo: possibilita a difusão real de informações e a troca de experiências mútuas entre pessoas de diversos locais. A ÚNICA FRONTEIRA A SER VENCIDA É A FRONTEIRA LINGÜÍSTICA. Até mesmo o flerte amoroso, o namoro, ficou diferente com o advento da Internet. Lembro que na minha época de adolescente (não que eu seja velho - hehehe), a aproximação junto a uma garota era uma tarefa das mais difíceis. Hoje um  simples e-mail resolve esse problema.

 

    Todavia, quando afirmo que a World Wide Web é apenas simpática à revolução é porque, apesar de ser extremamente revolucionária, corrobora também o pensamento alienador pregado e difundido pelas elites burguesas mundiais, na medida em que acaba encastelando, algumas (ou muitas?) vezes, sujeitos dentro de seus próprios ninhos. A prova disso são as pessoas viciadas em messengers e/ou sítios de relacionamentos, como o orkut ou o gazzag, por exemplo. Para essas pessoas até o sexo, muitas vezes, é virtual. O mundo que o cerca é virtual; tudo é uma grande matrix. Ou seja, existem pessoas que não têm convívio social fora do ambiente virtual. O que a inernet revolucionou foi a possibilidade de todos expressarem -- mesmo que não em pé de igualdade com os grandes portais mantidos pelas empresas que estão no poder -- via rede. Fato que não aconteceu com o rádio, com o cinema e com a TV, como bem constatou Adorno.

 

    Hoje, em pleno século XXI**, assistimos a uma outra Revolução, talvez tão poderosa quanto a Internet, que é a ascensão dos softwares livres. Mas o que são de fato esses softwares? Segundo a Wikipédia (http://www.wikipedia.org), "Software livre é qualquer programa de computador que pode ser usado, copiado, estudado, modificado e redistribuído sem nenhuma restrição. A liberdade de tais diretrizes é central ao conceito, o qual se opõe ao conceito de software proprietário, mas não ao software que é vendido almejando lucro. A maneira usual de distribuição de software livre é anexar a este uma licença de software livre, e tornar o código fonte do programa disponível. O software livre também é conhecido pelo acrônimo FLOSS (do inglês Free/Libre Open Source Software)".

 

    Esses programas têm mudado o perfil do usuário em informática e têm forçado as empresas de softwares proprietários (softwares comerciais) e reduzirem os preços de seus produtos, como forma de não perder tanto mercado. Porém, a grande vantagem de um software livre talvez não seja o preço (gratuito), mas sim a liberdade que ele proporciona ao usuário, a adaptabilidade às novas tecnologias de Informação e a constate e rápida melhoria nos programas, na medida em que um número muito maior de empresas e programadores têm acesso ao seu código fonte***. Daí hoje softwares como Linux, OpenOffice, Firefox, Gimp, Scribus e Blender serem, senão superiores, iguais aos offices proprietários concorrentes.

 

    Essa real mudança no perfil do usuário em informática, não coincidentemente, num momento em que o neo-liberalismo -- encabeçado principalmente pelos EUA -- está perdendo suas forças e entrando em "retrocesso". Prova disso são os altos índices de desemprego que assolam países como EUA, Alemanha e Itália, por exemplo, e a recessão das economias francesa, inglesa e estadunidense. O caos é iminente e mudanças serão necessárias. E uma delas já está acontecendo nesse exato momento. Chegará o dia em que a maioria dos "pcs home" utilizarão softwares livres. Quem viver verá.

 

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* O que não pode haver é a confusão entre Revolução e Reforma. Reforma seria uma tentativa de mudança, pequena que fosse, dentro do modelo estrutural vigente, porém nunca uma ruptura desse modelo, como propõe a Revolução. É o que busca, em tese, uma "frente popular" (modelo teoricamente adotado pelo PT de Lula, porém muito mais antigo, como todas as táticas políticas atuais). Na Reforma não há mudança política estrutural, como também não melhoria na qualidade de vida da maioria da população.

 

** Século que se iniciou somente no dia 11 de setembro, após o ataque terrorista às torres gêmeas do World Trade Center, em Nova Iorque, EUA.

 

*** Empresas como a Sun Microsistems, Red Hat, IBM, Novel, Google, dentre outras, já lucram explorando esse vasto mercado de software livre. A Sun, por exemplo, liberou parte do código fonte do StarOffice para a criação do OpenOffice. Como a empresa não perde a licença, o código fonte deste é responsável pela melhoria daquele (StarOffice), que evolui rapidamente, passando a ter uma abrangência e um reconhecimento muito maior no mercado de informática. Muitas vezes, programas livres como o OpenOffice, o Blender ou o Firefox, por exemplo, são multi-plataforma, ou seja, funcionam tanto em Linux, como em Windows ou Mac.

