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Práxis

Os filósofos limitaram-se sempre a interpretar o mundo de diversas maneiras; porém, o que importa é modificá-lo.

Práxis

Os filósofos limitaram-se sempre a interpretar o mundo de diversas maneiras; porém, o que importa é modificá-lo.

"Turistando" e viajando por Santa Catarina

29.09.07

Chamado de Santa Catarina desde a sua colonização, a origem de seu nome remonta para dois fatos: 1) uma homenagem à Santa Catarina; 2) uma homenagem à Rainha Catarina, de Portugal. O certo é que, dos três estados que compreendem a região sul do Brasil (os outros dois são Paraná, ao norte e Rio Grande do Sul, ao sul) é o menor deles, porém o com maior potencial turístico. Com uma área de 95.442,9 km², o estado é um pouco maior do que a Hungria. Sua capital é a cidade de Florianópolis, uma ilha, e sua costa oceânica tem cerca de 450 km, ou seja, aproximadamente metade da costa continental de Portugal (943 km).

Os índices sociais do estado estão entre os melhores do país; a renda per capita catarinense é de 12.159 reais, a quinta maior do Brasil. Santa Catarina apresenta o segundo maior índice de alfabetização entre os estados do país, atrás apenas do Rio de Janeiro.

A sua colonização foi largamente efetuada por imigrantes europeus: os açorianos portugueses colonizaram o litoral no século XVII; os alemães eItapema italianos colonizaram o Vale do Itajaí (ou Vale europeu) e o norte catarinense em meados do século XIX, os italianos colonizaram o sul do estado, no final do mesmo século, e outras etnias, como a polonesa, a austríaca (tirolesa), suíça e alguns russos colonizaram, no final do século XIX e início do XX, o meio oeste. O oeste catarinense foi colonizado por gaúchos de origem italiana e alemã na primeira metade do século XX. Essas características fazem do estado o mais europeu do Brasil, não sendo difícil de encontrar pelo seu interior, e também no litoral, paisagens bucólicas com vilas à moda européia.

    Santa Catarina não é só verão. Inicialmente conhecido pela bela costa litorânea com mais de 500 praias (somente em Florianópolis, sua capital, existe cerca de 100 praias), o Estado amadureceu, explorando melhor a diversidade geográfica e cultural. O turista pode encontrar, percorrendo Praia da Armação - Florianópolispequenas distâncias, cenários e climas de grandes contrastes – apenas duas horas de carro separam praias paradisíacas de montanhas com altitudes próximas a 2.000 metros. Há grande variedade na oferta de produtos e segmentos especializados que estão em operação em qualquer época do ano: turismo rural, estâncias termominerais, ecoturismo e aventuras radicais, patrimônio histórico, turismo religioso, turismo de terceira idade, os parques do Beto Carrero e o Unipraias, em Balneário Camboriú, o vale das cachoeiras, como mais de 150 cachoeiras, em Presidente Getúlio...

    Alguns produtos só podem ser vendidos fora da temporada. O espetáculo da neve na Serra Catarinense, o único lugar do Brasil onde neva todos os anos. Berço do turismo rural no país, a região tem bons hotéis-fazenda, nos quais é possível realizar cavalgadas, passeios em charrete, caminhar por trilhas em contato direto com a natureza, degustar a gostosa comidaSerra Catarinense campeira, pescar trutas nos rios gelados da região... Em outubro, acontecem as grandes festas -- 12 no total -- com destaque para a Oktoberfest de Blumenau. E, entre junho e novembro, ocorre a visita das baleias Franca no litoral – a procura pelo turismo de observação de baleias, altamente qualificado, tem crescido ano após ano.

    Ao eleger Santa Catarina como destino, o viajante sabe que vai encontrar excelência. Além de vocação e potencial, o turismo catarinense possui profissionalismo, busca permanente de qualificação e muito trabalho. Conhecida como a Europa brasileira, pelas suas paisagens, pela aparência de suas cidades e de seu povo e pela neve, Santa Catarina apresenta ótimos índices em setores que afetam diretamente a atividade, como infra-estrutura, qualidCarnaval em Laguna (160 mil pessoas)ade de vida, segurança, saúde, educação, formação profissional, atendimento, serviços... O Estado é o destino certo para fazer uma viagem sem sobressaltos. Mais de 90% dos viajantes querem voltar e o índice de satisfação dos clientes na rede hoteleira atinge 98%.

    Visitar Santa Catarina é fazer um tour pela Europa sem sair do Brasil! O Estado foi colonizado por imigrantes provenientes de quase todas as regiões européias, que construíram seus povoados inspirados nos países de origem e preservando suas tradições. Hoje, essas antigas aldeias se tornaram cidades progressistas – e algumas parecem saídas de contos de fadas. Nas ruas é comum se ouvir diferentes sotaques.

    O estado tem dimensões territoriais pequenas (apenas 1,12% do território nacional). Como as cidades são próximas umas das outras e as rodoviasIbirama estão em bom estado, viajar de carro é um prazer. O turista vai percorrer um trajeto de sonhos, encontrando pequenas “alemanhas”, “itálias”, “portugais”, “ucrânias”, “polônias”, “áustrias”...

    Além do mais, possui um patrimônio histórico bem conservado. No litoral, fica o conjunto histórico português-açoriano, especialmente notável nas cidades mais antigas – Florianópolis, São Francisco do Sul e Laguna –, com destaque para as igrejas e para as fortalezas construídas pelos portugueses em Florianópolis. A arquitetura enxaimel, típica da colonização alemã, está espalhada pelas cidades do Vale do Itajaí e do Norte-Nordeste do estado, que também exibe exemplares arquitetônicos das culturas eslavas – poloneses e ucranianos. Já os casarões de tábuas inteiriças dos italianos estão presentes em todo o Estado, mas há um conjunto histórico que inclui antigas casas de taipa de pedra nas cidades que compõem o rBalneário Camboriúoteiro cultural italiano na região Sul.

    Santa Catarina começa a se firmar como um dos melhores lugares do país para turismo de negócios devido à localização privilegiada, aliada à excelente qualidade de vida, belezas naturais, espaços modernos para realização de eventos, segurança e qualidade no atendimento. Florianópolis, Blumenau, Jaraguá do Sul e Joinville constam, segundo revistas especializadas, entre as melhores cidades brasileiras para fazer negócios.

    A realização de congressos, convenções e de grandes eventos ganha cada vez mais importância. Dez cidades já constituíram seus Convention & Visitors Bureaux. Durante 2001, foram realizados 11.215 eventos nos mais de 100 espaços existentes no Estado, que reuniram 5,1 milhões de participantes – o equivalente à população do Estado (Fonte: 1º Dimensionamento Econômico da Indústria de Eventos no Brasil, realizado peloPresidente Getúlio Sebrae e Fórum Brasileiro de Convention & Visitors Bureau). Somente em outubro, 12 festas típicas atraem cerca de 1,3 milhão de turistas. A maior delas, a Oktoberfest  -- segunda maior festa alemã do mundo --, em Blumenau, recebeu mais de 600 mil visitantes em 2006.

    O turismo catarinense tem estratégia e planejamento, sendo organizado em roteiros integrados que reúnem as afinidades geográficas e culturais regionais e contemplam, além das belezas naturais e aspectos culturais, oferta hoteleira e qualidade dos serviços. O objetivo é oferecer apoio aos agentes de viagem e ao turista em geral, para que o potencial do Estado seja explorado da melhor forma, revelando aspectos positivos e minimizando fatores adversos.

    O objetivo é a satisfação do visitante, que pode eleger um ou mais Blumenauroteiros com antecedência conforme suas expectativas e encontrar, em qualquer um deles, recursos humanos qualificados, boa oferta hoteleira, acessos rodoviários, aéreos ou marítimos, suporte turístico etc.

    São oito roteiros: Caminho dos Príncipes, Rota do Sol, Grande Florianópolis, Encantos do Sul, Serra, Vale Europeu, Vale do Contestado, Grande Oeste.

Além dos roteiros, o Estado oferece produtos turísticos diferenciados, já consolidados, e atende segmentos específicos. O público da terceira idade, por exemplo, descobriu Balneário Camboriú. O Santuário de Santa Paulina, em Nova Trento, já é o segundo maior destino de peregrinação religiosa no país. O filão do ecoturismo e das aventuras se mostra em expansão, assimNova Veneza como o turismo rural.

    Enfim, como se vê, Santa Catarina é sim uma excelente opção para se passear e para se desmistificar uma imagem solidificada de um Brasil tropical e violento -- o estado tem a 3ª menor taxa de homicídios do país (4,67 por 100.000 habitantes). Vale a pena conferir.


Links em português:

Florianópolis:

http://www.panoramio.com/user/888002

http://www.florianopolisturismo.com.br

http://www.pmf.sc.gov.br/turismo

Blumenau:

http://www.turismoblumenau.com.br/conteudo/index.aspx?codigo=41

Balneário Camboriú:

http://www.secturbc.com.br/?s=turista

Presidente Getúlio:

http://www.presidentegetulio.com.br

Palhoça:

http://www.palhoca.sc.gov.br/site/?page=YWNpZGFkZQ==&id=NQ==

São Francisco do Sul

http://www.saofranciscodosul.com.br

Laguna:

http://www.laguna.sc.gov.br/paginas.php?pag=secretaria-de-turismo-e-lazer

Serra Geral (sul do estado):

http://www.acolhida.com.br

Lages:

http://www.lages.sc.gov.br

Treze Tilias:

http://www.trezetilias.com.br

Turismo por Santa Catarina:

http://www.belasantacatarina.com.br

http://www.sol.sc.gov.br/santur

http://www.webhotel.com.br/santacatarina/turismo.htm

http://radarsul.com.br

http://www.ecoviagem.com.br/parques-nacionais/rio-grande-do-sul/serra-geral/


Riner Maria Rilke e eu

29.09.07

Rilke


quando queria fazer poemas
pedia emprestado um castelo
tomava da pena de prata ou de pavão,
chamava os anjos por perto,
dedilhava a solidão
                como um delfim
conversando coisas que europeu conversa
entre esculpidos gamos e cisnes
                - num geométrico jardim.

Eu

      moderno poeta, e brasileiro
      com a pena e pele ressequidas ao sol dos
          trópicos,
      quando penso em escrever poemas
         - aterram-me sempre os terreais problemas.

      Bem que eu gostaria
      de chamar a família e amigos e todo o povo
      enfim e sair com um saltério bíblico
      dançando na praça como um louco David.

Mas não posso,

      pois quando compelido ao gesto do poema
      eu vou é pegando qualquer caneta ou lápis e
           papel desembrulhado
      e escravo
      escrevo entre britadeiras buzinas seqüestros
             salários coque'teis televisão torturas e
             censuras
e os tiroteios
     que cinco vezes ao dia
     disparam na favela ao lado

metrificando assim meu verso marginal de
     perseguido
que vai cair baldio num terreno abandonado


Afonso Romano de Sant'Ana

A respeito do futuro

28.09.07

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A caricatura do caipira (Jeca) na expressão de Amácio Mazzaropi

28.09.07

Surgindo para o cinema em 1952, com o filme em preto e branco Sai da frente, somente final da década de 50 Mazzaropi, com o filme Jeca Tatu, retrabalha a figura do caipira. Não o faz pela ótica do Lobato dos anos quarenta, mas sob outro viés: não o da contestação pura e simples, a reivindicar uma identidade positiva para o povo, calcada em preceitos revolucionários, mas pelo riso, o do cinema-comédia voltado para as massas, sem muito rebuscamento estético. Acontece que, satirizando o caipira, Mazzaropi acaba detratando ainda mais sua imagem, já impregnada de preconceitos. Porém, ao mesmo tempo em que reforça o estereótipo do caipira, aponta-lhe uma saída, mesmo que compensatória: o caipira, através da “malandragem”, chega, ao final da trama, à riqueza.