Imagens sedimentadas de um país colonizado

20.09.07
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    Sem surpresas abro o sítio do PSTU* (http://www.pstu.org.br) e me deparo com a manchete estampada, em destaque, na página inicial: Renam Calheiros** é a cara do  Congresso. À manchete seguia uma leitura detalhada da sessão que impugnou a cassação do Senador e a perda de seu cargo na presidência do Senado brasileiro. "Por todo o país, milhares de trabalhadores reagiram com profunda indignação. Afinal, os pobres são presos, espancados pela polícia e passam anos na cadeia. Os ladrões ricos seguem sendo senadores, deputados e juízes. Continuam sua vida, recebem seus altos salários, sem nenhum problema" - afirmavam indignados, e com razão, os redatores da notícia.

    O motivo pelo qual se deu o pedido de cassação do Senador condiz com o fato dele, por meio do lobista Cláudio Montijo, ter pago contas pessoais de Mônica Veloso, com quem teve uma filha, no valor de R$ 12 mil*** (doze mil reais) mensais.
À frente de toda operação para salvar o presidente do Senado, estava o PT****, encabeçando a base do governo. Também os setores da oposição de direita, próximos a Renan, se movimentaram para garantir a impunidade ao senador.

   
Às vésperas da sessão, os aliados realizaram um intenso corpo a corpo e lançaram mão dos velhos mecanismos para angariar apoio para Renan: troca de favores políticos e cargos, liberação de verbas do Estado, etc. Corrupção descarada, praticada à luz do dia. Tudo com o apoio do Planalto. Desde o início da crise, o governo se mobilizou para livrar Renan. Lula mal conseguiu disfarçar seu apoio ao corrupto senador. Questionado por repórteres, o presidente disse que “todo ser humano, todo brasileiro, 190 milhões de brasileiros, inclusive você, terá o meu apoio porque todos são inocentes até prova em contrário”.

    Renan e sua tropa de choque diziam ao governo que, caso o senador fosse cassado, a coligação de partidos que compõe a base aliada de Lula no Senado (da qual o PMDB tem importância central) estaria ameaçada. Isso explica porque a líder do governo, senadora Ideli Salvati (PT-SC - meu estado), e o senador Aloizio Mercadante trabalharam intensamente pra livrar a cara de Renan. Ao final, Mercadante procurou diminuir seu desgaste dizendo que se absteve. O voto, na prática, ajudou Renan.

    Também foi escandalosa a posição adotada pelo PCdoB e seu senador, Inácio Arruda (CE). Apesar de fazer mistérios sobre como votaria, Arruda nem precisou revelar seu voto, pois o próprio sítio do seu partido não cansou de fazer uma intensa campanha pró-Renan. “Depois de três meses de investigações nas quais a vida pública e privada do senador foi revirada e vasculhada não se encontrou uma única prova que confirmasse tal acusação”, afirma na maior cara-de-pau o artigo do PCdoB, publicado no último dia 12.

    Como bons mafiosos que são a maioria do Senado acabou protegendo o senador por ter, juntamente com ele, o "rabo preso", como comumente se diz na gíria. Isso porque se o senador da república fosse de fato caçado muitos (diga a imensa maioria) iriam com ele, desencadeando um verdadeiro efeito cascata.
A sessão do Senado que votou o relatório do Conselho de Ética foi um show de escândalos. Sacando uma medida prevista pelo regimento interno da Casa, a mesa do Senado impôs uma sessão secreta. Afinal, coisa feia se faz escondido...

    O som do microfone chegou a ser desligado para que ninguém ouvisse os discursos e as ameaças trocadas entre os parlamentares. A cena lembrou velhos filmes sobre máfias. Sem que ninguém pudesse ouvi-los, os senadores negociaram livremente cada voto, como um verdadeiro antro de gangsters. Para coroar o ridículo espetáculo, o vice-presidente do Senado, o petista Tião Viana, chegou a proibir o uso de celulares e computadores portáteis no plenário, ameaçando de cassação os senadores que revelassem informações sobre a sessão (!). Foi a desmoralização do próprio absurdo.