Produzido em um momento em que o modelo econômico privilegia a abertura do mercado brasileiro ao capital externo, Jeca Tatu se mantém alheio aos problemas enfrentados pela cinematografia nacional. Isso não ocorre à toa, já que Mazzaropi, além de resgatar todo um imaginário coletivo relativo ao homem do campo e ao campo, atraindo assim um vasto público, já nessa época, para as salas de exibição, que iam assisti-lo para matar as saudades da terra de origem, cria um sistema relativamente organizado de produção e distribuição de suas produções.

Dirigidas aos que denomino no texto de “novos trabalhadores” das cidades, aqueles trabalhadores migrantes do interior, ou das regiões mais pobres do país, para trabalhar nas indústrias das grandes cidades, em busca de uma vida melhor, as produções de Amácio Mazzaropi resgatam o imaginário romântico e poético do campo, trazendo à tona um complexo sistema de imagens que se identificava diretamente com esses novos homens, não somente por trazerem um caipira eivado de “nobres sentimentos”, mas principalmente por trazerem a imagem de um homem simples que, no final, vence na vida. Daí seu grande sucesso de público e renda.

Paralelo a esse projeto de cinema de Amácio Mazzaropi, existe um outro, de fundo mais político, que consiste também em qualificar o cinema enquanto indústria, somente que mantida pelo Estado: refiro-me ao Cinema Novo. Com ideais herdados do período varguista e incentivados também pela incipiente industrialização decorrente da revolução de 30, esses cineastas se propunham manter e reforçar os desejos de industrialização do cinema. O problema é que o Brasil assistia, à época de Mazzaropi, a um espetáculo diferente: a abertura do mercado brasileiro para o capital estrangeiro, propiciada pelo governo Kubitschek, inviabilizou qualquer investimento do Estado para a criação e consolidação de uma indústria nacional de cinema.

Aliado a isso, esboçava-se também um projeto cultural centrado no resgate literário de escritores da geração de trinta, como Graciliano Ramos, Drummond, Jorge Amado, Rachel de Queiroz e o próprio Monteiro Lobato. Surgia um esboço de concepção de cultura brasileira, alicerçada na elaboração de histórias de fundo nacional. Nesse sentido, Mazzaropi participou desse movimento, na medida em que criou tipos e caracteres extraídos da cultura nacional. Seu próprio Jeca é um exemplo, pois, além de ser um tipo nacional, representa, sob certos aspectos, uma resistência ao modelo capitalista de produção no campo.

Representante mais expressivo da chanchada paulista, Amácio Mazzaropi cria, com Jeca Tatu, a imagem de um caipira que se cristalizaria. Isto é, em duas décadas de produções fílmicas, onde o homem do campo é a temática principal, os seus personagens, em termos físicos e psicológicos, pouco mudam. A bem da verdade, o Jeca Tatu do filme mistura elementos dos dois primeiros estereótipos lobatianos, a que acrescenta outros. Do primeiro caipira lobatiano, de 1914, “Mazza” extrai a preguiça característica como qualidade do seu caráter; já do caipira de Jeca Tatu: a ressurreição, os elementos para a construção do enredo. Porém, isso não é tudo. Talvez o mais interessante é que, para a produção do filme Jeca Tatu, Mazzaropi se apegou ao texto de Lobato via “Almanaque Biotônico Fontoura” e não ao Lobato “literário” propriamente dito.

O cinema de Mazzaropi é comercial, como é comercial a imagem de seu caipira. Condenado pela falta de ousadia estética, o cinema de Amácio foi de vital importância para a cinematografia brasileira. Além de fortalecer e criar um público que se acostumou a ir anualmente assistir a suas produções, a PAM-Filmes, por ele criada, mostrou-se uma alternativa viável para uma possível consolidação da indústria brasileira de cinema. Na verdade, não somente a PAM, mas também outros estúdios, como a Atlântida, no Rio de Janeiro, por exemplo, o fizeram.

Embora não contribuísse para a conscientização das platéias, as chanchadas provaram que cinema poderia ser uma empresa lucrativa. Empresas como a Atlântida, por exemplo, faturaram milhões com a exibição de chanchadas. Desvinculadas do gosto do ocupante e contrárias aos interesses estrangeiros, para citar Paulo Emílio Sales Gomes, as chanchadas proporcionavam ao espectador um envolvimento tamanho que sua participação era direta, a ponto de a platéia ser considerada barulhenta. Daí, também, a confluência entre a chanchada e os filmes de Mazzaropi. Neste pela figura do caipira, que resistia aos interesses externos; naquela pela adoção do malandro, do pilantra, por parte da platéia. Em ambos os casos, o que está em jogo é, em última instância, uma resistência à cultura dominante, que deprecia a cultura popular.

Somente com a fundação, em 1966, do Instituto Nacional de Cinema, o INC, é que o cinema brasileiro passa a ser olhado com mais atenção pelo Estado brasileiro. É que finalmente o governo brasileiro passa a financiar o cinema, dando-lhe um caráter mais comercial, se comparado aos cinemanovistas da década de 50. A intenção é uma só: a ditadura militar pretende financiar a cultura, com o claro objetivo de controlá-la plenamente. Esse o propósito do Instituto. Ou seja, por meio do INC o governo passa a controlar o cinema, tendo em vista o mercado, o consumo, e o controle ideológico. Essas metas seriam alcançadas com a associação a capitais estrangeiros, unindo, ao capital destinado à produção cinematográfica brasileira, o capital estrangeiro das indústrias cinematográficas hollywoodianas.

Essa política cultural do INC e da ditadura militar serviu, finalmente, de estopim para uma disputa ideológica entre um setor mais avançado do Cinema Novo, liderado por Glauber Rocha e Luiz Carlos Barreto, e o Estado. Para os intelectuais cinemanovistas, a criação de uma indústria de cinema financiada pelo Estado era bem-vinda desde que não tirasse a autonomia dessa indústria. Ou seja, o que queriam Glauber e Barreto ia de encontro aos propósitos culturais e ideológicos do INC e do governo ditatorial. Enquanto estes pretendiam financiar, com o auxílio do capital estrangeiro, o cinema, tirando-lhe toda e qualquer autonomia de produção, os cinemanovistas pretendiam uma indústria cinematográfica nacional, porém independente.

Assim, mesmo com o golpe de 1964, uma parte da elite intelectual de esquerda continuou atuando, no sentido de educar o povo e levá-lo à revolução. Essa cultura esquerdizante acabou se manifestando com maior intensidade principalmente até 1968, quando entrou em vigor o AI-5, que viria a restringir em muito a atuação dos intelectuais contrários ao regime então em voga. Dessa disputa no campo ideológico é que surgiria, dizia, o polêmico INC.

Criado, como se constatou, para regular e financiar o cinema nacional, o órgão vislumbra seu primeiro longa de sucesso apenas em 1969, quando foi produzido Macunaíma, de José Pedro de Andrade. É o primeiro filme, produzido pelo Cinema Novo, com relativo prestígio de público e renda. Tanto que se torna referência enquanto produção cinematográfica, conquistando o reconhecimento e o respeito de intelectuais ligados ao órgão, que passaram a adotá-lo como referência e “padrão”.

Conseguindo aliar uma proposta cultural a um projeto meramente mercadológico, Macunaíma faz parte de uma nova concepção de se pensar e produzir cinema, encabeçada por uma nova geração de cinemanovistas, que souberam adaptar-se ao momento histórico. Ou seja, com o financiamento por parte do Governo Federal, via INC, os intelectuais do cinema, com raras exceções, moldaram-se à proposta mercadológica e de associação de capitais, produzindo filmes com vistas unicamente ao entretenimento puro e simples, relegando a um segundo plano a proposta revolucionária do Cinema Novo da década anterior.

Esse é o momento em que as concepções de cinema dos cinemanovistas mais se assemelham às de Amácio Mazzaropi. É nesse contexto conturbado da história não só cultural, mas também social brasileira que se insere o filme O Jeca e a Freira. Produzido em 1967, ou seja, no meio do fogo cruzado entre intelectuais de esquerda, avessos ao modelo econômico e cultural vigentes, e o Estado, o filme é mais valioso enquanto expressão combativa à ditadura, do que enquanto obra de arte propriamente dita. Não que Mazzaropi tenha se preocupado em produzir um cinema combativo e desalienante, que visasse a mostrar as contradições do modelo econômico ou até mesmo expor as mazelas de um país semi-analfabeto. Todavia, isso não quer dizer que essa ou aquela produção não tenha captado elementos sócio-político-culturais do tempo em que foi produzida. Tanto é assim que, no período compreendido entre 1964-1968, “Mazza” produziu filmes que, se pecaram pela qualidade estética, ao menos se sobressaíram nas críticas veladas contra a ditadura.

Desses filmes, talvez o que melhor conseguiu captar esses conflitos foi justamente O Jeca e a Freira. Tendo como pano de fundo para a trama uma fazenda no interior de São Paulo, e misturando elementos culturais diversos, tais como negros brasileiros, capangas trajados à moda dos cowboysfar-west, o filme é uma mostra clara de que Mazzaropi não permaneceu completamente esquivo aos problemas que o cercavam. hollywoodianos e vestimentas exageradamente coloridas, fazendo os membros da elite parecerem-se com tipos mexicanos de filmes de

Uma mostra clara disso é o fato de o filme ter discutido, quase à exaustão, a ditadura militar. Mesmo “borrando” o tempo — o que tornou, como se indicou na análise, o filme inorgânico, no sentido histórico —, mesclando tipos e caracteres diversos em um ambiente social cujo momento histórico não fica claramente definido, O Jeca e a Freira, apesar de tudo, é parte integrante do momento histórico em que foi produzido. Isso porque, conforme exposto, o filme é crítico ao modelo econômico vigente e à repressão imposta pelos militares.

Claro, é preciso destacar que mesmo debatendo e questionando o modelo sócio-econômico-cultural vigente, O Jeca e a Freira, assim como Macunaíma, não passam de produções “despretensiosas”, em que o caipira, ou o homem do interior do país, não é mais que uma caricatura vinculada a uma imagem pré-estabelecida de um tipo social. Em suma, o caipira, em Mazzaropi, é um só, pouco se alterando os seus filmes em seus conteúdos estéticos e psicológicos. A fórmula que “Mazza” encontra para adaptar o Jeca Tatuzinho do “Almanaque Biotônico Fontoura” é largamente adotada até 1980, ano de sua última produção: O Jeca e a égua milagrosa.

Mesmo assim, entre os “jecas” de Lobato, estereotipia, e os “jecas” de Mazzaropi, também estereótipos, adotados daquele, restaria uma imagem: a do caipira deslocado no tempo, precisando, ao mesmo tempo, dialogar com esse mesmo tempo: Lobato e Mazzaropi, com os seus “jecas”, traduzem, enfim, a trajetória do capitalismo à brasileira, com suas contradições entre modernidade e atraso, recobrindo boa parte do século passado.