    Mesmo assim, várias informações vazaram e logo se descobriu o motivo que salvou Renan. Cassando Renan, os senadores poderiam abrir um precedente que levaria à degola de inúmeros outros parlamentares. Afinal, todos estão com o rabo preso em vários trambiques, como sonegação de impostos, caixa dois e, principalmente, com o financiamento de empreiteiras e de bancos. Mesmo a campanha presidencial de Lula foi financiada por grandes empreiteiras.

    Entre as maiores doadoras estão as construtoras Camargo Corrêa, OAS e Andrade Gutierrez. A campanha para a reeleição de Lula levou R$ 6,7 milhões dessas três. Metade das empreiteiras que aparecem na lista das vinte entidades melhor contempladas com recursos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) está entre as maiores doadoras das eleições gerais do ano passado. Sabendo disso, o presidente do Senado e sua tropa de choque ameaçavam abrir os “portões do inferno”, revelando os crimes e a corrupção escondida debaixo do colarinho de cada parlamentar para disseminar o medo. Em certo ponto do discurso, o próprio Renan ameaçou "abrir o jogo" e contar tudo o que acontece dentro das paredes do Senado da Repúlica... Todos entenderam o recado.

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* Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado, seção brasileira da LIT - 4 QI (Liga Internacional dos Trabalhadores - Quarta Internacional), encabeçada pelo Revolucionário Russo e comandante do exército vermelho, Leon Trotsky.

** Presidente do desprestigiado Senado brasileiro e filiado ao PMDB do estado de Alagoas, um dos mais pobres estados do Brasil.

*** Moeda brasileira desde 1994 e que corresponde a, aproximadamente, 4.500 euros. Porém, como acredito ser o custo de vida mais alto em Portugal que em muitos pontos do Brasil (talvez não mais alto que o de Florianópolis, ilha onde resido), fiquemos com esse valor mesmo em euros, ou aproximadamente esse valor.

**** Partido dos Trabalhadores, partido do atual presidente da república: Luiz Inácio Lula da Silva.

Nasce um texto...

19.09.07

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     Quando se escreve um texto, seja ele longo ou curto, romance ou conto, uma crônica ou um poema, é porque algo se tem a dizer. Há a necessidade de se exprimir, de repassar suas idéias e sentimentos seja como homem, seja como escritor, ou ainda ambos, pois um não vive e se completa sem o outro. Quando brota da mente do escritor, o texto vem simplesmente pela teimosa necessidade "físico-psicológica" de se expressar, de se deixar dizer, de chocar e polemizar. Talvez pelo fato de não ter nada mais importante, para aquele que escreve, que o escrever propriamente; talvez não, talvez seja uma intervenção qualquer, física ou psicológica (ou ambas), multicolor e multifacial, que degrade o escritor segundo a segundo, fazendo culminar o texto: uma explosão de sentidos e idéias ruminadas no cérebro.
 
    Sentado em sua cadeira ou poltrona, bruxuleando movimentos frenéticos e com as pontas dos dedos calosas em decorrência do contato com os teclados, ou da força exercida para segurar o cotoco de lápis corrente numa folha de papel, o escritor conserva a constante e teimosa mania de escrever. E a faz não porque é sensível ou manipulador, mas porque é um amargurado, um sóbrio desatinado, um átomo entre milhões de átomos, somente não seco, que busca na vida, e para a vida, um sentido. Em síntese, é um artista por excelência, e por isso escreve, e se balança, e se contorce, e se dedica tão febrilmente a tal aguçada arte..., para abafar as angústias da mente e do coração.

    É quase uma paranóia, um frenesi assumido por esse híbrido e louco personagem que desemboca nas páginas todo o seu viço rançoso de homem comprometido e amargurado, que bebe, a sorvos esparsos, seu uísque ou café. Com um olho na tela do computador (ou na folha) e outro na droga, sua e chora e conversa. E procura sempre o melhor, porque talvez saiba que se expressar não basta e que para dizer algo tem que o redizer, pois quase tudo, e isto é certo, é/foi dito.

    Com isso transgride muitas vezes e se aporrinha outras tantas, pela sua repentina e inquietante impaciência, pois evita escrever às escuras, por não ser fácil a sua tarefa, nem suave. Muito pelo contrário. Ele briga, esperneia, e quando o espírito não está bom para tão árduo exercício, ele escreve mesmo assim, só para ter a certeza do dever cumprido, da tarefa concluída. Nasce aí mais um filho, gerado de si totalmente, de suas entranhas de escritor convulsivo. Nasce o texto tão esperado, com todas as mandingas e artimanhas do artista escritor, de olhos vermelhos à frente do monitor de computador. Um texto seu que não é seu, com toda a fraca força imbuída em suas palavras. Leia-o, se quiseres, ou não, leitor. É sua a escolha.