ABORTO, opção ou imposição?

27.09.07

    Nas vésperas de um encontro continental* que visa a discutir a legalização ou não do aborto na América Latina, instituições de direita, apoiadas pelo Vaticano, vão à ofensiva no intuito de frear as manifestações de apoio e de impedir que a mulher tenha o direito de optar em interromper a gravidez. A interrupção voluntária da gravidez precisa deixar de ser crime, pois só a mulher pode decidir sobre seu próprio corpo.

    Num sistema patriarcal e machista como o sistema capitalista, as burguesias de todo o mundo relutam a idéia de sequer cogitar tal hipótese. Ao invés disso, preferem argumentar que tais práticas são contrárias aos ideais de familia e de Deus. Amparadas pelo discurso conservador da Igreja Católica**, coíbem as manifestações favoráveis à legalização do aborto, impedindo assim o livre-arbítrio da mulher decidir ou não seu destino.

    Como já é de conhecimento de praticamente todas as pessoas,  a interrupção voluntária da gravidez antes dos 3 meses de fecundação não é crime. Isso porque somente a partir do terceiro mês de gravidez é que se pode afirmar que existe uma vida. Além disso, a legalização evitaria milhares de mortes que acontecem todos os anos em clínicas clandestinas e em práticas mal feitas por mulheres pobres que não têm acesso às clínicas.

    Não é a toa que, no Brasil, as manifestações acontecerão em grandes cidades, como Belo Horizonte , Fortaleza, São Paulo, Porto Alegre e Rio de Janeiro***, onde clínicas dessa espécie são comuns. Nenhuma mulher é obrigada a aceitar uma gravidez casual, por exemplo. Favorável que sou ao direito da mulher decidir o seu destino, repudio qualquer prática elitista de manifestação anti-aborto. Quem pensa o contrário corrobora, mesmo que sem intenção, ideais conservadores, repressores e machitas. Entrem nessa luta também.


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* Será nessa sexta-feira, dia 28/09/2007.

** Instituição hoje "comandada" pelo Papa Bento XVI (ou Joseph Ratzinger), antigo aviador do exército nazista de Adolf Hittler, na Segunda Guerra Mundial.

*** Respectivamente capitais dos Estados de Minas Gerais, Ceará, São Paulo, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro.

Um lírio à Senhora Vida

26.09.07

Bom dia, Vida. No relógio descompassado do tempo, tu, que ora corres lenta, feito um rio sinuoso à busca de teu destino, ora corre às pressas, como uma efêmera faísca que resplandece por segundos apenas, baila semovente, indiferente ao destino e ao tempo. Nesse grandioso espetáculo que é a Vida somos apenas coadjuvantes de uma existência que pulula a todo o instante, em todo lugar. Na suave brisa que agracia o existir, como também nas terríveis tempestades, ela se faz presente, incontinenti sempre, como o soldado em vigília noturna à espreita do inimigo. No silêncio contemplativo das horas turvas, como também no sussurar suave da aurora matinal, encontra-se ela, mãe de todas as coisas, a Senhora Vida. E neste constante "estar presente", neste constante vai e vem, Ela se recicla, transformando a Vida em morte e a morte em Vida.

Moeda verde Floripa

25.09.07

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    Uma região da Espanha visitada pelo governador de Santa Catarina, Luiz Henrique da Silveira (LHS), em março último, foi tema de artigo da Folha no domingo (05/08/07): "Boom imobiliário destrói litoral espanhol". Opa! Que coincidência com a situação vivida em Florianópolis!

    E o artigo continua: "Quase 400 prefeituras estão sob investigação por obras irregulares, muitas em praias sob proteção ambiental; cinco prefeitos estão presos". Alguma semelhança com a Operação Moeda Verde?

    Segundo artigo publicado no site do Governo do Estado de Santa Catarina, LHS comemorava, em março último, a decisão de um grupo espanhol [!] de investir em um grande complexo turístico em Santa Catarina, com uma estrutura de até dez vezes o tamanho do projeto de Jurerê Internacional [!!].

    No artigo da Folha aparece a cidade expoente da prosperidade espanhola. "O maior foco dessa corrupção é um antigo reduto do jet-set europeu, Marbella, na Costa do Sol, ao sul do país, onde um prefeito foi deposto em 2002 e seus dois sucessores estão presos por corrupção e abusos urbanísticos".

    O artigo “Governador aponta entraves”, publicado no jornal A Notícia, em 27 de março de 2007: "O novo complexo turístico ficaria sediado em Governador Celso Ramos, com estrutura semelhante à encontrada pela comitiva de Luiz Henrique em Marbella [uau!], na Espanha, incluindo um terminal para transatlânticos e marina para mais de 500 barcos".

    Nosso governador é ou não é um piadista? Pena que o palhaço da história não seja ele.

    Em tempo: LHS ganhou em 2006 o Prêmio Motosserra de Ouro, da Rede de ONGs da Mata Atlântica. Segundo a Fundação SOS Mata Atlântica, Santa Catarina foi líder em desmatamento do bioma entre 2000 e 2005, período em que aumentou seu índice de desmatamento em 8%, equivalente à supressão de 48 mil hectares de florestas. Outros sete Estados, juntos, desmataram 46 mil hectares.

 

("Se em Marbella pode, pq aqui não pode?") -> vide entrevista Luiz Henrique TVBV.

 

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ARTIGO EXTRAÍDO, NA ÍNTEGRA, DO BLOG: "MOEDA VERDE FLORIPA", EM: http://moedaverde.blogspot.com/

Fotos da Ilha de Santa Catarina

25.09.07

Ilha-de-Santa-Catarina-Floripa-A-maior-Ilha-do-Bra

 

Fotos de minha cidade, a Ilha de Santa Catarina, tiradas a maioria por mim e disponíveis algumas no Google Earth: http://www.panoramio.com/user/888002

É uma cidade com uma população aproximada de 380 mil habitantes e que fica ao sul do Brasil. Sendo mais de 90% de seu território compreendido em uma ilha, a cidade contém 100 praias, sendo 4 delas em duas lagoas: a maior e ao norte e leste da cidade, denominada de Lagoa de Conceição; a menor, ao sul, com 5 km2 de água doce, denominada de Lagoa do Peri. Nesse sítio tem apenas fotos de algumas dessas praias. Vamos a elas.

 

Canção do Exílio

25.09.07

    Lá fora, 37º em pleno junho. Aqui dentro o ribombar de trombetas evangélicas me faz avistar o destino próximo. O que fazer com as angústias e desilusões antigas? O que fazer com o pulsar desordenado de um coração que me dilacera? Uma gutural e cadavérica gargalhada plaina na atmosfera quente e úmida de meu quarto e me faz claudicar as próprias pernas. O que é isso? A paisagem fria e estéril dessa terra me consome. Serão saudades? Recordações? Saudades e recordações?

    -- U Qui mi incomoda nãum é a partida, max u tempu di espera i a saudade que essa porprociona - dizia-me vez em quando compadre Nestor. Notórias palavras... meu compadre, hoje vejo, a saudade sufoca e angustia. Angustia por não saber lidar com ela, angustia por exilar-nos num vale de sombras, angustia pela intensidade sintática que possui, por não ser nada nem tudo, mas a ausência de ambos. Saudade é ferida que não sara.

    Sarará um dia? Não importa, nada mais - ou quase nada - importa. O calor é infernal, torna-se desesperador. O céu turvo e sem folhas a manchá-lo com seu verde musgo me assusta - paisagem morta, seca, “vazia”, paisagem monocromática. Os dias são sempre assim, nenhum pássaro gorjeia no ocaso, nenhuma cigarra vocifera sua estridente melodia, só(mente) pombos, domesticados, não vistos a olhos nus, escondidos nas torres das igrejas e percebidos apenas por seus excrementos imundos depositados nas ruas, denunciam vida pulsante (não humana). As noites, entretanto, são mais agradáveis. Nenhuma estrela, é certo, o luar - que para aparecer tem que se esquivar timidamente dos altos e pontiagudos prédios - divide seu brilho com o néon reluzente e multicolor... E as luzes, a vida por aqui, sem ela nada pode, nada vive, tudo é preso.

    É, compadre Nestor, você que está certo, a saudade machuca (angustia). A saudade exila o exilado, compadre. Não restam mais caminhos, as saídas se fecharam e o abismo é fundo, tão fundo e vazio quanto eu... Se ao menos eu pudesse me conformar: Não permita Deus que eu morra, sem que volte para lá. Se ao menos tivesse a coragem de chorar, meu Deus. Como arrastarei pela vida o escarniante latejar das recordções, as minhas infantis recordações? Como viverei aqui, trancafiado numa fria prisão de mármore, sem o fulgor intenso dos balões, única luz em uma vida?

    Queimam-se na ardente fogueira as ilusões efêmeras. Enquanto isso sobe, sobe balãozinho querido, sobe na alvura da noite escura, que escrevo eu aqui, escrevo e vivo, entre quatro paredes, enjaulado feito uma fera amedrontada, a saudade que fica dum tempo - nenhum - que não volta mais. É o paraíso no fim.

 

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CONTO ESCRITO EM 2001 E PUBLICADO EM MEU LIVRO (INTITULADO "PANDEMÔNIO").

Cotidiano

24.09.07

Hoje acordei triste. A imensidão turva do dia obumbra meus pensamentos e me faz lembrar da minha infância perdida. O pássaro que outrora gorjeou na beirada de minha janela, debandou-se solitário para ir beber em outras fontes, deixando-me só na atmosfera fria de meu quarto. Solitário, vou caminhando pelas esquinas sujas e cinzas, na esperança de que um dia essa agonia se acabe.

Dona Cecília

24.09.07

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O silêncio toma conta da pequena sala. Todos guardam com respeito os momentos em que dona Cecília realiza seus rituais mágicos. Compenetrada e tranqüila ao mesmo tempo, movimenta as mãos, faz gestos incompreensíveis, repete baixinho palavras que ninguém consegue decifrar. Reza, abençoa. É benzedeira.

Cecília da Costa Neves era apenas uma menina, mal entendia direito esse mundo quando um padre, tio de sua mãe, entregou-lhe um livro de orações. Ao fazer isso, atribuiu-lhe uma missão que a acompanhará até o último dos seus dias: a missão de afastar coisas ruins das crianças, acabando com a choradeira, a falta de apetite e de sono.

Nunca reclamou de largar o descanso ou adiar a conversa com os netos para atender quem chega. A mãe desesperada, que vem em busca do alívio para o filho e para si, não pode esperar.

La vai dona Cecília, mais uma vez. Hoje, aos 80 anos de idade, já perdeu as contas de quantas crianças benzeu nos últimos 69 anos. Milhares, com certeza, pois até hoje forma-se fila em frente à sua porta. Vem gente de todos os cantos de Santos, até de São Paulo: uma média de 50 por dia.

-- "Não sou eu quem cura. É Deus", diz dona Cecília, com muita tranqüilidade.

Que mistério será esse que cerca as benzedeiras? Nem dona Cecília sabe. Só tem certeza de um a coisa: quando estiver para morrer, vai ter um sinal. Então, ensinará as rezas para alguém.

E a tradição de se benzer crianças se perpetuará por novas gerações.