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ESSE TEXTO É DE 29/05/2002. POSTEI-O (TRANSCREVI-O) AQUI POR UM SIMPLES E ÚNICO MOTIVO: DIALOGAR COM O TEXTO QUE O PRECEDEU AQUI NO BLOG DO SAPO. NO MOMENTO EM QUE EU ESCREVIA AQUELE, LEMBREI-ME QUE TINHA ESTE ESCRITO. FICA AÍ PARA O DEBATE...

Conexão Brasil-Portugal

19.09.07

 

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(...) cada pessoa não é, para nós, nada mais do que essa estrutura ou esse modo de estar no mundo.

(Maurice Merleau-Ponty)


    A todos que não me vão ler um breve e seco "Olá". Como é a primeira vez que escrevo em um blog nem sei ao certo o que postar. Certamente que não sou a primeira pessoa a sentar em frente a um computador para publicar esparsas palavras soltadas a esmo, sem nem saber o que dizer. É quando vem à tona, meio que inconscientemente, aquela afamada pergunta: E agora, o que fazer?, ou então, O que estou fazendo aqui?

    Provavelmente nem estaria agora forcejando o espírito para escrever algo minimamente interessante se soubesse o que estou fazendo aqui. Talvez daí decorra esse ímpeto, essa vontade de "versejar" poucas palavras: uma espécie de tentativa de auto-descobrimento, auto-controle dos meus impulsos mais recônditos. Mesmo que esses impulsos -- histeria de quem escreve -- não sejam percebidos por viva alma sequer.

    Acredito que escrever um blog não seja algo muito diferente do que escrever um livro, por exemplo. Ao menos no sentido do ato solitário de quem o escreve. Solidão que pode crescer e tomar maiores proporções se quem escreve parar para pensar que jamais será lido, a não ser por si próprio. O que não tem a devida graça, diga-se de passagem, na medida em que se ler, ou melhor, se auto-reler, é não extereorizar, algumas vezes (ou muitas?), suas próprias convulsões e angústias. É se encastelar duas vezes; se emparedar feito fera amendontrada nas infinitas trevas escondidas por trás das palavras.

    E se isso de fato for o veredito final desse "aporrinhado" texto, o escritor não se expõe, passando a ser qualquer imagem borrada e/ou turva que se faça dele. Deixa de ter identidade, credo e visão política das coisas que o cercam. Passa a ser, como diz Backthin, uma idéia, uma imagem pré-concebida e que, muitas vezes, não condiz (ou estou errado? -- eita dúvida...) com seu modo e motivo de estar no mundo.

    Eita dúvida cruel: escrever e exorcizar os fantasmas dentro de si, correndo o risco destes gravitarem nas linhas tortas de seus textos, ou não escrever e se angustiar com esses mesmos fantasmas lhe azucrinando os pensamentos? Dizem que o texto, quando feito, é um parto, um filho seu. Será mesmo? Não será o texto o inverso disso? Não será o texto a morte, ao menos que temporária, das angústias que dilaceram aos poucos a alma do escritor? Esse argumento pode ser perfeitamente plausível, ainda mais se entender-se a morte como algo passageiro, como uma espécie de rito de passagem para um outro cosmos. Isto é, como renascimento, como diria Leonardo Boff. Sob esse aspecto, os substantivos "texto" e "filho" se intercruzariam, tornando-se, por vezes, um só.

    Dessa forma, o texto atuaria como algo disseminador, contaminando terceiros com suas angústias e reflexões, que seriam contaminadas com outras angústias e reflexões. Assim, texto não lido é texto morto nos seus próprios ideais. É como se ele germinasse rapidamente, como girinos em poças d'água, mas secasse em seguida, secando igualmente o escritor, seu "pai", que estagnou, se petrificou no tempo e não se contaminou com as angústias e reflexões de outros tantos angustiados.

    Penso que encontrei o propósito para esse texto. Eis o motivo principal dessa conexão Brasil-Portugal, ou talvez não. De repente esse rapaz do sul do Brasil, de um estado denominado Santa Catarina, oriundo de uma bela ilha colonizada por açorianos (capital desse mesmo estado), não seja ouvido. Sei lá eu qual o destino desse texto. Será também que existe alguém interessado em me "ouvir", em dialogar comigo, dividindo e compartilhando minhas angústias? Perguntas e mais perguntas... Somente o tempo poderá respondê-las, ninguém mais.

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