O intuito primeiro desse Blog

23.09.07

    Poupo-me de um texto longo para postar o que tenho o dizer por agora. Até bem pouco tempo atrás não conhecia e nem sabia a função de se fazer um weblog. Na verdade ainda Visconde de Sabugosanão me apetece a idéia de que o blog, com algumas boas exceções, sirva de fato para algo realmente proveitoso. Ao menos proveitoso para os outros, já que para quem o produz deva ter alguma importância. Em outro momento já salientei a importância relativa dessa ferramenta, não eximindo-me das críticas pertinentes a ela.

    Quando eu resolvi de fato escrever nesse blog, foi simplesmente para exercitar o hábito saudável da escrita -- e conseqüentemente da leitura --, indiferente ao fato do número de visitantes que eu receberia por dia, ou por mês. Escrevo por escrever, minha relação com o blog é essa. O próprio portal SAPO foi uma escolha oriunda do acaso: aqui parei e aqui me inscrevi. Como gostei da diagramação (é assim que se fala?) do sítio, adotei-o. Como sei que o que produzo não é do interesse da maioria absoluta das pessoas, regojizo-me apenas com o "fazer literário", tão solitário em sua essência.
    É claro que se algum navegador distraído aportar aqui na minha página e postar um recado qualquer ficarei muito contente. Mas o que me alimenta não é a vaidade ou a vontade de ver esse blog sendo visitado. Parafraseando Machado de Assis: antes meia dúzia de bons leitores que uma legião inteira que comigo não dialoga. Escrevo pelo ato de escrever, porém sem ser indiferente aos que possívelmente passem por aqui. Por isso escrevo do que me apetece: literatura, política, softwares livres... Por isso navego por esses campos. A liberdade é minha e a escolha é sua. Leia-me se quiseres. Se não quiseres..., um abraço.

Benzedeira

23.09.07

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Reza benzedeira,
reza na beira do rio
córrego pro rio, rio pro mar.
Arrasta folhas, frutos,
verde novo traz, vi(d)a nova atrás
A luz do sol te traduz,
recria, te transforma
velho em novo te seduz.
Uma criança pastoreia
Consigo carrega esperança,
(dona do sim ou do não?)
                          nas veias.
Reza benzedeira,
reza na beira do rio
córrego pro rio, rio pro mar.

O Caipira e a construção da nacionalidade: as três faces do Jeca na expressão de Monteiro Lobato

23.09.07

Elaborado à luz de imagens e conhecimentos pré-estabelecidos e estagnados no tempo, essa imagem que permeia o caipira paulista está atrelada a um modo de ver externo a sua cultura e corresponde aos interesses de quem detém o poder. A contingência dessa caracterização guarda máculas de um embate cultural e de classe entre o caboclo e o “senhor de terras”, detentor dos meios de produção. Essa imagem extravasa os liames sociais e vai “contaminar” os meios artísticos, como a literatura e o cinema. Assim, mesmo quando se buscou, em ambos os autores, imprimir a marca da verossimilhança entre o caipira real e o da ficção, acabou-se por fazer retumbar com mais força a marca negativa desse estereótipo, imprimindo-lhe, até certo ponto, uma identidade anômala. Por essas veredas é que trafega este trabalho.

Surgindo para a literatura em 1914, “o tal fazendeirinho”, como se auto-intitularia Lobato quatro anos mais tarde, chocou a opinião pública paulistana com a publicação de dois artigos no jornal O Estado de São Paulo. O primeiro, escrito em 30 novembro, foi intitulado de Velha Praga; e o segundo, 23 dias após, chamou-se Urupês. Isso porque o estreante escritor pintou um caipira eivado de qualidades negativas, completamente diferente daquele existente até então na literatura. Distorcendo a realidade, porém captando elementos desta, o escritor fazendeiro busca “retificar” a imagem do caipira, nesse momento estilizada ao extremo por uma literatura com laivos românticos, que via o caboclo como um tipo robusto, valente e audacioso, à moda dos heróis nacionalistas do indianismo alencariano. Daí também sua aversão ao “caipira oficial” das academias.

Em suma, Velha Praga e Urupês, mesmo que relativamente rebuscados, rompem com a tradição literária em voga não somente por inserirem um novo ponto de vista à imagem do caboclo, mas também por romperem com uma linguagem estética finissecular. Com períodos curtos e bem acabados e isento de metáforas batidas, ambos os textos, nesse sentido, antevêem o Modernismo de 1922, que romperia completamente com a estética passadista, mudando o caminho da Literatura brasileira.

Nessa fase, vemos um caipira acabado e localizado, alheio ao ambiente em que vive e sempre visto sob a ótica do dominante, daquele que detém o poder, que acaba pintando-o apenas superficialmente, não se colocando em seu lugar. Ou seja, o caipira é um títere. Sob essa perspectiva, a imagem desse primeiro caipira — visto aqui como um indolente, um preguiçoso e um adepto da “Lei do menor esforço” — é, até certo ponto, coerente, no que diz respeito à sua imagem externa, captada pelo olhar de fora. Daí a caracterização, segundo Antonio Candido, de que Lobato teria escrito o seu caipira de “maneira bela, injusta e caricatural”.

Quatro anos mais tarde, a meio caminho entre esses dois artigos e a Semana de Arte Moderna de 1922, surge, no cenário paulista, Jeca Tatu: a ressurreição, segunda identidade do caipira lobatiano. Revendo alguns de seus conceitos, Monteiro Lobato escreve esse texto como resposta aos artigos Velha Praga e Urupês. Isto é, embora em Jeca Tatu: a ressurreição o estereótipo ainda permaneça o mesmo que nos dois artigos que o precedeu, o foco muda, passando, o Jeca, a ser visto não mais como agente de sua “anemia social”, mas como vítima de políticas públicas de um Estado que o deixa à margem do desenvolvimento. Se em 1914 o caboclo é um parasita, agora é um “parasitado por verminoses”, passando de praga a vítima.

Dessa forma, e ao contrário do que buscariam os Modernistas quatro anos mais tarde, com a busca de um primitivismo como base de uma cultura iminentemente nacional, Monteiro vê no caipira justamente o inverso, ou seja, o vê como algo constitutivo de nossa fraqueza. Para o autor de Urupês, tudo que soe a primitivo tem que ser combatido para que o país, enfim, tome os rumos do crescimento das grandes nações.

Daí o estereótipo do caipira, em 1918, ser o mesmo que o de 1914; daí a anemia do caboclo, justificada dessa vez por verminoses que o depauperam. Daí também a intervenção da ciência, por meio da figura do médico, como forma de salvar o caboclo, dando-lhe oportunidade de crescer socialmente na vida, como veio a acontecer. Assim, o caipira, para se salvar, tinha que deixar de ser o que era para transformar-se em um sujeito moderno. A sua salvação estava justamente na sua extinção.

Decorrente de toda uma revisão identitária nacional, que visava a definir um caráter para a nação e para o povo que nela vive, Jeca Tatu: a ressurreição é uma tentativa de se pensar o país por ele próprio e não por idéias oriundas de fora. Somente através da exposição do nosso subdesenvolvimento se é possível desnudar e combater as mazelas da nação. É também, a exemplo dos artigos de 1914, uma forma de se fazer e pensar literatura às avessas do modelo oficial acadêmico.

Todavia, apesar de sua alteração ideológica, o texto Jeca Tatu: a ressurreiçãoJeca Tatuzinho, mudança ocorrida já em 1924, quando Monteiro Lobato usa o texto para uma campanha pública de saúde. O fato é que, somente após a distribuição gratuita dos almanaques ilustrados do laboratório Fontoura é que a figura estereotipada do caipira se difunde pelo país, tornando-se conhecida de todos os brasileiros. tornou-se conhecido somente após sua adaptação, em 1927, para o “Almanaque Biotônico Fontoura”, desta vez com o título de

A década de 1930 é permeada por mudanças não somente sociais, mas também literárias. Após a crise da bolsa de Nova Iorque, em 1929, os países latino-americanos sentem a necessidade de se modernizar e de se industrializar. Esse surto de industrialização tornou latente a necessidade de se redescobrir o Brasil pelo próprio Brasil. Essa mudança histórica trouxe vários reflexos para a literatura, tais como a mudança de foco exigida à nova geração Modernista, que passa a não privilegiar mais a ruptura estética em suas obras, mas a enfatizar questões ideológicas e sociais. É o momento de amadurecimento do Modernismo e do surgimento de escritores como Rachel de Queiroz, Carlos Drummond de Andrade, Jorge Amado e Graciliano Ramos, por exemplo.

Seguindo essa ótica, Monteiro Lobato lança, em 1947, um livreto de 22 páginas intitulado Zé Brasil. Com uma linguagem simples e didática e com uma acanhada edição de poucos exemplares, o texto causa o furor do governo e da igreja católica, que passam a coibir a sua distribuição. Isso porque Zé Brasil é um texto altamente combativo e de denúncia ao sistema de produção capitalista e ao latifúndio brasileiro.

Escrito com o intuito primeiro de combater o sectarismo político que jogou o PCB na ilegalidade, Zé Brasil se comunica diretamente com os trabalhadores urbanos e rurais, utilizando-se, contudo, somente da figura do trabalhador rural, ou melhor, do seu próprio caipira. É a última personificação de seu caipira, dessa vez mais consciente do seu lugar na relação de classes e do valor de sua força de trabalho. É ainda, a exemplo dos dois primeiros estereótipos, um títere, na medida em que é criado segundo a ótica do escritor combativo. Mas é, também, o revolucionário em potencial.

Mantendo em parte a ótica proposta por Jeca Tatu: a ressurreição, Lobato denuncia o latifúndio, associando-o, dessa vez, ao fator da desgraça do caipira. Se para o escritor de 1914 o caipira era tido como uma praga, alheio à própria terra, e em 1918 como um opilado pelo abandono e pelas doenças decorrentes deste, agora é a expropriação de suas terras, causadas pelo latifúndio, a principal desgraça do caboclo. É sob essa ótica que se lê a trilogia lobatiana.

Elucubrações...

22.09.07

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Caía a tarde na praia da Saudade. Ao fundo uma fina névoa de final de inverno contrasta com o azul prateado do tranqüilo mar. Gaivotas sobrevoam, tranqüilas, parte da orla, como se ludicamente bailassem ao som de uma sonata. O sol, que se esvaí por detrás da grande ilha, pudicamente beija o mar, como faz quase todos os dias. É um final de tarde ameno, com uma leve brisa envolta por uma casta sensação de bem-estar, e que ressoa suavemente o marulhar cadenciado de ondas do mar. Nessa época do ano, na praia da saudade, o cheiro do mar salgado se confunde e mistura com o aroma doce das flores do lindo Ipê, que se enfeita todo para agraciar a nova estação que está por vir.

Descalço e com as barras das calças arregaçadas até a altura das canelas, um garoto caminha pela praia, acompanhado de seu cachorro. Sereno, escuta, alegremente, em seu discman, Madre Deus:

                                                                   Baila a menina, ou
                                                                  Baila o menino
                                                                  É cedo ainda
                                                                 'Inda é cedinho

Certamente não é a primeira vez que desfruta momentos tranqüilos e agradáveis como este, nem será com certeza a última. Quantas foram as noites em que jogou pedrinhas rasteiramente ao mar, somente para vê-las flutuar sobre o reflexo alvo do luar? Quantos foram os devaneios oníricos que permearam os seus sentimentos? Recordações presentes ou elucubrações profícuas apenas ao escritor?

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